Pesquisadores do Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear (CDTN) acabam de retornar de missão na Antártica onde passaram cerca de dois meses realizando estudos ambientais utilizando técnicas isotópicas, caracterização hidroquímica, hidrológica e hidrogeológica, bem como aplicações da radioatividade natural e radônio. Durante a missão teve choro, medo, superação, frio de doer, o convívio com o vento forte e congelante, e constatação de que “muitas mudanças climáticas já são consideradas irreversíveis na escala humana”. O BLOG conversou com os pesquisadores do Serviço de Análise e Meio Ambiente, Ricardo Passos, e a geóloga e discente do Programa de Pós-Graduação Ana Clara Ferreira, ambos do CDTN - unidade técnico -científica da CNEN/MCTI. “Diante da existência de céticos, pessimistas e da desinformação que ainda permeia o debate climático, o termo esperança — associado à ideia de aguardar e confiar — soa excessivamente passivo frente às evidências científicas disponíveis. A contenção das mudanças climáticas deve ocorrer independentemente da expectativa de reversão dos impactos”, alertam.
EIS AS ENTREVISTAS -
A mineira de Belo Horizonte Ana Clara Mariante Ferreira, 27 anos, é formada em Geologia pela Universidade Federal de Minas Gerais, escolheu a carreira motivada pelo interesse no meio ambiente e pelo desejo de poder vivenciar a profissão no ambiente externo, em contato direto com a natureza. “Durante a graduação, tive meu primeiro contato com a Hidrogeologia e desde então, minha trajetória acadêmica e profissional foi guiada pela água. Ao longo do curso me senti realizada por conhecer paisagens exuberantes no interior do Brasil embora jamais pudesse imaginar que minhas escolhas me levariam tão longe.
BLOG: O maior desafio na missão? Sentiu medo?
Esta é a segunda OPERANTAR da qual a equipe do CDTN participa, mas não fui integrante da primeira missão ocorrida no verão passado (2024 – 2025). Apesar de não ter participado em campo, os dados coletados na primeira ida foram promissores e indicativos de como as técnicas nucleares podem ser úteis para o entendimento e monitoramento das dinâmicas ambientais em um contexto tão mutável e sensível, como na Antártica.
BLOG: Chorou?
A missão do verão 2025–2026 teve como objetivo aprofundar a caracterização ambiental dos arredores da Estação Antártica Comandante Ferraz, por meio da coleta de amostras de água, solo, neve e ar. A partir desses dados, busca-se consolidar o entendimento do cenário ambiental atual, que servirá de base para o desenvolvimento de modelos computacionais preditivos, destinados à avaliação da influência das mudanças climáticas sobre os cenários futuros. Para isso, a radiação natural, mais especificamente o gás radônio, se mostrou uma ferramenta muito útil para caracterização, uma vez que pode ser usado como traçador natural de fluxo. Presente naturalmente no meio ambiente, ele pode ser facilmente detectado/medido e dar indícios das conexões superficiais e subterrâneas.
BLOG: Precisou se adaptar? Muita solidariedade?
Sim. Como minha primeira participação na OPERANTAR XLIV, fui desafiada a me adaptar ao ambiente ICE (isolado, confinado e extremo) e às condições climáticas nem sempre favoráveis às saídas a campo. O vento forte e congelante, as mudanças rápidas no tempo e a exposição ao frio de doer (literalmente) muitas vezes dificultaram as coletas, que por vezes requeriam carregar equipamentos pesados, entrar no mar ou passar horas encolhida no bote. Aos poucos, com o suporte de amigos pesquisadores de outros projetos e de amigos da marinha brasileira, essa dificuldade foi superada. Recebi grande apoio de muitas formas — desde a dedicação e a participação voluntária em dias inteiros de coleta até gestos simples, porém de enorme ternura. Atitudes como compartilhar risadas e piadas internas, enviar uma garrafinha de chá quente para me manter aquecida, emprestar um creme hidratante para aliviar a pele castigada pelo frio ou buscar um colírio para os olhos avermelhados pela luz intensa e pelo cansaço tornaram a minha rotina mais leve e humana.
BLOG: Fale mais sobre o medo.
Dito isso, o meu maior medo nessa fase foi não conseguir, mesmo com tanta ajuda, cumprir o planejamento das coletas para o projeto de mestrado e para a pesquisa como um todo. O verão foi atípico no período da minha estadia e as temperaturas permaneceram mais baixas do que o esperado, mantendo os lagos, córregos e poços congelados na maioria do tempo. Isso atrasou as coletas e modificou o cronograma, exigindo alternativas para o máximo aproveitamento dentro das condições possíveis. Imprevistos podem gerar apreensão e ansiedade em trabalhos de campo e é muito importante ter resiliência e perspicácia para mudar os planos.
BLOG: Conte sobre a paisagem.
Confesso que sou manteiga derretida e chorei, contidamente, de emoção e alegria na primeira vez em que vi os blocos de gelo flutuando no mar e a paisagem completamente branca, pois jamais imaginei que um chegaria até ali. No entanto, na madrugada da partida da estação, não consegui conter as lágrimas e chorei de soluçar ao ver os amigos que fiz também emocionados, gratos pela oportunidade de ter participado da missão e tomados pela nostalgia de todas as vivências compartilhadas.
BLOG: O que a missão representou?
Durante o Treinamento Pré Antártico, pude conhecer pesquisadores fantásticos e muito experientes, com anos de dedicação que nunca tiveram a oportunidade de ir ao sétimo Continente. Como uma jovem aspirante a pesquisadora e aluna de mestrado do Programa de Pós Graduação do CDTN, atualmente avaliado com nota seis na Capes, me senti muito privilegiada e honrada por ter vivenciado esse trabalho de campo, sabendo que menos de 0,01% da população mundial teve essa chance. Apesar de distante do imaginário brasileiro, a Antártica influencia o clima do planeta inteiro e é um termômetro mundial para as mudanças climáticas, que já impactam a nossa realidade, seja na alteração dos regimes de chuva, nas tragédias provenientes das enchentes, nos períodos intensos de estiagem ou nos aumentos médios de temperatura. Neste momento de conflito de interesses globais, produzir ciência e dados de alerta em prol do continente antártico é uma estratégia para resguardá-lo e mitigar as consequências que estão alarmantemente sendo geradas. Diante da existência de céticos, pessimistas e da desinformação que ainda permeia o debate climático, o termo esperança — associado à ideia de aguardar e confiar — soa excessivamente passivo frente às evidências científicas disponíveis. A contenção das mudanças climáticas deve ocorrer independentemente da expectativa de reversão dos impactos.
BLOG: Qual a mensagem que podemos esperar de vocês?
A presença do Brasil na Antártica é motivo de muito orgulho para a nação e contribuir para a pesquisa ainda durante a minha formação, me desperta um sentimento profundo de honra e, sobretudo, de responsabilidade em dar voz, divulgar e representar a ciência antártica e o Programa Antártico Brasileiro, levando essa experiência e esse compromisso tanto para dentro quanto para além do meu círculo social. Graças ao apoio da Marinha do Brasil, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e do CNPq, ao participar da OPERANTAR XLIV tive a oportunidade de viver e escrever uma página da história do PROANTAR, que há 44 anos se destaca pela excelência como o programa científico mais longevo do país.
RICARDO PASSOS FERREIRA -
Natural de Cruz das Almas, no Recôncavo Baiano, 38 anos, com formação acadêmica em inicial em Engenharia Ambiental, com toda a pós-graduação (mestrado, doutorado, pós-doutorado) desenvolvida nas grandes áreas de meio ambiente, saneamento e recursos hídricos. “Sempre (digo, desde o ensino fundamental ou médio) tive interesse em temas ligados ao meio ambiente e à preservação do planeta, mas também sempre fui muito ligado às ciências naturais (especialmente física e matemática) e ao mundo das pesquisas científicas. Quando chegou o momento de escolher a profissão (isso no vestibular, com 17 anos), a Engenharia Ambiental me pareceu uma opção que permeava todas essas áreas, com aplicações práticas e impacto direto na sociedade. E foi exatamente o que encontrei”, contou Ricardo, que atualmente vive em Belo Horizonte.
BLOG: Como começou a carreira cientifica?
Comecei a me aproximar da carreira científica ainda na graduação, com bolsas de Iniciação Científica. Mais recentemente, busquei complementar minha formação com um bacharelado em Física, para complementar o que eu já lia e estudava por conta própria, por "hobby". Atualmente, trabalhando em um instituto de pesquisa da área nuclear, no departamento de aplicações em meio ambiente, sinto que consegui integrar todas essas coisas que sempre gostei de estudar e me sinto realizado profissionalmente.
BLOG: E a tecnologia nuclear?
No CDTN, consigo coordenar e executar pesquisas nos diversos temas afetos à preservação ambiental (águas superficiais, águas subterrâneas, atmosfera, solos, resíduos, mudanças climáticas...) com o acréscimo das aplicações da tecnologia nuclear e correlatas; o que vêm aportando resultados muito satisfatórios a esses estudos. Isso me deixa muito contente do ponto de vista profissional. Minha primeira expedição à Antártica ocorreu no último verão antártico e também foi a primeira do projeto. BLOG: Como foi a experiência? Éramos quatro pesquisadores, divididos em duplas, permanecendo cerca de dois meses cada. Nenhum de nós tinha experiência prévia com trabalho de campo em ambiente antártico ou mesmo experiência sobre como se manter saudável (principalmente em relação ao psicológico) em um ambiente conhecido como ICE (de "Isolado", "Confinado", "Extremo"). O maior desafio foi de ter que me preparar para o desconhecido e suportar o ambiente ICE, e o maior aprendizado foi o de gerenciar expectativas quanto ao plano de trabalho da pesquisa.
BLOG: medo?
Não senti medo, mas vivi momentos de ansiedade diante das incertezas e da responsabilidade de resolver problemas inéditos. Na primeira expedição descobri que, na Antártica, o principal desafio é sempre o de manter o cronograma do planejamento inicial em um ambiente que é naturalmente imprevisível. As condições climáticas, as mudanças bruscas de tempo que ocorrem a todo momento, o acesso aos pontos de coleta e a necessidade de compatibilizar agendas com outros grupos de pesquisa exigem muita flexibilidade. Temos que ter sempre em mãos os planos A, B e C.
BLOG: e na segunda?
Os perrengues, tristezas, ansiedade, frustrações e desafios da primeira missão viraram aprendizado para a segunda. Nesse sentido, acredito que fui mais preparado para essa segunda expedição após a experiência da primeira. Sim, chorei — tanto na primeira quanto na segunda missão, mas atribuí a uma forma de aliviar a pressão emocional típica de um ambiente ICE e mais a algumas questões pessoais. Só como exemplo para ilustrar uma diferença importante: no nosso dia a dia aqui, quando estamos sobrecarregados ou com sentimentos de tristeza, podemos sair, caminhar, mudar de ambiente ou mesmo temos a possibilidade de ficar sozinhos. Na Antártica, estamos confinados em uma estação de pesquisa que é, ao mesmo tempo, casa e trabalho (e por bastante tempo), e sempre com ambientes compartilhados. Isso exige equilíbrio emocional constante. O ambiente agradável na estação, o apoio dos amigos e os momentos de confraternização com os colegas ajudam nessa tarefa e fazem toda a diferença. Manter uma boa convivência também.
BLOG: Conte sobre o trabalho com a radioatividade.
No contexto da pesquisa que estamos desenvolvendo, a radioatividade natural é uma das nossas ferramentas de trabalho. Uma ferramenta científica. Utilizamos equipamentos para detecção das radiações alfa, beta e gama que ocorrem naturalmente nas matrizes ambientais que monitoramos (principalmente em amostras de água do oceano, de córregos, lagos, água de degelo, de neve, do solo, de rochas, de particulados no ar etc.) com o intuito identificar isótopos que funcionam como traçadores dos processos ambientais e das mudanças associadas ao aquecimento global. A utilização da própria radioatividade do ambiente, mesmo que nos baixos níveis encontrados, também tem a vantagem de substituir métodos convencionais de pesquisa que comumente demandam a introdução de substâncias externas, que não estavam anteriormente presente no ambiente. Na Antártica, um dos requisitos para os projetos de pesquisa é que eles não impactem o ambiente, o que é muito justo. Então as técnicas a serem utilizadas sempre devem levar em consideração o impacto ambiental que podem gerar, mesmo que a finalidade da pesquisa seja a mais nobre possível.
BLOG: Comente sobre as mudanças climáticas? Como define este momento? Há esperança?
Infelizmente, vivemos um momento em que muitas mudanças climáticas já são consideradas irreversíveis na escala humana. Diante disso, acredito que nossa responsabilidade, como sociedade, é compreender a dimensão dos impactos para buscar estratégias de mitigação e redução de danos. Durante os trabalhos de campo, é muito comum vivenciarmos paisagens deslumbrantes compostas por geleiras flutuando no mar, porções gigantes à deriva, icebergs etc. É tudo muito lindo, imenso, mas também são sinais claros de transformação. Já não é novidade que a comunidade científica vem alertando sobre a perda de gelo antártico, recuo das geleiras, degradação de solos que eram "permanentemente" congelados etc. São apenas sintomas que parecem estar longe da nossa realidade, mas que estão vinculados a consequências significativas diversas que impactam diretamente a vida na Terra.
BLOG: De que forma este trabalho pode contribuir para melhoras?
Nosso projeto tem o objetivo de contribuir um pouco com esse conhecimento, tentando compreender melhor como as mudanças climáticas estão alterando o regime hidrológico antártico e as conexões entre água, solo, gelo e oceano, utilizando técnicas avançadas — incluindo isótopos ambientais e traçadores nucleares — para identificar processos, fluxos e impactos locais, com implicações globais. Contribuir para esse conhecimento, mesmo que de forma modesta, é motivo de grande orgulho para mim e, certamente, para os meus colegas. Os resultados geralmente não são animadores, mas são de necessário conhecimento de todos.
BLOG: Quando será a terceira missão?
A terceira missão do nosso projeto acontecerá no próximo verão antártico, entre novembro de 2026 e fevereiro de 2027. Adicionalmente, gostaria de destacar a importância do apoio institucional e logístico do Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR) e das equipes que atuam na estação de pesquisa brasileira na Antártica, como a Marinha, MCTI e o CNPq. Esse suporte é fundamental para que projetos como o nosso possam avançar. Também reforço que a continuidade das pesquisas depende diretamente dessa cooperação e do engajamento dos estudantes e jovens pesquisadores, que têm sido peças-chave na evolução do projeto.
BLOG: Algo a mais a destacar? Desafio?
Outro destaque que gostaria de deixar é sobre a rotina de trabalho em si, lembrando que temos que desenvolver todo o nosso trabalho durante os 3 turnos (manhã, tarde e “noite” – que não existe, e sem distinção clara entre dias úteis e finais de semana) e ainda ajustar a agenda para tarefas de rotina na estação de pesquisa, como dias de faxina e de trabalho na cozinha, que são obrigações de todos. Um outro exemplo é o trabalho com o radônio, gás radioativo que existe naturalmente nas amostras. A pesquisa com o radônio tem uma relevância muito grande nos nossos estudos de conexões hidrogeológicas do ambiente antártico, mas esse gás deve ser analisado logo após as coletas, para evitar perdas. Então é muito comum chegarmos de um longo dia de trabalho de campo com muitas amostras e termos a necessidade de iniciar as análises de laboratório durante a mesma noite/madrugada, para que o resultado seja o mais preciso possível. No dia seguinte, tudo novamente. Tudo isso é um grande desafio, mas bastante recompensador.
CDTN - DESTACA - ÁREA DA PESQUISA É ESTRATÉGICA
O objetivo principal do estudo é compreender de que forma as mudanças climáticas vêm alterando o regime hidrológico da Antártica, investigar as relações entre a água de degelo, lagos, rios, atmosfera, solo e oceano, bem como acompanhar a origem e o destino de poluentes transportados nesses processos, avaliando seus impactos e possíveis consequências em escala global. A área analisada é considerada estratégica para esse tipo de estudo, por estar inserida nas principais rotas das circulações oceânicas e atmosféricas do planeta. Por essa razão, a região funciona como um indicador antecipado de transformações que podem se intensificar no futuro, à medida que as mudanças climáticas se agravam. Eles concluíram o trabalho de campo na Ilha do Rei George, onde está localizada a Estação Antártica Comandante Ferraz, base permanente do Brasil no continente. Fizeram parte da expedição, de novembro de 2025 e janeiro de 2026.
O trabalho de campo integra as atividades do projeto INTERFACES: Transporte e processos biogeoquímicos de substâncias naturais e antropogênicas na interface terra-mar antártica em um contexto de mudanças climáticas, aprovado no edital PROANTAR/CNPq em 2023. Além do CDTN, o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) e o Instituto Oceanográfico da USP fazem parte do projeto, sob a liderança da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).
A segunda viagem ao continente gelado foi marcada pelo reposicionamento de métodos e estratégias adotadas na expedição anterior. Pela experiência dos pesquisadores adquirida no primeiro trabalho de campo, foi necessário ajustar cronogramas devido às condições extremas de tempo na região. Entre as principais mudanças no trabalho deste ciclo, está o método de monitoramento de radônio e a frequência de amostragem. A partir de agora, os pesquisadores passam a aprofundar o estudo, incorporando mais informações e utilizando os dados do ano anterior como base de comparação. “A expectativa é consolidar a série de dados iniciada no verão passado, expandindo as amostragens e testando melhorias metodológicas (em função dos resultados já obtidos) que nos permitam compreender com maior clareza os processos ambientais que estamos investigando — especialmente transporte de partículas e contaminantes, interação atmosfera, solo e água e os mecanismos que influenciam a dinâmica de contaminantes no contexto das mudanças climáticas”, afirma Ricardo Passos.
MICROPLÁSTICOS -
Uma novidade no projeto é o monitoramento de microplásticos e PFAS, que não foram monitorados no trabalho de campo anterior. Essa nova frente de pesquisa foi discutida entre os pesquisadores durante o segundo Workshop do Projeto Interfaces, realizado no CDTN, em setembro de 2025. Os microplásticos são partículas de plástico de diversos tipos, com menos de cinco milímetros, que podem ser primárias (produzidas intencionalmente, como em esfoliantes corporais) ou secundárias (formadas pela degradação de objetos maiores, como garrafas). Além de poluir ecossistemas, essas partículas podem ser ingeridas por animais e entrar na cadeia alimentar, chegando aos seres humanos por meio de alimentos, água e ar, e, ao se acumularem no organismo, podem causar riscos à saúde. Já os PFAS (Substâncias Per e Polifluoroalquiladas) são produtos químicos sintéticos persistentes, conhecidos como "químicos eternos" por não se degradarem.
Eles são utilizados em produtos antiaderentes, embalagens de alimentos, cosméticos, roupas impermeáveis e espumas de combate a incêndio, que podem contaminar água, solo e alimentos. Essas substâncias estão associadas a riscos como câncer, problemas reprodutivos e disfunções hormonais, exigindo atenção especial por sua difícil remoção e bioacumulação. Esses contaminantes podem chegar na Antártica, considerado o continente mais preservado do planeta, por meio dos fluxos globais oceânicos e atmosféricos. Esses poluentes vêm ganhando destaque no debate científico e ambiental pela relação cada vez mais evidente com as mudanças climáticas. Presentes no oceano, solo e atmosfera, eles são capazes de influenciar processos fundamentais que interferem no clima do planeta. Os microplásticos, em especial, funcionam como um indicador das ações antrópicas, ou seja, humanas, no meio ambiente. Sua presença em diversos locais reflete padrões de produção, consumo e descarte, permitindo avaliar como as atividades humanas contribuem para a poluição ambiental e a mudança do clima.
DESAFIOS EM AMBIENTE EXTREMO -
Na Antártica, é preciso aprender a lidar com a incerteza. O cronograma das pesquisas depende integralmente das condições meteorológicas da região, conhecidas pela imprevisibilidade. Mesmo durante o verão, o clima interfere diretamente nos pontos de coleta, na disponibilidade de equipes e exige a elaboração constante de planos alternativos. “Temos que ter sempre em mãos planos A, B e C”, resume Ricardo Passos. Dessa forma, a estratégia adotada pelos pesquisadores durante a segunda ida ao continente foi de aproveitar ao máximo cada janela de bom tempo, ampliando o número de pontos de coleta de amostras, a fim de aumentar a representatividade espacial das coletas.
“Já temos boas evidências a respeito da dinâmica de fluxos na região, observamos diferenças associadas a eventos meteorológicos e situações climáticas, mudanças na cobertura superficial e ocorrência de contaminação de fontes geogênicas e antrópicas nas diversas matrizes monitoradas”, destaca Ricardo Passos sobre os primeiros resultados do estudo. O pesquisador ressalta ainda a importância do apoio institucional na Estação, com o suporte do PROANTAR e das equipes que atuam na estação de pesquisa brasileira na Antártica, como a Marinha, o MCTI e o CNPq. O CDTN é uma unidade de pesquisa da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), autarquia federal vinculada ao Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).
(FOTOS – INFORMAÇÕES – CDTN – CNEN ) – COLABORE
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