segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Produção de urânio no Brasil é retomada com solenidade em mina baiana nesta terça-feira (1º/12)

 

A Indústrias Nucleares do Brasil (INB) promove evento nesta terça-feira (01/12) para comemorar a retomada da produção de urânio no Brasil, a partir da lavra a céu aberto de uma nova mina na Unidade de Concentração de Urânio de Caetité (URA), na Bahia, a Mina do Engenho. A INB não mencionou as medidas de segurança que serão tomadas durante o evento por conta da propagação do coronavirus. A solenidade terá a presença do ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque. 

A expectativa é que sejam produzidas 260 toneladas de concentrado de urânio por ano, quando a Mina do Engenho atingir a sua capacidade plena, informou a INB, mas não divulgou quando isso ocorrerá. O urânio, depois de enriquecido pela própria INB, em Resende (RJ) e no exterior, é combustível que abastece as usinas nucleares. 

Em Caetité, são realizados a mineração e o beneficiamento de urânio, atividades que correspondem à primeira etapa do Ciclo do Combustível Nuclear. De 2000 a 2015, foram produzidas 3.750 toneladas de concentrado de urânio a partir da Mina Cachoeira. Com a exaustão dos recursos passíveis de lavra a céu aberto, a empresa decidiu licenciar uma nova área, a Mina do Engenho. 

A Autorização para lavra da nova mina foi concedida pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) em dezembro de 2019. E o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) renovou no mês seguinte a Licença de Operação da Unidade. 

A CNEN condicionou a licença operacional para a volta à produção na Unidade à realização de testes funcionais (TF), que ocorreram a partir de 2018. Em setembro de 2020, como parte dos testes, foi realizado o entamboramento do concentrado de urânio (U3O8), produto final da INB Caetité. No total, foram produzidas 17,5 toneladas durante os testes funcionais realizados na Unidade. 

RESERVAS BRASILEIRAS - 

O Brasil detém uma das maiores reservas de urânio do mundo. Já esteve em quinto lugar, mas no ranking da Agência Internacional de Energia Atômica, de 2017, caiu para nono, o que ainda é bem significativo. Porém, por falta de pesquisas, o país pode ter muito mais urânio do que se contabiliza. 

Hoje, os recursos nacionais são estimados em 244.788 toneladas de concentrado de urânio (U3O8). Desse total, 32,5% estão localizados no município de Itataia, no estado do Ceará, e 40,6%, em Caetité, na Bahia. São duas grandes jazidas, também conhecidas como Províncias Uraníferas, nas quais há diversas áreas potenciais a serem exploradas. 

Na baiana Caetité, o governo intencionava há anos começar os trabalhos na Mina do Engenho. Para isso, embora não tenha divulgado, assinou contrato com a empresa Tracomal Terraplenagem e Construções Machado, para a prestação de serviços de lavra. As negociações para a mina do Engenho começaram em 2017, mas a INB se viu às voltas com exigências da CNEN e do Ibama, agora acertadas. 

Já a mina cearense de Santa Quitéria, em Itataia, é outra história. Para tocar o projeto emperrado há décadas, a INB firmou parceria com a empresa privada Galvani. Juntas, montaram o Consórcio Santa Quitéria, para extrair urânio associado ao fosfato. O negócio deve começar até 2024, com previsão de produção de até 1.600 toneladas de yellow cake por ano, com a aplicação de tecnologia de separação de fosfato do urânio. 

As licenças estão em estudo pela CNEN e o Ibama, mas o ministro de Minas e Energia, Bento de Albuquerque, se reuniu recentemente com as duas empresas que formam o consórcio, o que representa um aval para o novo modelo de negócio. Extração de urânio vale lembrar, ainda é monopólio da União.

MINA FECHADA - 

Na baiana Caetité, além de potenciais minas a serem exploradas, na Jazida de Caetité, a INB mantém a Unidade de Concentração de Urânio (URA), única mineração de urânio em atividade no país. Nessa unidade, se realizava as duas primeiras etapas do ciclo do combustível nuclear:   mineração e o beneficiamento do minério, que resulta no produto chamado concentrado de urânio ou yellowcake

A URA ocupa uma área de 1.700 hectares, na província mineral com recursos que chagam a 99,1 mil toneladas de urânio e onde estão identificados 17 depósitos minerais, segundo a INB. De 2000 a 2015, a URA produziu 3.750 toneladas de concentrado de urânio a partir da extração a céu aberto de uma outra mina chamada Cachoeira, fechada em 2009, por falta de segurança. 

CRITICAS AMBIENTAIS - 

Pesquisadores e ambientalistas têm contestado a forma com que os projetos nucleares brasileiros têm sido realizados.  Pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC) fundaram o núcleo Tramas, para debater questões ambientais. Um dos focos é a mina do Consorcio Santa Quitéria, na jazida de Itataia. O pesquisador Rafael Dias Melo, do núcleo, apontou os riscos de contaminação do solo e dos recursos hídricos na região. 

“Ao longo dos anos, somente pela checagem de viabilidade, a parte do solo ao redor da jazida já estaria apresentando níveis de urânio acima do normal”, alertou. Ele também alerta sobre os problemas que serão provocados pela radiação aos moradores da região, “amentando a incidência de vários tipos de câncer, como o de pulmão”. 

O professor associado do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo, doutor em Engenharia Mecânica, Célio Bermann, também contesta a exploração das minas na Bahia e no Ceará. “Essas minas começaram a ser exploradas em 2000, até 2009, quando registraram pelo menos cinco acidentes que contaminaram parte dos rios e solo da região, de acordo com um relatório da Secretaria de Saúde daquele estado. Vários casos de câncer nos trabalhadores das minas foram notificados pelos serviços de saúde local, muito embora a relação causa-efeito com a exposição a material radioativo nunca tenha sido estabelecida”. 

Bermann também coloca sob suspeição a intenção pacifica dos projetos e o objetivo econômico. “Essa não deve ser a razão de retomada, pois o preço do minério no mercado internacional não deixou de cair, notadamente após o acidente de Fukushima em março de 2011”, comenta. Em sua avaliação, a previsão de acréscimo de 10.000 MW nucleares anunciada pelo Ministério de Minas e Energia até 2050, envolvendo neste propósito a construção de uma central nuclear em Itacuruba, no estado de Pernambuco, às margens do Rio São Francisco, é mais um problema grave. “Aumentará os riscos de disponibilidade hídrica naquela região do semiárido nordestino, além das incertezas e riscos intrínsecos das usinas nucleares”. A usina de Itacuruba é uma das quatro que o governo intenciona construir no Nordeste. 

O professor aposentado da Universidade Federal de Pernambuco, Heitor Scalambrini, engrossa a lista de pessoas renomadas, que contestam as ações do atual governo. “A diversificação da matriz elétrica se dá através das fontes como a solar, eólica, agroenergia, entre outras, fontes renováveis. Mas face a uma péssima informação, que muitas vezes é deliberadamente omitida para a sociedade; estamos diante de mais uma catástrofe que poderá acontecer no território nacional, diante das políticas que estão sendo implementadas, e que caminham contrária aos interesses mais amplos da sociedade”, avisa Scalambrini, graduado em Física na UNICAMP, com mestrado em Ciências e Tecnologias Nucleares na UFPE e Doutorado na Universidade de Marselha/ Comissariado de Energia Atômica-França. 

A Articulação Antinuclear Brasileira e da Coalização por um Brasil livre de Usinas Nucleares, reúne cerca de 30 entidades, que tem debatido em “lives”, por conta da pandemia, a posição contrária aos atuais projetos do governo. O ativista e militante Chico Whitaker, faz parte do movimento. Whitaker já batizou as usinas de “chaleiras atômicas” e prevê o crescimento do movimento, com a comprovação da viabilidade e importância do uso das energias alternativas.  (FOTO - INB CAETITÉ)._     

terça-feira, 17 de novembro de 2020

Investigação sobre oxidação (ferrugem) em tubos com elementos combustíveis (urânio enriquecido) de Angra 2 prossegue sem divulgação.

 


O que provocou a oxidação (ferrugem) em alguns tubos com elementos combustíveis (urânio enriquecido) da usina nuclear Angra 2, durante a parada para reabastecimento em junho?  A usina deveria ser religada cerca de 30 dias, mas por causa do problema, voltou a operar dois meses depois. O que aconteceu com o combustível, fabricado pela Indústrias Nucleares do Brasil (INB), que também passou pela Urenco (consórcio de empresas da Inglaterra, Holanda e Alemanha, criado para enriquecer urânio)? 

A Eletronuclear, gestora das usinas, ainda não divulgou o que houve. Em setembro, informou ao blog, que estava realizando análise interna independente para verificar o motivo do problema. Na ocasião, informou também que a empresa francesa Framatome havia sido contratada para fazer a medição da camada de óxido dos elementos combustíveis da usina, atividade prevista para ser executada nos meses de outubro e novembro. 

Segundo a estatal, a empresa francesa “verificará a viabilidade da utilização desses elementos combustíveis oxidados no próximo ciclo de operação” E mais: “A Eletronuclear não reutilizou esses combustíveis na última recarga da usina justamente por depender da conclusão de todos os testes e inspeções”. Cabe destacar, finaliza, que a “experiência internacional mostra que não houve falha nos elementos combustíveis de outras usinas do mundo que também apresentaram oxidação acima do normal”. Oxidação não é falha? 

Em julho, quando confirmou a reportagem do Blog sobre `a oxidação, a Eletronuclear classificou o problema como o “incidente” e garantiu que a segurança na usina não havia sido comprometida. Fato é que elementos combustíveis prontos, para Angra 3, que começaram a ser fabricados em 2013, foram usados em Angra 2. Como é público, as obras de Angra 3 foram paralisadas após denúncia de corrupção pela operação “Lava Jato”. Foto: Varetas com oxidação. 

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Situações envolvendo incêndio, ataque cibernético e sobrevoo de drones fazem parte de exercício simulado em instalação nuclear em Resende (RJ), a partir desta terça-feira (17/11)

 


Pela primeira vez, cenários envolvendo situações de incêndios, ataque cibernético e sobrevoo de drones serão simulados entre esta terça (17/11) e quinta-feira (19/11), durante exercício de emergência e segurança física nuclear na Fábrica de Combustível Nuclear (FCN), da Indústrias Nucleares do Brasil (INB), em Resende (RJ). O local é uma das meninas dos olhos do setor nuclear, onde o Brasil enriquece urânio que, depois de passar por processo no exterior, volta para servir de combustível para as usinas Angra 1 e Angra 2, além de ser exportado para a Argentina. 

As simulações acontecerão apenas no modo virtual, segundo a INB. O Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República (GSI/PR), Órgão Central do Sistema de Proteção ao Programa Nuclear Brasileiro (Sipron), supervisionará o exercício. Por causa da pandemia de Covid-19, os centros de emergência operarão nos modos presencial e virtual. Os representantes das instituições do Comitê de Planejamento de Resposta a Situações de Emergência Nuclear no município de Resende (Copren/RES) estarão reunidos na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN) interagindo com a equipe da INB que permanecerá na Fábrica. 

Participarão do evento no dia 17, a partir de 9h, o presidente da INB, Carlos Freire Moreira; o secretário de Coordenação de Sistemas do GSI, Contra-Almirante Carlos André Coronha Macedo, e o diretor do Departamento de Coordenação do Sipron, capitão de Mar e Guerra Márcio Gonçalves Taveira. 

Os exercícios de emergência servem como “base para um programa de melhoria contínua da estrutura de resposta e têm o propósito de avaliar e, se for o caso, aperfeiçoar planos e procedimentos, além de treinar a estrutura de resposta à emergência e segurança física nuclear”, informou a INB. Durante a atividade, os centros de emergência do Sipron em Brasília e no Estado do Rio de Janeiro serão ativados. 

Participarão cerca de 50 instituições dos níveis nacional, estadual e local, entre elas, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis (Ibama), a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), o Ministério da Defesa, a Marinha do Brasil, o Exército Brasileiro, a Polícia Rodoviária Federal (PRF), a Defesa Civil Municipal de Resende e a Agência Brasileira de Inteligência (Abin). 

A FCN tem cerca de 660 empregados; desse total, 600 estão trabalhando em regime presencial e os demais, em casa. O BLOG contatou alguns funcionários e todos disseram desconhecer a realização do  exercício simulado. 

OUTRAS CASCATAS - 

Com investimentos da ordem de R$ 600 milhões, em novembro de 2019, foi inaugurada a 8ª cascata de ultracentrífugas (máquinas de enriquecimento de urânio), da FCN. Na época, o ministro das Minas e Energia, Bento Albuquerque repetia que a intenção é viabilizar o ciclo completo do combustível, da mineração até a finalização com o enriquecimento. 

Segundo o presidente da INB, Carlos Freire Moreira, com a entrada em operação de mais uma cascata, a empresa aumentava em 20% a produção de urânio enriquecido no país, sendo possível produzir 60% do necessário para abastecer a usina nuclear de Angra 1. 

A 8ª cascata faz parte da 1ª fase de implantação da Usina de Enriquecimento de Urânio, prevista para ser concluída em 2021 com a instalação da 9ª e 10ª cascatas. 

O presidente da INB assinou contrato com a Amazônia Azul Tecnologias de Defesa – Amazul para elaboração do detalhamento do projeto básico para ampliação da Usina de Enriquecimento de Urânio localizada na FCN. A implantação dessa 2ª fase contemplará três etapas. O contrato abrange a Etapa 1 que consiste na instalação de 12 cascatas de ultracentrífugas. 

Quando estiver concluída essa etapa, a INB alcançará uma capacidade de enriquecimento de urânio que atenderá as necessidades de combustível nuclear das usinas de Angra 1 e Angra 2. FOTO: FCN - Divulgação INB -

terça-feira, 27 de outubro de 2020

Justiça proíbe transferência de combustíveis de Angra 1 e Angra 2 para UAS. Eletronuclear contesta e informa que trabalhos estão a pleno vapor

 


A Justiça decidiu nesta terça-feira (27/10) que a Eletronuclear não deve realizar a transferência dos combustíveis usados (urânio enriquecido) das usinas Angra 1 e Angra 2, para a Unidade de Armazenamento a Seco (UAS), que está sendo construída, por falta de licenciamento específico para o empreendimento. A ação civil pública foi movida recentemente pelo procurador da República, Igor Miranda. Segundo ele, o licenciamento obtido nos órgãos ambientais é simplificado, e não cumpre o que se exige para grandes obras como é o caso da UAS. 


A Eletronuclear divulgou nota nesta noite (27/10) informando que a decisão da 1ª Vara Federal de Angra dos Reis “não impede a continuidade das obras da UAS, nem paralisa os processos de licenciamento nuclear e ambiental em andamento”. E garante que “ambos seguem a pleno vapor”. Afirma que segue “à risca” todas as normas de licenciamento da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) e demais órgãos. 


A decisão liminar concedida em ação civil pública movida pelo MPF, que questiona a regularidade do licenciamento ambiental para a construção do novo depósito de resíduos. Apesar de não ter sido um pedido específico do MPF, o juízo da 1ª Vara Federal de Angra dos Reis (RJ) considerou “evidente a ausência de autorização para que a Eletronuclear promova transferência de quaisquer materiais radioativos para a UAS”. 


Na ação, o MPF, argumenta que os depósitos a seco possuem natureza jurídica de nova instalação nuclear, por isso não podem ser submetidos a um processo de licenciamento simplificado. No caso do projeto da UAS, “são necessários estudo de impacto ambiental e divulgação do pertinente relatório de impacto ambiental (EIA/RIMA), audiências públicas, consulta prévia e informada às populações tradicionais circundantes e prévia aprovação do Congresso Nacional”. 


A Eletronuclear ressaltou em nota que a decisão judicial “apenas proíbe, no presente momento”, a movimentação de combustíveis usados de Angra 1 e 2 até a UAS. “Quanto a isso, a empresa frisa que, ao contrário do que afirma o MPF, não há nenhuma transferência de material prevista para as próximas semanas”. Afirmou que as obras da unidade ainda estão em progresso, assim como o licenciamento. A previsão é que esse procedimento seja realizado somente em 2021, informou a estatal


FOTO: Um dos cilindros que compõe a UAS. Divulgação Eletronuclear. Leia no BLOG matérias com todas as informações sobre a UAS. 

Depósito definitivo para rejeitos radioativos: Clédola de Tello fala sobre atrasos, entraves e perspectivas

 


Carioca de nascimento, mineira por adoção, avó, jogadora de esgrima, a engenheira nuclear Clédola Cássia Oliveira de Tello, é quem está no comando do projeto nacional de construção do depósito definitivo para armazenar os rejeitos radioativos de baixa e média atividade, produzidos no país. A libriana de 67 anos, que fala seis idiomas, não concorda que esses rejeitos sejam chamados de “lixo atômico” (leia box). Apaixonada pelo trabalho no Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear (CDTN), da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), em MG, onde está há 41 anos, ela admite que já sofreu preconceito por ser mulher, mas soube driblar as situações muito bem. Clédola coordena cursos de pós-graduação em energia nuclear, e atribui o pouco interesse das mulheres, à preferência do mercado de trabalho por homens. Preconceito a parte, ela conversou com exclusividade com o BLOG e adiantou porque o projeto, iniciado em 2008, sofreu uma série de atrasos. Finalmente, em 2021, quando a pandemia estiver controlada, Clédola e equipe apresentarão o trabalho completo ao governo. Orçado em R$ 120 milhões, o depósito deverá ser construído no Rio, em São Paulo ou Minas Gerais. Eis a entrevista. 

BLOG: Por que o CDTN, em Belo Horizonte, está à frente do projeto do depósito nacional para rejeitos radioativos de baixa e média atividade? 

CLÉDOLA: O CDTN foi escolhido para coordenar o projeto para a implantação do Repositório – também designado depósito final – Nacional para os Rejeitos de Baixo e Médio Nível de radiação (RBMN), devido à experiência de seu grupo de Rejeitos Radioativos (RR), do qual faço parte. 

BLOG: Como a senhora chegou à coordenação do trabalho? 

CLÉDOLA: Por conta da grande experiência, adquirida ao longo de minha vida profissional. Eu trabalho no CDTN há 41 anos. Sempre fiz parte da equipe do setor de Gerência de Rejeitos. Ao longo do tempo fui me especializando em tratamento de rejeitos radioativos e perigosos. 

BLOG: O acidente com césio 137, em Goiânia, em 1987, teve influência? 

CLÉDOLA: Sim. Trabalhei durante a descontaminação de Goiânia devido ao acidente radiológico com a fonte de radioterapia de césio 137. A partir daí o tema armazenamento e deposição de rejeitos radioativos foi despertando meu interesse. Fiz especialização e mestrado em engenharia nuclear. O mestrado e o doutorado (em engenharia química) tiveram ênfase em rejeitos radioativos. 

BLOG: Conte mais sobre a sua experiência. 

CLÉDOLA: Fiz um curso de especialização na França sobre gerência de rejeitos radioativos no instituto de pesquisas de Saclay; um estágio profissional de 18 meses em Karlsruhe, na Alemanha, onde aprendi técnicas de tratamento de rejeitos e avaliação de rejeitos solidificados e por último outro estágio no BNL, nos Estados Unidos, também na área de rejeitos. Fiz cursos sobre repositórios pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) na Suíça, nos Estados Unidos e na Áustria. De modo que participei como perito de algumas atividades da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), na Espanha, México e Colômbia. 

BLOG:  O projeto do depósito brasileiro é um dos mais importantes no setor nuclear brasileiro, pois é a solução para o armazenamento dos rejeitos. Qual a sua avaliação nesse sentido? 

CLÉDOLA: Sim. Mostra o compromisso e a responsabilidade do País no uso da energia nuclear em diversas atividades, apresentando a solução para o armazenamento final dos rejeitos radioativas, dentro de padrões internacionais. Faz parte da garantia de sustentabilidade da indústria nuclear no Brasil. 

BLOG:  Desde o acidente de Goiânia que se busca essa solução, mas até hoje nada aconteceu de concreto. Por que até hoje o país corre o risco de acidentes, por conta dessa demora? 

CLÉDOLA: A questão dos rejeitos gerados pelo acidente radiológico em Goiânia foi solucionada. Estão armazenados em Abadia de Goiás, em áreas de deposição projetadas de acordo com a legislação nacional e internacional. Desde 1992, fazem parte do Centro Regional de Ciências Nucleares do Centro-Oeste (CRCN-CO). Normalmente, esses em empreendimentos são de responsabilidade da alta direção do país. 

BLOG: O depósito nacional será bem diferente... 

CLÉDOLA: O Repositório a ser implantado pelo Projeto que coordeno será construído para receber rejeitos gerados em todo o território nacional, contendo vários radionuclídeos. Houve sempre por parte da CNEN a preocupação da implantação deste repositório. A CNEN é responsável pela parte técnica e vem dedicando-se com sua equipe de servidores de prover todas as necessidades para que o repositório seja implantado. 

BLOG: Mas até hoje não saiu do papel. 

CLÉDOLA: Como a CNEN não é uma empresa e não tem orçamento para uma obra deste vulto, é preciso que haja um compromisso do governo federal para que seja possível sua construção e operação. Porém, embora a parte construtiva seja de média complexidade, as atividades que a antecedem apresentam a maior complexidade, principalmente aquelas ligadas ao licenciamento; neste caso, composto da parte ambiental e da parte radiológica. 

BLOG: Como será feita a seleção do local? 

CLÉDOLA: A seleção de local envolve critérios técnicos, sociais e ambientais que devem ser equacionados para o sucesso do empreendimento. O perigo de acidente com rejeitos por este atraso é muito pequeno. O atraso causa prejuízos maiores nas áreas financeiras, sociais e técnicas. 

BLOG: Esse projeto nacional começou há muito tempo. 

CLÉDOLA: O projeto teve seu termo de abertura assinado em novembro de 2009. Os maiores atrasos foram devido a eventos internos a CNEN, nacionais e internacionais. Exemplos foram as mudanças na Presidência da República e nos Ministérios, consequentemente na Presidência da CNEN e suas diretorias, trazendo descompasso ao projeto. O acidente ocorrido em Fukushima trouxe uma carga negativa para a área nuclear e os orçamentos voltados para a área foram cortados. 

BLOG: O que aconteceu depois? 

CLÉDOLA: Felizmente, em 2018, foi reconhecido como projeto de Estado, graças a um trabalho conjunto da CNEN/MCTI juntamente com o GSI. Durante este período muita coisa foi realizada: Estabelecimento do projeto conceitual do repositório e da deposição; Estudo do inventário de rejeitos radioativos existentes e previsão do inventário futuro; seleção de áreas potenciais para busca de locais candidatos para a implantação do repositório, dentro da normativa nacional e requisitos técnicos reconhecidos internacionalmente; definição e detalhamento de atividades em cada uma das edificações do repositório; Estabelecimento de um plano preliminar para as atividades de pesquisa e desenvolvimento a serem realizadas na Instalação; e a elaboração do plano preliminar para a análise de segurança. 

BLOG: E agora? 

CLÉDOLA: Nosso principal desafio é ter um orçamento próprio, seguro e suficiente para que possamos fazer as aquisições de serviços e materiais no momento em que estes são necessários, independente dos recursos da CNEN. Lidamos também com a diminuição de recursos humanos especializados em geral por aposentadoria. 

BLOG: Os governos anteriores não se importaram com a solução ou não havia recursos? 

CLÉDOLA: Houve um pouco de cada. Na publicação do Ministério de Ciência e Tecnologia, em 2006, já havia o Programa 18.5 “Implementação de uma Política Brasileira de Gerenciamento de Rejeitos Radioativos”. Tinha como objetivo: “Implementar uma Política Brasileira de Gerenciamento de Rejeitos Radioativos, visando garantir o gerenciamento e o armazenamento seguro dos rejeitos radioativos produzidos no território nacional”. 

BLOG: Como era? 

CLÉDOLA: Este programa tinha cinco metas e uma delas era “Projetar e iniciar a construção de um depósito definitivo para rejeitos de baixo e médio níveis de radiação, com entrada em operação prevista para entrar em operação em 2013”. Com expectativa de aplicação de orçamento. Assim em 2008 foi incentivada a criação de um projeto para atingir esta meta e, em novembro de 2009, o Projeto RBMN foi lançado. 

BLOG: O que houve depois? 

CLÉDOLA: Entretanto, nenhum orçamento foi colocado para a execução de suas atividades. Com as constantes mudanças ministeriais e consequentes mudança nos escalões da CNEN, o projeto não teve apoio suficiente para se estabelecer totalmente. O avanço do projeto ocorreu graças à persistência de seus técnicos, que buscaram soluções, conseguindo progressos significantes, mesmo sem o protagonismo necessário nas esferas superiores. 

BLOG: Caso o governo não decida pela construção, o que poderá acontecer? 

CLÉDOLA:  Teremos uma acumulação de rejeitos nas instalações geradoras e cada gerador terá que dedicar grande parte de seus recursos para construir e licenciar novos depósitos iniciais e cuidar garantir sua guarda, até que no futuro o repositório seja construído. O mesmo ocorrerá com qualquer instalação radiativa ou nuclear que vier a ser licenciada e ou construída no país. De qualquer forma, agora ou no futuro próximo, este empreendimento terá que ser implantado e quanto mais se posterga esta solução, mais caro e mais preocupante é a situação dos geradores. Outra implicação refere-se ao cumprimento de acordo internacional estabelecido na Convenção Conjunta de Rejeitos Radioativos e de Combustível Irradiado, ratificada pelo Brasil em 2005, de construir depósitos definitivos para os rejeitos radioativos gerados em território nacional. Mais uma implicação é a imagem da energia nuclear como um todo, pois cria-se a percepção que não há solução adequada para estes rejeitos, o que é uma inverdade. 

BLOG: Pelo inventário atual de rejeitos, como está a situação brasileira no momento? 

CLÉDOLA: Para os próximos anos os geradores conseguem gerenciar seus rejeitos sem ônus extras, porém depois da metade desta década, precisará pensar em novas construções e licenciamento para continuar cuidando destes rejeitos. Com a entrada em operação de Angra 3 e aumentando as aplicações da energia nuclear e radionuclídeos estas iniciativas serão mais prementes. Tudo isto se o repositório não estiver pronto até lá. 

BLOG: Na sua avaliação, por que o assunto não tem sido amplamente debatido junto à sociedade? 

CLÉDOLA: Acredito que seja porque nos ensinos fundamental e médio fala-se de outras formas de energia, mas não de nuclear. E na mídia quando se fala do assunto é sempre com um viés negativo, dificultando este debate. 

BLOG: A mídia divulga os fatos. O que tem sido feito para mudar essa imagem? 

CLÉDOLA: Nossa equipe tem buscado sempre fazer ações para informar e discutir com diversos públicos sobre a gerência de rejeitos e o repositório. Temos apresentado palestras, seminários e publicações abertas, para estudantes e professores dos diversos níveis de ensino, como também em congressos e seminários. Atualmente estamos buscando mais esta visibilidade, mostrando que este assunto não é tabu, e que casos de sucesso nesta área existem há mais de 25 anos em alguns países. 

BLOG: Se a construção não ocorrer logo, poderá haver possibilidades de acidentes? 

CLÉDOLA: Em princípio não. Como os rejeitos radioativos são tratados, guardados e seu volume é relativamente pequeno, quando comparado a outras atividades, a possibilidade de acidentes com os rejeitos é mínima. A discussão aqui é tornar o uso da energia nuclear mais eficiente trazendo uma solução centralizada para os rejeitos, economizando divisas e aumentando o conhecimento das partes interessadas no assunto, buscando criar essa cultura nas indústrias. 

BLOG: Como as entidades procedem com os seus materiais radioativos hoje? Estão bem armazenados? Quantos fiscais trabalham nessa área? 

CLÉDOLA: Atualmente os maiores geradores são as usinas nucleares Angra 1 e Angra 2, que cuidam e armazenam seus rejeitos tratados. Os pequenos geradores guardam seus rejeitos contendo radionuclídeos de meia-vida curta para decaimento e aqueles classificados como de baixo e médio nível são geralmente enviados aos institutos da CNEN para tratamento e guarda em depósitos intermediários. A fiscalização fica a cargo da Diretoria de Radioproteção e Segurança. 

BLOG: Quantas instituições manuseiam esses materiais? 

CLÉDOLA: Existem muitas instituições que usam materiais radioativos, como por exemplo instalações médicas, industriais, de pesquisa e desenvolvimento, os reatores nucleares, etc. Cada uma produz rejeitos que são classificados diferentemente e cuja gerência e destinação serão também diferentes. Não sei precisar o número de instalações que temos no Brasil. Para o tratamento de rejeitos radioativos, além dos grandes geradores, os institutos da CNEN estão habilitados para tratar e armazenar rejeitos radioativos e fontes fora de uso em suas instalações. 

BLOG: Com ocorreu a participação da empresa francesa ANDRA nesse projeto? 

CLÉDOLA: Diversos países possuem empresas públicas que têm a responsabilidade da gerência dos rejeitos radioativos, incluindo a deposição. Na França, a gerência de rejeitos radioativos está a cargo da empresa ANDRA – Agence Nationale pour la gestion des Dechets Radioactifs – que foi responsável pela construção de dois repositórios, L’Aube e CIRES, na França e colaborou e colabora com a construção de outros em países da Europa e da Ásia. Uma vez que o conceito selecionado para o nosso repositório, conforme recomendado pelas normas brasileiras, é semelhante ao de L’Aube, e tendo ANDRA experiência comprovada na área, ela foi contratada para a elaboração do projeto conceitual. Este projeto está pronto e terá sua versão final tão logo se tenha o local para a construção do repositório. 

BLOG: Como avalia o tamanho de sua responsabilidade nesse projeto? 

CLÉDOLA: A responsabilidade neste projeto é muito grande, pois vai além da responsabilidade técnica. Durante o tempo em que o projeto não teve reconhecimento nas esferas decisórias, a responsabilidade de manter a equipe motivada e de buscar recursos humanos e financeiros propôs desafios maiores do que conhecimento técnico, passando pelas áreas administrativas, financeira, de comunicação, chegando até às esferas políticas. Durante um tempo a responsabilidade passou principalmente por meu lado cidadã, sabendo que se o projeto fosse esquecido, demoraria muito mais para que fosse retomado, principalmente, devido à falta de recursos humanos com a capacitação nesta área, que estão diminuindo com o tempo. 

BLOG: Por ser mulher, à frente de um projeto tão importante, já sofreu algum preconceito? 

CLÉDOLA: Sim, principalmente no início do projeto. Está diminuindo, mas ainda existe. Porém não percebi nenhum preconceito da parte da equipe que trabalha comigo. 

BLOG:  A senhora chefia uma equipe com quantas pessoas? É fácil? 

CLÉDOLA: Fácil não é. Como se diz, se fosse fácil era outro que estaria fazendo. Nossa equipe é multidisciplinar e a coordenação é matricial, quer dizer, administrativamente não tenho cargo de chefia. Dentro do projeto procuro os perfis que são adequados para executar as tarefas e negocio com os servidores e seus chefes administrativos o trabalho que necessitamos. Atualmente estão trabalhando diretamente no projeto cerca de 20 pessoas. A maior parte do pessoal é compromissado e capaz, trazendo tranquilidade para a coordenação. A dificuldade maior é que, como a equipe não pode dedicar-se exclusivamente ao projeto, muitas vezes demandas concorrentes impedem que as atividades aconteçam no prazo esperado. Tarefas dependentes de setores não técnicos são no momento minha maior preocupação. 

BLOG: Por que se interessou por energia nuclear (rejeitos)? 

CLÉDOLA: Nos dois últimos anos da universidade fiz alguns estágios na área ambiental e na área de petróleo e mineração, mas sempre com processos inovadores. Sempre gostei da pesquisa tecnológica, que tem aplicação nos processos e produtos agregando valor. Quando me inscrevi para o concurso da Nuclebrás, fiquei seduzida pela ideia de trabalhar em algo novo e desafiador como a energia nuclear. Duas áreas chamaram mais a minha atenção, a operação de reatores e o cuidado que era dedicado ao setor de rejeitos. No CDTN já havia um grupo formado para o tema de gerência de rejeitos e durante alguns encontros com este e outros grupos foi natural a escolha. 

BLOG: Conte sobre o seu projeto para estimular estudantes mulheres a se interessarem pelo tema. 

CLÉDOLA: Há cerca de quatro anos, verifiquei que na busca de vagas para bolsas de iniciação científica e pós-graduação, quando homens e mulheres tinham o mesmo desempenho, havia uma tendência geral pela escolha de homens. A partir de então resolvi fazer o inverso e assim proporcionar mais oportunidade às mulheres. Atualmente trabalho com um grupo de estudantes de graduação e pós-graduação, composto em sua maioria de mulheres, que têm tido excelente desempenho e do qual tenho muito orgulho de orientar. 

BLOG: Por que poucas mulheres se interessam por energia nuclear nas faculdades? 

CLÉDOLA: O que mais dificulta o interesse das mulheres pela energia nuclear são as oportunidades de trabalho, pois temos ainda poucas empresas trabalhando na área. Na medicina nuclear há mais espaço para mulheres. Porém para a Engenharia Nuclear, como acontece para todas as demais engenharias, embora sejamos muitas, talvez numericamente mais que os homens, a maioria das empresas dá preferência aos homens, mesmo quando menos qualificados. Ainda existe muito preconceito. 

BLOG:  Como se define pessoalmente? 

CLÉDOLA:  Sou brasileira, de uma família de seis irmãos; mãe de um filho e uma filha e avó. Sou esposa e tia. Apaixonada pela família e encontros familiares. Meus prazeres são ler, falar e aprender idiomas, dançar e cozinhar. Amo esportes, a maioria para assistir, e esgrima para praticar: paixão descoberta aos 50 anos. 

BLOG: Profissionalmente? 

CLÉDOLA:  Como engenheira, contei com professores em todo o tempo de formação (Norma, Heloísa, Paulo, Maria Augusta) para saber exatamente que eu amo a engenharia. Por isto, a felicidade de poder ir para o CDTN todos os dias sem sentir o peso que muitos sentem. Gosto muito do que faço e tento fazê-lo da melhor forma que consigo. Busco ser justa, mas sou exigente. Diversos colegas de trabalho são amigos e companheiros de vida, pois começamos juntos nossa trajetória profissional, e aí fomos crescendo, namorando, casando, tendo filhos, separando, tendo netos, acumulando dores do corpo e da alma e apoiando-nos uns aos outros e ficando cada dia mais fortes. 

CLÉDOLA DESAPROVA O USO DA EXPRESSÃO POPULAR LIXO ATÔMICO - 

“Primeiramente quero dizer que o termo lixo atômico é totalmente inapropriado. Pela definição de lixo estaria incorreto, pois lixo joga-se fora e toda e qualquer matéria é atômica (contém átomos). O rejeito radioativo por sua vez é gerenciado, tratado e armazenado adequadamente. Eles são classificados como: Isentos, podem ser descartados sem restrição; meia-vida muito curta, contêm elementos com meia-vida até 100 dias e, portanto, deixam de ser radioativos entre poucas horas até dois ou três anos. (São guardados nas instalações até que possam ser descartados sem restrição); Baixo e médio nível de radiação, contêm elementos com meia-vida maior do que 100 dias até cerca de 30 anos, provenientes da operação das usinas nucleares (luvas, filtros, soluções etc.), de trabalhos de PD&I, usos na medicina, na indústria etc. Representam o maior volume. Estão incluídos nesta classe materiais que apresentam radionuclídeos da série natural do urânio e do tório. E também: Alto nível de radiação, rejeitos com potência térmica superior a 2 kW/m3 e com concentrações de radionuclídeos de meia-vida longa. No Brasil ainda não há nenhum material nesta classificação". FOTO: CLÉDOLA DE TELLO - ARQUIVO PESSOAL.  


segunda-feira, 26 de outubro de 2020

País abriga três mil instalações radioativas e trinta unidades nucleares operando com fontes de radiação


O Brasil abriga três mil instalações radioativas e trinta unidades nucleares, que operam com fontes de radiação de baixa e média atividade. Esses números, raramente informados, foram divulgados pelo titular de radioproteção e segurança nuclear (DRS), da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), Ricardo Fraga Gutterres, durante as comemorações dos 64 anos da entidade, no início do mês.

 A DRS realiza 500 inspeções por ano, na área da fiscalização regulatória. “São números que impressionam”, comentou Gutterres. O material descartado é uma parte que deverá ser armazenada no depósito nacional definitivo, quando for construído. A quantidade desse material radioativo fiscalizado pela CNEN não foi divulgada. 

O titular da Diretoria de Pesquisas e Desenvolvimento (DPD) da CNEN, Madison Coelho de Almeida, falou sobre a variedade das aplicações da tecnologia nuclear e citou alguns exemplos envolvendo as áreas da saúde, agricultura, mineração e geração de energia elétrica. Informou que são realizados dois milhões de procedimentos da medicina nuclear por ano no país (diagnostico e tratamento), que utilizam radiofármacos produzidos por institutos da CNEN e pela iniciativa privada. 

Todo o material descartado nessas áreas, de baixa e média atividade, é considerado rejeito. O armazenamento de todo esse material é um grande desafio para o futuro. 

USINAS NUCLEARES - 

Rejeitos de baixa e média atividade são produzidos também na troca de combustível (urânio enriquecido) das usinas nucleares Angra 1 e Angra 2. Ficarão em depósitos, na central nuclear de Angra, até que seja construído o empreendimento definitivo para todo material produzido no país. 

Os rejeitos são constituídos de luvas, sapatilhas, vestimentas, máscaras e ferramentas contaminadas que podem, após o decaimento (diminuição da atividade radioativa com o tempo), serem liberados como resíduos industriais ou lixo comum, pois não apresentam risco, informou a estatal. 

LAVADOS E REUTILIZADOS - 

Na maioria dos casos, materiais em bom estado (como vestimentas) em vez de serem descartados, “são lavados e reutilizados”, segundo a estatal. Os rejeitos que não podem ser descartados são acondicionados em recipientes específicos, de acordo com o tipo. São embalagens testadas e qualificadas pela CNEN, estocadas nos depósitos iniciais, no próprio sitio da central nuclear. 

Nos últimos cinco anos, em média, Angra 1 produziu, por ano, 100 metros cúbicos de rejeitos. No total, desde que entrou em operação, em 1985, a usina comprada da norte-americana Westinghouse, acumulava 3122,8 metros cúbicos de rejeitos, até o ano passado. 

Também até 2019, Angra 2, fruto do acordo nuclear com a Alemanha, produziu 10 metros cúbicos de rejeitos, por ano. Desde que entrou em operação, em 2001, totaliza a produção de 169,2 metros cúbicos de rejeitos de baixa e média atividade. 

PISCINAS GUARDAM COMBUSTÍVEL USADO - 

Nas piscinas instaladas nas próprias usinas estão guardados o precioso combustível usado (urânio enriquecido) retirado dos reatores de Angra 1 e Angra 2. São eles que alimentam o coração (reator) das centrais nucleares de Angra dos Reis. São essas piscinas que estão chegando ao limite do armazenamento. Daí, a Eletronuclear estar construindo a Unidade de Armazenamento a Seco (UAS) para recebê-los. 

 A capacidade de armazenamento da piscina de Angra 1 é de 1.252 elementos combustíveis. Até 2019, estavam armazenados no local 1.084 elementos combustíveis. A usina já parou 24 para reabastecimento de combustível. 

Em relação a Angra 2, a capacidade da piscina é de 1.084 elementos combustíveis. Até o ano passado estavam armazenados no local 756, número que pode ter aumentado, já que a unidade foi mais uma vez desligada em junho desse ano, para nova troca de combustível. O número de paradas sobe de 16 para 17. A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) acompanha os trabalhos, porque urânio usado, se reprocessado, se transforma em plutônio (combustível para armas nucleares). O Brasil, contudo, sempre declarou estar comprometido apenas com o uso pacifico da energia nuclear, assinando acordos internacionais. 

FOTO - ILUSTRAÇÃO DO DEPÓSITO DEFINITIVO.  

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

Oito usinas nucleares no Nordeste estão entre as metas do setor para os próximos 30 anos

 


Não há tempo ruim para a energia nuclear no Brasil. Especialistas projetam investimentos de cerca de US$ 50 bilhões em um período de 30 anos, o que representa cerca de R$ 300 bilhões em três décadas, o equivalente a R$ 10 bilhões por ano, apenas para as novas plantas nucleares. A possibilidade de construção de oito usinas nucleares até 2050 no Nordeste, assumirá um papel estratégico na retomada econômica pós-pandemia do coronavirus (Covid-19), dizem. 

Um céu de brigadeiro pode ser observado diante das expectativas otimistas que estão sendo antecipadas por especialistas que vão participar do XI Seminário Internacional de Energia Nuclear (SIEN)-2020), com realização online, de 28 a 30/10. As metas fazem parte do Plano Nacional de Energia – PNE 2050, que poderá gerar forte movimentação de recursos no setor nuclear, segundo eles. Isso, além da expectativa de investimentos de R$ 15,5 bilhões na retomada das obras da usina nuclear Angra 3, prestes a definir um modelo de parceria internacional. 

O ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, confirmou presença na sessão de abertura do evento, na manhã de quarta-feira (28/10). A direção do evento adianta que a presença do ministro reforça a posição do governo no sentido de fortalecer a atividade nuclear no Brasil. Dentre as medidas está a recém-criação da Autoridade Nacional de Energia Nuclear, vinculado ao MME, que será responsável pela formulação das políticas de energia nuclear. 

O Governo Federal já definiu uma lista de objetivos a serem conquistados também pelo MME nos próximos 30 anos: ajustar a legislação para atrair investimentos; concluir Angra 3 até 2026; estender o funcionamento de Angra 1 por mais 20 anos; voltar à mineração após cinco anos; prouzir urânio (até 2.400 toneladas/ano); implantar o repositório nacional de rejeitos; entre outros. 

FOTO: Usina nuclear Angra 1 - Divulgação Eletronuclear.  

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