segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Brasil pede apoio à Arábia Saudita para mapear minerais estratégicos no subsolo do país, 70% até hoje desconhecidos

 


Rio de Janeiro, 12/01/2026 - A Arábia Saudita poderá apoiar projetos de mapeamento do subsolo brasileiro, 70% ainda desconhecidos. O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, participou, nesta segunda-feira (12/1), de reunião na sede do Ministério da Indústria e Recursos Minerais, em Riad, com o ministro saudita Bandar Al-Khorayef. Silveira quer contar com o Fundo de Investimento Público da Arábia Saudita (PIF) para ampliar a cooperação estratégica no setor mineral. Em 1989 o Brasil só conhecia 10% do subsolo. Leia abaixo.

Silveira enfatizou ainda o elevado potencial geológico brasileiro: apenas cerca de 30% do subsolo nacional está mapeado. Ainda assim, o Brasil já se destaca como a segunda maior reserva mundial de terras raras e a sétima maior reserva de urânio, o que, segundo ele, “reforça o otimismo do governo em relação à ampliação de parcerias internacionais nos próximos anos”.

Nesse contexto, Alexandre Silveira manifestou o interesse em receber representantes da empresa Manara no Brasil, para avaliar conjuntamente oportunidades de ampliação de investimentos em projetos minerais estratégicos. O fundo saudita Manara Minerals é sócio da Vale S.A. na Vale Base Metals (VBM) – unidade responsável pela produção de cobre e níquel, minerais críticos e estratégicos para a transição energética.

Durante o encontro, o ministro Alexandre Silveira apresentou os avanços na governança do setor mineral brasileiro, com destaque para o Conselho Nacional de Política Mineral (CNPM), instância que reúne 18 ministérios e atua no assessoramento direto ao presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, na formulação da política mineral do país. Segundo o ministro, o CNPM tem papel central no aprimoramento do processo de licenciamento, redução da burocracia e no fortalecimento da coordenação institucional, promovendo maior previsibilidade, segurança estrutural e estabilidade para os investimentos.

“Mesmo sendo uma federação composta por diferentes estados, o Brasil tem avançado na unificação de linguagem regulatória e institucional, sempre preservando princípios fundamentais como a estabilidade legal, regulatória e política, além da segurança jurídica necessária para investimentos de longo prazo”, ressaltou Silveira.

Na agenda de investimentos, Alexandre Silveira destacou o papel das empresas brasileiras do setor mineral e o trabalho do Governo do Brasil para destravar projetos estratégicos de minério de ferro de alta redução e de cobre, com foco nos estados do Pará e de Minas Gerais, ampliando a competitividade do país no mercado internacional.

As partes acordaram a criação de um grupo de trabalho bilateral, com reuniões regulares, inclusive em formato virtual, para estudar iniciativas que possam ser desenvolvidas de maneira conjunta e dar maior eficiência à cooperação entre os dois países.

TRANSFORMAÇÃO MINERAL

O ministro de Minas e Energia brasileiro também reforçou a importância de os parceiros sauditas investirem na cadeia de transformação mineral no Brasil, agregando valor à produção nacional, promovendo industrialização, geração de empregos e desenvolvimento tecnológico. Silveira destacou que, em um cenário global no qual os minerais críticos se consolidam como o novo petróleo, a integração entre mineração, indústria e energia torna-se estratégica – experiência observada pelo ministro em visitas às empresas sauditas em outras oportunidades.

RETROSPECTIVA – MAPEAMENTO EM 1989

“Por incrível que pareça o Governo brasileiro não tem a menor ideia da dimensão das reservas minerais do país, pois dispõe de mapeamento geológico confiável sobre apenas 10% do território nacional. Essa avaliação estatística - da nossa ignorância sobre as riquezas de 90% do subsolo nacional – é da Sociedade Brasileira de Geoquímica (SBGq). Essa ignorância custou ao Brasi, em 1987, US$ 3,8 bilhões com importações de cobalto, platina, titânio, entre outros minerais, de acordo com o presidente da SBGq, Dorival Correia Bruni. Em mapeamento geológico, o Brasil perde para países africanos, como a Nigéria, Zaire e Zâmbia, e latinos americanos como a Argentina, Chile e Venezuela, segundo a SBGq.  Em 1989, Dorival Correia Bruni dizia que, para reverter esse quadro, o Brasil teria que aplicar RS$ 10 bilhões em programas de exploração mineral, mas investia apenas US$ 100 milhões, incluindo os estudos para localizar petróleo e gás”.

(TRECHO DA ENTREVISTA EXCLUSIVA QUE FIZ COM O PRESIDENTE DA SBGq, PARA A FOLHA DE S. PAULO, PUBLICADA EM 3/11/1989, REPUBLICADA EM MEU LIVRO BRASIL A BOMBA OCULTA, 1993 - EDITORA GRYPHUS – E HISTÓRIAS SECRETAS DO BRASIL NUCLEAR - WVA – 1997).

FOTO: MME –

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quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Morre Rex Nazaré, "pai da bomba atômica", por ter atuado no programa militar paralelo que levou o Brasil a dominar o ciclo do combustível nuclear

 


Conhecido como “o pai da bomba atômica”, por sua trajetória e participação no programa nuclear paralelo (militar) brasileiro, o físico Rex Nazaré, que presidiu a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) durante 37 anos, morreu ontem (6/1), levando segredos e histórias dos governos militares. Discreto, respeitado por sua vida marcada pela ética, publicamente, Rex Nazaré se dizia contra as armas nucleares. “O Brasil já sabe fazer a bomba atômica há muito tempo, mas acho que não deve fazer. Soberania a gente não compra. A gente conquista”, disse em 2018. 

Ele nasceu na Gamboa no dia 5 de julho de 1938. A cremação está marcada para sexta-feira, 9 de janeiro, a partir de 9 horas, no Crematório do Memorial do Carmo, no Rio de Janeiro. 


Teve participação ativa nas pesquisas que levaram o Brasil a dominar o ciclo do enriquecimento de urânio, ente as décadas de 70 e 80.  Foi um dos titulares da conta secreta Delta 3, com verbas destinadas às pesquisas nucleares. Entrevistado por mim em 1989, negou o fato, confirmado com documentos e extratos do Banco do Brasil. As apurações nada descobriram contra Rex enquanto homem forte do programa paralelo, mantenedor da Delta 3.  Durante o acidente com uma cápsula de césio 137, em Goiânia, em 1987, Rex enfrentou duras críticas sobre as falhas na fiscalização que resultaram no maior acidente radiológico do mundo, com quatro mortes imediatas. 

O então presidente da República Fernando Collor, empossado em 1990, que buscava os holofotes a todo o custo, desagradou militares e civis que atuavam no setor nuclear brasileiro, que passou a ser colocado como secundário “para suprir as deficiências energéticas do País”. Dois anos depois, Collor colocou uma pá de cal em um poço aberto na Serra do Cachimbo, no Pará – cuja existência foi revelada pela jornalista Elvira Lobato, para a Folha de S. Paulo - e demitiu Rex Nazaré da presidência da CNEN. Rex sempre negou que o poço em Cachimbo teria o objetivo a realização de testes nucleares. 

TRAJETÓRIA - 

Bacharel e licenciado em Física pela Universidade do Estado da Guanabara (UEG), atual Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), especialista em Engenharia Nuclear pelo Instituto Militar de Engenharia (IME), em 1963. Realizou estágio no Instituto Federal de Tecnologia de Zurique (ETH) e doutorado em Física pela Universidade de Paris (Sorbonne), em 1968. Na CNEN tornou-se pesquisador a partir de 1965, ano da entrada em operação do reator Argonauta. Foi chefe da Seção de Física de Fissão da CNEN após o retorno de seu doutorado. 

Teve papel decisivo na criação do Instituto de Radioproteção e Dosimetria (IRD/ANSN), sendo seu primeiro diretor, entre 1972 e 1975, e consolidando a importância da radioproteção no país. Atuou diretamente na captação de recursos, na escolha do terreno e na viabilização da construção do instituto. “Às vésperas da inauguração do IRD, mesmo após danos estruturais causados por vendaval, participou de uma reconstrução que permitiu manter a data de inauguração, proferindo a célebre frase “o entusiasmo supera nossas deficiências”. 

Tornou-se diretor da Finep, na diretoria de projetos estratégicos nacionais, diretor de Tecnologia da Faperj. Ocupou posições como Membro do Conselho de Administração da Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM), chefe do Departamento de Tecnologia da ABIN, assessor especial do Ministro de Estado Chefe do Gabinete de Segurança Institucional, colaborador da Presidência da Eletronuclear.” Rex recebeu muitas homenagens ao longo de sua trajetória. Foi professor em cursos de pós-graduação, palestrante muito requisitado e conferencista emérito da Escola Superior de Guerra (ESG). Em 2014 teve sua história transformada em livro, por Débora Motta, edição Faperj, na obra Uma vida dedicada à energia nuclear. As informações sobre a sua trajetória de Rex Nazaré foram divulgadas pela CNEN. 

(Fotos: Faperj e biblioteca da Presidência da República) - Contribua com o blog – sete anos de jornalismo independente – colabore via pix: 21 99601-5849 – contato: malheiros.tania@gmail.com    

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Angra 2: mais de uma centena de estrangeiros e de mil brasileiros na troca do combustível nuclear

 


Para a troca do combustível (urânio enriquecido) e a execução de cinco mil atividades, em Angra 2, a Eletronuclear está mobilizando cerca de 1.200 profissionais, dos quais 1.090 brasileiros e 110 especialistas estrangeiros.  A 21ª parada da usina nuclear está programada começar em meados deste mês (16/1), como o blog anunciou em novembro. Além do reabastecimento do núcleo do reator, os técnicos farão a revisão do gerador principal e a substituição do disjuntor principal do gerador, intervenções de alta complexidade estratégica, de procedência norte-americana. 

A usina deve ficar parada cerca de 50 dias para o reabastecimento do combustível, produzido pela estatal Indústrias Nucleares do Brasil (INB) que, há cerca de cinco anos custava à Eletronuclear cerca de R$ 300 milhões. 


O urânio extraído da mina de Caetité, na Bahia, é transformado em yellowcake (pó ou pasta amarela) e de lá segue para a Rússia, onde passa por outras etapas em empresa estatal daquele país: hexafluoreto (gás) e enriquecimento. Assim, retorna ao Brasil para ser transformado em pastilhas que serão inseridas em varetas de zircaloy na Fábrica de Combustível Nuclear, na INB, em Resende (RJ), para depois segurem para Angra dos Reis. 

A parada ocorre em regime contínuo, 24 horas por dia, com equipes organizadas em turnos de 12 horas, para garantir a continuidade dos trabalhos. Segundo a Eletronucear, a os serviços preparatórios já estão em andamento, incluindo a montagem do canteiro de apoio, com instalação de contêineres, oficinas e sistemas elétricos provisórios, garantindo a infraestrutura necessária para a execução da parada. 

“As paradas de reabastecimento são procedimentos de rotina e ocorrem, aproximadamente, a cada 13 meses (duração de um ciclo de operação). São programadas com, pelo menos, um ano de antecedência, levando-se em consideração a duração do combustível nuclear e as necessidades do Sistema Interligado Nacional (SIN). Todo o processo é coordenado com o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) e, enquanto a unidade permanecer desligada, o ONS despachará a energia de outras usinas do SIN, de forma a garantir um abastecimento seguro de eletricidade para o país”, informou o superintendente de Angra 2, Fabiano Portugal. 

EMPRESA VIVE GRAVE CRISE - 

A situação financeira da Eletronuclear tende a se agravar com esta parada de Angra 2, que envolve a contratação de mais de mil trabalhadores dos quais os mais de uma centena de estrangeiros, além da falta de recursos já mencionada várias vezes pelo Ministério de Minas e Energia (MME). Para evitar problemas com empregados, a Eletronuclear fez um acordo bem satisfatório com os trabalhadores anistiando inclusive os dias parados na greve do ano passado. Um novo acordo está revisto para ocorreu em abril. 


Além do desafio financeiro a Eletronuclear enfrenta outra questão: a manutenção dos elementos combustíveis usados (irradiados) que sairão do reator de Angra 2 para armazenados nas Unidades de Armazenamento a Seco (UAS) da central nuclear. E ainda a construção do Centena, a cargo da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), local para abrigar os rejeitos radioativos de baixa e média atividade, conforme reportagens publicadas várias vezes pelo Blog. As piscinas que armazenam os rejeitos dentro das usinas passaram por reformas no ano passado, atendendo a determinação do Tribunal de Contas da União (TCU). 

UM POUCO DA HISTÓRIA - 

Angra 2 faz parte do Acordo Nuclear Brasil-Alemanha, assinado pelo presidente Ernesto Geisel, em 27 de junho de 1975. A usina começou a ser construída em 1981, mas teve o ritmo das obras desacelerado a partir de 1983, parando de vez em 1986. A unidade foi retomada no final de 1994 e concluída em 2000, para entrar em operação em 2001. A usina conta com um reator de água pressurizada (PWR) de tecnologia alemã da Siemwns/KWU (hoje Areva NP). O custo da produção da usina não costuma ser revelado, nem as despesas com as paradas por problemas técnicos, muito menos, com a troca de combustível. Com potência de 1.350 megawatts, produz o equivalente a 20% da energia elétrica consumida na cidade do Rio de Janeiro. 

(FOTO: ELETRONUCLEAR e INB) - 

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sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Morre o professor Célio Bermann, um dos maiores conhecedores das histórias nucleares do Brasil

 


Um dos maiores conhecedores da história da energia nuclear brasileira, democrata de grande coragem, defensor da preservação da natureza e do meio ambiente, incansável combatente da falta de transparência no setor sobre temas cruciais para a sociedade, assim foi a trajetória de mais de 30 anos do professor Célio Bermann, que faleceu ontem (1º/01/2026), e foi sepultado nesta sexta-feira no Cemitério Israelita do Butantã, em São Paulo. A informação sobre o falecimento foi divulgada pela diretoria do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (USP), onde Bermann atuava como professor associado.   

Doutor em Engenharia Mecânica na área de Planejamento de Sistemas Energéticos pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), além de mestre em Engenharia de Produção na área de Planejamento Urbano e Regional pela COPPE/UFRJ, Bermann arcou a sua passagem pelo BLOG assinando artigos da maior relevância.  

Ele foi um dos primeiros a questionar as notícias que partiram de Alexandre Silveira, ministro de Minas e Energia, sobre a possibilidade de implantação de usinas nucleares na Amazônia. Incansável na luta para levar informações e conhecimento à sociedade, em mais um artigo para o BLOG, Bermann alertou sobre a falta de segurança no setor nuclear no dia 8 de julho de 2024, quando foram registrados oficialmente desaparecimentos de materiais radioativos, por exemplo. “A insegurança nuclear no Brasil: até quando?”. questionou

No artigo, Bermann não deixou “pedra sobre pedra” sobre as falhas ocorridas na época.  O que Bermann defendia era uma fiscalização mais eficiente, capaz de evitar acidentes com radiação. No dia 22 de abril de 2024, Célio Bermann alertava sobre os riscos nucleares na Amazônia: "a que ponto chegou a insanidade!", escreveu.  

As falácias da Medida Provisória (MP) que autoriza o setor privado a explorar minérios nucleares”, foi mais um artigo de Bermann publicado no dia 14 de dezembro de 2022. 

"Tive a oportunidade de tecer considerações sobre as atividades de pesquisa e lavra de minérios nucleares e as (in)competências e irresponsabilidades históricas de diversas ordens da estatal Indústrias Nucleares do Brasil (INB), em matéria publicada neste blog em 6 de outubro de 2020. Agora, voltamos ao assunto por conta da Medida Provisória (MP 1.133/2022), que desde a semana passada autoriza a participação do setor privado na exploração de minérios nucleares, entre outras providências referentes ao tema. Recordei fatos ocorridos ainda em 1987 quando eu trabalhava como consultor no projeto Itataia, e conheci de perto a irresponsabilidade e o descaso com que a Nuclebrás administrava os trabalhos de prospecção da mina. Na época, era a Nuclebrás a empresa estatal nuclear que atuava nas atividades de pesquisa e lavra de minérios nucleares como o urânio”, denunciava o professor. 

E acrescentava: “Ainda, a Nuclemon era outra empresa estatal nuclear que processava as areias monazíticas para a obtenção de cloreto de terras raras, gerando um subproduto com alta concentração de urânio e tório conhecido como torta II. A torta II processada também dá origem ao mesotório, produto altamente radioativo”. Entre outros artigos, o professor também alertou em outubro de 2020, sobre casos de câncer na população próxima a jazidas de urânio; “acidentes que contaminaram parte de rios e solo; caminhão tombado, deixando amostras de rochas com material radioativo pelas praças onde crianças brincaram.” 

São alguns dos relatos de um dos maiores conhecedores da trajetória nuclear brasileira, com participação ativa em pesquisas de campos, uma voz tão valiosa e necessária que se cala. Ele também deixou livros publicados, além de colaborar com movimentos sociais.

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