segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Angra 2: mais de uma centena de estrangeiros e de mil brasileiros na troca do combustível nuclear

 


Para a troca do combustível (urânio enriquecido) e a execução de cinco mil atividades, em Angra 2, a Eletronuclear está mobilizando cerca de 1.200 profissionais, dos quais 1.090 brasileiros e 110 especialistas estrangeiros.  A 21ª parada da usina nuclear está programada começar em meados deste mês (16/1), como o blog anunciou em novembro. Além do reabastecimento do núcleo do reator, os técnicos farão a revisão do gerador principal e a substituição do disjuntor principal do gerador, intervenções de alta complexidade estratégica, de procedência norte-americana. 

A usina deve ficar parada cerca de 50 dias para o reabastecimento do combustível, produzido pela estatal Indústrias Nucleares do Brasil (INB) que, há cerca de cinco anos custava à Eletronuclear cerca de R$ 300 milhões. 


O urânio extraído da mina de Caetité, na Bahia, é transformado em yellowcake (pó ou pasta amarela) e de lá segue para a Rússia, onde passa por outras etapas em empresa estatal daquele país: hexafluoreto (gás) e enriquecimento. Assim, retorna ao Brasil para ser transformado em pastilhas que serão inseridas em varetas de zircaloy na Fábrica de Combustível Nuclear, na INB, em Resende (RJ), para depois segurem para Angra dos Reis. 

A parada ocorre em regime contínuo, 24 horas por dia, com equipes organizadas em turnos de 12 horas, para garantir a continuidade dos trabalhos. Segundo a Eletronucear, a os serviços preparatórios já estão em andamento, incluindo a montagem do canteiro de apoio, com instalação de contêineres, oficinas e sistemas elétricos provisórios, garantindo a infraestrutura necessária para a execução da parada. 

“As paradas de reabastecimento são procedimentos de rotina e ocorrem, aproximadamente, a cada 13 meses (duração de um ciclo de operação). São programadas com, pelo menos, um ano de antecedência, levando-se em consideração a duração do combustível nuclear e as necessidades do Sistema Interligado Nacional (SIN). Todo o processo é coordenado com o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) e, enquanto a unidade permanecer desligada, o ONS despachará a energia de outras usinas do SIN, de forma a garantir um abastecimento seguro de eletricidade para o país”, informou o superintendente de Angra 2, Fabiano Portugal. 

EMPRESA VIVE GRAVE CRISE - 

A situação financeira da Eletronuclear tende a se agravar com esta parada de Angra 2, que envolve a contratação de mais de mil trabalhadores dos quais os mais de uma centena de estrangeiros, além da falta de recursos já mencionada várias vezes pelo Ministério de Minas e Energia (MME). Para evitar problemas com empregados, a Eletronuclear fez um acordo bem satisfatório com os trabalhadores anistiando inclusive os dias parados na greve do ano passado. Um novo acordo está revisto para ocorreu em abril. 


Além do desafio financeiro a Eletronuclear enfrenta outra questão: a manutenção dos elementos combustíveis usados (irradiados) que sairão do reator de Angra 2 para armazenados nas Unidades de Armazenamento a Seco (UAS) da central nuclear. E ainda a construção do Centena, a cargo da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), local para abrigar os rejeitos radioativos de baixa e média atividade, conforme reportagens publicadas várias vezes pelo Blog. As piscinas que armazenam os rejeitos dentro das usinas passaram por reformas no ano passado, atendendo a determinação do Tribunal de Contas da União (TCU). 

UM POUCO DA HISTÓRIA - 

Angra 2 faz parte do Acordo Nuclear Brasil-Alemanha, assinado pelo presidente Ernesto Geisel, em 27 de junho de 1975. A usina começou a ser construída em 1981, mas teve o ritmo das obras desacelerado a partir de 1983, parando de vez em 1986. A unidade foi retomada no final de 1994 e concluída em 2000, para entrar em operação em 2001. A usina conta com um reator de água pressurizada (PWR) de tecnologia alemã da Siemwns/KWU (hoje Areva NP). O custo da produção da usina não costuma ser revelado, nem as despesas com as paradas por problemas técnicos, muito menos, com a troca de combustível. Com potência de 1.350 megawatts, produz o equivalente a 20% da energia elétrica consumida na cidade do Rio de Janeiro. 

(FOTO: ELETRONUCLEAR e INB) - 

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sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Morre o professor Célio Bermann, um dos maiores conhecedores das histórias nucleares do Brasil

 


Um dos maiores conhecedores da história da energia nuclear brasileira, democrata de grande coragem, defensor da preservação da natureza e do meio ambiente, incansável combatente da falta de transparência no setor sobre temas cruciais para a sociedade, assim foi a trajetória de mais de 30 anos do professor Célio Bermann, que faleceu ontem (1º/01/2026), e foi sepultado nesta sexta-feira no Cemitério Israelita do Butantã, em São Paulo. A informação sobre o falecimento foi divulgada pela diretoria do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (USP), onde Bermann atuava como professor associado.   

Doutor em Engenharia Mecânica na área de Planejamento de Sistemas Energéticos pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), além de mestre em Engenharia de Produção na área de Planejamento Urbano e Regional pela COPPE/UFRJ, Bermann arcou a sua passagem pelo BLOG assinando artigos da maior relevância.  

Ele foi um dos primeiros a questionar as notícias que partiram de Alexandre Silveira, ministro de Minas e Energia, sobre a possibilidade de implantação de usinas nucleares na Amazônia. Incansável na luta para levar informações e conhecimento à sociedade, em mais um artigo para o BLOG, Bermann alertou sobre a falta de segurança no setor nuclear no dia 8 de julho de 2024, quando foram registrados oficialmente desaparecimentos de materiais radioativos, por exemplo. “A insegurança nuclear no Brasil: até quando?”. questionou

No artigo, Bermann não deixou “pedra sobre pedra” sobre as falhas ocorridas na época.  O que Bermann defendia era uma fiscalização mais eficiente, capaz de evitar acidentes com radiação. No dia 22 de abril de 2024, Célio Bermann alertava sobre os riscos nucleares na Amazônia: "a que ponto chegou a insanidade!", escreveu.  

As falácias da Medida Provisória (MP) que autoriza o setor privado a explorar minérios nucleares”, foi mais um artigo de Bermann publicado no dia 14 de dezembro de 2022. 

"Tive a oportunidade de tecer considerações sobre as atividades de pesquisa e lavra de minérios nucleares e as (in)competências e irresponsabilidades históricas de diversas ordens da estatal Indústrias Nucleares do Brasil (INB), em matéria publicada neste blog em 6 de outubro de 2020. Agora, voltamos ao assunto por conta da Medida Provisória (MP 1.133/2022), que desde a semana passada autoriza a participação do setor privado na exploração de minérios nucleares, entre outras providências referentes ao tema. Recordei fatos ocorridos ainda em 1987 quando eu trabalhava como consultor no projeto Itataia, e conheci de perto a irresponsabilidade e o descaso com que a Nuclebrás administrava os trabalhos de prospecção da mina. Na época, era a Nuclebrás a empresa estatal nuclear que atuava nas atividades de pesquisa e lavra de minérios nucleares como o urânio”, denunciava o professor. 

E acrescentava: “Ainda, a Nuclemon era outra empresa estatal nuclear que processava as areias monazíticas para a obtenção de cloreto de terras raras, gerando um subproduto com alta concentração de urânio e tório conhecido como torta II. A torta II processada também dá origem ao mesotório, produto altamente radioativo”. Entre outros artigos, o professor também alertou em outubro de 2020, sobre casos de câncer na população próxima a jazidas de urânio; “acidentes que contaminaram parte de rios e solo; caminhão tombado, deixando amostras de rochas com material radioativo pelas praças onde crianças brincaram.” 

São alguns dos relatos de um dos maiores conhecedores da trajetória nuclear brasileira, com participação ativa em pesquisas de campos, uma voz tão valiosa e necessária que se cala. Ele também deixou livros publicados, além de colaborar com movimentos sociais.

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