sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Angra 3: Leonam contesta artigo de Scalambrini

 


"O artigo Por que o governo não deve concluir Angra 3, - de Heitor Scalambrini -, publicado nesta sexta-feira (23/01) no blog da jornalista Tania Malheiros, apresenta uma narrativa fortemente opinativa, porém metodologicamente frágil, ao tentar desqualificar a conclusão da usina nuclear por meio de uma combinação de episódios históricos, generalizações e afirmações não sustentadas por evidências técnicas ou econômicas verificáveis.

 O texto inicia com uma longa enumeração de controvérsias passadas associadas ao setor nuclear brasileiro, incluindo acidentes radiológicos, episódios de contrabando, programas paralelos e falhas institucionais. Embora seja legítimo reconhecer erros históricos e problemas de governança, essa estratégia argumentativa é intelectualmente problemática. Listar eventos heterogêneos ocorridos ao longo de décadas não constitui, por si só, uma demonstração de inviabilidade técnica ou econômica de um empreendimento específico no contexto atual. A análise séria de Angra 3 exige dados contemporâneos, avaliação de engenharia, critérios regulatórios vigentes e projeções energéticas atualizadas, e não a simples evocação de um passado conflituoso. 

No campo econômico, o artigo incorre em outra fragilidade central ao afirmar que a energia produzida por Angra 3 custaria entre quatro e seis vezes mais do que fontes renováveis, citando supostamente um estudo recente do BNDES, mas sem apresentar referência formal, metodologia utilizada ou parâmetros considerados. Não se esclarece se os valores incluem custos financeiros, amortização de capital, vida útil da planta, fatores de capacidade, estabilidade do suprimento ou externalidades ambientais. Sem transparência metodológica, esses números perdem valor analítico e assumem caráter meramente retórico. Estudos internacionais amplamente reconhecidos demonstram que os custos de geração variam fortemente conforme hipóteses adotadas, regime de financiamento, escala de operação e perfil do sistema elétrico, sendo incorreto tratar a comparação entre nuclear e renováveis como uma relação simples e linear. 

A abordagem dos riscos e da segurança nuclear também carece de rigor técnico. O texto enfatiza acidentes históricos como Chernobyl e Fukushima sem contextualizar diferenças fundamentais entre projetos antigos e as tecnologias atualmente adotadas em usinas modernas. Ignora-se que os padrões internacionais de segurança evoluíram significativamente, incorporando sistemas passivos, múltiplas camadas de redundância e requisitos regulatórios muito mais rigorosos. Além disso, a questão dos rejeitos radioativos é apresentada como um problema sem solução estrutural, o que não corresponde à realidade. Países como Finlândia e Suécia já avançaram para a implantação de repositórios geológicos profundos definitivos, baseados em décadas de pesquisa científica e validação internacional. A ausência dessa informação reforça uma narrativa alarmista que não reflete o estado atual do conhecimento técnico. 

Outro ponto recorrente do artigo é a suposta obsolescência tecnológica de Angra 3, associada ao fato de parte dos equipamentos ter sido adquirida nas décadas passadas. Essa argumentação confunde atraso cronológico com inviabilidade tecnológica. Grandes projetos de infraestrutura, em especial no setor nuclear, frequentemente passam por longos ciclos de implantação, nos quais componentes são atualizados, sistemas são modernizados e padrões normativos são revisados ao longo da obra. A simples antiguidade de determinados equipamentos não constitui, por si só, prova de inadequação técnica, especialmente quando processos de requalificação, retrofit e certificação fazem parte da prática internacional. 

Do ponto de vista lógico, o texto recorre repetidamente a estratégias retóricas pouco consistentes, como o apelo ao medo, a construção de falsos dilemas entre nuclear e fontes renováveis e a associação indevida entre problemas institucionais passados e a inviabilidade estrutural da tecnologia nuclear como um todo. Ao fazer isso, o artigo deixa de tratar o tema como uma questão de política pública baseada em dados e passa a operar no campo da persuasão emocional. 

Em síntese, embora o debate público sobre Angra 3 seja legítimo e necessário, o artigo analisado não apresenta o rigor técnico, econômico e metodológico exigido para sustentar suas conclusões. Ao substituir análise estruturada por generalizações históricas, números não referenciados e narrativas alarmistas, o texto enfraquece o próprio debate que pretende estimular. A decisão sobre a conclusão ou não de Angra 3 deve ser fundamentada em estudos de engenharia, avaliações econômico-financeiras transparentes, análises de segurança nuclear atualizadas e planejamento energético de longo prazo — e não em construções retóricas descoladas da realidade técnica do setor".

 AUTOR RESPONSÁVEL - 

LEONAM DOS SANTOS GUIMARÃES: Doutor em Engenharia Naval e Oceânica pela USP e Mestre em Engenharia Nuclear pela Universidade de Paris XI, é CEO da Eletrobrás Eletronuclear, membro do Grupo Permanente de Assessoria em Energia Nuclear do Diretor Geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), membro do Conselho de Representantes da World Nuclear Association (WNA). Foi Presidente da Seção Latino Americana da Sociedade Nuclear Americana, Diretor Técnico-Comercial da Amazônia Azul Tecnologias de Defesa SA – AMAZUL, Assistente da Presidência da Eletrobrás Eletronuclear e Coordenador do Programa de Propulsão Nuclear do Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo (CTMSP). 

FOTO – ACERVO PESSOAL - 

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Quanto custa não concluir Angra 3? Uma análise do impacto econômico e energético – COPPE-UFRJ

 


A construção da usina nuclear Angra 3, iniciada em 1984, ainda não foi concluída: o projeto foi interrompido e recomeçado inúmera vezes e ainda faltam 35% da obra, com custo estimado em R$ 23 bilhões para finalização, segundo avaliação recente do BNDES. Mas qual seria o custo para o país desistir do projeto? Na avaliação do professor Aquilino Senra, do Programa de Engenharia Nuclear da Coppe/UFRJ, a pior decisão é não decidir. Aqui, ele detalha os números: Potência prevista: 1.405 MWh; Geração anual estimada: A usina nuclear Angra 3 foi projetada para gerar 12 milhões de MWh, suficiente para abastecer cerca de 4,5; milhões de pessoas (equivalente ao consumo anual das cidades de Brasília e Belo Horizonte); participação na demanda do RJ; a usina nuclear Angra 3 quando em operação poderá atender cerca de 30% da demanda de energia elétrica do estado do Rio de Janeiro, com base no consumo do ano 2024. 


Juntamente com as usinas nucleares Angra I e Angra II o atendimento da demanda será de 72%. Cenário da descontinuação da obra de Angra 3: Custo estimado de desmantelamento da obra realizada será de R$ 21 bilhões, incluindo quitação de financiamentos, penalidades contratuais e custo de oportunidade do capital investido. A manutenção da estrutura existente, enquanto a decisão não é tomada é aproximadamente de R$ 1 bilhão por ano. 

Substituição por outra fonte de energia

No caso da descontinuidade da obra de Angra 3, para atender à crescente demanda de energia elétrica do país serão necessários elevados investimentos para a implantação de uma outra fonte de energia. Essa nova fonte deverá ter a mesma capacidade de geração de energia elétrica que teria a usina nuclear de Angra 3, lembrando que a fonte nuclear é firme (geração constante) com fator de capacidade de aproximadamente de 95%. 

Por exemplo, para gerar a mesma energia de Angra 3 em 40 anos, seria necessário um parque eólico com mais do que o dobro da potência instalada de Angra 3, ou seja 3.926 MWe médios admitindo-se um fator de capacidade da fonte eólica de 34%. A área a ser ocupada seria superior a 500 km² (quase metade da cidade do Rio de Janeiro). O custo médio total estimado é de, aproximadamente, R$22 bilhões, sem incluir o custo com bancos de baterias para garantir energia firme o tempo todo. 

IMPACTO ECONÔMICO: 

Segundo estudo recente da FGV Energia, cada R$ 1 bilhão investido em energia nuclear gera até R$ 3,1 bilhões no PIB e até 22.500 empregos, sendo cerca de 17.500 no Estado do Rio de Janeiro. A proximidade das grandes cidades (São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte) reduz perdas com transmissão e garante maior estabilidade ao Sistema Interligado Nacional (SIN). 

ENERGIA PARA O FUTURO: 

O crescimento da demanda por energia elétrica, impulsionado pelo desenvolvimento econômico e pelo aumento do uso de Inteligência Artificial e datacenters, exige fontes de energia firmes, estáveis e livres de carbono. Pequenos reatores modulares (SMRs) surgem como alternativa para atender a esse tipo de demanda. 

SEGURANÇA E REJEITOS: 

Nesse quesito, o professor Aquilino Senra alerta que, embora a geração de energia nuclear suscite preocupações no público leigo em relação a segurança, ela é uma fonte de energia com rígidos protocolos de segurança. “Angra I está operando há 41 anos e Angra 2 há 21 anos sem quaisquer problemas graves e com bom desempenho operacional. Uma usina nuclear, no processo de licenciamento pré-operacional, envolve uma análise probabilística de segurança que serve para avaliar e quantificar os riscos associados ao seu funcionamento. 

Essa análise considera uma ampla gama de cenários de acidentes, identificando vulnerabilidades no projeto e na operação do reator. Quanto aos rejeitos radioativos, eles são inicialmente guardados nas piscinas de combustível nuclear usado, por um período superior a 10 anos para resfriamento e posteriormente são guardados em unidades de armazenamento a seco. São cilindros de aço e concreto, onde o material é armazenado, com hélio, um gás inerte, para evitar corrosão, e que ficam ao lado das usinas nucleares”. 

Angra I opera há 41 anos e Angra 2 há 21, sem incidentes graves. Caso o Brasil construísse e pusesse em operação as oito usinas previstas em seu programa nuclear, os rejeitos, que resultassem de décadas de operação, poderiam ser vitrificados e armazenados em depósito subterrâneo, isolado por concreto, em local afastado do lençol freático e com estabilidade geológica, em uma área tão pequena quanto de um campo de futebol. 

CONCLUSÃO

Concluir Angra 3: Investimento de R$ 23 bilhões, energia firme para 4,5 milhões de pessoas, 30% da demanda do Estado do Rio atendida, menor área ocupada e geração contínua sem emissões de gases de efeito estufa. Desistir de Angra 3: Custo direto de R$ 21 bilhões, além da necessidade de substituir a fonte nuclear por fontes de energia livres de carbono, como por exemplo um parque eólico de 3.926 MWe, ocupando uma área de 520 km² e com custo similar (R$ 22 bilhões). 

RESULTADOS DOS NÚMEROS 

Financeiramente e energeticamente, concluir Angra 3 é mais vantajoso. Abandonar a usina implicaria alto custo de descomissionamento e exigiria soluções complexas e dispendiosas para gerar a mesma quantidade de energia, com impacto territorial e intermitência de produção, caso a alternativa escolhida seja a de uma fonte de energia renovável. 

(FOTO: USINA -CENTRAL NUCLEAR, AUTOR MARCOS MICHAEL) – FOTO AQUILINO: DO BLOG - 

REPORTAGEM PUBLICADA PELO INSTITUTO ALBERTO LUIZ COIMBRA DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA DE ENGENHARIA, DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO – COPPE – UFRJ - EM 25/08/2025 – 

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Porque o governo não deve concluir Angra 3, por Heitor Scalambrini

 


“O setor nuclear brasileiro tem em sua trajetória um passado nebuloso, repleto de episódios controversos. Desde o contrabando e exportação de areias monazíticas do litoral capixaba/baiano/fluminense, passando pela cabulosa venda de urânio para o Iraque; o encerramento das atividades do Programa do Tório na UFMG, em 1975; o legado de morte e contaminação provocados pela Nuclemon (antiga estatal) na extração de minerais radioativos e de terras raras; o secretismo do Programa Nuclear Paralelo/Clandestino; a tragédia do Césio-137, em Goiânia; o enorme passivo ambiental no Planalto de Poços de Caldas/MG e em Caetité/BA; a falta de transparência e de controle social; escândalos com o recebimento de propinas milionárias pelos gestores do setor; roubos e sumiços de radiofármacos e de fontes radioativas, até a omissão de informações cruciais para a população sobre graves ocorrências (por exemplo: vazamentos de água radioativa) nas usinas nucleares, em Angra dos Reis (RJ). 

Esses e outros episódios aprofundaram o crescente descrédito sobre o desempenho da indústria nuclear, com seus gestores privilegiados com supersalários. O desgaste sobressaiu, diante da atual crise financeira e gestão temerária, que acabou levando a uma greve inusitada dos trabalhadores da Eletronuclear, em 2025. 

No caso específico de Angra 3 (construção iniciada em 1984), o governo não deve avançar na sua conclusão por razões diversas, reunindo desafios nas áreas tecnológica, econômica, ambiental, social, além dos riscos associados a esta forma de produzir energia elétrica. Angra 3 é o resultado do Acordo Nuclear assinado em 1974 com a Alemanha, em plena ditadura militar, e que previa a construção de oito usinas, entre outras ações relacionadas ao ciclo do combustível nuclear. Deste acordo somente Angra 2 foi construída.

Também havia o interesse bélico de construir a bomba atômica, projeto tocado em sigilo pela ditadura militar, cuja intenção ficou evidenciado pela negativa, em 1968, quando o Brasil se recusou a assinar o Tratado de Não Proliferação Nuclear, só o fazendo no final dos anos 90. 

Um dos aspectos a ser levado em conta para de vez interromper a construção de Angra 3 é o custo da energia nuclear muito mais cara (4 a 6 vezes) que as fontes renováveis. Segundo estudos recentes do BNDES (não acessível), a conclusão desta usina representaria um gasto de 23,9 bilhões de reais, com início de operação em 2031, e com custo da energia entre R$ 778 – R$ 817 por MWh. Este valor seria repassado para todos os consumidores, o que representaria um adicional na já exorbitante conta de energia. Existe também uma dúvida, se no cálculo da energia está incluído os custos de armazenamento dos resíduos (lixo atômico) e do descomissionamento da usina. 

Os riscos da energia nuclear incluem o descarte/armazenamento seguro dos resíduos de alta radioatividade, que continuam a irradiar por milhares de anos, constituindo um grave legado para as gerações futuras, já que não existe uma solução definitiva e duradoura para o armazenamento de tais substâncias. Além da possibilidade de acidentes nas usinas, com a radiação contaminando solo, ar e água, exigindo evacuação de grandes contingentes populacionais, causando doenças graves (câncer, leucemia). Os impactos sociais, com o descarte inadequado do lixo nuclear, constituem um perigo constante para o meio ambiente e a saúde humana/animal. Acidentes importantes já ocorreram em usinas nucleoelétricas, o de Chernobyl (Ucrânia-1986), o de Fukushima (Japão-2011), só para citar os que tiveram maior publicidade. Além do maior acidente radiológico do mundo em Goiânia (Brasil-1987), mostraram os perigos da liberação de substâncias radioativas. 

Outra questão relevante é a tecnologia antiga e ultrapassada de muitos equipamentos essenciais ao funcionamento dessa usina que já foram adquiridos desde a década de 80 do século passado. A obra, que já dura 45 anos, gasta R$ 1 bilhão por ano (R$ 800 milhões para pagar dívidas ao BNDES e CEF; R$ 200 milhões em manutenção de equipamentos e caducas estruturas). Os grandes e graves eventos ocorridos com usinas nucleares introduziram maior segurança nas usinas construídas posteriormente aos acidentes, todavia não impedindo que acidentes possam ocorrer. Uma máxima aceita é “não existe risco zero em engenharia”. 

Afirmar que é uma fonte “limpa” é uma grande inverdade. Como se houvesse na natureza qualquer tipo de energia que não contamina, libera produtos tóxicos, polui, agride o meio ambiente e as pessoas. Não existe fonte de energia “limpa”. Só na propaganda mentirosa da Eletronuclear. 

A interrupção e construção de usinas nucleares no país não impedirá a aquisição de conhecimentos estratégicos na área nuclear, pois é nas universidades e centros de pesquisas que tais estudos são realizados, e não nas compras “turnkey” dos equipamentos que compõem uma usina nuclear. 

Na discussão sobre se o Brasil avança na nuclearização de seu território com a conclusão de Angra 3, a mediocridade e a falácia dos argumentos pró nuclear andam à solta. Nada indica que usinas nucleares sejam necessárias ao país. As fontes renováveis constituem a espinha dorsal da matriz elétrica, e podem garantir a segurança e sustentabilidade energética em um contexto em que a diversidade e complementaridade andem juntas. Para um contingente cada vez maior da sociedade brasileira a energia nuclear é vista como uma alternativa de alto risco, cara e perigosa, em um país com extraordinário potencial de fontes renováveis. 

Logo, neste ano que inicia, basta coragem ao governo federal para enfrentar os lobbies e interromper definitivamente a obra de Angra 3, e, de maneira clara, deixar uma mensagem ao povo brasileiro e ao mundo de que o Brasil não irá nuclearizar seu território".  

AUTOR RESPONSÁVEL – HEITOR SCALAMBRINI - Professor associado aposentado da Universidade Federal de Pernambuco, graduado em Física pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP/SP), mestrado em Ciências e Tecnologias Nucleares na Universidade Federal de Pernambuco (DEN/UFPE) e doutorado em Energética, na Universidade de Marselha/Aix - Centro de Estudos de Cadarache/Comissariado de   Energia Atômica (CEA)-França. 

(FOTO – ACERVO PESSOAL) – 

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quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

No sistema ONU, entidade nuclear brasileira (Abdan) fará a diferença entre tecnologia civil e de contextos militares e bélicos

 


“Em um cenário internacional marcado por conflitos e tensões geopolíticas, a Associação Brasileira para o Desenvolvimento das Atividades Nucleares (ABDAN) tem papel fundamental na comunicação técnica, baseada em evidências sobre o uso pacífico da energia nuclear”, comentou Celso Cunha, presidente da entidade, que acaba de ser oficialmente admitida como organização observadora no processo da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC). “É essencial diferenciar, de forma clara, a tecnologia nuclear civil (amplamente regulada, monitorada e voltada à geração de energia, saúde e pesquisa) de contextos militares ou bélicos”, reiterou Cunha sobre a importância do papel pacifico da energia nuclear. 

O reconhecimento da ABDAN foi formalizado durante a 30ª Conferência das Partes (COP30) e comunicado por meio de carta oficial da Secretaria da ONU, que dá as boas-vindas à entidade brasileira ao sistema multilateral de governança climática. Com o novo status, a ABDAN passa a integrar, de forma permanente, o grupo de organizações habilitadas a acompanhar e participar das discussões internacionais sobre clima, energia e desenvolvimento sustentável. A admissão confere à entidade o direito de indicar representantes para as sessões da UNFCCC, submeter contribuições técnicas aos órgãos negociadores, participar de processos seletivos para eventos paralelos e exposições oficiais, além de receber informações estratégicas sobre o andamento das negociações climáticas globais. 

Segundo Cunha, o credenciamento amplia a atuação internacional da ABDAN e fortalece a presença brasileira no debate sobre transição energética, especialmente no que diz respeito às fontes de energia de baixo carbono. “A carta enviada pela UNFCCC destaca que a admissão como observadora reflete o reconhecimento institucional da contribuição técnica das organizações no processo climático e manifesta expectativa de engajamento ativo da entidade nas próximas conferências e instâncias do sistema ONU”.

Para o presidente da ABDAN, o reconhecimento consolida um movimento estratégico da associação no cenário internacional: “reforça o papel da energia nuclear nas discussões globais sobre descarbonização, segurança energética e sustentabilidade de longo prazo, além de ampliar a capacidade de diálogo técnico do Brasil com governos, organismos multilaterais e formadores de políticas públicas”. 

A ABDAN já esteve presente na COP30 e, a partir de agora, passa a atuar de forma mais estruturada e contínua no ambiente da UNFCCC, acompanhando negociações, contribuindo com conhecimento técnico e ampliando a interlocução do setor nuclear brasileiro com a agenda climática global. A carta da ONU encerra o comunicado reafirmando que a Secretaria da UNFCCC “acolhe e aguarda o engajamento da organização no processo climático”, marcando oficialmente a entrada da ABDAN no seleto grupo de observadores permanentes do sistema. 

Quais os maiores desafios para a ABDAN? “É qualificar o debate público e institucional sobre energia nuclear no Brasil, especialmente em um contexto de transição energética acelerada e de forte pressão por soluções de baixo carbono. Ainda há no país uma lacuna significativa entre o conhecimento técnico disponível e a percepção da sociedade e de parte dos formuladores de políticas públicas sobre o papel da tecnologia nuclear”.  Outro desafio central, acrescentou, é integrar o setor nuclear brasileiro de forma mais estruturada às agendas globais de clima, energia e desenvolvimento sustentável. 

“O reconhecimento da ABDAN como organização observadora da UNFCCC é um passo importante nesse sentido, pois amplia a capacidade de diálogo técnico do Brasil nos fóruns multilaterais e reforça a necessidade de alinhar o setor nuclear às melhores práticas internacionais em governança, segurança e sustentabilidade”, disse. 

Além disso, afirmou, a ABDAN atua para promover previsibilidade regulatória, segurança jurídica e planejamento de longo prazo, condições essenciais para investimentos em um setor intensivo em capital, tecnologia e conhecimento especializado. “A atuação da ABDAN passa por traduzir temas complexos para a sociedade, reforçando conceitos como segurança nuclear, cooperação internacional, fiscalização por organismos multilaterais e os rígidos padrões adotados pelo setor civil. A participação da entidade no ambiente da ONU, por meio da UNFCCC, fortalece essa credibilidade institucional e amplia sua capacidade de diálogo com diferentes públicos”. 

E completou: “Ao contribuir com informação qualificada, a ABDAN ajuda a reduzir o medo e a desinformação, promovendo uma compreensão mais equilibrada sobre os riscos reais, os benefícios comprovados e o papel estratégico da energia nuclear na segurança energética, na descarbonização e na saúde pública”. 

(FOTO: ACERVO ABDAN) – (COM ASCOM Larissa Haddock Lobo) – 

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segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Brasil pede apoio à Arábia Saudita para mapear minerais estratégicos no subsolo do país, 70% até hoje desconhecidos

 


Rio de Janeiro, 12/01/2026 - A Arábia Saudita poderá apoiar projetos de mapeamento do subsolo brasileiro, 70% ainda desconhecidos. O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, participou, nesta segunda-feira (12/1), de reunião na sede do Ministério da Indústria e Recursos Minerais, em Riad, com o ministro saudita Bandar Al-Khorayef. Silveira quer contar com o Fundo de Investimento Público da Arábia Saudita (PIF) para ampliar a cooperação estratégica no setor mineral. Em 1989 o Brasil só conhecia 10% do subsolo. Leia abaixo.

Silveira enfatizou ainda o elevado potencial geológico brasileiro: apenas cerca de 30% do subsolo nacional está mapeado. Ainda assim, o Brasil já se destaca como a segunda maior reserva mundial de terras raras e a sétima maior reserva de urânio, o que, segundo ele, “reforça o otimismo do governo em relação à ampliação de parcerias internacionais nos próximos anos”.

Nesse contexto, Alexandre Silveira manifestou o interesse em receber representantes da empresa Manara no Brasil, para avaliar conjuntamente oportunidades de ampliação de investimentos em projetos minerais estratégicos. O fundo saudita Manara Minerals é sócio da Vale S.A. na Vale Base Metals (VBM) – unidade responsável pela produção de cobre e níquel, minerais críticos e estratégicos para a transição energética.

Durante o encontro, o ministro Alexandre Silveira apresentou os avanços na governança do setor mineral brasileiro, com destaque para o Conselho Nacional de Política Mineral (CNPM), instância que reúne 18 ministérios e atua no assessoramento direto ao presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, na formulação da política mineral do país. Segundo o ministro, o CNPM tem papel central no aprimoramento do processo de licenciamento, redução da burocracia e no fortalecimento da coordenação institucional, promovendo maior previsibilidade, segurança estrutural e estabilidade para os investimentos.

“Mesmo sendo uma federação composta por diferentes estados, o Brasil tem avançado na unificação de linguagem regulatória e institucional, sempre preservando princípios fundamentais como a estabilidade legal, regulatória e política, além da segurança jurídica necessária para investimentos de longo prazo”, ressaltou Silveira.

Na agenda de investimentos, Alexandre Silveira destacou o papel das empresas brasileiras do setor mineral e o trabalho do Governo do Brasil para destravar projetos estratégicos de minério de ferro de alta redução e de cobre, com foco nos estados do Pará e de Minas Gerais, ampliando a competitividade do país no mercado internacional.

As partes acordaram a criação de um grupo de trabalho bilateral, com reuniões regulares, inclusive em formato virtual, para estudar iniciativas que possam ser desenvolvidas de maneira conjunta e dar maior eficiência à cooperação entre os dois países.

TRANSFORMAÇÃO MINERAL

O ministro de Minas e Energia brasileiro também reforçou a importância de os parceiros sauditas investirem na cadeia de transformação mineral no Brasil, agregando valor à produção nacional, promovendo industrialização, geração de empregos e desenvolvimento tecnológico. Silveira destacou que, em um cenário global no qual os minerais críticos se consolidam como o novo petróleo, a integração entre mineração, indústria e energia torna-se estratégica – experiência observada pelo ministro em visitas às empresas sauditas em outras oportunidades.

RETROSPECTIVA – MAPEAMENTO EM 1989

“Por incrível que pareça o Governo brasileiro não tem a menor ideia da dimensão das reservas minerais do país, pois dispõe de mapeamento geológico confiável sobre apenas 10% do território nacional. Essa avaliação estatística - da nossa ignorância sobre as riquezas de 90% do subsolo nacional – é da Sociedade Brasileira de Geoquímica (SBGq). Essa ignorância custou ao Brasi, em 1987, US$ 3,8 bilhões com importações de cobalto, platina, titânio, entre outros minerais, de acordo com o presidente da SBGq, Dorival Correia Bruni. Em mapeamento geológico, o Brasil perde para países africanos, como a Nigéria, Zaire e Zâmbia, e latinos americanos como a Argentina, Chile e Venezuela, segundo a SBGq.  Em 1989, Dorival Correia Bruni dizia que, para reverter esse quadro, o Brasil teria que aplicar RS$ 10 bilhões em programas de exploração mineral, mas investia apenas US$ 100 milhões, incluindo os estudos para localizar petróleo e gás”.

(TRECHO DA ENTREVISTA EXCLUSIVA QUE FIZ COM O PRESIDENTE DA SBGq, PARA A FOLHA DE S. PAULO, PUBLICADA EM 3/11/1989, REPUBLICADA EM MEU LIVRO BRASIL A BOMBA OCULTA, 1993 - EDITORA GRYPHUS – E HISTÓRIAS SECRETAS DO BRASIL NUCLEAR - WVA – 1997).

FOTO: MME –

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quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Morre Rex Nazaré, "pai da bomba atômica", por ter atuado no programa militar paralelo que levou o Brasil a dominar o ciclo do combustível nuclear

 


Conhecido como “o pai da bomba atômica”, por sua trajetória e participação no programa nuclear paralelo (militar) brasileiro, o físico Rex Nazaré, que presidiu a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) durante 37 anos, morreu ontem (6/1), levando segredos e histórias dos governos militares. Discreto, respeitado por sua vida marcada pela ética, publicamente, Rex Nazaré se dizia contra as armas nucleares. “O Brasil já sabe fazer a bomba atômica há muito tempo, mas acho que não deve fazer. Soberania a gente não compra. A gente conquista”, disse em 2018. 

Ele nasceu na Gamboa no dia 5 de julho de 1938. A cremação está marcada para sexta-feira, 9 de janeiro, a partir de 9 horas, no Crematório do Memorial do Carmo, no Rio de Janeiro. 


Teve participação ativa nas pesquisas que levaram o Brasil a dominar o ciclo do enriquecimento de urânio, ente as décadas de 70 e 80.  Foi um dos titulares da conta secreta Delta 3, com verbas destinadas às pesquisas nucleares. Entrevistado por mim em 1989, negou o fato, confirmado com documentos e extratos do Banco do Brasil. As apurações nada descobriram contra Rex enquanto homem forte do programa paralelo, mantenedor da Delta 3.  Durante o acidente com uma cápsula de césio 137, em Goiânia, em 1987, Rex enfrentou duras críticas sobre as falhas na fiscalização que resultaram no maior acidente radiológico do mundo, com quatro mortes imediatas. 

O então presidente da República Fernando Collor, empossado em 1990, que buscava os holofotes a todo o custo, desagradou militares e civis que atuavam no setor nuclear brasileiro, que passou a ser colocado como secundário “para suprir as deficiências energéticas do País”. Dois anos depois, Collor colocou uma pá de cal em um poço aberto na Serra do Cachimbo, no Pará – cuja existência foi revelada pela jornalista Elvira Lobato, para a Folha de S. Paulo - e demitiu Rex Nazaré da presidência da CNEN. Rex sempre negou que o poço em Cachimbo teria o objetivo a realização de testes nucleares. 

TRAJETÓRIA - 

Bacharel e licenciado em Física pela Universidade do Estado da Guanabara (UEG), atual Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), especialista em Engenharia Nuclear pelo Instituto Militar de Engenharia (IME), em 1963. Realizou estágio no Instituto Federal de Tecnologia de Zurique (ETH) e doutorado em Física pela Universidade de Paris (Sorbonne), em 1968. Na CNEN tornou-se pesquisador a partir de 1965, ano da entrada em operação do reator Argonauta. Foi chefe da Seção de Física de Fissão da CNEN após o retorno de seu doutorado. 

Teve papel decisivo na criação do Instituto de Radioproteção e Dosimetria (IRD/ANSN), sendo seu primeiro diretor, entre 1972 e 1975, e consolidando a importância da radioproteção no país. Atuou diretamente na captação de recursos, na escolha do terreno e na viabilização da construção do instituto. “Às vésperas da inauguração do IRD, mesmo após danos estruturais causados por vendaval, participou de uma reconstrução que permitiu manter a data de inauguração, proferindo a célebre frase “o entusiasmo supera nossas deficiências”. 

Tornou-se diretor da Finep, na diretoria de projetos estratégicos nacionais, diretor de Tecnologia da Faperj. Ocupou posições como Membro do Conselho de Administração da Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM), chefe do Departamento de Tecnologia da ABIN, assessor especial do Ministro de Estado Chefe do Gabinete de Segurança Institucional, colaborador da Presidência da Eletronuclear.” Rex recebeu muitas homenagens ao longo de sua trajetória. Foi professor em cursos de pós-graduação, palestrante muito requisitado e conferencista emérito da Escola Superior de Guerra (ESG). Em 2014 teve sua história transformada em livro, por Débora Motta, edição Faperj, na obra Uma vida dedicada à energia nuclear. As informações sobre a sua trajetória de Rex Nazaré foram divulgadas pela CNEN. 

(Fotos: Faperj e biblioteca da Presidência da República) - Contribua com o blog – sete anos de jornalismo independente – colabore via pix: 21 99601-5849 – contato: malheiros.tania@gmail.com    

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Angra 2: mais de uma centena de estrangeiros e de mil brasileiros na troca do combustível nuclear

 


Para a troca do combustível (urânio enriquecido) e a execução de cinco mil atividades, em Angra 2, a Eletronuclear está mobilizando cerca de 1.200 profissionais, dos quais 1.090 brasileiros e 110 especialistas estrangeiros.  A 21ª parada da usina nuclear está programada começar em meados deste mês (16/1), como o blog anunciou em novembro. Além do reabastecimento do núcleo do reator, os técnicos farão a revisão do gerador principal e a substituição do disjuntor principal do gerador, intervenções de alta complexidade estratégica, de procedência norte-americana. 

A usina deve ficar parada cerca de 50 dias para o reabastecimento do combustível, produzido pela estatal Indústrias Nucleares do Brasil (INB) que, há cerca de cinco anos custava à Eletronuclear cerca de R$ 300 milhões. 


O urânio extraído da mina de Caetité, na Bahia, é transformado em yellowcake (pó ou pasta amarela) e de lá segue para a Rússia, onde passa por outras etapas em empresa estatal daquele país: hexafluoreto (gás) e enriquecimento. Assim, retorna ao Brasil para ser transformado em pastilhas que serão inseridas em varetas de zircaloy na Fábrica de Combustível Nuclear, na INB, em Resende (RJ), para depois segurem para Angra dos Reis. 

A parada ocorre em regime contínuo, 24 horas por dia, com equipes organizadas em turnos de 12 horas, para garantir a continuidade dos trabalhos. Segundo a Eletronucear, a os serviços preparatórios já estão em andamento, incluindo a montagem do canteiro de apoio, com instalação de contêineres, oficinas e sistemas elétricos provisórios, garantindo a infraestrutura necessária para a execução da parada. 

“As paradas de reabastecimento são procedimentos de rotina e ocorrem, aproximadamente, a cada 13 meses (duração de um ciclo de operação). São programadas com, pelo menos, um ano de antecedência, levando-se em consideração a duração do combustível nuclear e as necessidades do Sistema Interligado Nacional (SIN). Todo o processo é coordenado com o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) e, enquanto a unidade permanecer desligada, o ONS despachará a energia de outras usinas do SIN, de forma a garantir um abastecimento seguro de eletricidade para o país”, informou o superintendente de Angra 2, Fabiano Portugal. 

EMPRESA VIVE GRAVE CRISE - 

A situação financeira da Eletronuclear tende a se agravar com esta parada de Angra 2, que envolve a contratação de mais de mil trabalhadores dos quais os mais de uma centena de estrangeiros, além da falta de recursos já mencionada várias vezes pelo Ministério de Minas e Energia (MME). Para evitar problemas com empregados, a Eletronuclear fez um acordo bem satisfatório com os trabalhadores anistiando inclusive os dias parados na greve do ano passado. Um novo acordo está revisto para ocorreu em abril. 


Além do desafio financeiro a Eletronuclear enfrenta outra questão: a manutenção dos elementos combustíveis usados (irradiados) que sairão do reator de Angra 2 para armazenados nas Unidades de Armazenamento a Seco (UAS) da central nuclear. E ainda a construção do Centena, a cargo da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), local para abrigar os rejeitos radioativos de baixa e média atividade, conforme reportagens publicadas várias vezes pelo Blog. As piscinas que armazenam os rejeitos dentro das usinas passaram por reformas no ano passado, atendendo a determinação do Tribunal de Contas da União (TCU). 

UM POUCO DA HISTÓRIA - 

Angra 2 faz parte do Acordo Nuclear Brasil-Alemanha, assinado pelo presidente Ernesto Geisel, em 27 de junho de 1975. A usina começou a ser construída em 1981, mas teve o ritmo das obras desacelerado a partir de 1983, parando de vez em 1986. A unidade foi retomada no final de 1994 e concluída em 2000, para entrar em operação em 2001. A usina conta com um reator de água pressurizada (PWR) de tecnologia alemã da Siemwns/KWU (hoje Areva NP). O custo da produção da usina não costuma ser revelado, nem as despesas com as paradas por problemas técnicos, muito menos, com a troca de combustível. Com potência de 1.350 megawatts, produz o equivalente a 20% da energia elétrica consumida na cidade do Rio de Janeiro. 

(FOTO: ELETRONUCLEAR e INB) - 

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