O Brasil detém a segunda maior
reserva de terras raras do mundo, perdendo apenas para a China. Há décadas o
país abandonou as pesquisas sobre as terras raras, verdadeiro tesouro, “para a
fabricação de barras metálicas”, baterias e outros produtos essenciais na área
da tecnologia. O tema voltou fortemente à mídia após as declarações do presidente
dos Estados Unidos, Donald Trump, em torno de seu interesse nas terras raras
brasileiras.
Rio de Janeiro, 20 de dezembro de 2025 -
Apesar de pareceres
contrários do Ministério Público Federal (MPF), o Conselho Estadual de Política
Ambiental (Copam) de Minas Gerais aprovou ontem (19/12) as licenças prévias dos
projetos de mineração de terras raras no Sul do Estado, das empresas
australianas Viridis Mining and Minerals e Meteoric Resources. Presidida pelo
presidente da Câmara de Atividades Minerárias da Secretaria de Estado de Meio
Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, Yuri Trovão, a reunião virtual teve
várias contestações, algumas, publicadas pela imprensa e pelo Blog.
“Se houver
algum acidente ali em Poços de Caldas, que é o berço das águas no Sudeste, isso
vai contaminar até São Paulo, e vai chegar na Argentina”, alerta a deputada Duda
Salabert (PDT).
Os procedimentos foram alvo de pelo menos quatro recomendações do Ministério Público Federal
(MPF), que
pediam a retirada dos projetos da pauta da 131ª reunião da Câmara Técnica
Especializada de Atividades Minerárias (CMI), do Copam. Conforme o órgão de
Justiça, a análise dos projetos Colossus, da empresa Viridis, e Caldeira, da
Meteoric, foi “prematura”. Os procuradores demonstraram preocupação com o
impacto hídrico no Aquífero Alcalino, em Poços de Caldas, e a proximidade do
projeto da Meteoric com a Unidade de Descomissionamento de Caldas (UDC), que
abriga rejeitos radioativos das antigas minas de urânio da região.

Riscos de
contaminação radioativa com materiais como urânio e tório, entre outros,
incluindo a possibilidade de a cava de mineração poder ocasionar o rebaixamento
do nível do lençol freático; a ausência de um estudo de impacto regional sobre
os recursos hídricos, por exemplo. São alguns dos alertas que constam nas
recomendações urgentes mencionadas em documento do Ministério Público Federal
(MPF), através do núcleo ambiental da Região Centro-Sul, à Fundação Estadual de
Meio Ambiente (Feam) e ao Conselho Estadual de Política Ambiental (Copam)
visando garantir a suspensão da análise de dois processos de licenciamento
ambiental referentes aos projetos Colossus, em Poços de Caldas (MG), e
Caldeira, em Caldas (MG), ambos de exploração e beneficiamento de terras raras
em Minas Gerais.
CONTAMINAÇÃO RADIOATIVA PODE CHEGAR Á ARGENTINA -
Em
entrevista ao jornal “O Tempo”, a deputada federal Duda Salabert (PDT) afirmou
que a aprovação destes projetos não coloca em risco somente os municípios de
Caldas e Poços de Caldas, mas um grande número de cidades em Minas Gerais e,
até mesmo, São Paulo. “São dois grandes empreendimentos de mineradoras com
risco de acidente radioativo. Não só pela retirada das terras raras, que por si
só já tem a produção de elementos radioativos, mas, também, por estar ao lado
de uma barragem que é uma das maiores com material radioativo do planeta. Se
houver algum acidente ali em Poços de Caldas, que é o berço das águas no
Sudeste, isso vai contaminar até São Paulo, e vai chegar na Argentina. Então é
um risco seríssimo que envolve não só o debate estadual, mas federal”, alertou
a deputada.
Procurado pelo jornal, o governo de Minas, por meio da Fundação
Estadual do Meio Ambiente (Feam), informou que recebeu as recomendações do MPF
e que todas elas foram "devidamente avaliadas, garantindo a possibilidade
de sanar dúvidas e incorporar ajustes ao rito processual". O órgão
ambiental do Estado alegou ainda que a Comissão Nacional de Energia Nuclear
(CNEN) declarou "preliminarmente" que as instalações da empresa
atendem às normas, uma vez que os "níveis de radiação avaliados estão
dentro dos limites toleráveis".
SUSPENSÃO IMEDIATA -
A deputada
estadual Bella Gonçalves (PSOL) ingressou com uma Ação Civil Pública, junto de
entidades da sociedade civil, pedindo a suspensão imediata do colegiado que
estaria operando, desde maio deste ano, com mandatos vencidos e prorrogados de
forma ilegal pelo governo estadual. “A ação questiona a Deliberação Normativa
nº 2.054/2025, publicada pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente e
Desenvolvimento Sustentável (Semad), que prorrogou por prazo indeterminado os
mandatos dos conselheiros do Copam, apesar de a legislação mineira proibir
expressamente qualquer recondução ou prorrogação”, denunciou a deputada. “Manter
o Copam funcionando com mandatos vencidos é uma ilegalidade grave e abre
caminho para danos ambientais irreversíveis”, disse ela. A questão dos mandatos
vencidos havia sido denunciada também pelo MPF.
Segundo a deputada estadual
Beatriz Cerqueira (PT) os empreendimentos deveriam ter passado por análises
sobre os seus efeitos cumulativos na região. “Não há uma análise integrada dos
efeitos cumulativos e sinérgicos decorrentes da implantação simultânea dos dois
projetos no Planalto Vulcânico de Poços de Caldas. Os empreendimentos vêm sendo
analisados de maneira fragmentada, sem a devida consideração dos efeitos
cumulativos de sua operação conjunta, o que impede a aferição segura da real
capacidade de suporte do território”.
EMPRESAS SE INOCENTAM -
Em nota, a
Meteoric Caldeira Mineração LTDA, responsável pelo Projeto Caldeira, informou
que o licenciamento tramita no âmbito estadual porque “o empreendimento não se
enquadra nas hipóteses legais que determinam a competência federal do Ibama
para o licenciamento ambiental”. A empresa reconhece a ocorrência natural de
radionuclídeos associados às argilas que contém terras raras, mas afirma que
“os estudos técnicos demonstram que os níveis de radioatividade do projeto
estão abaixo dos limites de risco definidos pela legislação brasileira”,
condição que, segundo a Meteoric, é comprovada por laudos técnicos desde 2024. De
acordo com a empresa, o empreendimento foi “formalmente dispensado de
licenciamento radiológico pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), via a atual Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN)”, segundo o jornal.
A Meteoric sustenta
que, “não se tratando de atividade nuclear, nem de empreendimento com material
radioativo em níveis que exijam controle federal específico, o Projeto Caldeira
não atrai a competência do Ibama por esse critério”. A companhia também afirma
que o projeto “está integralmente localizado no município de Caldas (MG), não
interfere em terras da União, não se sobrepõe a áreas federais e não apresenta
impactos ambientais de abrangência interestadual ou nacional”, condições que,
segundo a empresa, justificam o licenciamento estadual.
Por isso, de acordo com
a Meteoric, o processo “vem sendo conduzido pela Fundação Estadual do Meio
Ambiente (FEAM), que analisou os estudos apresentados, incorporou recomendações
técnicas pertinentes e emitiu parecer favorável à apreciação do projeto pelo
Copam”. Já a Viridis Mineração, responsável pelo Projeto Colossus, afirmou que
os estudos realizados pela empresa e o parecer técnico da CNEN indicam que os
níveis de radioatividade do empreendimento estão abaixo do limite que exigiria
controles especiais, atendendo às normas vigentes. A empresa também citou nota
pública da Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN), na qual o órgão
federal afirma que “não há risco radiológico atrelado aos projetos de terras
raras no Sul de Minas”.
Enquanto isso o MPF recomendava a retirada dos
processos da pauta de votação do Copam. A medida busca a realização de estudos
e consultas complementares que tratem dos riscos ambientais e sociais
pendentes, segundo documento do MPF. O MPF solicitou que a Feam exija
manifestação da INB e da Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN) sobre
o risco à segurança nuclear que decorre da movimentação de argila e veículos
pesados nas proximidades.
“ALTO NÍVEL DE POTENCIAL POLUIDOR” -
Os projetos
Colossus (da Viridis Mineração Ltda.) e Caldeira (da Meteoric Caldeira
Mineração Ltda.) estão localizados no Planalto Vulcânico de Poços de Caldas.
Ambos são classificados como empreendimentos de mais alto nível de potencial
poluidor, classe 6.
DANOS GRAVES –
As empresas preveem a movimentação e o
processamento químico de 5 milhões de toneladas de argila por ano, cada uma,
utilizando a técnica de lixiviação ácida. O MPF baseia-se no “princípio da
precaução, que exige a adoção de medidas para prevenir danos graves, visto que
o conhecimento científico sobre os impactos da mineração de terras raras na
atualidade ainda é limitado”.
RISCOS DE PROXIMIDADE COM A ÁREA NUCLEAR -
No Projeto Caldeira, uma das principais preocupações é a
proximidade do empreendimento com a Unidade de Descomissionamento de Caldas
(UDC) das Indústrias Nucleares do Brasil (INB). A UDC é um complexo desativado,
que armazena rejeitos e materiais radioativos. “Embora a área nuclear tenha
sido excluída da Área Diretamente Afetada (ADA) do projeto, as instalações
estão dentro da Área de Influência Direta (AID) socioeconômica. A mineração
está a 1,83 km da Barragem de Rejeitos e a 2,55 km da Barragem D4.
Em
consulta à Agência Nacional de Mineração (ANM), o MPF verificou que as
barragens de rejeitos da UDC/INB, especificamente a Barragem D4 e a Barragem
"Bacia Nestor Figueiredo" (BNF), estão classificadas em Nível de
emergência 1. Além disso, a procuradora da República Flávia Cristina Tavares
Torres, que assina a recomendação relativa ao projeto da Meteoric, também
demandou estudos complementares para analisar se o processo de lixiviação
química, que usa grande volume de água, pode capturar outros metais pesados,
como tório e urânio, o que poderia gerar rejeitos radioativos pelo aumento da
concentração desses elementos.
Prejuízos hídricos e tecnologia
experimental em Poços de Caldas –
No Projeto Colossus, o foco está nos
riscos ambientais e hídricos. A área de mineração é de recarga do Aquífero
Alcalino de Poços de Caldas, que abastece a região e já enfrenta risco de
escassez hídrica. A previsão é de supressão de 98 nascentes nesse aquífero. A
cava de mineração pode ocasionar o rebaixamento do nível do lençol freático, um
efeito classificado como negativo e relevante. O MPF ressalta a ausência de um
estudo de impacto regional sobre o recurso hídrico, que seria utilizado no
abastecimento do próprio projeto. Outra grande preocupação é o uso do método de
lixiviação da argila retirada da natureza.
O procurador da República
Marcelo José Ferreira, que assina a recomendação do projeto Colossus, destaca a
falta de estudos que demonstrem a ausência de risco de contaminação das águas
subterrâneas pelo nitrato. O MPF também destacou a ausência de estudos sobre os
impactos a longo prazo, com a água da chuva ao penetrar no solo, que passou
pelo processo de lixiviação, e se a devolução dessa argila compactada impedirá
o processo de reflorestamento previsto. "Dada a natureza experimental da
tecnologia no Brasil, o MPF recomenda que a Feam inclua como condicionante a
instalação de uma planta piloto para o Projeto Colossus e Caldeiras. Essa
planta deve comprovar que 99% do sulfato de amônio será removido da argila,
atestando quimicamente que o resíduo é compatível com um fertilizante agrícola
comum e não um contaminante tóxico".
OUTRAS IRREGULARIDADS E EXIGÊNCIAS
LEGAIS –
Na recomendação, o MPF alertou para o fato de o Projeto
Colossus estar proposto a menos de 300 metros de um hospital e a,
aproximadamente, 50 metros de bairros residenciais. A atividade também está
dentro da Área de Segurança Aeroportuária (ASA) do Aeroporto de Poços de
Caldas, o que requer aprovação prévia do Departamento de Controle do Espaço
Aéreo (DECEA) e da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), devido ao risco de
colisão com aves e elevação de obstáculos.
COMUNIDADES TRADICIONAIS –
No Projeto Caldeira, foi identificada a violação de um direito fundamental de
populações locais: a falta de consulta livre, prévia e informada às Comunidades
Indígenas e Quilombolas da região. Essa consulta é um requisito legal
estabelecido pela Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho
(OIT) e sua ausência impede o prosseguimento da licença. O Projeto Caldeira
também inclui parte de uma Área de Proteção Ambiental (APA) Santuário Ecológico
da Pedra Branca, em Caldas, onde a lei municipal proíbe atividades minerárias.
O Conselho Gestor da APA já indeferiu o pedido.
LICENCIAMENTO FRAGMENTADO –
Para
ambos os projetos, o MPF argumenta que o licenciamento ambiental fragmentado,
focado em projetos individuais, é insuficiente para tratar dos impactos
cumulativos e sinérgicos da região, que tem múltiplos projetos de mineração.
Por isso, o MPF solicitou que a Feam exija uma Avaliação Ambiental Estratégica
(AAE) ou Avaliação Ambiental Integrada (AAI) para o Planalto de Poços de
Caldas. A região é sensível e abrange ecossistemas e corpos hídricos
interconectados a bacias hidrográficas interestaduais e integra o bioma Mata
Atlântica.
MANDATOS VENCIDOS -
Por fim, o MPF exige a suspensão dos Pareceres
de Licença Prévia já emitidos e que a Feam realize consultas aos órgãos
competentes e à população afetada antes de qualquer deliberação. O órgão também
destacou que o Copam e sua Câmara de Atividades Minerárias (CMI) estão com
mandatos vencidos e sem composição renovada desde maio de 2025, o que afeta o
princípio da paridade entre Estado e sociedade civil. O MPF ressalta que as
recomendações não encerram sua atuação sobre o tema e que os destinatários
estão cientes da situação, podendo ser responsabilizados por omissões futuras.
O núcleo ambiental da Região Centro-Sul do MPF reúne as atribuições das
Procuradorias da República em Divinópolis e Varginha.
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NO BLOG - 09/09/2023 - Sobre o caso - Herança maldita da ditadura -
(FONTE
– ASCOM MPF – MG - JORNAL O TEMPO) –
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