sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Morre o professor Célio Bermann, um dos maiores conhecedores das histórias nucleares do Brasil

 


Um dos maiores conhecedores da história da energia nuclear brasileira, democrata de grande coragem, defensor da preservação da natureza e do meio ambiente, incansável combatente da falta de transparência no setor sobre temas cruciais para a sociedade, assim foi a trajetória de mais de 30 anos do professor Célio Bermann, que faleceu ontem (1º/01/2026), e foi sepultado nesta sexta-feira no Cemitério Israelita do Butantã, em São Paulo. A informação sobre o falecimento foi divulgada pela diretoria do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (USP), onde Bermann atuava como professor associado.   

Doutor em Engenharia Mecânica na área de Planejamento de Sistemas Energéticos pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), além de mestre em Engenharia de Produção na área de Planejamento Urbano e Regional pela COPPE/UFRJ, Bermann arcou a sua passagem pelo BLOG assinando artigos da maior relevância.  

Ele foi um dos primeiros a questionar as notícias que partiram de Alexandre Silveira, ministro de Minas e Energia, sobre a possibilidade de implantação de usinas nucleares na Amazônia. Incansável na luta para levar informações e conhecimento à sociedade, em mais um artigo para o BLOG, Bermann alertou sobre a falta de segurança no setor nuclear no dia 8 de julho de 2024, quando foram registrados oficialmente desaparecimentos de materiais radioativos, por exemplo. “A insegurança nuclear no Brasil: até quando?”. questionou

No artigo, Bermann não deixou “pedra sobre pedra” sobre as falhas ocorridas na época.  O que Bermann defendia era uma fiscalização mais eficiente, capaz de evitar acidentes com radiação. No dia 22 de abril de 2024, Célio Bermann alertava sobre os riscos nucleares na Amazônia: "a que ponto chegou a insanidade!", escreveu.  

As falácias da Medida Provisória (MP) que autoriza o setor privado a explorar minérios nucleares”, foi mais um artigo de Bermann publicado no dia 14 de dezembro de 2022. 

"Tive a oportunidade de tecer considerações sobre as atividades de pesquisa e lavra de minérios nucleares e as (in)competências e irresponsabilidades históricas de diversas ordens da estatal Indústrias Nucleares do Brasil (INB), em matéria publicada neste blog em 6 de outubro de 2020. Agora, voltamos ao assunto por conta da Medida Provisória (MP 1.133/2022), que desde a semana passada autoriza a participação do setor privado na exploração de minérios nucleares, entre outras providências referentes ao tema. Recordei fatos ocorridos ainda em 1987 quando eu trabalhava como consultor no projeto Itataia, e conheci de perto a irresponsabilidade e o descaso com que a Nuclebrás administrava os trabalhos de prospecção da mina. Na época, era a Nuclebrás a empresa estatal nuclear que atuava nas atividades de pesquisa e lavra de minérios nucleares como o urânio”, denunciava o professor. 

E acrescentava: “Ainda, a Nuclemon era outra empresa estatal nuclear que processava as areias monazíticas para a obtenção de cloreto de terras raras, gerando um subproduto com alta concentração de urânio e tório conhecido como torta II. A torta II processada também dá origem ao mesotório, produto altamente radioativo”. Entre outros artigos, o professor também alertou em outubro de 2020, sobre casos de câncer na população próxima a jazidas de urânio; “acidentes que contaminaram parte de rios e solo; caminhão tombado, deixando amostras de rochas com material radioativo pelas praças onde crianças brincaram.” 

São alguns dos relatos de um dos maiores conhecedores da trajetória nuclear brasileira, com participação ativa em pesquisas de campos, uma voz tão valiosa e necessária que se cala. Ele também deixou livros publicados, além de colaborar com movimentos sociais.

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