terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Começa em fevereiro transporte de elementos combustíveis (urânio enriquecido) para Angra 1

 


Começa em fevereiro o transporte dos elementos combustíveis de Angra 1. São estruturas metálicas, com até 5 metros de altura, formadas por um conjunto de tubos, chamados de varetas, que recebem as pastilhas de urânio enriquecido. 

O carregamento sairá da unidade da Indústrias Nucleares do Brasil (INB), em Resende (RJ), para a usina nuclear. A Eletronuclear, gestora da central nuclear e INB preparam um grande esquema de segurança, com a Policia Rodoviária Federal, para a realização do transporte, altamente perigoso por tratar-se de urânio, material radioativo. 

A 26º recarga de Angra 1 foi finalizada no dia 20/12, com a produção dos 44 elementos combustíveis. O superintendente de Produção do Combustível, Marcelo Sobral, considerou que a produção para a 26ª Recarga de Angra 1 seguiu normalmente os prazos apesar da pandemia do novo coronavírus. De acordo com Sobral, a ideia era encerrar a produção antes do final do ano com objetivo de utilizar a suplementação orçamentária recebida em 2020 para acelerar o faturamento. A INB não divulgou o valor do negócio. 

Em abril deste ano, a INB concluiu a 16ª Recarga de Angra 2. Durante a troca em junho, técnicos da Eletronuclear constataram oxidação (ferrugem) nos tubos dos elementos combustíveis, o que atrasou em cerca de um mês o religamento da unidade. Angra 2 acabou recebendo os elementos combustíveis de Angra 3, estocados no complexo nuclear de Angra. Até hoje a Eletronuclear não informou o que provocou a oxidação. Mas abriu investigação independente. 

No momento, a INB se prepara para iniciar a produção de 52 elementos para a 17ª Recarga de Angra 2, que deve começar m janeiro. A recarga é o processo de reabastecimento de uma usina nuclear por meio da substituição de elementos combustíveis descarregados por novos. FOTO: INB. 


terça-feira, 22 de dezembro de 2020

COVID-19: Para não afetar trabalhadores das usinas nucleares circulação de pessoas nas vilas residenciais terá restrições nas festas de final de ano

 

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A Eletronuclear decidiu tomar medidas, válidas até 15 de janeiro, para restringir as atividades e a circulação de pessoas nas vilas residenciais da empresa. O objetivo é impedir que a proliferação do coronavírus afete os trabalhadores da companhia e, consequentemente, a operação da central nuclear. Especialmente, num momento em que a pandemia vem avançando no estado do Rio de Janeiro e nos municípios de Angra dos Reis e Paraty. 

Em nota divulgada pela empresa, consta que, primeiramente, estão proibidas comemorações nas áreas comuns e a queima de fogos de artifício. Faixas com mensagens de aviso foram colocadas na entrada de Praia Brava e Mambucaba de forma a dar ciência do fato aos visitantes. Informações sobre a medida estão sendo veiculadas regularmente nos perfis da empresa nas redes sociais. 

A prática de esportes coletivos também está proibida nas áreas comuns. Por essa razão, a utilização das quadras poliesportivas, dos campos de futebol e dos parques está suspensa. 

A Fundação Eletronuclear de Assistência Médica (Feam) instalou nesta terça-feira (22/12) um posto de triagem próximo ao Hospital de Praia Brava (HPB), localizado na vila homônima, para atender os indivíduos com suspeita de estarem com covid-19. “Dessa forma, não é recomendável ter aglomerações no local”. 

O uso de máscara é obrigatório em todas as áreas comuns das vilas residenciais, inclusive nos calçadões das orlas de Praia Brava e Mambucaba. Distanciamento social e a higienização frequente das mãos também são obrigatórios. 

FOTO: Angra 1 - Acervo Eletronuclear. 

Sociedade Angrense de Proteção Ecológica lança cartilha sobre a questão nuclear

 

A Sociedade Angrense de Proteção Ecológica (SAPÊ), em Angra dos Reis, está lançando a cartilha “Educação Antinuclear: pela vida, pela Paz!”, com 36 páginas, destinada a professores e demais interessados nas principais questões nacionais do setor. A coordenadora da SAPÊ e da produção da publicação, a turismóloga Maria Clara Valverde, mestra pela Universidade Federal Fluminense (UFF), conta mais sobre os objetivos da cartilha e da entidade. Eis a entrevista:

BLOG: Como e por que a SAPÊ decidiu produzir a cartilha?

MARIA CLARA: A Sociedade Angrense de Proteção Ecológica (SAPÊ) produziu a cartilha em parceria com o Sindicato dos Profissionais de Educação de Angra dos Reis (SEPE- Angra); Articulação Antinuclear Brasileira (AAB); Coalizão Xô Nuclear- Por um Brasil livre de usinas nucleares; Rede de Ongs da Mata Atlântica; Grupo Tortura Nunca Mais – RJ; Grupo de Estudos e Pesquisa de Trabalhadoras/es – RJ (UFRRJ); Grupo de Pesquisa Filosofia e Educação Popular (UFF); Instituto Madeira Vivo e Frente Nacional por uma Nova Política Energética.

BLOG: Havia demanda?

MARIA CLARA: A cartilha é fruto de uma demanda dos professores ativistas angrenses que participam da SAPÊ e do Encontro Nacional da Articulação Antinuclear Brasileira realizado em setembro de 2019 na cidade de Caldas – MG, onde compartilhamos a necessidade de produzirmos um material pedagógico que abordasse a luta antinuclear nacional para fortalecer as comunidades ameaçadas pelas indústrias nucleares do Brasil. Além da necessidade de darmos visibilidade à luta antinuclear para os professores curiosos sobre os principais problemas nacionais que enfrentamos como militantes.

BLOG: Qual a principal mensagem?

MARIA CLARA: É necessário termos consciência de que não existe planeta B. A energia nuclear veio da guerra, e alimenta essa ameaça constante de guerras nucleares e acidentes catastróficos ao futuro do planeta. Não precisamos de armas nucleares, não precisamos de lixo atômico que ficará tóxico por milhares de anos para gerações futuras, o pior lixo que o ser humano produz. A energia nuclear ameaça a nossa existência com seu alto poder destrutivo ao meio-ambiente.

BLOG: Objetivo?

MARIA CLARA: Promover a conscientização social nas escolas e movimentos sociais sobre os impactos da indústria nuclear, através de uma ampla divulgação da cartilha “Educação Antinuclear: pela vida, pela paz!” e de evento virtual público para o lançamento.

BLOG: Público alvo?

MARA CLARA: Ativistas, professores e líderes sociais das comunidades afetadas pela indústria nuclear.

BLOG: Como será o acesso à cartilha? Terá impressa ou somente no formato digital.

MARIA CLARA: Planejamos uma distribuição gratuita de 210 cartilhas impressas e também na versão digital para diversos movimentos sociais engajados e interessados na luta antinuclear, gerando uma conscientização qualificada sobre a questão nuclear.

BLOG: Quando será disponibilizada no formato digital? Endereço de acesso?

MARIA CLARA: Através de contato direto pelo email sapemovimento@gmail.com

BLOG: Haverá evento para o lançamento?

MARIA CLARA: A cartilha teve pré-lançamento no último dia 5 de dezembro na “live” da Conexão Virtual Xô Nuclear, que teve como título “Educação Antinuclear: pela vida, pela paz! Os desafios de comunicar o absurdo das chaleiras atômicas. Na ocasião, tivemos um debate qualificado com a animação do Renato Cunha, coordenador do Grupo Ambientalista da Bahia (Gamba), com a participação de Gláucia Oliveira da Silva; antropóloga, autora do livro “Angra I e a melancolia de uma era: um estudo sobre a construção social do risco”; Ivi Sloboda, professora de História em Angra dos Reis; Monique Chessa, licenciada em Geografia e coordenadora pedagógica da cartilha e membro da coordenação da SAPÊ; Rosilda Benácchio, professora de Metodologia do Ensino de História UFF/IEAR, educadora popular e do Campo. Eu também participei.

BLOG: Quais os principais capítulos?

MARIA CLARA: Principalmente o capitulo 2, que trata de problemas nucleares no Brasil, porque abordamos de forma geral a história da luta antinuclear nacional até os dias atuais. Porém todos os capítulos são muito importantes, pois contextualizam a luta e apresentam um olhar crítico sobre a questão nuclear em geral.

BLOG: Conte um pouco sobre a fundação da SAPÊ.

MARIA CLARA: A SAPÊ foi fundada em 1983, tem no seu DNA a luta antinuclear como principal motivação de existência que culminou nos diversos protestos populares do Hiroshima Nunca Mais pela vida, pela paz. Como organização social as principais dificuldades são as constantes ameaças políticas que os movimentos ambientalistas enfrentam com vigor desde sempre. Nossos desafios maiores é conseguirmos frear a boiada nuclear que os atuais “desgovernos” querem passar em plena pandemia. Temos como objetivo principal a defesa pelo meio ambiente e suas comunidades tradicionais que o protegem. Nossas principais propostas são a inclusão de políticas que valorizem o desenvolvimento justo de energias renováveis, a permanência das áreas de proteção ambiental e suas comunidades tradicionais, bem como o turismo ecológico que respeite a cultura tradicional do território. Com a proximidade dos 40 anos da SAPÊ, temos como meta a construção do projeto do nosso site, onde teremos um acervo digitalizado do movimento ambientalista de Angra dos Reis.

 BLOG: Como a SAPE se mantém?

MARIA CLARA: A SAPÊ é uma organização sem fins lucrativos, mantida através de doações de seus membros e simpatizantes. Os projetos são apoiados por fundações que abrem editais com temas pertinentes aos movimentos ambientalistas. Nossa sede atual se encontra no centro da cidade de Angra dos Reis. No momento, devido a pandemia, suspendemos as atividades presenciais. A prefeitura não nos apoia.

BLOG: Como atua em relação às informações sobre as usinas nucleares?

MARIA CLARA: Acompanhamos as informações dadas pela imprensa de forma geral, e temos nosso papel social de denunciar as falácias da indústria nuclear brasileira, através de nossas redes sociais, eventos e projetos educativos como por exemplo o evento público de 2014 - Fukushima até quando?; a Exposição Hiroshima 70 que ocorreu no Teatro Municipal de Angra e depois circulou Brasil afora, o evento de lançamento do minidocumentário Recultura Caiçara no bairro do Frade em 2017  e agora com o lançamento da cartilha Educação Antinuclear: pela vida, pela paz!

BLOG: Como trabalha para oferecer apoio às comunidades indígenas?

MARIA CLARA: A SAPÊ tem parceria de longa data com a aldeia Sapukay do Bracuí, onde resistimos pela preservação de sua cultura e território através das nossas lutas sociais em comum pelo meio-ambiente como um todo cobrando do poder público medidas efetivas que protejam a aldeia. No momento nossa principal luta nesta questão é impedir a construção de uma usina hidroelétrica no rio Bracuí, que afetaria de forma drástica a sustentabilidade hídrica da aldeia.

BLOG: Como trabalham para receber informações sobre os rejeitos das usinas nucleares? Fazem contato com a Eletronuclear? Como tem sido esse contato?

MARIA CLARA: Temos o seu blog e suas obras como uma das fontes sobre as questões da Eletronuclear, além de ampla experiência em pesquisas qualificadas que embasam nossa luta social contra esta indústria. Nosso contato com a Eletronuclear se dá de forma natural durante as audiências públicas, na base do diálogo entre ambas as partes. Estamos lutando pela justiça para que os rejeitos de Angra 1 e Angra 2 sejam acompanhados da forma mais responsável possível, onde combatemos a construção dos depósitos a seco e exigimos que seja construído um depósito definitivo em local adequado para este fim.

BLOG: Quais as metas da SAPE para 2021?

MARIA CLARA: Continuar lutando contra a retomada das obras de Angra 3 e os depósitos a seco, as chamadas UAS, para o armazenamento do combustível usado das usinas nucleares. Vamos ampliar a nossa força com os professores da rede pública sobre os atuais riscos das usinas nucleares, a partir da divulgação da cartilha. E coordenar de forma participativa a criação de uma Rede em Defesa da Baía da Ilha Grande.


segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

Energia transformadora, por Mário Moura

 


A matriz energética brasileira é formada basicamente por fontes de energia com pouco investimento nas regiões onde estão localizadas. Geram poucos empregos e dão modestas contribuições a melhoria da qualidade de vida das comunidades vizinhas às suas instalações. Além disso, espalham, em algumas dessas regiões, o medo e a desesperança. Isso explica, em parte, a rejeição da sociedade brasileira por algumas dessas fontes, como as de natureza nuclear. 

Os ambientalistas adicionam à falta de responsabilidade social dessas empresas, os impactos ambientais por elas causados: a emissão de gases poluentes, queimadas e desmatamento, inundações de ecossistemas e os riscos provocados pela mineração de minerais radioativos. 

Por outro lado, os ambientalistas festejam o crescimento no Nordeste brasileiro de uma fonte de energia elétrica transformadora, pelos efeitos multiplicadores que provoca nas regiões onde se instala: a eólica. Segundo a Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEólica), "a energia eólica já cresceu muito, e tende a crescer ainda mais nos próximos 10 anos, prolongando os benefícios e semeando os bons resultados". 

Gigantescas pás tomam conta da paisagem nordestina, movidas pela energia disponível no ar. Seu potencial se expande e faz melhorar a economia da região e a qualidade de vida das pessoas. Por conviver harmonicamente com a natureza, a energia eólica se constitui em um bom exemplo de investimento sustentável, bem-sucedido e com repercussão multiplicadora na área social. 

O seu futuro aponta para novos polos de dinamismo e rotas de desenvolvimento, que já apresentam resultados animadores para o Nordeste brasileiro: dos R$ 165 milhões pagos em arrendamento de terras para a instalação de usinas eólicas no País, em 2018, 80% foram para o Nordeste. Uma capacidade instalada na região chega a 15 gigawatts, do total de 17 gigawatts em todo o território nacional. 

Não por acaso, a energia eólica é também chamada de energia social. Ela investe no futuro das regiões onde se instala, ao dotar essas comunidades vizinhas de recursos financeiros que bancam reformas em escolas e melhoram a infraestrutura educativa. Resultado: o ambiente social como um todo se revigora, atraindo os alunos para as salas de aula e proporcionando um apoio importante para o convívio familiar. O efeito social faz prosperar a economia e traz oportunidades para todos, resultado da produtividade dessa energia limpa. 

É cada vez mais fácil constatar a redução das desigualdades nas regiões onde floresce a energia do vento. Mais educação, mais renda e menos desigualdade - ganhos locais verificados graças ao uso desse imenso potencial energético, que ainda não mereceu o justo e atento olhar do setor energético brasileiro. 

Que os bons ventos de energia e esperança continuem revertendo uma situação de privações históricas, em um futuro promissor de qualidade de vida, sem agredir o meio ambiente. (Mário Moura -Jornalista).

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Heitor Scalambrini alerta sobre os perigos à vida e ao ecossistema, por conta da retomada da produção de urânio em mina na Bahia

 


A retomada da produção de urânio na mina do Engenho, em Caetité (BA), a construção de pelo menos quatro usinas nucleares no Nordeste; entre outros temas polêmicos, são comentados pelo físico Heitor Scalambrini Costa, doutor em Energética, pela Universidade de Marselha/Comissariado de Energia Atômica (CEA)-França. Um dos mais respeitados protagonistas do movimento antinuclear no Brasil, Scalambrini alerta que a decisão “viola os reais interesses das populações que vivem no entorno da mina, colocado em risco a vida das pessoas e de todo o ecossistema”. A contaminação por radiação provoca câncer, entre outras graves doenças, lembrou. Graduado em Física pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP/SP), com mestrado em Ciências e Tecnologias Nucleares na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Scalambrini afirma que as decisões tomadas pelo setor no país “sofrem um  déficit de participação popular e de democracia”. E completa: “Assim, a soberba prevalece e os interesses econômicos estão representados fortemente, ofuscando os legítimos interesses da sociedade”. Eis a entrevista:  

BLOG - O governo está retomando a exploração da mina de urânio do Engenho, em Caetité, na Bahia. Sua opinião?  

SCALAMBRINI: O histórico da mineração e o trato de material radioativo no país não são nada abonadores. Ao contrário. A memória das populações locais e os registros dos meios de comunicação não permitem o esquecimento diante das sequelas provocadas pela radiação, dos problemas ambientais causados pela mineração, e da inadequada fiscalização e controle de materiais radioativos. A única mineração de urânio em atividade está situada no município de Caetité (BA), na Unidade de Concentração de Urânio, da Indústrias Nucleares do Brasil (INB), estava paralisada desde 2015. E os trabalhos da INB em Caetité são marcados por críticas, denúncias, mobilizações da população, e processos judiciais contra a empresa. Bem próximo do local da mineração existem moradores de pequenas comunidades rurais. Segundo a Diretoria de Vigilância e Atenção à Saúde do Trabalhador do governo da Bahia, existe uma incidência muito alta de câncer em Caetité, sendo alguns tipos possivelmente ligados à mineração de urânio - como câncer de tireoide e de pulmão, mais prováveis graças à emissão de gases tóxicos da mina. 

BLOG – Agora a INB têm licença. 

SCALAMBRINI: A licença concedida recentemente pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) é para o início das operações na mina do Engenho, que é parte da usina de beneficiamento nuclear da INB em Caetité. Ato que viola os reais interesses das populações que vivem no entorno da mina, colocando em risco a vida das pessoas e de todo ecossistema. Em função desta herança maldita na área nuclear, e dos reais perigos e riscos que podem causar, a única maneira de evita-los e assim preservar vidas, é de abandonar de vez a mineração do urânio, criando áreas livres da mineração. 

BLOG - Qual a sua opinião sobre o Consórcio Santa Quitéria, parceria da INB com a Galvani, para a exploração de urânio e fosfato, em Itataia, no Ceará? 

SCALAMBRINI: A mineração de urânio, hoje, é um monopólio estatal, segundo a Constituição Federal de 1988. No artigo 177, inciso V, fica estabelecido que constitui monopólio da União “a pesquisa, a lavra, o enriquecimento, o reprocessamento, a industrialização e o comércio de minérios e minerais nucleares e seus derivados (…)”. Ainda, no artigo 21 da Constituição, em seu inciso XXIII, afirma expressamente ser competência da União “explorar os serviços e instalações nucleares de qualquer natureza e exercer monopólio estatal sobre a pesquisa, a lavra, o enriquecimento e reprocessamento, a industrialização e o comércio de minérios nucleares e seus derivados (…)”. Portanto, a constituição do Consórcio Santa Quitéria, entre a empresa privada Galvani Indústria Comércio e Serviços S.A (controlada pela mineradora norueguesa Yara) e a INB, com a finalidade de implantação de um complexo minero-industrial no Ceará, explorando urânio e fosfato, nada mais é que uma tentativa de burlar a Constituição, de quebrar o monopólio estatal.

BLOG – São muitos os riscos? E a questão da água?  

SCALAMBRINI: O urânio tem características bastante especiais, em particular pela sua radioatividade, e suas graves consequências para à saúde e à vida. As nossas preocupações devem ser redobradas, na intenção de privatização da mineração do urânio, principalmente pelos últimos episódios catastróficos protagonizados pela iniciativa privada em Mariana e Brumadinho. Os números não desmentem. Um exemplo que mostra claramente a insustentabilidade socioambiental deste empreendimento é a injustiça hídrica provocada pelo Projeto Santa Quitéria. A previsão é de utilização de 1 milhão e 100 mil litros de água por hora (125 carros-pipa/hora) no complexo minero-industrial. Para isso, o governo do Ceará se dispõem construir uma adutora para transportar a água do Açude Edson Queiroz até a jazida, o que levaria a um aumento da demanda desse açude em 400%, caso o empreendimento entre em operação, levará a uma disputa desproporcional pela água entre a mineração e as comunidades e os assentados do entorno da mina que consomem, segundo dados de 2012, o equivalente a 14 carros-pipa/mês. 

BLOG:  O Governo também paneja construir outras usinas nucleares no Nordeste. O que acha? 

SCALAMBRINI: O Plano Decenal de Energia–PDE 2029, trouxe pela primeira vez a indicação de que novas usinas nucleares poderiam serem construídas no país, além de Angra 3. O que verificamos nas declarações de membros do atual governo, e que é inadmissível, é a entrega do setor nuclear ao capital internacional, não somente a mineração, mas também a geração de energia. Sob o ponto de vista econômico, os custos da energia gerada são os mais caros e certamente incidirá no aumento da conta de energia para o consumidor final em todo país. A chamada modicidade tarifária, desejada pela política energética, definitivamente será enterrada. A insanidade do atual governo de propor a construção de novas centrais nucleares é tanta que não é levado em conta o fato da energia nuclear ser perigosa, cara e suja. 

BLOG - O governo pretende concluir as obras da usina nuclear Angra 3, paralisadas desde 2015, que se arrastam há 30 anos. Para concluir, precisa de R$ 15 bilhões e se não concluir, perderia R$ 12 bilhões. Qual a sua opinião? 

SCALAMBRINI:  Com um histórico de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas na execução do projeto, tais crimes, segundo as investigações, acabaram condenando o contra-almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, ex-presidente da Eletronuclear, a 43 anos de prisão, teriam que injetar mais R$ 15 bilhões para concluir a usina. Diante das inúmeras opções de fontes energéticas renováveis abundantes no país, é desnecessário investir em uma fonte geradora com tantas controvérsias, polêmicas, representando real risco e perigo a vida das pessoas e da preservação ambiental. Um escapamento, fuga de material radioativo, quando acontece, do interior de um reator é um desastre, uma tragédia sem comparação. Então porque correr o risco? Concluir Angra 3 e expandir a geração nuclear, com a construção de novas usinas, é seguir um caminho contrário ao que o mundo atual almeja. Diante de tantas prioridades necessárias e urgentes, investir em usinas nucleares represente mau uso do dinheiro público. 

BLOG - A usina Angra 1 já deveria estar sendo desmontada... mas a Eletronuclear contratou a Westinghouse para projeto de prorrogação da vida útil da usina por mais 20 anos. Qual a sua avaliação? 

SCALAMBRINI:  Em novembro de 2019 a Eletronuclear, empresa estatal que controla as usinas em Angra dos Reis (RJ), solicitou formalmente à CNEN a extensão de vida útil de Angra 1, de 40 para 60 anos.  Seus 40 anos de atividade, portanto, se completam no ano de 2024. Com a obra contratada junto a Westinghouse, a vida útil de Angra 1 será estendida até 2044. Deve-se levar em conta que os processos de envelhecimento são de difícil detecção porque geralmente ocorrem no nível microscópico da estrutura interna dos materiais. Eles frequentemente se tornam aparentes somente depois da falha de um componente, por exemplo, quando ocorre o rompimento de uma tubulação. Neste caso a prevenção torna uma tarefa mais difícil. 

É previsível o aumento do número de incidentes e eventos em uma usina que teve sua vida útil estendida – pequenos vazamentos, rachaduras, curtos-circuitos por falhas em cabos etc. O processo de envelhecimento levará ao enfraquecimento gradual de materiais que poderiam causar falhas catastróficas de certos componentes, com subsequentes liberações radioativas severas. Os programas de aumentar a vida útil de uma usina priorizam os aspectos econômicos em detrimento da segurança. Sem dúvida aumentar a vida útil de uma usina nuclear representa aumentar o risco de acidentes que não podem ser previstos. 

BLOG - O Brasil precisa de fato de energia nuclear? De que forma? 

SCALAMBRINI: Para responder a perguntar acima, eis outras perguntas necessárias de serem respondidas: “Por que vamos correr o risco de um acidente nuclear com vazamento de radiação no rio São Francisco, se não precisamos para atender nossa demanda por energia elétrica, e que hoje o nuclear somente contribui com menos de 3% de toda potência elétrica instalada no país?”; “Por que recorrer a uma fonte de energia no mínimo polêmica, com alto grau de periculosidade, se dispomos em abundância de outras fontes fornecidas pela natureza, como Sol, vento, água e matéria orgânica (biomassa)?”; “Por que recorrer a uma fonte que produz energia cara, que vai provocar mais ainda o aumento da fatura para o consumidor final?”; “Por que deixar para as gerações futuras o problema que ainda hoje é insolúvel, o que fazer com os resíduos, criados nas usinas nucleares, com elementos químicos que podem continuar emitindo altas doses de radiação por milhares de anos. Além das usinas criarem artificialmente um isótopo do elemento químico plutônio, considerado o mais nocivo, o mais tóxico de tudo que existe no mundo?”; “Se a energia nuclear é cara, perigosa e poluente, qual o motivo para instalar estas usinas em nosso país, no Nordeste brasileiro, ao lado do rio São Francisco?”; “A quem interessa um investimento projetado de US$ 30 bilhões (com câmbio atual: valor próximo a 180 bilhões de reais) para a construção do Complexo Nuclear de Itacuruba (6 usinas até 2050), diante de tantas outras necessidades mais urgentes e prioritária para a população nordestina, brasileira?”.  

nfim são algumas das questões levantadas sobre a instalação de novas usinas nucleares no país, que precisamos discutir amplamente, com participação da sociedade, e menos movida aos interesses econômicos que acabam contaminando o debate. Afinal a energia nuclear não é um assunto somente para técnicos. Quanto as outras aplicações de materiais radioativos para medicina, agricultura, engenharia são assuntos, que a princípio não tem nada a ver com a produção de energia elétrica. Devemos sim aprofundar também esta discussão. 

BLOG:  De que forma o Brasil poderia investir em energias alternativas para o desenvolvimento do país? 

SCALAMBRINI: Discutir fontes energéticas é responder a três questões básicas: Energia para quê? Energia para quem? E como produzir? Para uma matriz sustentável, diversificada e complementar, a energia solar, a eólica, a biomassa, a energia das hidroelétricas, entre outras, se apresentam como as melhores candidatas. Sem, obviamente contar com a energia nuclear, cujas desvantagens são muito maiores comparadas as fontes renováveis de energia. Todavia, o crescimento das fontes solar e eólica na matriz elétrica está acontecendo no país de forma desordenada, nem planejada, provocando sérias consequências socioambientais. As usinas solares e os parques eólicos, concentram em grandes superfícies placas solares e aerogeradores. 

As instalações no litoral ou no interior tem provocados inúmeros impactos diretamente nas populações que vivem em seu entorno, e aos ecossistemas. Problemas estudados pelas universidades, centros de pesquisa e organizações não governamentais tem relatado em trabalhos, teses, comunicações, os inúmeros transtornos provocados por estas grandes instalações, que geram grandes pacotes de energia, que são transmitidos para os centros consumidores. Mesmo hoje, com a transição energética ocorrendo no mundo, com a substituição dos combustíveis fosseis (carvão mineral, derivados do petróleo e gás natural), maiores emissores de gases de efeito estufa, pelas fontes renováveis de energia (sol, vento, biomassa, água, ...), várias críticas são necessárias com relação ao modo de produção destas fontes de energia. 

Como não existe energia 100% limpa, mesmo as fontes renováveis acabam contribuindo para o desmatamento, devastação da vegetação e a mudança nos modos de vida de populações ribeirinhas, pescadores, agricultores rurais, populações indígenas e quilombolas. Pequenas unidades de potência, minimizam impactos e são mais apropriadas para atender as necessidades energéticas de residências, pequenos comércios, prédios públicos, etc. A questão fundamental é o papel estratégico da energia no contexto de um desenvolvimento integral e sustentável, que inclua as pessoas, que não concentre renda, nem gere desigualdades sociais, e respeite a natureza. 

BLOG – Estamos, assim, na contramão mundial? 

SCALAMBRINI: Os atuais padrões de produção e consumo de energia estão apoiados nas fontes fósseis (petróleo, gás natural e carvão mineral), o que geram emissões de poluentes locais, gases de efeito estufa e põem em risco o suprimento a longo prazo do planeta, por serem finitas. É preciso mudar esses padrões, incentivar a economia e uso eficiente de energia, e estimular o uso das energias renováveis (solar, eólica, hidroelétricas, biomassa, ...). Nesse sentido, o Brasil apresenta uma condição bastante favorável em relação ao resto do mundo. Não existe uma fonte de energia que só tenha vantagens. 

Não há produção de energia sem controvérsias, mas a nuclear, pelo poder destruidor que tem qualquer vazamento de radiação, não deve ser utilizada para produzir eletricidade, ao menos em nosso país, onde existem tantas outras opções. Vários países do mundo, Alemanha, Suíça, Suécia, Bélgica, Itália; depois das tragédias de Chernobil e Fukushima, decidiram recuar, ou mesmo abandonar progressivamente a energia atômica para geração de energia elétrica. Outros como o Japão, têm um importante movimento de resistência, composto por setores da sociedade japonesa, que se opõem a construção de novas usinas no arquipélago. 

BLOG: OS recursos do setor estimulam o mercado...

SCALAMBINI: Os negócios do nuclear são poderosíssimos, envolvendo em torno de US$ 5 bilhões por cada usina de 1.300 MW. Além dos interesses militares que rondam, e estão associados diretamente a energia nuclear, desde seus primórdios. Principalmente diante da possibilidade de construção de artefatos nucleares. Tecnologia para a construção da bomba o país detém, assim como a matéria prima. Diante da forte investida destas corporações, de grupos econômicos, de militares que alçaram posições de poder na burocracia federal, aliados a políticos que são cooptados para a causa nuclear; verifica-se uma mudança substancial na postura do atual governo em relação ao seu apoio explícito a expansão do programa de construção de novas usinas nucleares no país, e de outras aplicações, como a construção de submarinos nucleares. 

A rejeição das usinas nucleares para produção de energia elétrica deve ser vista sob diferentes aspectos: Segurança energética, aspectos econômicos, questão ambiental, Riscos, Proliferação e militarização nuclear, sustentabilidade energética, democracia. O Brasil precisa erradicar a geração núcleo-elétrica de sua matriz energética. Não é possível que somente interesses econômicos prevaleçam em uma discussão que envolve a vida, como a conhecemos. 

BLOG - Como avalia a questão do lixo atômico, ou rejeitos radioativos, no Brasil? A questão do armazenamento do urânio irradiado também. 

SCALAMBRINI: Os rejeitos radioativos de uma usina nuclear têm diferentes níveis de atividade. Os papéis, panos de limpeza, vestuários, entre outros, utilizados na usina são classificados como rejeitos de baixa atividade. São geralmente compactados para redução de volume ou incinerados antes da disposição final. As resinas iônicas, lamas químicas, revestimentos metálicos etc., de média atividade, na maioria das vezes, são enterrados em baixa profundidade. No caso de Angra 1 e Angra 2, esses rejeitos estão guardados em área reservada, dentro da própria área da usina. Já os rejeitos de alta atividade, que resultam do tratamento químico do combustível já irradiado que é descarregado do reator após produzir energia, são altamente radioativos. Têm atividade de vida longa, geram quantidades consideráveis de calor e necessitam ser resfriados por 20 a 50 anos – período que coincide com o tempo de vida útil da própria usina – antes da disposição final. No caso de Angra 1 e Angra 2, esses rejeitos são mantidos encapsulados dentro de piscinas com 15 metros de profundidade, no interior da própria usina. 

BLOG: Como é no exterior? 

SCALAMBRINI: Países como a França, Alemanha e Suíça reprocessam esses resíduos para reduzir ao máximo a sua atividade. Outros países estão desenvolvendo tecnologias para dispor esses resíduos em depósitos subterrâneos de 200 a mil metros de profundidade, em formações geológicas milenarmente estáveis, como as de Yuka Montain, em Nevada, nos Estados Unidos. Já existem depósitos subterrâneos semelhantes na Finlândia e na Suécia. Todavia estas soluções técnicas desenvolvidas não são consideradas soluções duradoras e seguras, visto que a atividade desses resíduos pode resistir por milhões de anos. Por exemplo, a meia-vida do plutônio, produzido artificialmente, é de 25 mil anos. Trata-se de uma ordem de tempo maior que a história da humanidade. Será que vale a pena submetermos a este risco? Ao mesmo tempo é ético deixar como herança as gerações futuras este “presente”? No caso da usina de Angra 1, desde o início de operação, estima-se que já produziu 3.166 m3 de rejeitos sólidos (de baixa e média radioatividade) guardados em tambores e caixas metálicas. Por sua vez Angra 2 desde que começou a funcionar produziu 201 m3 de rejeitos sólidos (de baixa e alta radioatividade). 

BLOG: Está sendo construída a Unidade de Armazenamento a Seco (UAS). 

SCALAMBRINI: Até porque com sua capacidade de armazenamento de rejeitos saturada, a UAS servirá de depósito para os elementos combustíveis usados. É considerada um armazenamento complementar ao das piscinas existentes dentro das usinas. Os rejeitos de baixa e média atividade serão armazenados nestes locais. Esta solução está sendo adotada em alguns países, mas tem recebido muitas críticas. 

BLOG:  Diante de tantas críticas, por que ampliar o número de usinas e abrir novas minas?  

SCALAMBRINI: Existe uma estratégia clara dos defensores da energia nuclear, para produção de energia elétrica, em minimizar os acidentes que podem ocorrer nas indústrias envolvidas no chamado ciclo do combustível nuclear, em particular nas usinas núcleo-elétricas. Querem nos fazer crer que a segurança das centrais nucleares é infalível, e que acidentes com a liberação de material radioativo não acontecem, e nem acontecerão. Além de tentarem desqualificar aqueles que são contrários a utilização desta fonte de energia. 

O discurso da infalibilidade de usinas nucleares é recorrente, como se fosse possível - risco zero - acontecer um acidente. O desastre em Fukushima mostrou ao mundo, que mesmo em um país de grande conhecimento e domínio tecnológico, a natureza está fora do domínio do homem. E que acidentes podem sim acontecer, e quando acontecem são catastróficos. 

Acidentes em usinas nucleares acontecem com muita mais frequência do que os conhecidos, e divulgados. Geralmente não chegam ao domínio público, não são revelados a população. E diferentemente de um acidente, por exemplo de avião, que atinge diretamente os passageiros, terminando no local e no instante que ocorrem; um acidente em uma usina nuclear com liberação de material radioativo, começa no instante e no local, mas depois centenas e mesmo milhares de pessoas em territórios inteiros sofrerão as consequências provocadas pela radiação. E anos depois crianças nascerão com aberrações cromossômicas e desenvolverão leucemia, causadas pela absorção, por seus pais, de doses de radiação acima do tolerável. 

BLOG: São muitos os interesses? 

SCALAMBRINI: Não é muito difícil apontar os grandes interessados pela expansão das usinas nucleares em nosso país. Apesar dos percalços, seguir o dinheiro” ainda é a maneira mais indicada. Logo, “Follow the Money – Siga o dinheiro”. As empreiteiras são grandes interessadas nas obras civis deste complexo. Os fornecedores (players) de equipamentos e outros serviços, alguns acadêmicos que se beneficiam com projetos financiados pelo governo federal e outras instituições, grupos de políticos que ganham benefícios e participam dos grupos lobistas que existem em defesa desta causa. E, sem dúvida alguma, setores militares, que sonham com o Brasil-Grande detentor de artefatos nucleares. Por outro lado, existe todo um discurso vazio, já “cansado”, que é o do desenvolvimento (?), a geração de empregos, e de renda. Essa ladainha que já não convence mais os homens e mulheres de bom senso, de boa vontade, que escutam essa mesma ladainha para justificar empreendimentos que só beneficiam alguns (os de sempre) e trazem sérios prejuízos à maioria. O Brasil não precisa da energia nuclear. 

BLOG:  Como avalia a comunicação do setor nuclear oficial com a sociedade? 

SCALAMBRINI: Nem se pode afirmar que existem falhas nos processos de comunicação pública no setor nuclear. O que existe de fato é uma estratégia deliberada de desinformação, de informação inadequada e insuficiente. Inexiste o fornecimento de informações, nem a escuta, e nem o atendimento da população em suas preocupações, inclusive a de possuir a opção de recusar o projeto. As decisões tomadas pelo setor elétrico/energético no país sofrem um déficit de participação popular, um déficit de democracia. Quem decide a política energética são as 10 a 12 pessoas que compõem o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), em sua maioria funcionários do executivo, ministros de Estado. A sociedade civil nem tem voz e nem acento neste órgão de assessoramento da presidência. Assim a soberba prevalece, e os interesses econômicos estão representados fortemente, ofuscando as decisões ali tomadas, que acabam não representando os legítimos interesses da sociedade. As atividades de divulgação da área nuclear são formas de influenciar e não de informar a população. Este problema se acentua ainda mais por algumas razões, como: a falta de participação da população no processo de tomada de decisão sobre esta fonte de energia; a oposição crescente à energia nuclear por uma parte significativa da sociedade diante das tragédias de Chernobyl, Fukushima, desastre de Goiânia, ...; a divulgação de informações fragmentadas, insuficientes, facilita o surgimento de boatos, que nada contribui a um debate sério e responsável sobre o tema. 

BLOG: Como avalia a mobilização da sociedade civil em relação ao programa nuclear brasileiro? 

 SCALAMBRINI: Atualmente observa-se em quase toda parte do mundo que a energia nuclear é objeto de contestação e de resistência a sua implantação. Diante das enormes dificuldades que o país atravessa o tema das usinas nucleares não está na ordem do dia. As desigualdades sociais, o “apartheid” na sociedade brasileira ganha proporções alarmantes. A pobreza extrema e a fome retornaram a serem discutidas diante de políticas econômicas excludentes. 

O ressurgimento do programa nuclear brasileiro na década de 90, incluindo a construção de novas usinas colocou em alerta setores da sociedade brasileira. Em todo território onde se concentram atividades nucleares surgiram movimentos antinuclear: no Ceará (Santa Quitéria) e na Bahia (Caetité), com a mineração do urânio; em Minas Gerais (Caldas) com a barragem de rejeitos radioativos; em São Paulo, com o processamento e rejeitos de areia monazítica; em Pernambuco (Itacuruba) construção de novas usinas; e no Rio de Janeiro (Angra dos Reis), com o complexo de Angra 1 e 2, e a retomada de Angra 3. Estes grupos contrários à mineração, a construção de novas usinas, a favor do fechamento das já existentes; tem atuado de maneira pedagógica, de formação e organização destas populações diretamente atingidas. 

A informação juntamente com a participação das populações envolvidas nos debates, e nas diferentes atividades locais tem sido nosso objetivo comum. Estes movimentos não só dizem não, mas apresentam opções e soluções no campo da energia, mas também a necessidade do Estado em implementar políticas públicas que potencializam atividades econômicas locais. Estes movimentos integrados na Articulação Antinuclear Brasileira e na Coalizão por um Brasil Livre de Usinas Nucleares tem crescido muito nos últimos 10 anos. (Foto - Arquivo pessoal Heitor Scalambrini).

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