quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Terras raras: empresa australiana afirma que adquiriu direitos de mineração no Brasil em transação com grupo privado; negócio passou pela ANM

 


Embora o ministro da Secretaria- Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos, tenha afirmado que sobre as terras raras brasileiras nada será feito nas esferas estadual e municipal, sem o aval federal, Eder Santo, um dos diretores da empresa australiana Meteoric, em entrevista exclusiva ao Blog, informou que a companhia adquiriu os direitos minerários em março de 2023, por meio de uma transação privada com o Grupo Togni, “realizada em conformidade com a legislação mineral brasileira e com os procedimentos regulatórios aplicáveis junto à Agência Nacional de Mineração (ANM)”. Desde então, “conduz estudos geológicos, metalúrgicos, de engenharia e ambientais” visando o licenciamento do empreendimento em Poços de Caldas (MG), onde mantém uma planta piloto que reproduz o mesmo processo que será aplicado na planta industrial do projeto Caldeira para a produção de Carbonato de Terras Raras. Eder Santo negou que já exista contratos de venda de minerais aos estados Unidos. Mas admitiu: “O que há são Memorandos de entendimento assinados com as empresas norte-americanas e europeias – como Ucore Rare Metais, a Metallium e a Neo Performance Materiais que tratam de potenciais parcerias futuras para o fornecimento de carbonato de terras raras. “São acordos preliminares, não contratos definitivos”.  

Diz que não tem parceria com o governador Romeu Zema, mas admite “parcerias institucionais com a FIEMG e a InvestMinas, que reforçam o alinhamento do projeto às prioridades de desenvolvimento econômico e industrial do estado”. A possibilidade de o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) assumir o licenciamento colocada pela ministra Marina Silva, ele “não encontra respaldo na legislação brasileira”. Marina, segundo ele, talvez não tenha tido acesso a todas as informações sobre o projeto Caldeira. Eis a entrevista - 


BLOG - Desde quando a empresa está em Poços de Caldas? Qual o perfil da empresa, principais interesses no Brasil? 

EDER SANTO - A Meteoric é uma empresa australiana de capital aberto responsável pelo desenvolvimento do Projeto Caldeira, localizado no município de Caldas (MG), no Planalto Vulcânico de Poços de Caldas. A companhia adquiriu os direitos minerários em março de 2023 e, desde então, conduz estudos geológicos, metalúrgicos, de engenharia e ambientais necessários ao processo de licenciamento do empreendimento. Os direitos minerários correspondem às autorizações e títulos concedidos pela ANM que permitem a realização de atividades de pesquisa mineral em uma determinada área. No Brasil, os direitos minerários são solicitados junto à Agência Nacional de Mineração (ANM) por meio de requerimentos administrativos previstos no Código de Mineração e em suas normas regulamentares. Esses direitos não se confundem com licenças ambientais nem com autorizações para lavra ou exploração econômica, que dependem de etapas posteriores de licenciamento e autorizações específicas junto aos órgãos competentes. 

BLOG: COMO A EMPRESA ADQUIRIU OS DIREITOS MINERÁRIOS? 

EDER SANTO: A Meteoric adquiriu os direitos minerários relacionados ao Projeto Caldeira em março de 2023, por meio de uma transação privada com o Grupo Togni, realizada em conformidade com a legislação mineral brasileira e com os procedimentos regulatórios aplicáveis junto à Agência Nacional de Mineração (ANM). 


BLOG: NOVIDADES HOJE.

 EDER SANTO: Hoje, a Meteoric recebeu no seu Centro de Inovação e Pesquisa a equipe técnica do Projeto MAGBRAS e autoridades locais. Para mais informações sobre a iniciativa MAGBRAS, da qual a Meteoric também participa. 

BLOG – CONTE MAIS SOBRE A METEORIC - 

EDEN SANTO - A matriz da empresa está em Perth, na Austrália, e sua base acionária é formada por investidores institucionais especializados em minerais críticos. O interesse da Meteoric no Brasil é desenvolver o Projeto Caldeira e contribuir para que o país se posicione como um fornecedor global competitivo de terras raras. 

BLOG - Qual o resultado da audiência pública para o licenciamento ambiental da empresa? Hoje está em qual fase? Qual o passo adiante? A empresa já está instalada na região? Onde? 

EDER SANTO - A audiência pública do Projeto Caldeira ocorreu em 9 de novembro de 2024, em Caldas (MG), seguindo as determinações da Deliberação Normativa COPAM 255/2018. O evento reuniu mais de 500 participantes e foi transmitido integralmente e ao vivo pelo Youtube. Todas as manifestações foram registradas em Relatório Síntese e protocoladas junto ao órgão ambiental de Minas Gerais (FEAM), responsável pelo licenciamento ambiental. O Projeto Caldeira recebeu Licença Prévia com efeito em dezembro de 2025, emitida pelo COPAM, atestando a viabilidade ambiental preliminar e estabelecendo condicionantes para as próximas etapas. Atualmente, a Meteoric desenvolve os estudos complementares exigidos para o pedido de Licença de Instalação. Não existe operação instalada. As atividades em curso envolvem pesquisa mineral, estudos ambientais, projeto de engenharia e testes metalúrgicos. A empresa mantém em Poços de Caldas uma planta piloto que reproduz o mesmo processo que será aplicado na planta industrial do Projeto Caldeira para produção de Carbonato de Terras Raras. Não há extração mineral. 

BLOG - Onde exatamente a empresa pretende ou já está operando em MG? Quais as metas e quantidades de terras raras a ser extraída? 

EDER SANTO - Como mencionado, não há nenhuma operação comercial em andamento. A empresa mantém em Poços de Caldas uma planta piloto experimental, que serve exclusivamente para geração de dados técnicos, simulação de rotas de processamento e produção de amostras de carbonato de terras raras, além de capacitação de operadores para trabalharem na futura planta comercial. Esta é uma etapa padrão em projetos minerais de grande porte. O Projeto Caldeira possui hoje uma reserva estimada de 103 milhões de toneladas, conforme divulgado ao mercado, e seu Estudo de Pré-Viabilidade (PFS) apresenta projeções técnicas que indicam o potencial do depósito. Segundo esse estudo, a operação, quando for implantada, teria como parâmetros preliminares: capacidade de processamento de 6 milhões de toneladas por ano, produção anual estimada de 13.584 toneladas de TREO, o equivalente a cerca de 6% do mercado global; além de 4.228 toneladas/ano de NdPr (aprox. 5% da demanda mundial) e 135 t/ano de DyTb, elementos essenciais à fabricação de ímãs permanentes de alta performance. Esses números representam projeções técnicas e econômicas, mas não são metas operacionais. 

O Projeto Caldeira é concebido como um projeto estratégico para a transição energética, com potencial para contribuir com cadeias globais de mobilidade elétrica, turbinas eólicas e tecnologias de baixo carbono. Todo seu desenvolvimento segue o compromisso de rigor ambiental, inovação tecnológica e transparência regulatória, em conformidade com as normas brasileiras e com as exigências dos órgãos ambientais estaduais e federais. 

BLOG - Qual a negociação com o governador Romeu Zema? Está em que fase? 

EDER SANT0 - Não existe negociação específica com o governador Romeu Zema. O foco da Meteoric está no processo técnico de licenciamento e no desenvolvimento sustentável do Projeto Caldeira. A empresa mantém diálogo institucional e técnico com governos e órgãos reguladores, sempre dentro dos limites previstos pela legislação brasileira. Em Minas Gerais, a Meteoric estabeleceu parcerias institucionais com a FIEMG e a InvestMinas, que reforçam o alinhamento do projeto às prioridades de desenvolvimento econômico e industrial do estado. Essas alianças têm como objetivo desenvolver a cadeia industrial da produção de ímãs e outras tecnologias que utilizam terras raras como componente, além de fortalecer o posicionamento de Minas Gerais e do Brasil na produção de minerais críticos, na transição energética e inovação industrial, ampliando a relevância de Minas Gerais nesse cenário estratégico. 

BLOG - O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não aceitará iniciativas isoladas do governo de Minas Gerais para autorizar a exploração de terras raras no estado. A posição foi reafirmada semana passada pelo ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos, após reuniões em Brasília (DF) com uma comitiva de movimentos populares, que denunciou irregularidades no licenciamento concedido pela gestão de Romeu Zema (Novo). Se o presidente Lula impedirá autorizações para a extração em MG, o que a empresa fará? 

EDER SANTO - A Meteoric segue rigorosamente as determinações legais e requisitos que regem o processo de licenciamento, tanto ambiental como mineral, no Estado de Minas Gerais e no Brasil, e acredita que a autonomia de Estados e Municípios, definida pela Constituição Federal e aplicável ao licenciamento ambiental do Projeto Caldeira, será mantida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A empresa mantém interlocução institucional e técnica regular com os governos federal, estadual e municipal dentro dos limites previstos pela legislação. Desde o início das atividades do Projeto Caldeira, a Meteoric estabelece diálogo participativo com o Governo Federal, atuando em ações estratégicas do próprio governo para o desenvolvimento e inovação do setor minerário, tanto que o Projeto Caldeira integra a Plataforma Brasil de Investimentos Climáticos e Transformação Ecológica (BIP), iniciativa federal voltada à estruturação de projetos estratégicos para a transição energética. Tal fato demonstra alinhamento institucional e participação ativa do governo federal na agenda de minerais críticos. 

BLOG - A agenda com Guilherme Boulos foi articulada pela deputada estadual Bella Gonçalves (Psol) e incluiu encontros com a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, e com o próprio Boulos. Nas reuniões, representantes de comunidades e movimentos populares apresentaram denúncias sobre a concessão de uma chamada “licença prévia sem efeitos” para exploração de terras raras no Planalto Vulcânico do Sul de Minas, instrumento jurídico que não existe na legislação federal. O que a empresa acha disso? O que fará ou já está fazendo? 

EDER SANTO - É importante informá-la que a Licença Prévia (LP) emitida para o Projeto Caldeira é com efeito e, portanto, um instrumento legal e previsto na legislação ambiental brasileira.  Ressalta-se que Meteoric segue à risca a legislação federal, estadual e municipal. Todas as informações técnicas foram disponibilizadas aos órgãos ambientais e à sociedade. 

BLOG – A companhia possui contratos de venda desses minerais para os Estados Unidos. É verdade? 

EDER SANTO - A Meteoric ainda não possui contratos de venda firmados para os Estados Unidos. O que há são Memorandos de Entendimento (MoUs) assinados com empresas norte-americanas e europeias — como a Ucore Rare Metals, a Metallium e a Neo Performance Materials — que tratam de potenciais parcerias futuras para fornecimento de carbonato de terras raras. Esses MoUs são acordos preliminares, não contratos definitivos. 

BLOG - Mas segundo Guilherme Boulos, qualquer tentativa do governo mineiro de avançar sem a coordenação federal está fadada a não produzir efeitos. “O presidente Lula determinou que toda discussão sobre terras raras seja conduzida no âmbito da Presidência da República. Foi criado um grupo estratégico para tratar desse assunto, e qualquer tentativa de atropelar esse processo nacional será inócua”, afirmou o ministro. Como a empresa está administrando a questão? 

EDER SANTO - A Meteoric mantém diálogo institucional com o Governo Federal e participa das iniciativas relacionadas ao desenvolvimento de minerais críticos no país. Em 2025, o projeto foi incluído na Plataforma Brasil de Investimentos Climáticos e Transformação Ecológica (BIP). Caso o Governo Federal estabeleça procedimentos adicionais, a empresa seguirá as normas estabelecidas. 

BLOG - As empresas australianas não estariam tentando passar por cima das questões da soberania nacional brasileira? 

EDER SANTO - Não há qualquer iniciativa da Meteoric que possa ser vista como tentativa de afrontar a soberania nacional, uma vez que o licenciamento ambiental do Projeto Caldeira segue estritamente a legislação estabelecida em nível federal, estadual e municipal e não há qualquer impedimento de uma empresa de origem estrangeira atuar no desenvolvimento de projeto de mineração no Brasil. Pelo contrário, a atuação de empresas estrangeiras no país é garantida pela Constituição Federal. Ademais, a Meteoric tem atuado em parceria com o Governo Federal com objetivo de contribuir para que o país transforme seu potencial geológico em protagonismo internacional na transição energética e nas cadeias tecnológicas globais baseadas em minerais críticos, ou seja, a empresa tem atuado para que seja desenvolvido no país um parque industrial capaz de produzir do minério ao ímã de terras raras. O Projeto Caldeira se encontra atualmente na fase de licenciamento ambiental e recebeu, em dezembro de 2025, a Licença Prévia com efeito. Nenhuma etapa do projeto avança sem autorização das autoridades brasileiras. A Meteoric reconhece que as terras raras são um recurso estratégico para o país, especialmente diante da transição energética e das cadeias globais de tecnologia. Todo o processo é conduzido com transparência, participação social e respeito integral às instituições brasileiras. 

BLOG - Boulos também se comprometeu a levar o caso diretamente ao presidente e a discutir medidas para proteger a soberania nacional sobre um recurso considerado estratégico para a transição energética e para a indústria de alta tecnologia. O que acha? Qual a posição? 

EDER SANTO - Como respondido anteriormente, não há qualquer iniciativa da Meteoric que possa ser vista como tentativa de afrontar a soberania nacional. Pelo contrário, o Projeto Caldeira fortalece o protagonismo do Brasil na produção de minerais críticos, essenciais para a transição energética e para a indústria de alta tecnologia. O trabalho é conduzido com transparência, participação social e respeito integral às instituições brasileiras, consolidando o país como um ator relevante nas cadeias globais de tecnologia. 

BLOG - Quais as medidas que estão sendo tomadas para que não haja riscos ambientais? 

EDER SANTO - O Projeto Caldeira foi concebido para gerar o mínimo impacto possível ao longo de sua vida útil. Para tanto, foi projetado adotando boas práticas de mineração disseminadas por instituições como o ICMM (International Council on Mineral and Metals). Uma dessas boas práticas é o Fechamento Progressivo das áreas mineradas, que é destacado na publicação Integrated Mine Closure Good Practice Guide, 3rd Edition (ICMM, 2025). 

O Fechamento Progressivo do Projeto Caldeira prevê o preenchimento (com a argila lavada – resíduo do processo de separação das terras raras – e estéreis) e a reabilitação das cavas ainda durante a fase de operação. Este processo elimina a necessidade de construção de barragens de rejeitos, garantindo menor risco operacional. Além disso, o Fechamento Progressivo das áreas de lavras faz com que o relevo, ao final das operações, retorne a uma condição similar ao que era antes do processo de mineração, uma vez que as cavas serão aterradas e o relevo reconfigurado. 

No âmbito do Projeto Caldeira foram desenvolvidos 26 programas socioambientais que serão conduzidos desde antes do início da operação do empreendimento e perdurarão até o final da vida útil do projeto. Tais programas visam mitigar todos os potenciais impactos negativos identificados durante as fases de estudos socioambientais. Além do Fechamento Progressivo, o projeto tem alguns diferenciais como: Foi projetado para ter o mínimo impacto sobre o meio ambiente e as comunidades; Não serão utilizados explosivos para a extração do minério; Utilizará energia elétrica 100% de fonte renovável. Zero emissão de gases do efeito estufa pelo uso de energia elétrica; Não possui risco radioativo, conforme atestado pela Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN); Zero emissão de esgotos e de efluentes industriais. O esgoto será tratado no local e a água reutilizada no processo de produção de carbonato de terras raras; Mais de 90% da água será reutilizada; Não possui barragem de rejeitos. 

BLOG - Durante a reunião com a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, foram destacados os riscos ambientais associados à extração e ao armazenamento das terras raras, que podem conter elementos radioativos. Esses materiais representam ameaças ao solo, aos recursos hídricos e à saúde das populações locais, segundo Marina. O que a empresa tem a dizer? 

EDER SANTO- O tema radioatividade é tratado com rigor absoluto pela Meteoric. As análises de radionuclídeos realizadas em amostradas do processo de mineração e do processo industrial de produção de Carbonato de Terras Raras e submetidas à verificação pelo órgão responsável pelo controle nuclear no Brasil, a ANSN (Autoridade Nacional de Segurança Nuclear), demonstraram que não há risco radiológico decorrente das atividades previstas no Projeto Caldeira. A ANSN inclusive se manifestou recentemente a respeito em sua página oficial: https://www.gov.br/ird/pt-br/assuntos/noticias/noticias-2025/esclarecimento-sobre-empreendimentos-de-mineracao-de-terras-raras-em-pocos-de-caldas

A ANSN será responsável pelo monitoramento contínuo das atividades do empreendimento, justamente para garantir que nossas operações não ofereçam riscos ao meio ambiente e nem às pessoas. 

BLOG - Diante do potencial impacto ambiental e do alcance interestadual do empreendimento, Marina Silva sinalizou que o Ministério do Meio Ambiente avalia a possibilidade de o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) assumir o licenciamento, por meio da evocação de competência federal. O diz a empresa sobre a questão? 

EDER SANTO - Como a Ministra do Meio Ambiente Marina Silva possui um perfil técnico e sensato, a Meteoric entende que talvez a Ministra não tenha tido acesso a todas as informações do Projeto Caldeira, fato que pode tê-la levado a entender que o empreendimento deveria ser licenciado pelo IBAMA, o que não encontra respaldo na legislação brasileira, já que quaisquer projetos propostos em território nacional somente são licenciados pelo IBAMA quando: Possui radioatividade natural acima do limite definido pela Norma ANSN NN 4.01; A área diretamente afetada pelo empreendimento abrange dois ou mais estados brasileiros. Como nenhum destes dois critérios se aplica ao Projeto Caldeira, portanto não se enquadra na competência federal, motivo pelo qual o licenciamento ambiental do empreendimento vem sendo conduzido pelo Estado de Minas Gerais, por meio da Fundação Estadual de Meio Ambiente (FEAM), da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (SEMAD). 

PROJETO MAGBRAS -

O Projeto MagBras tem como objetivo estabelecer no Brasil o ciclo completo de produção de ímãs permanentes de terras raras, abrangendo desde a pesquisa mineral e o beneficiamento até a fabricação, aplicação e reciclagem. Esses ímãs são insumos estratégicos para setores como mobilidade elétrica, geração de energia limpa, indústria de defesa e eletrônica de ponta, segundo informações divulgadas pela empresa. 

No âmbito do projeto, o CETEM é responsável pelo desenvolvimento e aplicação de rotas tecnológicas nacionais para a extração, separação por solvente e refino de elementos terras-raras críticos — como praseodímio, neodímio, térbio e disprósio — a partir de diferentes matrizes minerais brasileiras e de ímãs pós-consumo. Esses elementos serão utilizados na produção de ímãs permanentes, contribuindo para reduzir a dependência externa e fortalecer a capacidade tecnológica do país. Em evento realizado em 14/07/2025, no Centro de Inovação e Tecnologia para Ímãs de Terras Raras (CIT SENAI ITR), em Lagoa Santa-MG, marcou o início do Projeto Estruturante “MagBras: Demonstrador Industrial do Ciclo Completo de Produção Brasileira de Ímãs Permanentes de Terras Raras”. A iniciativa foi selecionada na Chamada Pública de Projetos Estruturantes, lançada em julho de 2024, fruto de uma parceria entre a Fundação de Apoio da UFMG (Fundep) e o SENAI, instituições responsáveis pela coordenação de quatro dos sete programas prioritários do Mover (Mobilidade Verde e Inovação). 

Também segundo a página da empresa, a gerente de Programas da Fundep, Ana Eliza Braga, esteve presente na solenidade e ressaltou que o Projeto Estruturante MagBras pode mudar o patamar da indústria instalada no Brasil a nível mundial. “O projeto tem evidente porte para elevar a capacidade industrial e setorial, não estando restrito apenas às demandas de uma empresa ou conjunto de empresas. É um exemplo brilhante do que pode uma aliança academia e indústria realizar”, comenta a executiva.   


TOGNI - GRUPO QUE FEZ NEGÓCIO COM A METEORIC - 

A TOGNI S/A - MATERIAIS REFRATÁRIOS - Está instalada desde o princípio do século XX em Poços de Caldas. “Originalmente, a empresa fabricava tijolos para construção civil e telhas curvas do tipo colonial. O início da produção de refratários deu-se em 1954, ano em que a TOGNI começa o aproveitamento pioneiro das argilas refratárias do Planalto e divulga sua alta qualidade para este fim”. No site da empresa consta: “Hoje, detentora de avançada tecnologia, possui duas fábricas totalmente integradas em Poços de Caldas e uma terceira unidade em Sacramento, no Triângulo Mineiro. Importantes reservas e empresas de mineração próprias garantem o abastecimento das matérias primas estratégicas. A TOGNI faz parte atualmente de um grupo de empresas que atuam nas áreas de refratários, mecânica especializada, mineração, florestamento e rochas ornamentais. 

(O BLOG TENTOU CONTATO COM A MINISTRA MARINA SILVA, SEM RETORNO) – 

( FOTOS – METEORIC – E TOGNI ) – 

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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Terras raras, Boulos alerta: nada será feito nas esferas estadual e municipal sem o aval federal

 


O interesse nas terras raras brasileiras tem sido destaque mundial, enquanto persistem dúvidas sobre o que se pode ou não realizar no território nacional no setor de mineral tão cobiçado. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva acaba de assinar parceria com a Índia, mas ainda não há informações sobre como se dará no acordo. No Brasil, o ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos, já bateu o martelo: ele garantiu que sobre terras raras, “nenhuma decisão poderá partir de governos estaduais ou municipais”. Tudo terá que passar pela esfera federal, avisa Boulos.  

O Blog solicitou informações ao ministro diante de crescente interesse de empresas australianas sobre o mineral, situação muito divulgada, principalmente a partir do início do mês, quando ele recebeu representantes de moradores das regiões de Minas Gerais onde foi identificado potencial para a exploração das terras raras. Afinal, o que diz a legislação brasileira? 

“No encontro, o ministro ouviu as preocupações dos moradores e reforçou, em sua fala, o que já está previsto na Constituição brasileira: O artigo 20, inciso IX diz claramente que os recursos minerais, inclusive os do subsolo, são bens da União. O artigo 22 em seu inciso XII determina que é competência privativa da União legislar sobre jazidas, minas e outros recursos minerais e metalurgia e, por fim, o código de Mineração, Decreto-Lei Nº 227/1967, que regula direito de propriedade da União sobre os recursos minerais e as regras para exploração deixa claro que a titularidade dos recursos minerais é federal e não estadual ou municipal”, informa a nota do ministro para o Blog. E acrescenta: “Ciente disso e da determinação do presidente Lula para que o tema das terras raras seja tratado no âmbito da Presidência da República e do ministério de Minas e Energia, o ministro Boulos garantiu que nenhuma decisão sobre o assunto poderá partir de governos estaduais ou municipais”.

(FOTOS: WIKIPEDIA – SECOM GOVERNO) – 

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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Centro nuclear brasileiro participa de missão à Antártica incluindo pesquisa sobre radioatividade

 


Pesquisadores do Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear (CDTN) acabam de retornar de missão na Antártica onde passaram cerca de dois meses realizando estudos ambientais utilizando técnicas isotópicas, caracterização hidroquímica, hidrológica e hidrogeológica, bem como aplicações da radioatividade natural e radônio. Durante a missão teve choro, medo, superação, frio de doer, o convívio com o vento forte e congelante, e constatação de que “muitas mudanças climáticas já são consideradas irreversíveis na escala humana”. O BLOG conversou com os pesquisadores do Serviço de Análise e Meio Ambiente, Ricardo Gomes Passos, e a geóloga e discente do Programa de Pós-Graduação Ana Clara Mariante Ferreira, ambos do CDTN - unidade técnico -científica da CNEN/MCTI.  “Diante da existência de céticos, pessimistas e da desinformação que ainda permeia o debate climático, o termo esperança — associado à ideia de aguardar e confiar — soa excessivamente passivo frente às evidências científicas disponíveis. A contenção das mudanças climáticas deve ocorrer independentemente da expectativa de reversão dos impactos”, alertam. 

EIS AS ENTREVISTAS - 


A mineira de Belo Horizonte Ana Clara Mariante Ferreira, 27 anos, é formada em Geologia pela Universidade Federal de Minas Gerais, escolheu a carreira motivada pelo interesse no meio ambiente e pelo desejo de poder vivenciar a profissão no ambiente externo, em contato direto com a natureza. “Durante a graduação, tive meu primeiro contato com a Hidrogeologia e desde então, minha trajetória acadêmica e profissional foi guiada pela água. Ao longo do curso me senti realizada por conhecer paisagens exuberantes no interior do Brasil embora jamais pudesse imaginar que minhas escolhas me levariam tão longe. 

BLOG: O maior desafio na missão? Sentiu medo? 

Esta é a segunda OPERANTAR da qual a equipe do CDTN participa, mas não fui integrante da primeira missão ocorrida no verão passado (2024 – 2025). Apesar de não ter participado em campo, os dados coletados na primeira ida foram promissores e indicativos de como as técnicas nucleares podem ser úteis para o entendimento e monitoramento das dinâmicas ambientais em um contexto tão mutável e sensível, como na Antártica.

 


BLOG: Chorou? 

A missão do verão 2025–2026 teve como objetivo aprofundar a caracterização ambiental dos arredores da Estação Antártica Comandante Ferraz, por meio da coleta de amostras de água, solo, neve e ar. A partir desses dados, busca-se consolidar o entendimento do cenário ambiental atual, que servirá de base para o desenvolvimento de modelos computacionais preditivos, destinados à avaliação da influência das mudanças climáticas sobre os cenários futuros. Para isso, a radiação natural, mais especificamente o gás radônio, se mostrou uma ferramenta muito útil para caracterização, uma vez que pode ser usado como traçador natural de fluxo. Presente naturalmente no meio ambiente, ele pode ser facilmente detectado/medido e dar indícios das conexões superficiais e subterrâneas. 

BLOG: Precisou se adaptar? Muita solidariedade? 

Sim. Como minha primeira participação na OPERANTAR XLIV, fui desafiada a me adaptar ao ambiente ICE (isolado, confinado e extremo) e às condições climáticas nem sempre favoráveis às saídas a campo. O vento forte e congelante, as mudanças rápidas no tempo e a exposição ao frio de doer (literalmente) muitas vezes dificultaram as coletas, que por vezes requeriam carregar equipamentos pesados, entrar no mar ou passar horas encolhida no bote. Aos poucos, com o suporte de amigos pesquisadores de outros projetos e de amigos da marinha brasileira, essa dificuldade foi superada. Recebi grande apoio de muitas formas — desde a dedicação e a participação voluntária em dias inteiros de coleta até gestos simples, porém de enorme ternura. Atitudes como compartilhar risadas e piadas internas, enviar uma garrafinha de chá quente para me manter aquecida, emprestar um creme hidratante para aliviar a pele castigada pelo frio ou buscar um colírio para os olhos avermelhados pela luz intensa e pelo cansaço tornaram a minha rotina mais leve e humana. 

BLOG: Fale mais sobre o medo. 

Dito isso, o meu maior medo nessa fase foi não conseguir, mesmo com tanta ajuda, cumprir o planejamento das coletas para o projeto de mestrado e para a pesquisa como um todo. O verão foi atípico no período da minha estadia e as temperaturas permaneceram mais baixas do que o esperado, mantendo os lagos, córregos e poços congelados na maioria do tempo. Isso atrasou as coletas e modificou o cronograma, exigindo alternativas para o máximo aproveitamento dentro das condições possíveis. Imprevistos podem gerar apreensão e ansiedade em trabalhos de campo e é muito importante ter resiliência e perspicácia para mudar os planos. 

BLOG: Conte sobre a paisagem. 

Confesso que sou manteiga derretida e chorei, contidamente, de emoção e alegria na primeira vez em que vi os blocos de gelo flutuando no mar e a paisagem completamente branca, pois jamais imaginei que um chegaria até ali. No entanto, na madrugada da partida da estação, não consegui conter as lágrimas e chorei de soluçar ao ver os amigos que fiz também emocionados, gratos pela oportunidade de ter participado da missão e tomados pela nostalgia de todas as vivências compartilhadas. 

BLOG: O que a missão representou? 

Durante o Treinamento Pré Antártico, pude conhecer pesquisadores fantásticos e muito experientes, com anos de dedicação que nunca tiveram a oportunidade de ir ao sétimo Continente. Como uma jovem aspirante a pesquisadora e aluna de mestrado do Programa de Pós Graduação do CDTN, atualmente avaliado com nota seis na Capes, me senti muito privilegiada e honrada por ter vivenciado esse trabalho de campo, sabendo que menos de 0,01% da população mundial teve essa chance. Apesar de distante do imaginário brasileiro, a Antártica influencia o clima do planeta inteiro e é um termômetro mundial para as mudanças climáticas, que já impactam a nossa realidade, seja na alteração dos regimes de chuva, nas tragédias provenientes das enchentes, nos períodos intensos de estiagem ou nos aumentos médios de temperatura. Neste momento de conflito de interesses globais, produzir ciência e dados de alerta em prol do continente antártico é uma estratégia para resguardá-lo e mitigar as consequências que estão alarmantemente sendo geradas. Diante da existência de céticos, pessimistas e da desinformação que ainda permeia o debate climático, o termo esperança — associado à ideia de aguardar e confiar — soa excessivamente passivo frente às evidências científicas disponíveis. A contenção das mudanças climáticas deve ocorrer independentemente da expectativa de reversão dos impactos. 

BLOG: Qual a mensagem que podemos esperar de vocês? 

A presença do Brasil na Antártica é motivo de muito orgulho para a nação e contribuir para a pesquisa ainda durante a minha formação, me desperta um sentimento profundo de honra e, sobretudo, de responsabilidade em dar voz, divulgar e representar a ciência antártica e o Programa Antártico Brasileiro, levando essa experiência e esse compromisso tanto para dentro quanto para além do meu círculo social. Graças ao apoio da Marinha do Brasil, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e do CNPq, ao participar da OPERANTAR XLIV tive a oportunidade de viver e escrever uma página da história do PROANTAR, que há 44 anos se destaca pela excelência como o programa científico mais longevo do país. 

RICARDO GOMES PASSOS  - 


Natural de Cruz das Almas, no Recôncavo Baiano, 38 anos, com formação acadêmica em inicial em Engenharia Ambiental, com toda a pós-graduação (mestrado, doutorado, pós-doutorado) desenvolvida nas grandes áreas de meio ambiente, saneamento e recursos hídricos. “Sempre (digo, desde o ensino fundamental ou médio) tive interesse em temas ligados ao meio ambiente e à preservação do planeta, mas também sempre fui muito ligado às ciências naturais (especialmente física e matemática) e ao mundo das pesquisas científicas. Quando chegou o momento de escolher a profissão (isso no vestibular, com 17 anos), a Engenharia Ambiental me pareceu uma opção que permeava todas essas áreas, com aplicações práticas e impacto direto na sociedade. E foi exatamente o que encontrei”, contou Ricardo, que atualmente vive em Belo Horizonte. 

BLOG: Como começou a carreira cientifica? 

Comecei a me aproximar da carreira científica ainda na graduação, com bolsas de Iniciação Científica. Mais recentemente, busquei complementar minha formação com um bacharelado em Física, para complementar o que eu já lia e estudava por conta própria, por "hobby". Atualmente, trabalhando em um instituto de pesquisa da área nuclear, no departamento de aplicações em meio ambiente, sinto que consegui integrar todas essas coisas que sempre gostei de estudar e me sinto realizado profissionalmente. 

BLOG: E a tecnologia nuclear? 


No CDTN, consigo coordenar e executar pesquisas nos diversos temas afetos à preservação ambiental (águas superficiais, águas subterrâneas, atmosfera, solos, resíduos, mudanças climáticas...) com o acréscimo das aplicações da tecnologia nuclear e correlatas; o que vêm aportando resultados muito satisfatórios a esses estudos. Isso me deixa muito contente do ponto de vista profissional. Minha primeira expedição à Antártica ocorreu no último verão antártico e também foi a primeira do projeto. BLOG: Como foi a experiência? Éramos quatro pesquisadores, divididos em duplas, permanecendo cerca de dois meses cada. Nenhum de nós tinha experiência prévia com trabalho de campo em ambiente antártico ou mesmo experiência sobre como se manter saudável (principalmente em relação ao psicológico) em um ambiente conhecido como ICE (de "Isolado", "Confinado", "Extremo"). O maior desafio foi de ter que me preparar para o desconhecido e suportar o ambiente ICE, e o maior aprendizado foi o de gerenciar expectativas quanto ao plano de trabalho da pesquisa.

BLOG: medo? 

Não senti medo, mas vivi momentos de ansiedade diante das incertezas e da responsabilidade de resolver problemas inéditos. Na primeira expedição descobri que, na Antártica, o principal desafio é sempre o de manter o cronograma do planejamento inicial em um ambiente que é naturalmente imprevisível. As condições climáticas, as mudanças bruscas de tempo que ocorrem a todo momento, o acesso aos pontos de coleta e a necessidade de compatibilizar agendas com outros grupos de pesquisa exigem muita flexibilidade. Temos que ter sempre em mãos os planos A, B e C.  

BLOG: e na segunda? 


Os perrengues, tristezas, ansiedade, frustrações e desafios da primeira missão viraram aprendizado para a segunda. Nesse sentido, acredito que fui mais preparado para essa segunda expedição após a experiência da primeira. Sim, chorei — tanto na primeira quanto na segunda missão, mas atribuí a uma forma de aliviar a pressão emocional típica de um ambiente ICE e mais a algumas questões pessoais. Só como exemplo para ilustrar uma diferença importante: no nosso dia a dia aqui, quando estamos sobrecarregados ou com sentimentos de tristeza, podemos sair, caminhar, mudar de ambiente ou mesmo temos a possibilidade de ficar sozinhos. Na Antártica, estamos confinados em uma estação de pesquisa que é, ao mesmo tempo, casa e trabalho (e por bastante tempo), e sempre com ambientes compartilhados. Isso exige equilíbrio emocional constante. O ambiente agradável na estação, o apoio dos amigos e os momentos de confraternização com os colegas ajudam nessa tarefa e fazem toda a diferença. Manter uma boa convivência também. 

BLOG: Conte sobre o trabalho com a radioatividade. 

No contexto da pesquisa que estamos desenvolvendo, a radioatividade natural é uma das nossas ferramentas de trabalho. Uma ferramenta científica. Utilizamos equipamentos para detecção das radiações alfa, beta e gama que ocorrem naturalmente nas matrizes ambientais que monitoramos (principalmente em amostras de água do oceano, de córregos, lagos, água de degelo, de neve, do solo, de rochas, de particulados no ar etc.) com o intuito identificar isótopos que funcionam como traçadores dos processos ambientais e das mudanças associadas ao aquecimento global. A utilização da própria radioatividade do ambiente, mesmo que nos baixos níveis encontrados, também tem a vantagem de substituir métodos convencionais de pesquisa que comumente demandam a introdução de substâncias externas, que não estavam anteriormente presente no ambiente. Na Antártica, um dos requisitos para os projetos de pesquisa é que eles não impactem o ambiente, o que é muito justo. Então as técnicas a serem utilizadas sempre devem levar em consideração o impacto ambiental que podem gerar, mesmo que a finalidade da pesquisa seja a mais nobre possível. 

BLOG:  Comente sobre as mudanças climáticas? Como define este momento? Há esperança? 

Infelizmente, vivemos um momento em que muitas mudanças climáticas já são consideradas irreversíveis na escala humana. Diante disso, acredito que nossa responsabilidade, como sociedade, é compreender a dimensão dos impactos para buscar estratégias de mitigação e redução de danos. Durante os trabalhos de campo, é muito comum vivenciarmos paisagens deslumbrantes compostas por geleiras flutuando no mar, porções gigantes à deriva, icebergs etc. É tudo muito lindo, imenso, mas também são sinais claros de transformação. Já não é novidade que a comunidade científica vem alertando sobre a perda de gelo antártico, recuo das geleiras, degradação de solos que eram "permanentemente" congelados etc. São apenas sintomas que parecem estar longe da nossa realidade, mas que estão vinculados a consequências significativas diversas que impactam diretamente a vida na Terra.  

BLOG: De que forma este trabalho pode contribuir para melhoras? 

Nosso projeto tem o objetivo de contribuir um pouco com esse conhecimento, tentando compreender melhor como as mudanças climáticas estão alterando o regime hidrológico antártico e as conexões entre água, solo, gelo e oceano, utilizando técnicas avançadas — incluindo isótopos ambientais e traçadores nucleares — para identificar processos, fluxos e impactos locais, com implicações globais. Contribuir para esse conhecimento, mesmo que de forma modesta, é motivo de grande orgulho para mim e, certamente, para os meus colegas. Os resultados geralmente não são animadores, mas são de necessário conhecimento de todos. 

BLOG: Quando será a terceira missão?

 A terceira missão do nosso projeto acontecerá no próximo verão antártico, entre novembro de 2026 e fevereiro de 2027. Adicionalmente, gostaria de destacar a importância do apoio institucional e logístico do Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR) e das equipes que atuam na estação de pesquisa brasileira na Antártica, como a Marinha, MCTI e o CNPq. Esse suporte é fundamental para que projetos como o nosso possam avançar. Também reforço que a continuidade das pesquisas depende diretamente dessa cooperação e do engajamento dos estudantes e jovens pesquisadores, que têm sido peças-chave na evolução do projeto. 

BLOG: Algo a mais a destacar? Desafio? 

Outro destaque que gostaria de deixar é sobre a rotina de trabalho em si, lembrando que temos que desenvolver todo o nosso trabalho durante os 3 turnos (manhã, tarde e “noite” – que não existe, e sem distinção clara entre dias úteis e finais de semana) e ainda ajustar a agenda para tarefas de rotina na estação de pesquisa, como dias de faxina e de trabalho na cozinha, que são obrigações de todos. Um outro exemplo é o trabalho com o radônio, gás radioativo que existe naturalmente nas amostras. A pesquisa com o radônio tem uma relevância muito grande nos nossos estudos de conexões hidrogeológicas do ambiente antártico, mas esse gás deve ser analisado logo após as coletas, para evitar perdas. Então é muito comum chegarmos de um longo dia de trabalho de campo com muitas amostras e termos a necessidade de iniciar as análises de laboratório durante a mesma noite/madrugada, para que o resultado seja o mais preciso possível. No dia seguinte, tudo novamente. Tudo isso é um grande desafio, mas bastante recompensador. 

CDTN - DESTACA -  ÁREA DA PESQUISA É ESTRATÉGICA 

O objetivo principal do estudo é compreender de que forma as mudanças climáticas vêm alterando o regime hidrológico da Antártica, investigar as relações entre a água de degelo, lagos, rios, atmosfera, solo e oceano, bem como acompanhar a origem e o destino de poluentes transportados nesses processos, avaliando seus impactos e possíveis consequências em escala global. A área analisada é considerada estratégica para esse tipo de estudo, por estar inserida nas principais rotas das circulações oceânicas e atmosféricas do planeta. Por essa razão, a região funciona como um indicador antecipado de transformações que podem se intensificar no futuro, à medida que as mudanças climáticas se agravam. Eles concluíram o trabalho de campo na Ilha do Rei George, onde está localizada a Estação Antártica Comandante Ferraz, base permanente do Brasil no continente. Fizeram parte da expedição, de novembro de 2025 e janeiro de 2026. 

O trabalho de campo integra as atividades do projeto INTERFACES: Transporte e processos biogeoquímicos de substâncias naturais e antropogênicas na interface terra-mar antártica em um contexto de mudanças climáticas, aprovado no edital PROANTAR/CNPq em 2023. Além do CDTN, o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) e o Instituto Oceanográfico da USP fazem parte do projeto, sob a liderança da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). 

A segunda viagem ao continente gelado foi marcada pelo reposicionamento de métodos e estratégias adotadas na expedição anterior. Pela experiência dos pesquisadores adquirida no primeiro trabalho de campo, foi necessário ajustar cronogramas devido às condições extremas de tempo na região. Entre as principais mudanças no trabalho deste ciclo, está o método de monitoramento de radônio e a frequência de amostragem. A partir de agora, os pesquisadores passam a aprofundar o estudo, incorporando mais informações e utilizando os dados do ano anterior como base de comparação. “A expectativa é consolidar a série de dados iniciada no verão passado, expandindo as amostragens e testando melhorias metodológicas (em função dos resultados já obtidos) que nos permitam compreender com maior clareza os processos ambientais que estamos investigando — especialmente transporte de partículas e contaminantes, interação atmosfera, solo e água e os mecanismos que influenciam a dinâmica de contaminantes no contexto das mudanças climáticas”, afirma Ricardo Passos.  

MICROPLÁSTICOS - 

Uma novidade no projeto é o monitoramento de microplásticos e PFAS, que não foram monitorados no trabalho de campo anterior. Essa nova frente de pesquisa foi discutida entre os pesquisadores durante o segundo Workshop do Projeto Interfaces, realizado no CDTN, em setembro de 2025. Os microplásticos são partículas de plástico de diversos tipos, com menos de cinco milímetros, que podem ser primárias (produzidas intencionalmente, como em esfoliantes corporais) ou secundárias (formadas pela degradação de objetos maiores, como garrafas). Além de poluir ecossistemas, essas partículas podem ser ingeridas por animais e entrar na cadeia alimentar, chegando aos seres humanos por meio de alimentos, água e ar, e, ao se acumularem no organismo, podem causar riscos à saúde. Já os PFAS (Substâncias Per e Polifluoroalquiladas) são produtos químicos sintéticos persistentes, conhecidos como "químicos eternos" por não se degradarem. 

Eles são utilizados em produtos antiaderentes, embalagens de alimentos, cosméticos, roupas impermeáveis e espumas de combate a incêndio, que podem contaminar água, solo e alimentos. Essas substâncias estão associadas a riscos como câncer, problemas reprodutivos e disfunções hormonais, exigindo atenção especial por sua difícil remoção e bioacumulação. Esses contaminantes podem chegar na Antártica, considerado o continente mais preservado do planeta, por meio dos fluxos globais oceânicos e atmosféricos. Esses poluentes vêm ganhando destaque no debate científico e ambiental pela relação cada vez mais evidente com as mudanças climáticas. Presentes no oceano, solo e atmosfera, eles são capazes de influenciar processos fundamentais que interferem no clima do planeta. Os microplásticos, em especial, funcionam como um indicador das ações antrópicas, ou seja, humanas, no meio ambiente. Sua presença em diversos locais reflete padrões de produção, consumo e descarte, permitindo avaliar como as atividades humanas contribuem para a poluição ambiental e a mudança do clima. 

DESAFIOS EM AMBIENTE EXTREMO - 

Na Antártica, é preciso aprender a lidar com a incerteza. O cronograma das pesquisas depende integralmente das condições meteorológicas da região, conhecidas pela imprevisibilidade. Mesmo durante o verão, o clima interfere diretamente nos pontos de coleta, na disponibilidade de equipes e exige a elaboração constante de planos alternativos. “Temos que ter sempre em mãos planos A, B e C”, resume Ricardo Passos. Dessa forma, a estratégia adotada pelos pesquisadores durante a segunda ida ao continente foi de aproveitar ao máximo cada janela de bom tempo, ampliando o número de pontos de coleta de amostras, a fim de aumentar a representatividade espacial das coletas. 

“Já temos boas evidências a respeito da dinâmica de fluxos na região, observamos diferenças associadas a eventos meteorológicos e situações climáticas, mudanças na cobertura superficial e ocorrência de contaminação de fontes geogênicas e antrópicas nas diversas matrizes monitoradas”, destaca Ricardo Passos sobre os primeiros resultados do estudo. O pesquisador ressalta ainda a importância do apoio institucional na Estação, com o suporte do PROANTAR e das equipes que atuam na estação de pesquisa brasileira na Antártica, como a Marinha, o MCTI e o CNPq. O CDTN é uma unidade de pesquisa da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), autarquia federal vinculada ao Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). 

(FOTOS – INFORMAÇÕES – CDTN – CNEN ) – COLABORE COM O BLOG – OITO ANOS DE JORNALISMO INDEPENDENTE – CONTRIBUA VIA PIX: 21 996015849 – CONTATO: malheiros.tania@gmail.com  

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Ponte próxima à barragem de rejeitos radioativos foi interditada para garantir a segurança e a vida dos usuários, em caso de acidente, diz INB

 


“Devido às fortes chuvas que precipitaram na região durante esse verão, um processo de erosão foi ocasionado em direção às cabeceiras da ponte sobre o Rio Soberbo, situada na via de acesso rural que liga a Unidade em Descomissionamento de Caldas - UDC da Indústrias Nucleares do Brasil - INB ao município de Caldas/MG. De acordo com a Defesa Civil Municipal de Caldas, essa ponte foi interditada em caráter preventivo para garantir a segurança e a vida de seus usuários”. As informações solicitadas pelo Blog foram divulgadas pela INB.

 Segundo a empresa, a estrada rural “não é uma rota de fuga” em caso de acidente com a Barragem de Rejeitos da UDC. A rota de fuga, acrescentou, está orientada para o acesso principal da UDC, que é no sentido da Rodovia Poços de Caldas – Andradas. Segundo a INB, apesar de não ser uma rota de fuga, a estrada interditada está sinalizada com placas orientativas aos usuários para se deslocarem a pontos de segurança que “não seriam atingidos pelos rejeitos da Barragem da UDC em caso de rompimento.” 

Para que haja tranquilidade em caso de rompimento da barragem, a INB afirma que na área próxima à ponte, os pontos de segurança aos usuários estão indicados em direção contrária ao Rio Soberbo, portanto a interdição da estrutura não altera a sinalização, que permanece válida. 


“Numa situação de emergência, as pessoas que estejam passando pelo local devem continuar seguindo as placas orientativas para permanecerem em segurança no ponto de encontro’, informa a estatal. 

A interdição da ponte sobre o Rio Soberbo tem sido motivo de preocupação de moradores da região, que preferem não se identificar. O reparo da ponte pode demorar bastante tempo também, ocasionando mais uma dificuldade para locomoção na região. Afinal, a sinalização que foi concluída recentemente, ou seja, décadas após o encerramento das atividades de extração de urânio, entre outras de grande risco de contaminação radioativa, em Caldas (MG). 

Só agora, a estatal tomou providencias para garantir que trabalhadores e moradores possam sair da “mancha de inundação em eventual cenário emergência”.  Para evitar os riscos, a INB acaba de concluir a instalação de 36 placas de sinalização na Zona de Autossalvamento (ZAS) da Barragem de Rejeitos, da Unidade em Descomissionamento de Caldas (UDC), da empresa. A nova sinalização inclui placas de "Ponto de Encontro", "Rota de Fuga" e "Área de Risco" distribuídas em um percurso de 10 km. “O objetivo é garantir que, em um eventual cenário de emergência, tanto os colaboradores quanto a comunidade local saibam exatamente quais caminhos seguir para sair da mancha de inundação de forma rápida e organizada”. 

As medidas mostram que durante tantos anos havia o risco e que nada foi feito, somente agora, o que põe em evidência os perigos nas proximidades da Barragem de Rejeitos tão alertados há muitos anos. Há bastante tempo os perigos da barragem de rejeitos têm sido denunciados. Alertas são constantes durante décadas, sem que se saiba quais as garantias para trabalhadores e comunidades próximas. 

LEIA NO BLOG: Em 17/02/2026 - Zona de barragem de rejeitos radioativos é sinalizada para fuga em caso de emergência (MG)

(FOTOS: BLOG – INFORMAÇÃO COM BASE NO SITE DA INB) – COLABORE COM O BLOG – SETE ANOS DE JORNALISMO INDEPENDENTE) – CONTRIBUA VIA PIX: 21 99601-5849 – CONTATO: malheiros.tania@gmail.com    

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Zona de barragem de rejeitos radioativos é sinalizada para fuga em caso de emergência (MG)

 


Décadas depois de encerramento das atividades de extração de urânio, na Mina da Cava, a primeira do Brasil, entre outras ações de alto de risco de contaminação radioativa, em Caldas (MG), só agora, a estatal Indústrias Nucleares do Brasil (INB) tomou providencias para garantir que trabalhadores e moradores possam sair da “mancha de inundação em eventual cenário emergência”.  Para evitar os riscos, a INB acaba de concluir a instalação de 36 placas de sinalização na Zona de Autossalvamento (ZAS) da Barragem de Rejeitos, da Unidade em Descomissionamento de Caldas (UDC), da empresa. 

A nova sinalização inclui placas de "Ponto de Encontro", "Rota de Fuga" e "Área de Risco" distribuídas em um percurso de 10 km. “O objetivo é garantir que, em um eventual cenário de emergência, tanto os colaboradores quanto a comunidade local saibam exatamente quais caminhos seguir para sair da mancha de inundação de forma rápida e organizada”. As medidas mostram que durante tantos anos havia o risco e que nada foi feito, somente agora, o que põe em evidência os perigos nas proximidades da Barragem de Rejeitos tão alertados há muitos anos. 


“A ação integra um conjunto de medidas preventivas voltadas à proteção da vida, à segurança das pessoas e à melhoria da gestão de riscos da estrutura”, informa a INB. "A instalação dessas placas é uma ação essencial que contribui diretamente para a redução de riscos, aumento da conscientização e o fortalecimento da cultura de segurança", destaca o engenheiro civil Renato Costa Góes, da Gerência de Descomissionamento de Caldas (GEDEC), responsável pela ação. 

Segundo a INB, neste trajeto, onde foi feita a implantação, não há residências, mas existe um público que trabalha nas redondezas e transita por ali, por isso é importante a indicação das rotas. “Há apenas uma propriedade cadastrada com moradores, no final do percurso da mancha, que já havia recebido as placas de sinalização e participado de treinamentos.  A própria estrutura da barragem também já estava com a sinalização adequada”. Há bastante tempo os perigos da barragem de rejeitos vem sendo denunciado. Alertas são constantes durante décadas, sem que se saiba quais as garantias para trabalhadores e comunidades próximas.

LEIA NO BLOG: EM 28/02/2022 - INFILTRAÇÃO E PROBLEMAS DE DRENAGEM EM CÓRRREGO E BARRAGEM DE CALDAS REGISTRADOS PELA CNEN; 

EM 14/06/2023 -  EMERGÊNCIA EM BARRAGEM DE ESTATAL INB EM CALDAS ;

EM 26/06/2023 - BARRAGEM COM RISCOS NO PLANALTO DE POÇOS DE CALDAS ESTÃO LONGE DE SOLUÇÃO

09/09/2023 - INSTALAOES RADIOTIVAS: LEGADO DA DITADUTA SEGUE PRODUZINDO CONTAMINAÇÃO COM URÂNIO EM MINAS GERAIS. 

(FOTOS: BLOG – INFORMAÇÃO COM BASE NO SITE DA INB) – segunda foto: Mina da cava.  

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sábado, 14 de fevereiro de 2026

Primeira presidente mulher da SBPC, a cientista Carolina Bori, é homenageada em premiação da entidade; para "combater desigualdades de gênero"

 


A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) homenageou a primeira presidente mulher da instituição (1986 a 1989),  na cerimônia de entrega do 7º Prêmio “Carolina Bori Ciência & Mulher”, que na premiação desta edição, na USP, (11/2), celebrou o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, instituído pela Unesco. Psicóloga e educadora, Carolina Bori (4/01/1924 - 4/10/2004) destacou-se pela articulação política na Assembleia Constituinte para garantir o capítulo de Ciência e Tecnologia na Constituição Federal de 1988.    

PREMIADAS - Entre as agraciadas estavam Ana Mae Tavares Bastos Barbosa, professora emérita da Universidade de São Paulo (USP), premiada na categoria Humanidades; Iris Concepcion Linares de Torriani, professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), na área de Exatas e Ciências da Terra; e Luisa Lina Villa, professora da Universidade de São Paulo, vencedora na categoria Ciências Biológicas e da Saúde. FOTO ABAIXO


A 7ª edição do Prêmio Carolina Bori Ciência & Mulher também concedeu três menções honrosas. Na área de Humanidades, foi reconhecida Maria Arminda do Nascimento Arruda, professora da USP. Em Exatas e Ciências da Terra, a homenagem foi concedida a Marilia Oliveira Fonseca Goulart, docente da Universidade Federal de Alagoas (UFAL). Já na área de Ciências Biológicas e da Saúde, a menção honrosa foi atribuída a Nísia Verônica Trindade Lima, professora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), ex-ministra da Saúde.

 


O prêmio é realizado anualmente, alternando duas categorias – “Mulheres Cientistas” e “Meninas na Ciência”. Esta edição foi dedicada às “Mulheres Cientistas”, que homenageia pesquisadoras com trajetórias de destaque em três grandes áreas do conhecimento: Humanidades; Ciências Biológicas e da Saúde; e Engenharias, Exatas e Ciências da Terra. Instituído em 2019, o Prêmio Carolina Bori Ciência & Mulher é uma das principais iniciativas da SBPC para combater desigualdades estruturais de gênero, já que, embora as mulheres representem mais da metade da população, elas ocupam cerca de 30% dos postos de pesquisa em atividade no mundo. Uma das iniciativas é o combate das desigualdades de gênero.

Durante a solenidade, a presidente da SBPC, Francilene Procópio Garcia, destacou o valor da participação feminina na ciência: “Celebrar as mulheres na ciência é reforçar o compromisso público e a dedicação para com o País. Esta solenidade nos lembra a importância de dar visibilidade a esses nomes para afirmar que as mulheres brasileiras produzem ciência de alto nível e são capazes de liderar equipes e influenciar políticas públicas”. A presidente ressaltou ainda que a igualdade de gênero deve ser encarada como uma agenda estratégica de desenvolvimento: “Não há soberania científica quando metade do talento nacional enfrenta barreiras estruturais. Precisamos resistir e buscar a transformação nessas estruturas para construir ambientes acadêmicos mais seguros, éticos e verdadeiramente inclusivos”, completou a dirigente. 

QUEM FOI CAROLINA BORI – LEIA PARTE DA ENTREVISTA DE CAROLINA BORI, AO JORNALISTA RAFAEL REVADAM, PARA A REVISTA CIÊNCIA HOJE, EM 1998, QUE AQUI TRANSCREVEMOS: 

O nome da premiação é uma homenagem a Carolina Martuscelli Bori (1924-2004), psicóloga e primeira mulher a presidir a SBPC. Pioneira na Análise Experimental do Comportamento no Brasil, Carolina Bori teve atuação determinante na defesa da liberdade acadêmica e na articulação da comunidade científica durante a elaboração da Constituição Federal de 1988. No dia 04 de janeiro de 2024, Carolina Bori completaria 100 anos. 

Professora da Universidade de São Paulo (USP) Carolina Bori foi movida por inquietações. Descobriu a psicologia enquanto cursava pedagogia na USP, foi para os Estados Unidos aprender sobre uma ciência que se apoiava menos em livros e mais no contato com pessoas e, ao voltar, percebeu problemas estruturais do Brasil: lutou pela formação e por melhor remuneração de professores, pela regulamentação da Psicologia como ensino e profissão e defendeu que a ciência só é relevante se ela chegar às pessoas. 

Em entrevista à Revista Ciência Hoje, em 1998, Carolina Bori disse: “A ciência gera tanto conhecimento quanto desenvolvimento, no entanto, eles ficam restritos e não são usados pela maioria da população. A minha preocupação com a divulgação é essa: é preciso melhorar a vida das pessoas, não apenas em termos de tornar os produtos gerados pela ciência disponíveis, mas também torná-las mais críticas em relação ao mundo em que vivem. Para isso, é preciso informá-las, para que elas entendam o que é a ciência e a própria transformação que ela está promovendo no mundo atual. Agora, isto ainda está distante de acontecer. O fato de uma parcela da população viver totalmente sem informação e distante do conhecimento científico é, para mim, um absurdo”.

Carolina Bori nasceu em São Paulo, em 1924. Filha de pai italiano e de mãe brasileira, ela dividiu a infância em casa com seus cinco irmãos. Sempre apaixonada por estudos, começou a frequentar a escola com seis anos e, aos 11, foi para o ginásio, o atual ensino médio. O contato com o ensino básico foi essencial para escolher a área que desejaria atuar no futuro: a educação. No início da década de 1940, entrou no curso de Pedagogia da USP, onde se formou em 1947. “Naquela época não existia essa grande disputa por vagas e, na [área da] educação, não existia nada além do curso de Pedagogia”, explicou à revista Ciência Hoje. Na entrevista, a cientista comentou, que foi no curso de pedagogia que conheceu sua segunda paixão, a psicologia. 

“A psicologia foi o campo que me pareceu mais seguro, mais ligado ao conhecimento científico, diferente de outras áreas, que eram muito filosóficas.” No período em que cursava a faculdade, Bori viu chegar na Universidade de São Paulo a professora Annita Cabral. 

Segundo os relatos de Bori, Cabral mudaria o ensino de Psicologia na instituição, antes dominado por um professor francês que via a disciplina como um campo filosófico. Com a nova docente, a Psicologia passou a ser ensinada como ciência. Cabral propunha uma revisão de conhecimentos e, principalmente, discussões individualizadas sobre as faculdades mentais, como a memória e a percepção. Foi com Cabral também que a universidade paulista começou a discutir os estudos experimentais na Psicologia. Quando chegou ao último ano da graduação, Carolina Bori foi convidada por Annita Cabral para ser sua primeira assistente na cadeira de Psicologia da USP. Esse cargo lhe renderia o mestrado na New School for Social Research, em Nova Iorque, defendido em 1952. 

“A professora Annita havia feito seu doutorado na New School e, como sua primeira assistente, fui encaminhada para lá. O catedrático tinha essa grande missão de orientar o seu assistente, escolher o lugar em que ele pudesse se aperfeiçoar e que atendesse ao interesse da cadeira.” No mestrado, Carolina Bori estudou os experimentos realizados pelo psicólogo alemão Kurt Lewin (1890-1947) e seus discípulos sobre motivação, confrontando-os com teorias da época. Ao concluir o mestrado, retornou à USP e à orientação da professora Annita Cabral, para a realização do doutorado, título obtido em 1954. 

“No doutorado, dei sequência ao tema do mestrado. Aproveitei para expor a teoria de motivação, utilizando dados de pesquisas de campo que fiz nos Estados Unidos. Eu achava que tinha que incluir na dissertação de mestrado pesquisa de campo, mas minha orientadora, a professora Tamara Dembo, julgou que apenas a elaboração teórica era suficiente. Quando voltei ao Brasil, utilizei os dados para a tese de doutorado que defendi na USP.” Com a defesa do doutorado, Carolina Bori começou a se engajar na criação do curso de Psicologia na USP, um movimento encabeçado por sua orientadora, Cabral, que teve sucesso em 1958. Bori, inclusive, passou a integrar o corpo docente da nova formação curricular. 

O sucesso na implementação do curso de Psicologia na USP fez com que Carolina Bori se envolvesse na sua criação em outras instituições: no campus de Rio Claro da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp Rio Claro), na Universidade de Brasília (UnB) e na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Mas a instalação de cursos não era o suficiente, era necessária a consolidação da Psicologia como profissão no País. 

Foi nos primeiros anos da década de 1960 que Carolina Bori começou a atuar pela regulação da Psicologia no Brasil. Primeiramente, à frente da Associação Brasileira de Psicologia, e depois na Sociedade de Psicologia de São Paulo. Bori é um dos principais nomes responsáveis pela articulação direta com políticos para a aprovação da lei nº 4.119/62, que determina o currículo mínimo para a formação em Psicologia e regulamenta a profissão no Brasil. A regulação também lhe rendeu o registro nº 1 no conselho da categoria. Da luta pela Psicologia à luta pela Ciência - O engajamento político durante o processo de regulação da Psicologia no Brasil impulsionou Carolina Bori a lutar pela estruturação de um sistema nacional de ciência no País. Assim, conheceu uma das maiores instituições ativistas que lutavam por essa causa, a SBPC. 

“Comecei a participar da SBPC em 1969, como membro do conselho dessa sociedade. Eu achava que a Psicologia não podia ficar separada das demais ciências, e precisava estabelecer um diálogo com elas. De certa forma minha entrada na SBPC foi também a aceitação da Psicologia pela comunidade científica, que estava inclusive curiosa em relação ao conteúdo da psicologia e à ajuda que esta poderia dar na compreensão da sociedade.” Na SBPC, Carolina Bori foi um dos principais nomes a defender que a comunidade científica passasse a olhar para além da estrutura de ciência do País, se envolvendo, assim, com grandes questões políticas e sociais, como a própria restauração da democracia. “Eu lembro que, em 1976, em Brasília, Carolina Bori defendeu com muito rigor a possibilidade de apresentar na Assembleia Legislativa moções a favor da redemocratização e de uma nova Constituinte. E foi por conta de uma dessas moções que, no ano seguinte, o Governo Federal não apoiou a realização da Reunião Anual da SBPC em Fortaleza”, contou o presidente de honra Ennio Candotti, falecido em 2023.

Em 1987, Bori foi eleita a primeira presidente mulher da SBPC, cargo que ocupou até o ano de 1989. Em seu mandato, intensificou a posição da SBPC para se articular na construção da atual Constituição Federal, promulgada em 1988. “Carolina foi presidente da SBPC durante anos decisivos da vida democrática do País. Na Constituinte de 1987-88, ela era a nossa presidente e defendeu as causas indígenas, da mulher e também do meio ambiente, questão que era nova no cenário da comunidade científica, e defendeu todas as causas com bastante firmeza”, complementou Candotti. 

Para Bori, a proposta elaborada pela SBPC para a Constituinte não se restringia a levantar pontos apenas para o desenvolvimento científico e tecnológico, mas para o desenvolvimento social da nação. “Estamos na expectativa de ação, urgente, imediata, no sentido de que nossas propostas se concretizem na nova Constituição como uma contribuição da comunidade acadêmica para a criação de um país moderno, um país novo, um país que faça valer os direitos das pessoas que vivem nele”, disse em julho de 1987, durante a abertura da 39ª Reunião Anual da SBPC, realizada na UnB. Em seus últimos anos de vida, Carolina Bori intensificou o olhar à educação. Para ela, o Brasil não valorizava os professores e não conseguia enxergar como a precariedade na relação com os educadores afeta diretamente a construção de uma sociedade – pontos que podem ser levantados até nos dias de hoje. 

“Existe um problema crucial que é a formação de professores. Eu acho que os professores ganham pouco e não há materiais com conhecimentos atualizados para essas pessoas. Não sei quantos relatórios sobre isso eu li: o do Banco Mundial, o da Unesco, e esses relatórios mostram que nós não estamos acertando na qualificação desses profissionais. À medida que essas dificuldades aparecem na formação de professores, a população vai ficando para trás. A população nasce, cresce, fica velha e não sabe nada”, disse em 1999, na entrevista para a revista Ciência Hoje. Carolina Bori morreu no dia 5 de outubro de 2004, aos 80 anos. Do seu legado, é possível encontrar leis, normas, cursos e, principalmente, uma série de medidas pela difusão da ciência na sociedade. Carolina Bori é nome da plataforma nacional de revalidação dos diplomas internacionais, também de uma série de prédios de universidades públicas, como na UFSCar e em Brasília, além de uma agência de divulgação científica e, especialmente, do um prêmio criado pela SBPC, em 2019, para valorizar meninas e mulheres que estão revolucionando a ciência nacional, assim como ela. 

Em um de seus últimos discursos públicos, na 50ª Reunião Anual da SBPC, em Brasília, no ano 2000, Carolina Bori aproveitou que seria homenageada para homenagear um dos seus ídolos na ciência, o educador e escritor Anísio Teixeira: “Voltando do exterior, após o mestrado, eu participei pela primeira vez da SBPC. Lembro-me que a Reunião Anual estava sendo realizada em uma universidade. Recife? Eu estava numa sala de aula para apresentar um trabalho via sessão oral diante de uma plateia acomodada em carteiras escolares. Sem muita cerimônia descrevi sobre ‘experimentação em Psicologia’. 

Como assistente da Universidade de São Paulo, eu havia saído do País para estudar o que se denominava Psicologia Experimental. Terminada a apresentação de 10 minutos, a primeira pergunta que me foi feita foi por um senhor sentado na primeira fileira. ‘Professora, será possível experimentar em Psicologia?’ E continuou: ‘como é que se pode medir o psicológico?’. Minhas respostas não foram consideradas suficientes e a discussão se ampliou. Terminada a sessão, fiquei sabendo que havia discutido com Anísio Teixeira! Aprendi com ele que a educação não é privilégio, é um direito de todas as pessoas e um dever do Estado. Conhecia-o pelos livros, e agora pessoalmente. Conto esse episódio mais para os jovens e para os que estão se iniciando nas Reuniões Anuais da SBPC. Participem das atividades programadas, conheçam os cientistas e pesquisadores e aprendam sobre assuntos que muito poucas escolas ou universidades estão estudando. É uma oportunidade rara.” 

Esta reportagem foi produzida com base em áudios, matérias e demais documentos textuais que compõem o Memorial Carolina Bori. Criado pela SBPC, o Memorial dispõe de um acervo digitalizado e de acesso público para comemorar o centenário da pesquisadora, escreveu o jornalista Rafael Revadam.  

(FOTOS: Jornal da USP – informações Jornal da USP – Jornalistas: Michel Sitnik – Gustavo Radarlli e Cecilia Bastos) – Entrevista publicada de Rafael Revadam - Jornal da Ciência/ 1998) – COLABORE COM O BLOG – SETE ANOS DE JORNALISMO INDEPENDENTE – CONTRIBUA VIA PIX: 21 99601-5849 – CONTATO – malheiros.tania@gmail.com  

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