sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Angra 3: Leonam contesta artigo de Scalambrini

 


"O artigo Por que o governo não deve concluir Angra 3, - de Heitor Scalambrini -, publicado nesta sexta-feira (23/01) no blog da jornalista Tania Malheiros, apresenta uma narrativa fortemente opinativa, porém metodologicamente frágil, ao tentar desqualificar a conclusão da usina nuclear por meio de uma combinação de episódios históricos, generalizações e afirmações não sustentadas por evidências técnicas ou econômicas verificáveis.

 O texto inicia com uma longa enumeração de controvérsias passadas associadas ao setor nuclear brasileiro, incluindo acidentes radiológicos, episódios de contrabando, programas paralelos e falhas institucionais. Embora seja legítimo reconhecer erros históricos e problemas de governança, essa estratégia argumentativa é intelectualmente problemática. Listar eventos heterogêneos ocorridos ao longo de décadas não constitui, por si só, uma demonstração de inviabilidade técnica ou econômica de um empreendimento específico no contexto atual. A análise séria de Angra 3 exige dados contemporâneos, avaliação de engenharia, critérios regulatórios vigentes e projeções energéticas atualizadas, e não a simples evocação de um passado conflituoso. 

No campo econômico, o artigo incorre em outra fragilidade central ao afirmar que a energia produzida por Angra 3 custaria entre quatro e seis vezes mais do que fontes renováveis, citando supostamente um estudo recente do BNDES, mas sem apresentar referência formal, metodologia utilizada ou parâmetros considerados. Não se esclarece se os valores incluem custos financeiros, amortização de capital, vida útil da planta, fatores de capacidade, estabilidade do suprimento ou externalidades ambientais. Sem transparência metodológica, esses números perdem valor analítico e assumem caráter meramente retórico. Estudos internacionais amplamente reconhecidos demonstram que os custos de geração variam fortemente conforme hipóteses adotadas, regime de financiamento, escala de operação e perfil do sistema elétrico, sendo incorreto tratar a comparação entre nuclear e renováveis como uma relação simples e linear. 

A abordagem dos riscos e da segurança nuclear também carece de rigor técnico. O texto enfatiza acidentes históricos como Chernobyl e Fukushima sem contextualizar diferenças fundamentais entre projetos antigos e as tecnologias atualmente adotadas em usinas modernas. Ignora-se que os padrões internacionais de segurança evoluíram significativamente, incorporando sistemas passivos, múltiplas camadas de redundância e requisitos regulatórios muito mais rigorosos. Além disso, a questão dos rejeitos radioativos é apresentada como um problema sem solução estrutural, o que não corresponde à realidade. Países como Finlândia e Suécia já avançaram para a implantação de repositórios geológicos profundos definitivos, baseados em décadas de pesquisa científica e validação internacional. A ausência dessa informação reforça uma narrativa alarmista que não reflete o estado atual do conhecimento técnico. 

Outro ponto recorrente do artigo é a suposta obsolescência tecnológica de Angra 3, associada ao fato de parte dos equipamentos ter sido adquirida nas décadas passadas. Essa argumentação confunde atraso cronológico com inviabilidade tecnológica. Grandes projetos de infraestrutura, em especial no setor nuclear, frequentemente passam por longos ciclos de implantação, nos quais componentes são atualizados, sistemas são modernizados e padrões normativos são revisados ao longo da obra. A simples antiguidade de determinados equipamentos não constitui, por si só, prova de inadequação técnica, especialmente quando processos de requalificação, retrofit e certificação fazem parte da prática internacional. 

Do ponto de vista lógico, o texto recorre repetidamente a estratégias retóricas pouco consistentes, como o apelo ao medo, a construção de falsos dilemas entre nuclear e fontes renováveis e a associação indevida entre problemas institucionais passados e a inviabilidade estrutural da tecnologia nuclear como um todo. Ao fazer isso, o artigo deixa de tratar o tema como uma questão de política pública baseada em dados e passa a operar no campo da persuasão emocional. 

Em síntese, embora o debate público sobre Angra 3 seja legítimo e necessário, o artigo analisado não apresenta o rigor técnico, econômico e metodológico exigido para sustentar suas conclusões. Ao substituir análise estruturada por generalizações históricas, números não referenciados e narrativas alarmistas, o texto enfraquece o próprio debate que pretende estimular. A decisão sobre a conclusão ou não de Angra 3 deve ser fundamentada em estudos de engenharia, avaliações econômico-financeiras transparentes, análises de segurança nuclear atualizadas e planejamento energético de longo prazo — e não em construções retóricas descoladas da realidade técnica do setor".

 AUTOR RESPONSÁVEL - 

LEONAM DOS SANTOS GUIMARÃES: Doutor em Engenharia Naval e Oceânica pela USP e Mestre em Engenharia Nuclear pela Universidade de Paris XI, é CEO da Eletrobrás Eletronuclear, membro do Grupo Permanente de Assessoria em Energia Nuclear do Diretor Geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), membro do Conselho de Representantes da World Nuclear Association (WNA). Foi Presidente da Seção Latino Americana da Sociedade Nuclear Americana, Diretor Técnico-Comercial da Amazônia Azul Tecnologias de Defesa SA – AMAZUL, Assistente da Presidência da Eletrobrás Eletronuclear e Coordenador do Programa de Propulsão Nuclear do Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo (CTMSP). 

FOTO – ACERVO PESSOAL - 

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2 comentários:

  1. Excelente análises!!!.. Precisáva-se essa reflexão!!!

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  2. Excelente.
    Observações:
    - Ao que eu saiba, estudos sérios de viabilidade já foram feitos e refeitos. E todos são favoráveis à conclusão da construção.
    - O arrependimento alemão deveria ser levado em conta.
    - Não é necessária muito conhecimento de economia para saber que quanto mais demorada uma obra, maiores os custos.

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