segunda-feira, 24 de março de 2025

Neste mês, em homenagem às "Mulheres atômicas", por Olga Simbalista

 


Neste mês de homenagens às mulheres, a engenheira eletricista e nuclear, Olga Simbalista, relembra a importância de mulheres na energia nuclear, carinhosamente chamadas de “mulheres atômicas”, que entraram para a História com realizações das mais relevantes. Membro do Board of Directors of the American Nuclerar Society, com mestrado em energia nuclear, Olga Simbalista conta um pouco a sua trajetória e preconceitos que enfrentou ao tentar integrar a parte de universo tão masculino. Aqui, traça um breve histórico das “mulheres atômicas”. 

A engenheira nuclear revisita casos marcantes como o da professora de Sócrates, considerada “prostituta”, porque gostava de filosofar entre os homens; o "pouco caso" de acadêmicos a mulheres que se destacavam; o apoio de umas às outras; a rede de difamação e muito mais.  

O alemão Jonathan Tennenbaum, doutor em matemática pela Universidade da Califórnia e atualmente trabalhando em Berlim, como consultor independente em ciência e política internacional, e autor do livro “Energia Nuclear, Uma Tecnologia Feminina”, onde busquei minha grande inspiração para este trabalho, escreveu na introdução de seu Livro o seguinte texto: “Dentre as produções científicas e tecnológicas mais significativas da história da humanidade, não há nenhuma em que as mulheres tenham desempenhado um papel tão relevante e multifacetado, como no desenvolvimento da energia nuclear. Devemos agradecer o nascimento da energia nuclear a muitas corajosas mulheres atômicas que se decidiram por uma vida de pesquisas, a despeito de todos os preconceitos e resistências, em particular a três que foram responsáveis por descobertas que mudaram a face do Planeta como Marie Curie, Lise Meitner e Ida Noddack”. 

Mas o que tornou tão relevante, também, o trabalho das mulheres, neste setor, foi a quantidade delas, envolvidas, desde então, e até os dias de hoje, pois na história antiga tivemos algumas com trabalhos científicos de elevadas relevâncias, mas pouco difundidas, por serem, talvez, andorinhas únicas, não merecedoras de seus verões, como, por exemplo: 

Temistocléia, a mestra de Pitágoras, uma matemática, que lhe ensinou geometria, aritmética e princípios de ética. Sacerdotisa e filósofa, dedicou-se a sempre ensinar a quem quisesse aprender, com pedagogia e didática extremamente eficientes, nos templos gregos, entre sacerdotes e sacerdotisas, dedicados não apenas a cultos religiosos; o templo de Delphi, o mais conhecido como o centro da Terra, servia também como universidade. Pitágoras admirava muito o seu conhecimento e sabedoria, servindo tal como motivo para, mais tarde, aceitar mulheres na sua escola; Temistocléia é também mencionada por Aristoxeno e Diógenes Laestios. 

Aspásia de Mileto, outra pouco conhecida por aqueles que conhecem Sócrates, de quem foi professora... Chegou a admitir que a chamassem de “prostituta”, apenas pelo prazer de filosofar entre os homens... Platão a menciona como parte dos círculos intelectuais e políticos e especialistas em retórica, talvez devido a sua origem jônica. Consta, ainda, que teria contribuido para a redação da oração fúnebre de Péricles, em 430 AC. Tal Oração da Igualdade, inspirada na democracia, ecoaria, mais tarde, no discurso de Abraham Lincoln em Gettysburg, de John Kennedy em Berlim Ocidental e embasaria o movimento de emancipação feminina.

Mas falemos das "mulheres atômicas". As descobertas das mulheres nos campos das radiações e nuclear não teriam acontecido sem as pavimentações de três gênios anteriores:  Dimitri Mendeleiev, Wilhelm Röntgen e Henri  Becquerel, fundamentais para as evoluções da Química e da Física. Seus trabalhos não apenas revolucionaram a compreensão dos elementos químicos e da radiação, mas também abriram portas para futuras gerações de cientistas, incluindo essas mulheres que se tornaram figuras proeminentes nas ciências.  A interconexão entre suas descobertas exemplifica como a ciência avança através da colaboração e da construção sobre o conhecimento existente. 

DMITRI MENDELEIEV - 

Nasceu na cidade de Tobolsk, na Sibéria, e só conseguiu cursar o Instituto Pedagógico Central, formador de professores, em São Petesburgo, pois tanto as escolas de engenharia de lá, como as de Moscou não admitiam alunos de outras regiões do país. Em 1859, conseguiu uma verba do governo para estudar no exterior por dois anos, indo para  Paris e, no ano seguinte, para a Alemanha, onde transformou um pequeno apartamento em laboratório improvisado. Trabalhando sozinho, fez importantes descobertas sobre estruturas atômicasvalência e propriedades dos gases

Em 1869, enquanto escrevia seu livro de química inorgânica, Mendeleiev organizou os elementos na forma da tabela periódica atual para cada um dos 63 elementos conhecidos na época. A carta continha o símbolo do elemento, a massa atômica e as suas propriedades químicas e físicas. Colocando-a numa mesa, organizando-a em ordem crescente de massas atômicas e agrupando em elementos de propriedades semelhantes. Tinha então acabado de formar a tabela periódica. Esta tabela de Mendeleiev tinha vantagens sobre outras antes apresentadas, pois deixando espaços vazios, antevia a descoberta de três novos elementos, o que se confirmou, aumentando sua reputação e tornando-se base  da atual tabela periódica, que além de catalogar 118 elementos conhecidos, fornece inúmeras informações sobre o comportamento de cada um. 

WILHELM ROETINGEN - 

Nascido em 1845, em Munique, foi físico e engenheiro mecânico. Em 9 e novembro de 1895, produziu e detectou Radiação eletromagnética em ondas correspondentes aos atualmente chamados raios-x. Por esta descoberta recebeu seu primeiro Nobel de Física, em 1901. Em reconhecimento a seus feitos científicos, a União Internacional de Química Pura e Aplicada nomeou o elemento químico 111 de roentgênio. 

Gostava de mecânica, criando intrincados mecanismos, algo pelo qual manteve a prática na vida adulta. Em 1862, entrou na escola técnica de Utrecht, de onde foi injustamente expulso por ter feito uma caricatura de um de seus professores, o que na verdade fora obra de outro colega...

Ingressou no Instituto Politécnico de Zurique e passou a cursar engenharia mecânica, onde em 1869, obteve o título de PhD. Teve o primeiro trabalho publicado um ano depois. E em 1900, aceitou a cadeira de física na Universidade de Munique.

Em 1895, Wilhelm testava equipamentos desenvolvidos por seus colegas e, em novembro, colocando uma fina camada de alumínio para permitir que raios catódicos pudessem sair de um tubo e também uma cobertura de papelão para proteger o alumínio de danos causados pelo campo eletrostático. Ele sabia que a cobertura de papelão evitava que a luz escapasse, mas observou que os raios invisíveis causavam um efeito fluorescente em uma pequena tela de papelão pintada com platino cianeto de bário, quando colocado próximo à janela alumínio, percebendo depois que uma parede de vidro muito mais espessa do que a do tubo, também poderia causar esse efeito fluorescente. Ele então descobriu que o brilho vinha da tela de platino cianeto de bário que ele pretendia usar em seguida, sem saber que tipo de raio estaria por trás do brilho. 

No dia 8 de novembro, ele repetiu a experiência e continuou a detectar os raios, que apelidou de "raios-X" para o desconhecido. Em vários idiomas, os novos raios levariam seu nome. Posteriormente, enquanto investigava a capacidade de vários materiais de deter os raios, colocou um pequeno pedaço de chumbo e viu, então, a primeira imagem radiográfica do seu próprio esqueleto cintilando na tela de platino cianeto de bário. 

Tal efeito era usado com frequência no Laboratório dos Médicos do Livro de Thomas Mann, A Montanha Mágica e, na ocasião, eu considerava um horror, já que meus conhecimentos sobre radiação eram limitados. 

O artigo original "Sobre uma nova espécie de Raios" foi publicado 50 dias depois, em 28 de dezembro de 1895 e Wilhelm recebeu o título de Doutor Honorário em Medicina, da Universidade de Würzburgo sendo atualmente considerado o pai da Radiologia de Diagnóstico. Devido à sua descoberta, Röntgen foi laureado com o primeiro Nobel de Física, em 1901. 

O prêmio foi concedido "em reconhecimento aos extraordinários serviços que à descoberta dos notáveis raios que costumam levar seu nome". Röntgen doou a recompensa monetária à sua universidade, convicto de que a ciência deve estar ao serviço da humanidade e não do lucro. À semelhança da escola científica alemã da época, e, da mesma forma que Pierre Curie faria vários anos mais tarde, rejeitou registrar qualquer patente relacionada à sua descoberta. 

Henri Becquerel - 

Antoine-Henri Becquerel nasceu em Paris em 1852 e foi o físico francês responsável pelos estudos que levaram à descoberta do fenômeno da radioatividade

Estudou na  Escola Politécnica e foi engenheiro de pontes e calçadas, tendo ensinado física nesta mesma Escola e no Museu Nacional de História Natural. Continuou os trabalhos dos seus pai e avô, descobrindo em 1896 a radioatividade dos sais de urânio. espontaneamente, sem a necessidade de uma fonte externa de energia, desafiando as noções convencionais da física da época. 

Esse fenômeno, que ele denominou de "radioatividade", não só trouxe à luz novas características da matéria, mas também deu origem a um campo de pesquisa inteiramente novo.  A contribuição de Becquerel foi reconhecida internacionalmente, e foi fundamental para futuros estudos sobre elementos radioativos e suas interações. Essa nova área de pesquisa não apenas impactou a física, mas também a medicina e a química, levando ao desenvolvimento de tratamentos para câncer e a exploração de energia nuclear. 

Vamos nos transportar, agora, ao objeto principal do nosso texto, qual seja, as Mulheres Atômicas, começando com um breve resumo das três principais delas: 


Marie Curie, que foi a responsável pelo entendimento das diversas formas de radiação e da descoberta dois elementos radioativos, rádio e polônio, cujos espaços já existiam na tabela periódica dos elementos químicos de Mendeleiev e diversas outras descobertas em seu acanhado laboratório, resultando em dois Prêmios Nobel: de Física, juntamente com seu marido Pierre Curie e Henri Becquerel; e o de Química, desta feita sozinha, o que não houvera acontecido antes, muito menos por uma mulher; 



Lise Meitner, conhecida nos círculos dos iniciados como a Mãe da Bomba Atômica, por ser a grande descobridora da teoria da fissão nuclear, quando exilada da Alemanha Nazista, tendo enviado suas conclusões para o seu companheiro de pesquisas, Otto Hahn, que posteriormente recebeu o Prêmio Nobel por tal descoberta, já que Lise era judia. 

Ida Noddak e seu marido, que descobriram o elemento que seria o futuro Tecnício, criadora da “Função Universal da Matéria” e da hipótese de o núcleo do urânio ser um emissor de radiação de enorme duração, ou quase infinita; e 

Marie Sklodowska-Curie, frequentemente conhecida apenas como Marie Curie, nasceu em 7 de novembro de 1867, em Varsóvia, na Polônia, então parte do Império Russo. Filha de professores, Marie cresceu em um ambiente que valorizava a educação e a curiosidade científica e desde cedo, demonstrou uma aptidão extraordinária para os estudos, mas enfrentou enormes desafios por ser mulher em uma sociedade profundamente patriarcal, uma vez que as universidades polonesas eram inacessíveis a elas, o que a levou a se juntar a uma rede de ensino clandestina, conhecida como “Universidade Flutuante”.

Em busca de um futuro melhor e de educação superior, Marie mudou-se para Paris em 1891, ao se matricular na Universidade de Sorbonne e nos anos seguintes, se destacou em física e matemática, formando-se com distinção. Foi lá que conheceu Pierre Curie, seu futuro marido e colaborador. Adotando seu sobrenome, o casal se uniu não apenas pelo amor, mas pela paixão pela ciência e, juntos, realizaram pesquisas inovadoras no campo da radioatividade, termo cunhado por Marie.

Marie Curie fez descobertas fundamentais que alteraram para sempre o entendimento da física e da química. Em 1898, ela e Pierre descobriram dois novos elementos químicos: polônio (nomeado em homenagem à Polônia) e rádio. Esses elementos demonstraram propriedades radioativas excepcionais. Em 1903, Marie e Pierre, juntamente com Henri Becquerel, foram agraciados com o Prêmio Nobel de Física, reconhecimento que a impulsionou a se estabelecer como uma cientista respeitada, embora ainda enfrentasse o preconceito de gênero. 

Além de suas realizações científicas, Marie Curie estabeleceu um legado duradouro em termos de luta pela igualdade de gênero na ciência. Ela desafiou as normas da época, tornando-se a primeira mulher a lecionar na Sorbonne e a primeira mulher a ser aceita membro da Academia Francesa de Ciências. Seu trabalho não só abriu portas para futuras gerações de mulheres no campo científico, mas também desafiou estereótipos, mostrando que a determinação e a capacidade não têm gênero... Não é demais lembrar que, em 1907, o “Rei” da Ciência Britânica, Sir Willian Thompson, ou Lorde Kelvin, colocou em questão sua competência numa carta de leitores de uma revista, sugerindo que a identificação do elemento rádio era mais uma dedução que um trabalho científico. 

A vida pessoal de Marie Curie foi marcada por tragédias. Em 1906, Pierre morre em um acidente, e Marie enfrenta a dor da perda do companheiro e, ao mesmo tempo, parceiro nas pesquisas científicas. No esforço de manter seu legado, trabalha incansavelmente e assume a cátedra de Pierre na Sorbonne, para educar suas duas filhas, Irene e Eve, num exemplo de força e resiliência. 

Não bastasse, na ocasião, teve ainda que lutar contra uma campanha de difamação propagada pela sociedade e a mídia francesa, em particular os de extrema direita, como o L’Action Française, embalada pelo caso Dreyfuss e acusando-a de ser judia. A campanha citava um suposto caso amoroso entre ela e um amigo do casal, o físico Paul Lavigne, casado e pai de quatro filhos, e sugeria que seus trabalhos eram na verdade de seu marido e não do casal. Marie recebeu grande apoio de amigos e renomados cientistas do país e exterior, mas o caso foi esclarecido, por ocasião do divórcio do casal Lavigne, quando ficou claro que a esposa desejava que o marido abandonasse os trabalhos universitários e fosse trabalhar nas indústrias do sogro, muito mais rentáveis. 

Porém, pouco tempo depois deste incidente, seria anunciado o segundo Prêmio Nobel para Marie Curie, desta vez em Química e sozinha, fato inédito, principalmente para uma mulher. Marie adquirira um carcinoma e estava com a saúde bastante abalada, mas decidiu ir a Suécia receber o Prêmio, sendo muito homenageada e aplaudida. Ela continuou trabalhando em vários locais, mas principalmente no seu Laboratório, onde teve dezenas de alunas que se tornariam cientistas de destaque, em particular, sua filha Irene, junto com seu marido. 

Ela faleceu em 4 de julho de 1934, vítima de Câncer por radiação, sem ver, pouco depois, sua filha e o marido receberem o Prêmio Nobel, pela produção artificial de elementos radioativos. 

Outro grande trabalho de Marie antes de falecer foi durante a Primeira Guerra, em trabalhos de radiografias entre feridos candidatos a cirurgias, pela primeira vez em uma guerra! Ela faleceu em 4 de julho de 1934, em Passy, França, em decorrência de anemia aplástica, uma doença associada à sua exposição prolongada à radiação. Sua contribuição para a ciência e a humanidade é inegável; seus estudos não apenas pavimentaram o caminho para a compreensão da radioatividade, mas também abriram portas para pesquisas na área do tratamento do câncer. 

O legado de Marie Curie é testemunho de como a curiosidade, a paixão e o trabalho árduo podem levar a descobertas que transformam o mundo. Hoje, ela é lembrada não apenas como uma das cientistas mais influentes de todos os tempos, mas também como uma pioneira que desafiou as normas sociais, deixando um impacto duradouro em diversas áreas do conhecimento. Seu nome permaneceu eternamente associado aos avanços na ciência e à luta pela igualdade, inspirando futuras gerações a seguirem seus passos e a perseverar em suas buscas por conhecimento e verdade.

 Marie Curie, uma das maiores cientistas da História, senão a maior, teve influência significativa sobre várias mulheres na ciência, especialmente no campo da radioatividade e da física. 

Lise Meitner - 

Lise Meitner, nascida em 7 de novembro de 1878, em Viena, Áustria, é outra figura central na história da física nuclear e das poucas mulheres a se destacar em um campo dominado por homens durante os séculos XIX e XX. Também membro de família judia de classe média alta, queria estudar física, mas o pai só permitiu que seguisse nesta direção, depois que se formasse professora, de modo a garantir uma profissão que pudesse sustentá-la. Com uma formação acadêmica sólida e uma carreira marcada por inovações, Meitner começou seus estudos em Física e Matemática na Universidade de Viena, onde se tornou a segunda mulher a obter um doutorado em Física na Áustria, em 1906. 

Após concluir seus estudos, Meitner trabalhou com renomados físicos, incluindo Wilhelm Röntgen e Max Planck, em um tempo em que as oportunidades para mulheres na ciência eram extremamente limitadas. Em 1907, ela se mudou para Berlim, onde se uniu ao grupo de pesquisa de Otto Hahn, com quem formou uma colaboração que duraria por várias décadas. 

Neste período, quis frequentar um curso avançado em Berlim, mas o professor se negou a autorizar a presença feminina no ambiente circunspecto e machista. Meitner não se incomodou e assistiu todas as aulas escondida, no porão do laboratório, no escuro. 

Em suas memórias, escritas em 1961, ela se auto define assim: 

“Penso que todos os jovens imaginam suas vidas, de acordo com seus desejos; quando eu mesma refletia sobre isto, sempre chegava à conclusão de que a vida não precisa ser simples, desde que não fosse vazia. E esse desejo me foi concedido. As duas guerras mundiais se encarregaram de que minha vida não fosse simples e sim preenchida pelos envolvimentos maravilhosos que ocorreram na física e às grandes e amadas pessoas que encontrei com meu trabalho na física.” 

O trabalho mais significativo de Meitner e Hahn girou em torno da radioatividade e, quase que por acaso, da fissão nuclear. Em 1938, os dois cientistas realizaram experimentos que levaram à descoberta da fissão do urânio, um processo em que um núcleo atômico é dividido em núcleos menores, liberando uma grande quantidade de energia. 

A contribuição de Meitner foi crucial para a interpretação dos resultados experimentais. Ela foi a primeira a apresentar a explicação teórica desse fenômeno em uma carta em coautoria com o físico Otto Frisch, seu sobrinho, ambos exilados na Suécia, em 1938, devido à perseguição nazista a judeus. Na referida carta, ela fornece a Hahn toda a base teórica para a compreensão do processo de fissão.

Na Suécia, continuou seus estudos e pesquisas, mas, durante este período, ela se recusou a participar do desenvolvimento de armas nucleares, o que demonstra seu compromisso ético com a ciência. 

Após a Segunda Guerra Mundial, as contribuições de Meitner começaram a ser reconhecidas oficialmente. Em 1949, o elemento químico de número 109 foi nomeado "meitnério" em sua homenagem, em reconhecimento à sua importante, pesquisa em física nuclear. 

Mesmo que não tenha recebido o Prêmio Nobel, dado a Otto Hahn, fato frequentemente destacado em discussões sobre a injustiça de sua época, Lise Meitner deixou uma marca indelével na ciência. Ela não apenas ajudou a desvendar os segredos da fissão nuclear, mas também abriu caminho para futuras gerações de cientistas, especialmente mulheres, provando que a determinação e o talento podem superar barreiras sociais e históricas, sendo exemplo poderoso da interseção entre ciência, ética e o papel das mulheres na pesquisa científica Com suas contribuições, Meitner não apenas avançou o entendimento da física nuclear, mas se tornou um símbolo de resistência e inovação em um mundo que frequentemente subestimava as mulheres. 

Ida Noddack - 


N
ascida em 1896, na Alemanha foi renomada química e física alemã, conhecida por suas importantes contribuições à química nuclear e à física. Nascida também numa época em que a ciência era dominada por homens, Noddack quebrou barreiras e deixou legado significativo por meio de suas pesquisas e descobertas. 

Ida Noddack nasceu em uma família de agricultores e estudou na Universidade Técnica de Berlim, onde obteve doutorado em 1921, tornando-se uma das primeiras mulheres a alcançar esse título na área das ciências exatas. Durante seus anos de estudo, desenvolveu paixão pela química, particularmente pela química dos elementos e suas estruturas. Após completar seu doutorado, começou a trabalhar no campo da pesquisa, colaborando com importantes cientistas da época. 

Uma das principais contribuições de Noddack para a ciência foi a descoberta do elemento químico rênio (Re) em 1925, ao lado de seu marido, Walter Noddack, e de Otto Berg. O rênio é um metal de transição raro, utilizado em várias aplicações tecnológicas, incluindo catalisadores e ligas de tungstênio. Essa descoberta foi notável, pois o rênio é um dos poucos elementos químicos descobertos no século XX. 

Além de suas pesquisas sobre o rênio, Ida Noddack foi pioneira em estudos sobre fissão nuclear. Em 1934, ela publicou um artigo teórico que antecipava a possibilidade da fissão do núcleo atômico, muito antes do experimento prático que levaria à descoberta da fissão nuclear por Meitner em 1938. Noddack argumentou que a fragmentação do núcleo de um átomo poderia ocorrer sob determinadas condições, uma idéia que se tornaria fundamental para o desenvolvimento da energia nuclear. No entanto, devido ao contexto sócio-político da época e ao seu gênero, suas ideias não receberam reconhecimento adequado. 

Apesar de seus significativos avanços científicos, Ida Noddack enfrentou desafios como mulher em uma sociedade predominantemente masculina. Ela foi muitas vezes subestimada e não recebeu o reconhecimento que merecia durante sua vida. Em sua obra, Noddack abordou não apenas questões químicas e físicas, mas também escreveu sobre a importância de um maior envolvimento feminino nas ciências, defendendo a igualdade de oportunidades para as mulheres na pesquisa. 

Após sua morte, o trabalho de Noddack começou a receber mais atenção, e suas contribuições à química nuclear foram reavaliadas e reconhecidas. Em 2008, seu nome foi incluído na Galeria de Mulheres na Ciência – uma celebração às mulheres que fizeram contribuições significativas em diversas áreas científicas. 

Irene Curie - 

Outra cientista influenciada por Marie Curie foi Irene, sua filha mais velha com Pierre, que continuou o legado dos pais sobre radioatividade. Ela e seu marido, Frédéric Joliot, receberam o Prêmio Nobel de Química em 1935 por suas descobertas sobre a produção de elementos radioativos sintéticos. O trabalho de Irene não apenas ampliou os conhecimentos sobre as propriedades dos isótopos, mas também consolidou o papel das mulheres na ciência, mostrando que o gênero não deve ser barreira para a excelência nas ciências exatas. Entretanto, sua mãe não estava mais viva para colher mais este fruto, talvez o maior de suas plantações. 

Chien-Shiung WU. 

Devemos mencionar ainda a contribuição da chinesa Chien-Shiung Wu, física experimental que, embora não tivesse sido diretamente aluna de Curie, foi inspirada pelo seu trabalho. Wu é conhecida por sua pesquisa sobre os decaimentos beta e pela sua famosa experiência, que desafiou a simetria da conservação da paridade em reações subatômicas, sendo fundamental para o desenvolvimento da teoria da interação fraca e solidificou a presença das mulheres em campos científicos altamente técnicos, iluminando o caminho que pioneiras como Curie haviam aberto. 

Marguerite Perey

Outra figura importante, foi uma física francesa que se destacou por suas contribuições à pesquisa sobre radioatividade e, em 1946, isolou o elemento químico Frâncio, o último elemento da série dos elementos alcalinos. Sua descoberta foi um marco importante na química nuclear, expandindo nosso conhecimento sobre elementos radioativos. Perey também se destacou como uma fiel amiga de Marie, oferecendo-lhe abrigo em sua residência durante a campanha francesa de difamação. Foi uma das primeiras mulheres a se tornar membro da Academia de Ciências da França, abrindo caminho para a inclusão feminina na ciência. 

Várias outras se destacaram e vamos citar algumas, a seguir, para não nos alongarmos demais. 

Harriet Brooks, física canadense, pioneira em estudos sobre a radioatividade no início do século XX, com importantes contribuições para a compreensão da natureza das partículas radioativas. Foi a primeira a sugerir que os átomos podiam perder parte de sua massa durante o processo de radioatividade. 

Fany Gates também fez parte desse contexto, realizando pesquisas fundamentais em radioatividade sobre espectroscopia e a natureza dos raios alfa. 

Ellen Gleditch, química e física britânica, contribuiu especialmente para os estudos de radioatividade e suas aplicações. 

Winifred Molla Beilby, cientista notável, reconhecida por suas contribuições no campo da química e bioquímica. Ela se destacou por suas pesquisas sobre a composição e a funcionalidade de enzimas, o que levou a avanços significativos na compreensão dos processos metabólicos. Além de suas publicações científicas, Beilby foi forte defensora da inclusão das mulheres na ciência, contribuindo para a formação de redes de apoio e para a promoção da educação científica entre jovens garotas.


May Sibil Leslie, por sua vez, fez importantes contribuições para a genética, especialmente na área de genética de populações e evolução. Seu trabalho ajudou a estabelecer fundamentos teóricos que permitiram uma melhor compreensão da variabilidade genética nas populações, influenciando estudos em ecologia e conservação. 

Ruth Piret destacou-se em microbiologia; suas investigações sobre microrganismos propiciaram avanços no desenvolvimento de técnicas de bioprocessos, como a fermentação, com aplicações importantes na indústria alimentícia e farmacêutica.

 Maria Goeppert. Também conhecida como a mais bela moça de Goetting e que teve contribuição importante no Projeto Manhatan. Como podemos concluir, a revolução do Átomo ocorre ao mesmo tempo em que há maior avanço feminino nas ciências naturais. A história dessas valorosas pioneiras é um drama cheio de ensões e surpresas e tendo como pano de fundo duas guerras mundiais, que levaram ao desenvolvimento de armas terríveis e que marcaram a humanidade para sempre. 

OLGA SIMBALISTA - A PARTICIPAÇÃO DAS MULHERES - 

A participação de mulheres na energia nuclear teve, repito, a influência maior de Marie Curie. Dezenas de pesquisadoras de todo o mundo e, principalmente, da França, faziam filas para frequentar o seu acanhado laboratório.

Após o fim da segunda Guerra Mundial, com a criação do Átomos para a Paz, diversos institutos de pesquisas no setor nuclear abriram espaço para a participação de mulheres em todo o Ocidente, em particular nos EUA e no Brasil, onde a participação das mulheres, atualmente, é superior a 30%. 

Em 1970, no auge do Milagre Econômico Brasileiro, conclui minha graduação em engenharia elétrica Escola de Engenharia da Universidade Federal de Minas Gerais e as principais empresas iam às universidades fazer concursos para contratar os melhores formandos e qual não foi minha surpresa diante dos seguintes fatos ocorridos então: 

Uma grande multinacional da área de informática, após realizar o concurso, com o comparecimento das três mulheres formandas, o gerente de recursos humanos trouxe o resultado, frustrando a todas nós com a informação de que a empresa tinha uma política de contratar apenas uma mulher por ano. Como no ano anterior, os dois primeiros colocados eram do sexo feminino, engoliram duas vagas, uma delas a do nosso ano; portanto, não sobrara nenhuma; uma indústria de bebidas de grande porte alegou, singelamente, não dispor de sanitário feminino para não contratar mulheres; e a grande empresa de eletricidade local após o concurso, na fase de entrevistas dos aprovados, entrevistando uma das três colegas do sexo feminino que havia sido bem qualificada, perguntou: 

Você sabe que esta vaga requer muitas viagens em locais diversas? Sim, respondeu ela, mas para mim não há problema. Sabia que tais viagens serão na maioria na companhia de um engenheiro homem? Pois para mim também não representa nenhum problema. Mas sabe que este colega pode ser casado e sua esposa não gostar? 

Assim foram aqueles anos dourados! Mas foi então que soube que um Instituto de Pesquisas federal iria realizar um concurso para o mestrado em Ciências e Técnicas Nucleares, tema que eu desconhecia, mas exigindo apenas conhecimentos de física, cálculo e língua estrangeira, sem entrevista. 

Fiz, passei e entrei para o Instituto de Pesquisas Radioativas – IPR, subordinado à UFMG e à CNEN, defendi minha tese em tempo recorde, fui contratada e as portas do mundo se abriram para mim. Entretanto, o então Diretor de Pesquisas e Desenvolvimento, em uma de suas raras visitas ao nosso Instituto, pois preferia se localizar perto do poder decisório, ao ser informado por meu orientador sobre meu feito, sequer respondeu ao meu cumprimento e disse para o meu orientador o seguinte: 

“É! Mulheres são muito bonitinhas, mas veja se me contrata uns barbados”, virou as costas e saiu. 

O fato me deixou extremamente constrangida, porém, o mais IMPORTANTE é que me tornei uma MULHER ATÔMICA, título que ele não me tirou. 

PERFIL - 

Graduada em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal de Minas Gerais, com mestrado em Engenharia Nuclear (UFMG/CNEN), tem especialização em Termo hidráulica de Reatores na Gesellshaft für Kerntechnik im Shifbaum und Shiffhart - GKSS, na Alemanha. Ocupou a chefia do Laboratório de Termo Hidráulica do Instituto de Pesquisas Radioativas-IPR, além de assessorias e coordenação em empresas do setor como Nuclebras, Eletronuclear e Furnas. 

Nas áreas de ensino e pesquisa foi membro do Corpo Docente dos Cursos de Mestrado em Ciências e Técnicas Nucleares (UFMG/CNEN), em Engenharia Térmica (EEUFMG) e do MBA em Energia da Gama Filho, com vários trabalhos publicados, no país e no exterior, tendo orientado oito teses. Presidiu a Seção Latino Americana da American Nuclear Society, e o Conselho de Energia da Associação e do Conselho Empresarial de Meio Ambiente da Associação Comercial do Rio de Janeiro – ACRJ. 

Atualmente é membro do Conselho Diretor da ACRJ, e do Conselho do Clube de Engenharia. No contexto das Nações Unidas, foi representante da América Latina no Consultancy Group for Nuclear Forecasts, da Agência Internacional de Energia Atômica – AIEA, em Viena, de 2002 a 2011 e consultora da CEPAL, na área de energia. Atuou nos Conselhos de Administração da CEAL – Companhia de Eletricidade de Alagoas e do CEPEL – Centro de Estudos e Pesquisas da Eletricidade, do Projeto de Reestruturação do Setor Elétrico Brasileiro - RESEB/MME e no Conselho Diretor do Clube de Engenharia. 

O curriculum de Olga Simbalista é extenso e abrangente, raridade entre as mulheres brasileiras da energia nuclear. Ela também atuou no processo de desenvolvimento social, econômico e político da mulher teve início em 1993, no Conselho da Seção Rio de Janeiro do Banco da Mulher, sendo, posteriormente, no âmbito da Rede Nacional do Banco da Mulher, membro do Conselho Diretor, Diretora, Vice-Presidente e Presidente. Recebeu doze prêmios com relação à promoção dos direitos da mulher e, em 2014, foi eleita Personalidade do Ano 2014 pela WEB da ONU. 

Foi da presidente da Associação Brasileira de Energia Nuclear (ABEN) no período de 2016 a 2018. Nesta posição, recebeu, por dois anos consecutivos, o Prêmio Full Energy de Personalidade do ano, em 2017, e, em 2018, como representante de entidade. 

(FOTOS – ACERVO PESSOAL SIMBALISTA – E ACERVOS REVISTA GALILEU) – 

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sábado, 22 de março de 2025

Eletronuclear avisa que fará 90 demissões; aumenta o clima de insegurança na central nuclear

 


A Eletronuclear informa a demissão, a partir dos próximos dias, de cerca de 90 dos mais antigos funcionários. Eles trabalham na central nuclear de Angra dos Reis e na sede. Chama a atenção a companhia assegurar que “nenhum empregado essencial à operação das usinas será desligado sem que haja um sucessor, garantindo a transferência de conhecimento e a continuidade segura das atividades”.   

A companhia não informou de que forma substituirá cada um dos trabalhadores qualificados, com experiência de atuação na rotina das usinas, mesmo que na parte administrativa. Os funcionários têm se manifestado contra a política de austeridade da companhia, que provoca insegurança em todas as áreas. Segundo a Eletronuclear, o processo de desligamento será conduzido ao longo de 2025, dependendo das especialidades de cada trabalhador, segundo a companhia. 

QUALIFICAÇÃO LEVA ANOS

Fontes disseram ao BLOG que o clima nunca foi tão pesado e frustrante, um “verdadeiro balde de água fria”, comentaram. Lembraram que na área nuclear leva-se “muitos anos para qualificar um funcionário e que os mais antigos não deveriam ser descartados da forma que está sendo anunciada”. A Eletronuclear justifica as demissões, que segundo a companhia, é para “garantir o equilíbrio econômico-financeiro da empresa e sua sustentabilidade a longo prazo”, com a implantação do Plano de Desligamento Complementar (PDC) para cerca de 90 empregados aposentados, dentro de um universo de dois mil funcionários concursados que a empresa possui. 

“A medida visa adequar os custos da companhia à remuneração da energia gerada por Angra 1 e Angra 2, assegurando sua perenidade e a manutenção dos postos de trabalho”. A companhia informou que o PDC será direcionado aos já aposentados que estavam contemplados no Plano de Demissão Voluntária (PDV), lançado anteriormente, mas que não aderiram ao programa. “O PDV, autorizado para até 485 colaboradores aposentados ou elegíveis à aposentadoria, registrou a adesão voluntária de apenas 133 funcionários, representando menos de 30% do total estimado”. 

Segundo a Eletronuclear, “a decisão segue as exigências legais e regulamentares aplicáveis às empresas estatais e está em conformidade com a reforma da previdência de 2019, que determinou a extinção do vínculo empregatício nas empresas públicas no momento da concessão da aposentadoria”. 

CONTA NÃO FECHA 

Um estudo apresentado pela Diretoria Executiva aponta que a Eletronuclear possui 3.600 empregados, sendo 2.000 diretos e 1.600 terceirizados para operar seus dois reatores nucleares (Angra 1 e Angra 2) e realizar a preservação de Angra 3. Ao desconsiderar os empregados relativos à Angra 3, a empresa totaliza 2.959 trabalhadores (diretos e indiretos) para Angra 1 e Angra 2. 

Assim, informou, há uma relação de cerca de 1.500 empregados (diretos e indiretos) por reator nuclear, enquanto o estudo de benchmark aponta que as centrais nucleares mais eficientes operam com cerca de 600 empregados (diretos e indiretos) e a mediana estaria em 737 empregados (diretos e indiretos) para cada reator. 

Se há excesso de funcionários, segundo o estudo colocado pela Eletronuclear, quem são os responsáveis? Como ocorreu? Vale lembrar que a companhia contrata mais de mil pessoas, inclusive estrangeiros, quando troca o combustível das usinas. Fontes comentaram que esta é uma conta que não fecha. 

Na próxima semana os trabalhadores voltarão ao debate sobre as demissões e a falta de acordo junto ao Tribunal Regional do Trabalho (TRT) sobre o dissidio coletivo que continua na pauta, sem solução. 

(FOTO: SINDICATOS) – 

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quarta-feira, 19 de março de 2025

Ibama quer saber sobre mortandade de peixes nas águas da INB, em Caldas. Segurança de barragens de rejeitos está entre as condicionantes da licença

 


O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) quer informações sobre Incidentes com mortandade de peixes em 2023 e 2024, e as medidas adotadas, em decorrência de descontrole do lançamento de efluentes da mina da cava (a primeira de extração de urânio) e de metais pesados, sob a responsabilidade da empresa Indústrias Nucleares do Brasil (INB), no município de Caldas (MG), herança maldita da ditadura. 

Para obter licença do Ibama, referente ao descomissionamento das instalações, incluindo a mina da cava, barragens com rejeitos radioativos, bacia de retenção de tório, entre outras, o Ibama estabeleceu uma série de condicionantes à INB, que vão de 2025 até 2029. 


A Licença de operação nº 1709/2025, obtida pelo BLOG, tem seis anos de validade, abrange uma área de 1.360 hectares, incluindo o lago da Consulta, Barragem de Águas Claras, Área de Estocagem de Materiais Radioativos, Bota-Fora Corpo B; Pátio de Estocagem de Minérios entre outros.  

O Ibama quer que a INB apresente em doze meses o Plano de Gestão Ambiental da Unidade de Caldas, atualizado à estrutura definida na Portaria nº 1.1729 de 2020. Avisa que a licença “não autoriza supressão de vegetação nativa nem o manejo da fauna silvestre. 

RESIDUOS RADIOATIVOS -

 Até julho a empresa terá que apresentar o programa de monitoramento das águas superficiais e subterrâneas; e em seis meses,  o programa de gerenciamento de resíduos radioativos sólidos, descritos em detalhes, de todos os contaminantes potenciais, com análises de monitoramento de elementos tóxicos estáveis ou com baixa radioatividade especifica (urânio e tório), mas com reconhecida toxidade química. 


“A validade desta licença está condicionada ao fiel cumprimento das condicionantes”, estabelecidas em documentos entregues à INB, sem “omissão ou falsa” descrição de informações relevantes, que subsidiaram a expedição da licença”.  Entre julho e setembro, a INB terá que apresentar programa de monitoramento de águas superficiais, subterrâneas e de gerenciamento de efluentes líquidos, e convencionais. 

FAUNA TERRESTRE - 

Entre as condicionantes do Ibama consta também o monitoramento da fauna terrestre, com acompanhamento, para o lobo-guará, a raposinha, o gato-do-mato-pequeno, incluído captura para a realização de exames e análises dos parâmetros bioquímicos, presença de metais pesados, diuranato de cálcio e seus derivados e radionuclídeos até 20 quilômetros  a partir da borda externa da área total do empreendimento. 

BARRAGENS E BACIA DE REJEITOS - 

Até julho próximo, o Ibama quer que a INB apresente estudos sobre as condições da microbacia do Rio Verde (regiões R4 e RS), incluído a caracterização das influências da pilha de estéril do Bota-Fora 4 e da Barragem de Rejeitos, Bacia de Retenção de Tório e Bacias de decantação D1 e D2 da região. Até agosto de 2027, a remoção das pilas de minério, do estéril e outras estruturas do pátio de minérios; e até fevereiro de 2029, estudos igualmente do Ribeirão das Antas, abrangendo as áreas do Bota-Fora, barragens pátio de minérios, cava da mina, plataforma industrial entre outros. 

Para se ter ideia sobre a grandeza do desafio, basta observar o longo tempo exigido para a busca de soluções para os problemas tão crônicos. Mas até o final deste mês de março, a INB deverá apresentar manifestação formal da Agência Nacional de Mineração (ANM), atestando a inexistência de necessidade de adequação da geometria da Barragem de Rejeitos e a sua segurança, por exemplo. As notícias veiculadas pela mídia sobre a possibilidade de rompimento da barragem sempre provocaram preocupação aos moradores locais. E o Ibama está deixando claro que a questão da segurança deve ser prioridade para a ANM também. 

CENÁRIO DEVASTADO - 

(Depoimento, Tania Malheiros) -  "Estive nestes locais em setembro de 2023. O cenário lembrava um campo de guerra abandonado, mas podia lembrar também uma área devastada por algum evento fora do controle. Com minas, bacias de rejeitos radioativos, demolições de prédios, depósitos com estoques de tambores com Torta II (urânio e tório), nuvens de poeira, árvores cortadas ao longo do caminho, que faziam parte da história nuclear brasileira dos tempos sombrios da ditadura". 

Tudo começou na década de 70, quando o governo decidiu explorar a primeira mina de urânio brasileira no Planalto de Poços de Caldas, Sul de Minas Gerais. As promessas de emprego e progresso levaram centenas, talvez milhares de trabalhadores ao local, conhecido como “Cava da Mina”. 

Sem compradores para o urânio, o projeto ambicioso ficou economicamente inviável. Assim, o governo encerrou as atividades da mina nos idos de 1982. Quantos operários se contaminaram com radiação. São alguns dos segredos guardados até hoje. 

URÂNIO SEM SOLUÇÃO - 

Embora o Ibama faça várias exigências e a ANM realize vistorias na região, o passivo ambiental é inimaginável, porque não há como dimensionar até que ponto haverá uma solução para a UDC. As bacias de contenção, por exemplo, não estavam retendo mais o urânio, que migrava para a Bacia de Águas Claras. Na ocasião (2023), funcionários da INB disseram que uma empresa seria contratada para remover o urânio de Águas Clara; e que seriam investidos R$ 190 milhões nos próximos 10 anos. Não se sabe o que ocorreu depois. 

FOTOS: BLOG TANIA MALHEIROS –

 CRÉDITO AO BLOG, EM CASO DE REPRODUÇÃO DE IMAGENS E CONTEÚDO. 

EM 2023 – A JORNALISTA VIAJOU A CONVITE DA ASSOCIÇÃO POÇOS SUSTENTÁVEL (APS) -

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terça-feira, 18 de março de 2025

Eletronuclear: trabalhadores se manifestam contra a falta de acordo e denunciam insegurança no trabalho

 


Nesta terça-feira (18/3) os trabalhadores da Eletronuclear realizam manifestação, horas antes da audiência que acontecerá no Tribunal Regional do Trabalho (TRT), para discutir o Acordo Coletivo do Trabalho (ACT), rejeitado pela empresa. A concentração será às 12h30 na porta da sede da empresa, – na Rua da Candelária, 65, Centro -, o ato terá início, às 13h, em frente ao TRT-RJ.

 A manifestação será “um protesto dos trabalhadores(as) e seus sindicatos contra a interrupção unilateral do diálogo, por parte da Diretoria da Eletronuclear, bem como seus impactos na negociação em curso do Acordo Coletivo de Trabalho”, que será discutido no TRT, às 14h, em audiência de conciliação. 

“O ato dos trabalhadores e trabalhadoras acontece após sucessivas manifestações dos sindicatos contra o deslocamento forçado para Angra dos Reis, à redução do quadro de funcionários, à defesa pública de diretores contra os interesses da Eletronuclear, e às demais ações que degradam o ambiente de trabalho, colocando em risco a segurança dos trabalhadores e da sociedade”. 

A Eletronuclear é gestora das usinas nucleares Angra 1 e Angra 2, em funcionamento; e Angra 3, em construção desde 1984; além da Unidade de Armazenamento a Seco (UAS) que abriga o combustível irradiado (urânio) das centrais atômicas. 

(FOTO: Sindicatos) – 

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sexta-feira, 14 de março de 2025

Nunes Marques atrasa processo pelo banimento do cancerígeno amianto no Brasil. Entidade do Reino Unido divulga nota em protesto

 


Ativistas do IBAS: International Ban Asbestos Secretariat, do Reino Unido, divulgam comunicado em protesto contra o adiamento da decisão sobre o banimento do cancerígeno amianto no Brasil. O ministro Nunes Marques pede vistas do processo e atrasa a decisão esperada para esta sexta-feira (14/3), conforme o BLOG divulgou ontem. 

COMUNICADO - 

Havia rumores de que Albert Einstein definiu loucura como “fazer a mesma coisa várias vezes e esperar um resultado diferente”. Acho que todos devemos estar loucos porque em 14 de março de 2025 tínhamos grandes expectativas de que a Suprema Corte Brasileira (STF) emitisse o veredicto final sobre as exportações de amianto, uma substância proibida em 2017 pelo STF. Esperamos por essa decisão por oito longos anos. Como já aconteceu tantas vezes antes, a entrega de uma decisão sobre o amianto pelo STF foi adiada. 

“Desta vez, fomos informados de que o impasse foi causado pelo Ministro Kassio Nunes Marques, nomeado do nefasto ex-presidente Jair Bolsonaro. Marques disse que precisava de mais tempo para considerar os argumentos do caso ADI 6200 - uma ação judicial iniciada em 2019 que pede a inconstitucionalidade da lei estadual de Goiás, isentando a mineração de amianto da proibição da Suprema Corte. A ADI 6200 pediu o fechamento da mina de crisotila de Cana Brava, a única mineradora de amianto remanescente do país. Como ele é Ministro do STF desde 5 de novembro de 2020, alguém deve se perguntar por que Marques não encontrou tempo para estudar os arquivos do caso? Pode haver 103.000.000 de razões para isso.”  

“Em 2023, as vendas internacionais de amianto brasileiro valiam US$ 103.000.000, tornando o Brasil o segundo maior exportador do mundo. Somente em dezembro de 2024, as remessas desse material letal ganharam US$ 7,67 milhões.” 

FOTO – Membros da Missão Asiática do Banimento do Amianto no Brasil protestando do lado de fora da Suprema Corte em Brasília, abril de 2019. 

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