sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Justiça mantém ação a favor de sobreviventes da radiação, enquanto a INB busca arquivamento

 



Rio de Janeiro, 30 de janeiro de 2026 - O Tribunal Superior do Trabalho (TST), através do ministro relator Sergio Pinto Martins, acaba de manter a ação contra a Indústrias Nucleares do Brasil (INB), movida pelo advogado Luiz Carlos Moro, em defesa dos sobreviventes da contaminação por material radioativo, lesionados ao longo de décadas. A INB vem tentando arquivar o processo alegando que o caso prescreveu, mas a 8ª Turma do TST entendeu que os sobreviventes buscaram à Justiça ao descobrir as doenças que demoraram a se manifestar, como ocorre quando envolve radiação. “A exposição à radiação provoca doença ocupacional de manifestação tardia”, reiterou o advogado. Ele afirmou que a decisão representa a “redenção das vítimas” que resistem à luta por justiça. 

A ação tem como autor o presidente da Associação Nacional dos Trabalhadores da Produção Nuclear (ANTPEN), através do presidente José Venancio Alves, entre outros. As vítimas trabalharam na Usina de Santo Amaro (Usam), da extinta Nuclemon, em São Paulo, sucedida pela INB. Já a Usam sucedeu a Orquima, fundada entre as décadas de 40 e 50, que operava com material radioativo, usando mão-de-obra operária recrutada nas roças e construção civil. 

COBAIAS DA RADIAÇÃO - 

Os operários foram enganados, pois não sabiam que o material era radioativo (urânio e tório), procedente das areias monazíticas subtraídas do litoral do Espirito Santo, Bahia e Rio de Janeiro. A Orquima usava os trabalhadores como “cobaias”, e o material, em sua maioria, era enviado para os Estados Unidos. O advogado lembrou que a descoberta dos operários doentes aconteceu graças ao trabalho da médica Maria Vera Castellano, que trabalhava no posto de saúde de Santo Amaro, onde constatou um grande número de operários da Usam, que buscava atendimento apresentando graves doenças como câncer e outras, pulmonares. “Ela foi a chave da comprovação dos malefícios causados pela contaminação radioativa”, comentou. 


Os casos de doenças do trabalho e as diversas denúncias na época, levaram a fiscal do Trabalho, Fernanda Giannasi, a fechar a Usam na década de 90. Dezenas de operários morreram ao longo dos anos.  Do processo movido pelo advogado há mais de 10 anos dezenas de vítimas também já morreram. Hoje, a ação reúne cerca de 50 pessoas, inclusive familiares representantes dos mortos. A

INB costuma recorrer contra a ação visando indenizar as vítimas. Recorre até mesmo para negar o plano de saúde através do qual os pacientes com câncer tratam de doenças como câncer com radioterapia e quimioterapia. Na mais recente audiência o advogado conseguiu a manutenção do plano. O grupo sobrevivente costuma se reunir mensalmente, mesmo na pandemia. 

Segundo o presidente da ANTPEN, José Venâncio, “apesar de tudo, o grupo mantém a esperança de que se faça Justiça, com o pagamento de indenização que será o reconhecimento, mesmo tardio, de tanto mal causado aos operários brasileiros”. 

DEPOIMENTO - 2019 - OTAVIANO INÁCIO DE OLIVEIRA - "Pesava 46 quilos em 2019, contou na época que ficou na empresa de março de 1977 a agosto de 1993, sozinho, em um forno, no setor do tório. E relatou: "Me mandaram embora quando a empresa fechou, disse enquanto amparava a bolsa injetada em seu corpo, que fazia parte de tratamento de sessões de quimioterapia, por conta do câncer. FALECEU LOGO DEPOIS. 

Leia o livro: Cobaias da Radiação – a história não contada da marcha nuclear brasileira e de quem ela deixou para trás - autoria Tania Malheiros – 

(FOTOS: BLOG- ARQUIVOS) – 

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quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Indústrias Nucleares do Brasil (INB) se manifesta sobre inadimplência da Eletronuclear

 


A gravidade da falta de recursos da estatal Indústrias Nucleares do Brasil (INB) levou o presidente da empresa, Tomas Albuquerque Filho, a admitir publicamente, em vídeo, que está buscando uma solução para o problema provocado pela inadimplência da Eletronuclear. Junto à ENBPar (Empresa Brasileira de Participações em Energia Nuclear e Binacional S.A), do Ministério de Minas, ele busca alternativas para a manutenção das operações da empresa, salários e segurança do funcionários. O comunicado, segundo ele, visa manter uma comunicação direta com os funcionários preocupados com a saúde financeira da empresa, evitando boatos. 

É fato que a Eletronuclear não realiza pagamento a INB, desde novembro. É a INB que produz o combustível (urânio enriquecido) para os reatores das usinas nucleares Angra 1 e Angra 2, da Eletronuclear. 


Segundo o Sindicato dos Trabalhadores (NOTA ABAIXO), as duas usinas geram lucro, mas os recursos são destinados ao pagamento de dívidas de Angra 3, com as obras paradas. A dívida que a Eletronuclear tem com a INB envolve pagamento a empresa internacional Russa Rosatom que produz a parte do ciclo do combustível hexafluoreto (urânio em forma de gás) e em seguida, o enriquecimento, pagos pela INB. Há cerca de 15 dias Angra 2 foi desliada para receber o combustível. Há cerca de cinco anos, o combustível custava em torno de R$ 300 milhões. 

INTERSINDICAL COBRA TRANSPARÊNCIA - 

A Intersindical, Sindicato dos trabalhadores da INB em todo o Brasil, quer reunião com o presidente nesta sexta-feira (30/01) e divulgou nota reiterando as preocupações dos trabalhadores com a crise. Eis a nota: “As empresas da área nuclear vinculadas ao MME e à ENBPAR vivem uma grande crise em função da indefinição do governo sobre a continuidade e conclusão das obras da usina de Angra 3. 

A INTERSINDICAL da INB já manifestou, diversas vezes, sobre a necessidade e importância desta decisão e da conclusão da usina. A Eletronuclear é uma empresa sólida e lucrativa se levarmos em conta a cobertura tarifária que garante a manutenção da empresa com a operação de Angra 1 e 2. Quando a empresa é levada a cobrir os custos financeiros e de manutenção dos equipamentos da futura usina, as contas não fecham. A indefinição sobre a conclusão da obra se arrasta e a ETN agoniza. Nós na INB, que temos a concentração de nosso faturamento com a ETN, acabamos também sofrendo com esta indecisão e com esta crise. 

Tem nos preocupado nos últimos tempos os boatos sobre as dificuldades financeiras da INB e sua incapacidade de honrar seus compromissos, inclusive dos nossos salários. Avaliamos que a direção da empresa deveria ser transparente com as informações, por um lado, e deveria estar prioritariamente engajada na solução dos nossos problemas do outro, o que não temos visto. 

Neste sentido a INTERSINDICAL solicitou formalmente uma agenda com o Presidente interino para tratar do tema e trará ao conjunto dos empregados o informe desta reunião e nossa análise do atual momento para debatermos qual deverá ser a posição dos empregados caso medidas contrarias aos nossos interesses sejam tomadas”. 

O BLOG tem tentado contato com o MME, ENBPAR e Eletronuclear. 

(FOTO: TOMAS, INB – E CENTRAL NUCLEAR – ABDAN) – COLABORE COM O BLOG – SETE ANOS DE JORNALISMO INDEPENDENTE – CONTRIBUA VIA PIX: 21 99601-5849 – Contato: malheiros.tania@gmail.com    

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Angra 3: Leonam contesta artigo de Scalambrini

 


"O artigo Por que o governo não deve concluir Angra 3, - de Heitor Scalambrini -, publicado nesta sexta-feira (23/01) no blog da jornalista Tania Malheiros, apresenta uma narrativa fortemente opinativa, porém metodologicamente frágil, ao tentar desqualificar a conclusão da usina nuclear por meio de uma combinação de episódios históricos, generalizações e afirmações não sustentadas por evidências técnicas ou econômicas verificáveis.

 O texto inicia com uma longa enumeração de controvérsias passadas associadas ao setor nuclear brasileiro, incluindo acidentes radiológicos, episódios de contrabando, programas paralelos e falhas institucionais. Embora seja legítimo reconhecer erros históricos e problemas de governança, essa estratégia argumentativa é intelectualmente problemática. Listar eventos heterogêneos ocorridos ao longo de décadas não constitui, por si só, uma demonstração de inviabilidade técnica ou econômica de um empreendimento específico no contexto atual. A análise séria de Angra 3 exige dados contemporâneos, avaliação de engenharia, critérios regulatórios vigentes e projeções energéticas atualizadas, e não a simples evocação de um passado conflituoso. 

No campo econômico, o artigo incorre em outra fragilidade central ao afirmar que a energia produzida por Angra 3 custaria entre quatro e seis vezes mais do que fontes renováveis, citando supostamente um estudo recente do BNDES, mas sem apresentar referência formal, metodologia utilizada ou parâmetros considerados. Não se esclarece se os valores incluem custos financeiros, amortização de capital, vida útil da planta, fatores de capacidade, estabilidade do suprimento ou externalidades ambientais. Sem transparência metodológica, esses números perdem valor analítico e assumem caráter meramente retórico. Estudos internacionais amplamente reconhecidos demonstram que os custos de geração variam fortemente conforme hipóteses adotadas, regime de financiamento, escala de operação e perfil do sistema elétrico, sendo incorreto tratar a comparação entre nuclear e renováveis como uma relação simples e linear. 

A abordagem dos riscos e da segurança nuclear também carece de rigor técnico. O texto enfatiza acidentes históricos como Chernobyl e Fukushima sem contextualizar diferenças fundamentais entre projetos antigos e as tecnologias atualmente adotadas em usinas modernas. Ignora-se que os padrões internacionais de segurança evoluíram significativamente, incorporando sistemas passivos, múltiplas camadas de redundância e requisitos regulatórios muito mais rigorosos. Além disso, a questão dos rejeitos radioativos é apresentada como um problema sem solução estrutural, o que não corresponde à realidade. Países como Finlândia e Suécia já avançaram para a implantação de repositórios geológicos profundos definitivos, baseados em décadas de pesquisa científica e validação internacional. A ausência dessa informação reforça uma narrativa alarmista que não reflete o estado atual do conhecimento técnico. 

Outro ponto recorrente do artigo é a suposta obsolescência tecnológica de Angra 3, associada ao fato de parte dos equipamentos ter sido adquirida nas décadas passadas. Essa argumentação confunde atraso cronológico com inviabilidade tecnológica. Grandes projetos de infraestrutura, em especial no setor nuclear, frequentemente passam por longos ciclos de implantação, nos quais componentes são atualizados, sistemas são modernizados e padrões normativos são revisados ao longo da obra. A simples antiguidade de determinados equipamentos não constitui, por si só, prova de inadequação técnica, especialmente quando processos de requalificação, retrofit e certificação fazem parte da prática internacional. 

Do ponto de vista lógico, o texto recorre repetidamente a estratégias retóricas pouco consistentes, como o apelo ao medo, a construção de falsos dilemas entre nuclear e fontes renováveis e a associação indevida entre problemas institucionais passados e a inviabilidade estrutural da tecnologia nuclear como um todo. Ao fazer isso, o artigo deixa de tratar o tema como uma questão de política pública baseada em dados e passa a operar no campo da persuasão emocional. 

Em síntese, embora o debate público sobre Angra 3 seja legítimo e necessário, o artigo analisado não apresenta o rigor técnico, econômico e metodológico exigido para sustentar suas conclusões. Ao substituir análise estruturada por generalizações históricas, números não referenciados e narrativas alarmistas, o texto enfraquece o próprio debate que pretende estimular. A decisão sobre a conclusão ou não de Angra 3 deve ser fundamentada em estudos de engenharia, avaliações econômico-financeiras transparentes, análises de segurança nuclear atualizadas e planejamento energético de longo prazo — e não em construções retóricas descoladas da realidade técnica do setor".

 AUTOR RESPONSÁVEL - 

LEONAM DOS SANTOS GUIMARÃES: Doutor em Engenharia Naval e Oceânica pela USP e Mestre em Engenharia Nuclear pela Universidade de Paris XI, é CEO da Eletrobrás Eletronuclear, membro do Grupo Permanente de Assessoria em Energia Nuclear do Diretor Geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), membro do Conselho de Representantes da World Nuclear Association (WNA). Foi Presidente da Seção Latino Americana da Sociedade Nuclear Americana, Diretor Técnico-Comercial da Amazônia Azul Tecnologias de Defesa SA – AMAZUL, Assistente da Presidência da Eletrobrás Eletronuclear e Coordenador do Programa de Propulsão Nuclear do Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo (CTMSP). 

FOTO – ACERVO PESSOAL - 

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Quanto custa não concluir Angra 3? Uma análise do impacto econômico e energético – COPPE-UFRJ

 


A construção da usina nuclear Angra 3, iniciada em 1984, ainda não foi concluída: o projeto foi interrompido e recomeçado inúmera vezes e ainda faltam 35% da obra, com custo estimado em R$ 23 bilhões para finalização, segundo avaliação recente do BNDES. Mas qual seria o custo para o país desistir do projeto? Na avaliação do professor Aquilino Senra, do Programa de Engenharia Nuclear da Coppe/UFRJ, a pior decisão é não decidir. Aqui, ele detalha os números: Potência prevista: 1.405 MWh; Geração anual estimada: A usina nuclear Angra 3 foi projetada para gerar 12 milhões de MWh, suficiente para abastecer cerca de 4,5; milhões de pessoas (equivalente ao consumo anual das cidades de Brasília e Belo Horizonte); participação na demanda do RJ; a usina nuclear Angra 3 quando em operação poderá atender cerca de 30% da demanda de energia elétrica do estado do Rio de Janeiro, com base no consumo do ano 2024. 


Juntamente com as usinas nucleares Angra I e Angra II o atendimento da demanda será de 72%. Cenário da descontinuação da obra de Angra 3: Custo estimado de desmantelamento da obra realizada será de R$ 21 bilhões, incluindo quitação de financiamentos, penalidades contratuais e custo de oportunidade do capital investido. A manutenção da estrutura existente, enquanto a decisão não é tomada é aproximadamente de R$ 1 bilhão por ano. 

Substituição por outra fonte de energia

No caso da descontinuidade da obra de Angra 3, para atender à crescente demanda de energia elétrica do país serão necessários elevados investimentos para a implantação de uma outra fonte de energia. Essa nova fonte deverá ter a mesma capacidade de geração de energia elétrica que teria a usina nuclear de Angra 3, lembrando que a fonte nuclear é firme (geração constante) com fator de capacidade de aproximadamente de 95%. 

Por exemplo, para gerar a mesma energia de Angra 3 em 40 anos, seria necessário um parque eólico com mais do que o dobro da potência instalada de Angra 3, ou seja 3.926 MWe médios admitindo-se um fator de capacidade da fonte eólica de 34%. A área a ser ocupada seria superior a 500 km² (quase metade da cidade do Rio de Janeiro). O custo médio total estimado é de, aproximadamente, R$22 bilhões, sem incluir o custo com bancos de baterias para garantir energia firme o tempo todo. 

IMPACTO ECONÔMICO: 

Segundo estudo recente da FGV Energia, cada R$ 1 bilhão investido em energia nuclear gera até R$ 3,1 bilhões no PIB e até 22.500 empregos, sendo cerca de 17.500 no Estado do Rio de Janeiro. A proximidade das grandes cidades (São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte) reduz perdas com transmissão e garante maior estabilidade ao Sistema Interligado Nacional (SIN). 

ENERGIA PARA O FUTURO: 

O crescimento da demanda por energia elétrica, impulsionado pelo desenvolvimento econômico e pelo aumento do uso de Inteligência Artificial e datacenters, exige fontes de energia firmes, estáveis e livres de carbono. Pequenos reatores modulares (SMRs) surgem como alternativa para atender a esse tipo de demanda. 

SEGURANÇA E REJEITOS: 

Nesse quesito, o professor Aquilino Senra alerta que, embora a geração de energia nuclear suscite preocupações no público leigo em relação a segurança, ela é uma fonte de energia com rígidos protocolos de segurança. “Angra I está operando há 41 anos e Angra 2 há 21 anos sem quaisquer problemas graves e com bom desempenho operacional. Uma usina nuclear, no processo de licenciamento pré-operacional, envolve uma análise probabilística de segurança que serve para avaliar e quantificar os riscos associados ao seu funcionamento. 

Essa análise considera uma ampla gama de cenários de acidentes, identificando vulnerabilidades no projeto e na operação do reator. Quanto aos rejeitos radioativos, eles são inicialmente guardados nas piscinas de combustível nuclear usado, por um período superior a 10 anos para resfriamento e posteriormente são guardados em unidades de armazenamento a seco. São cilindros de aço e concreto, onde o material é armazenado, com hélio, um gás inerte, para evitar corrosão, e que ficam ao lado das usinas nucleares”. 

Angra I opera há 41 anos e Angra 2 há 21, sem incidentes graves. Caso o Brasil construísse e pusesse em operação as oito usinas previstas em seu programa nuclear, os rejeitos, que resultassem de décadas de operação, poderiam ser vitrificados e armazenados em depósito subterrâneo, isolado por concreto, em local afastado do lençol freático e com estabilidade geológica, em uma área tão pequena quanto de um campo de futebol. 

CONCLUSÃO

Concluir Angra 3: Investimento de R$ 23 bilhões, energia firme para 4,5 milhões de pessoas, 30% da demanda do Estado do Rio atendida, menor área ocupada e geração contínua sem emissões de gases de efeito estufa. Desistir de Angra 3: Custo direto de R$ 21 bilhões, além da necessidade de substituir a fonte nuclear por fontes de energia livres de carbono, como por exemplo um parque eólico de 3.926 MWe, ocupando uma área de 520 km² e com custo similar (R$ 22 bilhões). 

RESULTADOS DOS NÚMEROS 

Financeiramente e energeticamente, concluir Angra 3 é mais vantajoso. Abandonar a usina implicaria alto custo de descomissionamento e exigiria soluções complexas e dispendiosas para gerar a mesma quantidade de energia, com impacto territorial e intermitência de produção, caso a alternativa escolhida seja a de uma fonte de energia renovável. 

(FOTO: USINA -CENTRAL NUCLEAR, AUTOR MARCOS MICHAEL) – FOTO AQUILINO: DO BLOG - 

REPORTAGEM PUBLICADA PELO INSTITUTO ALBERTO LUIZ COIMBRA DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA DE ENGENHARIA, DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO – COPPE – UFRJ - EM 25/08/2025 – 

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Porque o governo não deve concluir Angra 3, por Heitor Scalambrini

 


“O setor nuclear brasileiro tem em sua trajetória um passado nebuloso, repleto de episódios controversos. Desde o contrabando e exportação de areias monazíticas do litoral capixaba/baiano/fluminense, passando pela cabulosa venda de urânio para o Iraque; o encerramento das atividades do Programa do Tório na UFMG, em 1975; o legado de morte e contaminação provocados pela Nuclemon (antiga estatal) na extração de minerais radioativos e de terras raras; o secretismo do Programa Nuclear Paralelo/Clandestino; a tragédia do Césio-137, em Goiânia; o enorme passivo ambiental no Planalto de Poços de Caldas/MG e em Caetité/BA; a falta de transparência e de controle social; escândalos com o recebimento de propinas milionárias pelos gestores do setor; roubos e sumiços de radiofármacos e de fontes radioativas, até a omissão de informações cruciais para a população sobre graves ocorrências (por exemplo: vazamentos de água radioativa) nas usinas nucleares, em Angra dos Reis (RJ). 

Esses e outros episódios aprofundaram o crescente descrédito sobre o desempenho da indústria nuclear, com seus gestores privilegiados com supersalários. O desgaste sobressaiu, diante da atual crise financeira e gestão temerária, que acabou levando a uma greve inusitada dos trabalhadores da Eletronuclear, em 2025. 

No caso específico de Angra 3 (construção iniciada em 1984), o governo não deve avançar na sua conclusão por razões diversas, reunindo desafios nas áreas tecnológica, econômica, ambiental, social, além dos riscos associados a esta forma de produzir energia elétrica. Angra 3 é o resultado do Acordo Nuclear assinado em 1974 com a Alemanha, em plena ditadura militar, e que previa a construção de oito usinas, entre outras ações relacionadas ao ciclo do combustível nuclear. Deste acordo somente Angra 2 foi construída.

Também havia o interesse bélico de construir a bomba atômica, projeto tocado em sigilo pela ditadura militar, cuja intenção ficou evidenciado pela negativa, em 1968, quando o Brasil se recusou a assinar o Tratado de Não Proliferação Nuclear, só o fazendo no final dos anos 90. 

Um dos aspectos a ser levado em conta para de vez interromper a construção de Angra 3 é o custo da energia nuclear muito mais cara (4 a 6 vezes) que as fontes renováveis. Segundo estudos recentes do BNDES (não acessível), a conclusão desta usina representaria um gasto de 23,9 bilhões de reais, com início de operação em 2031, e com custo da energia entre R$ 778 – R$ 817 por MWh. Este valor seria repassado para todos os consumidores, o que representaria um adicional na já exorbitante conta de energia. Existe também uma dúvida, se no cálculo da energia está incluído os custos de armazenamento dos resíduos (lixo atômico) e do descomissionamento da usina. 

Os riscos da energia nuclear incluem o descarte/armazenamento seguro dos resíduos de alta radioatividade, que continuam a irradiar por milhares de anos, constituindo um grave legado para as gerações futuras, já que não existe uma solução definitiva e duradoura para o armazenamento de tais substâncias. Além da possibilidade de acidentes nas usinas, com a radiação contaminando solo, ar e água, exigindo evacuação de grandes contingentes populacionais, causando doenças graves (câncer, leucemia). Os impactos sociais, com o descarte inadequado do lixo nuclear, constituem um perigo constante para o meio ambiente e a saúde humana/animal. Acidentes importantes já ocorreram em usinas nucleoelétricas, o de Chernobyl (Ucrânia-1986), o de Fukushima (Japão-2011), só para citar os que tiveram maior publicidade. Além do maior acidente radiológico do mundo em Goiânia (Brasil-1987), mostraram os perigos da liberação de substâncias radioativas. 

Outra questão relevante é a tecnologia antiga e ultrapassada de muitos equipamentos essenciais ao funcionamento dessa usina que já foram adquiridos desde a década de 80 do século passado. A obra, que já dura 45 anos, gasta R$ 1 bilhão por ano (R$ 800 milhões para pagar dívidas ao BNDES e CEF; R$ 200 milhões em manutenção de equipamentos e caducas estruturas). Os grandes e graves eventos ocorridos com usinas nucleares introduziram maior segurança nas usinas construídas posteriormente aos acidentes, todavia não impedindo que acidentes possam ocorrer. Uma máxima aceita é “não existe risco zero em engenharia”. 

Afirmar que é uma fonte “limpa” é uma grande inverdade. Como se houvesse na natureza qualquer tipo de energia que não contamina, libera produtos tóxicos, polui, agride o meio ambiente e as pessoas. Não existe fonte de energia “limpa”. Só na propaganda mentirosa da Eletronuclear. 

A interrupção e construção de usinas nucleares no país não impedirá a aquisição de conhecimentos estratégicos na área nuclear, pois é nas universidades e centros de pesquisas que tais estudos são realizados, e não nas compras “turnkey” dos equipamentos que compõem uma usina nuclear. 

Na discussão sobre se o Brasil avança na nuclearização de seu território com a conclusão de Angra 3, a mediocridade e a falácia dos argumentos pró nuclear andam à solta. Nada indica que usinas nucleares sejam necessárias ao país. As fontes renováveis constituem a espinha dorsal da matriz elétrica, e podem garantir a segurança e sustentabilidade energética em um contexto em que a diversidade e complementaridade andem juntas. Para um contingente cada vez maior da sociedade brasileira a energia nuclear é vista como uma alternativa de alto risco, cara e perigosa, em um país com extraordinário potencial de fontes renováveis. 

Logo, neste ano que inicia, basta coragem ao governo federal para enfrentar os lobbies e interromper definitivamente a obra de Angra 3, e, de maneira clara, deixar uma mensagem ao povo brasileiro e ao mundo de que o Brasil não irá nuclearizar seu território".  

AUTOR RESPONSÁVEL – HEITOR SCALAMBRINI - Professor associado aposentado da Universidade Federal de Pernambuco, graduado em Física pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP/SP), mestrado em Ciências e Tecnologias Nucleares na Universidade Federal de Pernambuco (DEN/UFPE) e doutorado em Energética, na Universidade de Marselha/Aix - Centro de Estudos de Cadarache/Comissariado de   Energia Atômica (CEA)-França. 

(FOTO – ACERVO PESSOAL) – 

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quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

No sistema ONU, entidade nuclear brasileira (Abdan) fará a diferença entre tecnologia civil e de contextos militares e bélicos

 


“Em um cenário internacional marcado por conflitos e tensões geopolíticas, a Associação Brasileira para o Desenvolvimento das Atividades Nucleares (ABDAN) tem papel fundamental na comunicação técnica, baseada em evidências sobre o uso pacífico da energia nuclear”, comentou Celso Cunha, presidente da entidade, que acaba de ser oficialmente admitida como organização observadora no processo da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC). “É essencial diferenciar, de forma clara, a tecnologia nuclear civil (amplamente regulada, monitorada e voltada à geração de energia, saúde e pesquisa) de contextos militares ou bélicos”, reiterou Cunha sobre a importância do papel pacifico da energia nuclear. 

O reconhecimento da ABDAN foi formalizado durante a 30ª Conferência das Partes (COP30) e comunicado por meio de carta oficial da Secretaria da ONU, que dá as boas-vindas à entidade brasileira ao sistema multilateral de governança climática. Com o novo status, a ABDAN passa a integrar, de forma permanente, o grupo de organizações habilitadas a acompanhar e participar das discussões internacionais sobre clima, energia e desenvolvimento sustentável. A admissão confere à entidade o direito de indicar representantes para as sessões da UNFCCC, submeter contribuições técnicas aos órgãos negociadores, participar de processos seletivos para eventos paralelos e exposições oficiais, além de receber informações estratégicas sobre o andamento das negociações climáticas globais. 

Segundo Cunha, o credenciamento amplia a atuação internacional da ABDAN e fortalece a presença brasileira no debate sobre transição energética, especialmente no que diz respeito às fontes de energia de baixo carbono. “A carta enviada pela UNFCCC destaca que a admissão como observadora reflete o reconhecimento institucional da contribuição técnica das organizações no processo climático e manifesta expectativa de engajamento ativo da entidade nas próximas conferências e instâncias do sistema ONU”.

Para o presidente da ABDAN, o reconhecimento consolida um movimento estratégico da associação no cenário internacional: “reforça o papel da energia nuclear nas discussões globais sobre descarbonização, segurança energética e sustentabilidade de longo prazo, além de ampliar a capacidade de diálogo técnico do Brasil com governos, organismos multilaterais e formadores de políticas públicas”. 

A ABDAN já esteve presente na COP30 e, a partir de agora, passa a atuar de forma mais estruturada e contínua no ambiente da UNFCCC, acompanhando negociações, contribuindo com conhecimento técnico e ampliando a interlocução do setor nuclear brasileiro com a agenda climática global. A carta da ONU encerra o comunicado reafirmando que a Secretaria da UNFCCC “acolhe e aguarda o engajamento da organização no processo climático”, marcando oficialmente a entrada da ABDAN no seleto grupo de observadores permanentes do sistema. 

Quais os maiores desafios para a ABDAN? “É qualificar o debate público e institucional sobre energia nuclear no Brasil, especialmente em um contexto de transição energética acelerada e de forte pressão por soluções de baixo carbono. Ainda há no país uma lacuna significativa entre o conhecimento técnico disponível e a percepção da sociedade e de parte dos formuladores de políticas públicas sobre o papel da tecnologia nuclear”.  Outro desafio central, acrescentou, é integrar o setor nuclear brasileiro de forma mais estruturada às agendas globais de clima, energia e desenvolvimento sustentável. 

“O reconhecimento da ABDAN como organização observadora da UNFCCC é um passo importante nesse sentido, pois amplia a capacidade de diálogo técnico do Brasil nos fóruns multilaterais e reforça a necessidade de alinhar o setor nuclear às melhores práticas internacionais em governança, segurança e sustentabilidade”, disse. 

Além disso, afirmou, a ABDAN atua para promover previsibilidade regulatória, segurança jurídica e planejamento de longo prazo, condições essenciais para investimentos em um setor intensivo em capital, tecnologia e conhecimento especializado. “A atuação da ABDAN passa por traduzir temas complexos para a sociedade, reforçando conceitos como segurança nuclear, cooperação internacional, fiscalização por organismos multilaterais e os rígidos padrões adotados pelo setor civil. A participação da entidade no ambiente da ONU, por meio da UNFCCC, fortalece essa credibilidade institucional e amplia sua capacidade de diálogo com diferentes públicos”. 

E completou: “Ao contribuir com informação qualificada, a ABDAN ajuda a reduzir o medo e a desinformação, promovendo uma compreensão mais equilibrada sobre os riscos reais, os benefícios comprovados e o papel estratégico da energia nuclear na segurança energética, na descarbonização e na saúde pública”. 

(FOTO: ACERVO ABDAN) – (COM ASCOM Larissa Haddock Lobo) – 

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segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Brasil pede apoio à Arábia Saudita para mapear minerais estratégicos no subsolo do país, 70% até hoje desconhecidos

 


Rio de Janeiro, 12/01/2026 - A Arábia Saudita poderá apoiar projetos de mapeamento do subsolo brasileiro, 70% ainda desconhecidos. O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, participou, nesta segunda-feira (12/1), de reunião na sede do Ministério da Indústria e Recursos Minerais, em Riad, com o ministro saudita Bandar Al-Khorayef. Silveira quer contar com o Fundo de Investimento Público da Arábia Saudita (PIF) para ampliar a cooperação estratégica no setor mineral. Em 1989 o Brasil só conhecia 10% do subsolo. Leia abaixo.

Silveira enfatizou ainda o elevado potencial geológico brasileiro: apenas cerca de 30% do subsolo nacional está mapeado. Ainda assim, o Brasil já se destaca como a segunda maior reserva mundial de terras raras e a sétima maior reserva de urânio, o que, segundo ele, “reforça o otimismo do governo em relação à ampliação de parcerias internacionais nos próximos anos”.

Nesse contexto, Alexandre Silveira manifestou o interesse em receber representantes da empresa Manara no Brasil, para avaliar conjuntamente oportunidades de ampliação de investimentos em projetos minerais estratégicos. O fundo saudita Manara Minerals é sócio da Vale S.A. na Vale Base Metals (VBM) – unidade responsável pela produção de cobre e níquel, minerais críticos e estratégicos para a transição energética.

Durante o encontro, o ministro Alexandre Silveira apresentou os avanços na governança do setor mineral brasileiro, com destaque para o Conselho Nacional de Política Mineral (CNPM), instância que reúne 18 ministérios e atua no assessoramento direto ao presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, na formulação da política mineral do país. Segundo o ministro, o CNPM tem papel central no aprimoramento do processo de licenciamento, redução da burocracia e no fortalecimento da coordenação institucional, promovendo maior previsibilidade, segurança estrutural e estabilidade para os investimentos.

“Mesmo sendo uma federação composta por diferentes estados, o Brasil tem avançado na unificação de linguagem regulatória e institucional, sempre preservando princípios fundamentais como a estabilidade legal, regulatória e política, além da segurança jurídica necessária para investimentos de longo prazo”, ressaltou Silveira.

Na agenda de investimentos, Alexandre Silveira destacou o papel das empresas brasileiras do setor mineral e o trabalho do Governo do Brasil para destravar projetos estratégicos de minério de ferro de alta redução e de cobre, com foco nos estados do Pará e de Minas Gerais, ampliando a competitividade do país no mercado internacional.

As partes acordaram a criação de um grupo de trabalho bilateral, com reuniões regulares, inclusive em formato virtual, para estudar iniciativas que possam ser desenvolvidas de maneira conjunta e dar maior eficiência à cooperação entre os dois países.

TRANSFORMAÇÃO MINERAL

O ministro de Minas e Energia brasileiro também reforçou a importância de os parceiros sauditas investirem na cadeia de transformação mineral no Brasil, agregando valor à produção nacional, promovendo industrialização, geração de empregos e desenvolvimento tecnológico. Silveira destacou que, em um cenário global no qual os minerais críticos se consolidam como o novo petróleo, a integração entre mineração, indústria e energia torna-se estratégica – experiência observada pelo ministro em visitas às empresas sauditas em outras oportunidades.

RETROSPECTIVA – MAPEAMENTO EM 1989

“Por incrível que pareça o Governo brasileiro não tem a menor ideia da dimensão das reservas minerais do país, pois dispõe de mapeamento geológico confiável sobre apenas 10% do território nacional. Essa avaliação estatística - da nossa ignorância sobre as riquezas de 90% do subsolo nacional – é da Sociedade Brasileira de Geoquímica (SBGq). Essa ignorância custou ao Brasi, em 1987, US$ 3,8 bilhões com importações de cobalto, platina, titânio, entre outros minerais, de acordo com o presidente da SBGq, Dorival Correia Bruni. Em mapeamento geológico, o Brasil perde para países africanos, como a Nigéria, Zaire e Zâmbia, e latinos americanos como a Argentina, Chile e Venezuela, segundo a SBGq.  Em 1989, Dorival Correia Bruni dizia que, para reverter esse quadro, o Brasil teria que aplicar RS$ 10 bilhões em programas de exploração mineral, mas investia apenas US$ 100 milhões, incluindo os estudos para localizar petróleo e gás”.

(TRECHO DA ENTREVISTA EXCLUSIVA QUE FIZ COM O PRESIDENTE DA SBGq, PARA A FOLHA DE S. PAULO, PUBLICADA EM 3/11/1989, REPUBLICADA EM MEU LIVRO BRASIL A BOMBA OCULTA, 1993 - EDITORA GRYPHUS – E HISTÓRIAS SECRETAS DO BRASIL NUCLEAR - WVA – 1997).

FOTO: MME –

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