O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) confirmou nesta quarta-feira (23/9) que uma parcela do material que vazou na tarde de terça-feira (22/9) de uma caixa de fibra que se rompeu, na Unidade de Concentração de Urânio (URA), da Indústrias Nucleares do Brasil (INB), em Caetité (BA), “atingiu o lado externo e alcançou o sistema fluvial, ainda dentro da propriedade da URA, sendo recolhido na caixa de coleta de efluentes”. O local onde ocorreu o vazamento foi interditado. Mesmo sem os resultados dos exames das amostras, segundo a fiscalização (ANSN), "as avaliações não indicam contaminação do solo". O Blog apurou que havia urânio (elemento radioativo) na mistura do material que vazou
O Ibama recebeu a informação de um representante da INB, na noite de terça-feira, ou seja, horas depois do ocorrido, registrado às 15h40. “O rompimento de uma caixa de fibra que armazenava efluente industrial resultou no derramamento de líquido destinado a tratamento químico, que ficou, em sua maior parte, restrito à área de contenção da própria instalação”, informou o Instituto. “Equipes iniciaram a limpeza da área, além de ter sido realizada coleta de amostra para análise”.
No dia seguinte ao rompimento, o órgão licenciador nuclear, Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN), informou nas redes sociais que estava acompanhando o caso; depois, “determinou a interrupção preventiva das atividades operacionais na área afetada”.
A INB informou em comunicado oficial que a ocorrência não provocou impacto aos trabalhadores e à população ou liberação de material para fora das instalações da empresa. “A empresa classificou a situação como um evento não usual leve e informou que a ocorrência ficou restrita a uma área pavimentada, dotada de sistema de contenção com dupla camada de proteção”. Imagens mostram a fragilidade do local.
De acordo com a reportagem publicada nesta quarta-feira (23/9), o rompimento de uma caixa de fibra com capacidade para 20 mil litros contendo solvente com material radioativo, como urânio, ocorreu nesta terça-feira (22), na URA, em Caetité (BA). A divulgou que o “incidente” com “emulsão proveniente do processo industrial, não provocou impacto aos trabalhadores, à população ou liberação de material para fora das instalações”. O Blog apurou que não havia trabalhadores na hora do rompimento, mas parte do material vazou para local de circulação onde trafegam veículos e pessoas dentro da unidade. Foto exclusiva mostra o local do vazamento. A área 300 é onde é feita a regeneração do solvente. A maior parte do material ficou dentro da contenção do local que já é contaminado.
EVENTO NÃO USUAL -
A INB informou que a “situação foi classificada como evento não usual e ficou restrita às instalações da unidade, em área pavimentada e dotada de sistema de contenção com dupla camada de proteção, composta por concreto e PEAD”. Informou também que “as equipes da unidade foram imediatamente acionadas e já realizam a limpeza da área. Uma equipe multidisciplinar acompanha a situação e define as demais providências necessárias. A Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN) foi imediatamente comunicada e acompanha as ações adotadas pela INB”.
FISCALIZAÇÃO – AVALIAÇÃO –
Mesmo antes dos resultados de testes com amostras, a ANSN, autarquia federal, vinculada ao Ministério de Minas e Energia (MME), com sede em Botafogo, divulgou nas redes que “as avaliações não indicam contaminação do solo, permanecendo os efeitos da ocorrência restritos à área afetada e à calçada adjacente”. Entre as ações em curso estão coletas de amostras, monitorações locais, descontaminação e limpeza das áreas atingidas. A INB está providenciando a transferência do material retido na área de contenção para outro reservatório. Como “medida cautelar”, a ANSN determinou que as atividades operacionais na área afetada permaneçam interrompidas. ”A retomada ficará condicionada à demonstração, pela instalação, do cumprimento dos requisitos de segurança aplicáveis e das determinações decorrentes da avaliação da ocorrência. A INB deverá apresentar, no prazo de 30 dias, relatório consolidado com a avaliação das causas da ocorrência, as medidas corretivas adotadas e previstas, os respectivos prazos de implementação e os elementos necessários à verificação de sua efetividade”.
Na URA o urânio passa pelo primeiro processo do ciclo do combustível nuclear: é transformado em yellowcake, seguindo viagem rumo ao exterior (Rússia) onde passa por outras transformações até o enriquecimento para alimentar as usinas nucleares de Angra dos Reis (Angra 1, desligada recentemente para a troca e combustível, entre outras operações; e Angra 2, em funcionamento).
VALE LEMBRAR OUTRO VAZAMENTO -
Em julho deste ano de 2026 o Blog divulgou um vazamento de amônia (produto altamente tóxico) ocorrido no dia 21 de junho (21/6) na URA. Na ocasião, o Ibama exigiu ao INB um documento com a descrição do acidente e “as medidas adotadas para seu atendimento e demais informações técnicas necessárias à avaliação da ocorrência”. Após o recebimento da comunicação, a Superintendência do Ibama na Bahia notificou a empresa, por meio do Ofício nº 571/2026/SUPES-BA, requerendo a apresentação, do “relatório circunstanciado com a descrição das causas do acidente’, entre as outras exigências.
ACIDENTE -
As instalações da INB em Caetité já registraram vários problemas, como o caso da queda de um operador na URA. O homem caiu e se feriu ao pisar numa tampa de ferro que estava aberta, em uma das oito células do setor de extração de urânio (área 160) às 10h30 em 1º de outubro de 2025. Em nota interna de esclarecimento a INB declarou que a informação “não procede”. Mas logo em seguida reiterou: “O fato envolveu um empregado que, durante atividade rotineira no setor de extração, sofreu uma queda em compartimento contendo solvente orgânico descarregado”. A empresa negou e confirmou ao mesmo tempo. Não informa como e porque o empregado sofreu a queda. E assim o caso foi encerrado, com a empresa tentando desqualificar a informação.
VENDAVAL -
Danos provocados por vendaval, no dia 31 de dezembro de 2023, paralisam as atividades de lavra na mina do Engenho, da URA), por um tempo. Na época, a informação do BLOG foi confirmada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). A área de produção do concentrado de urânio foi a mais danificada. Esta é uma prova de que eventos climáticos extremos podem afetar instalações que operam com material radioativo.
VISTORIA DO IBAMA -
Segundo a INB, entre os dias 15 e 17 de setembro deste ano, a URA recebeu vistoria técnica do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Participaram da vistoria equipes da Coordenação de Licenciamento Ambiental de Mineração (Comip) e da Coordenação de Registro e Informação sobre Remediação e Contaminação Ambiental (Cicam), ambas do Ibama, que durante os três dias, percorreram diferentes áreas para verificar, em campo, a execução das medidas de controle e mitigação ambiental que integram o licenciamento ambiental da unidade. O roteiro incluiu a plataforma da usina, a Mina do Engenho, estradas internas, áreas em processo de recuperação ambiental, as proximidades da Barragem de Águas Claras e pontos de monitoramento do meio biótico e da fauna. A equipe do Ibama também acompanhou as atividades do Gerenciamento de Áreas Contaminadas (GAC), observando o avanço das atividades previstas para tratamento de eventos não usuais pretéritos. A programação abrangeu ainda as ações do Programa de Comunicação Social e iniciativas desenvolvidas no âmbito dos programas de Educação Ambiental, contemplando diferentes aspectos da gestão ambiental da unidade”.
IBAMA: RENOVAÇÃO DA LICENÇA COM CONDICIONANTES -
Segundo a equipe técnica do Ibama, acrescentou a INB, a atividade integra o acompanhamento periódico realizado na URA. “Essa vistoria faz parte das inspeções que realizamos de forma frequente, com o objetivo de acompanhar se os sistemas de controle ambiental da unidade estão operando de acordo com o que é estabelecido pelo órgão ambiental”.
E mais: “A equipe técnica do Ibama ressaltou ainda que a vistoria já estava programada e não decorre da recente renovação da Licença de Operação da unidade. Para eles, o acompanhamento ao longo dos anos permite observar a evolução dos procedimentos ambientais adotados. Como o Blog divulgou na semana passada, o Ibama concedeu a terceira renovação da Licença de Operação (LO) nº 274/2002 da Unidade de Concentração de Urânio (URA) da INB, com validade de 10 anos. Foi autorizada a continuidade das atividades como a lavra de urânio na Mina do Engenho e o beneficiamento do minério para produção de concentrado de urânio, únicos em operação no País. Mas o Ibama estabeleceu uma série de condicionantes gerais e específicas. A autorização poderá ser suspensa ou cancelada se houver “violação ou inadequação de quaisquer condicionantes ou normais legais”, “omissão ou falsa descrição de informações relevantes, que subsidiaram a expedição da licença; superveniências de graves riscos ambientais e à saúde”. O vazamento registrado nesta terça-feira leva à reflexão a segurança das instalações.
CAETITÊ -
A unidade ocupa uma área de 1.700 hectares, localizada em uma província mineral com recursos que chegam a 87 mil toneladas de urânio e onde estão identificados 17 depósitos minerais. De 2000 a 2015, a INB Caetité produziu 3.750 toneladas de concentrado de urânio a partir da extração a céu aberto de uma dessas jazidas – a mina Cachoeira. A mina que se encontra em operação hoje é a mina do Engenho.
(FOTOS EXCLUSIVAS DO BLOG)- Vejam outras fotos exclusivas do local do vazamento, obtidas pela reportagem. A primeira foto mostra como ficou a área dentro da contenção; a segunda; a caixa que estourou ao fundo; a terceira, o local onde ocorreu o rompimento.
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