A Sociedade Brasileira para o Progresso
da Ciência (SBPC) homenageou a primeira presidente mulher da instituição (1986 a 1989), na cerimônia
de entrega do 7º Prêmio “Carolina Bori Ciência & Mulher”, que na
premiação desta edição, na USP, (11/2), celebrou o Dia Internacional das
Mulheres e Meninas na Ciência, instituído pela Unesco. Psicóloga e educadora, Carolina Bori (4/01/1924 - 4/10/2004) destacou-se pela articulação política na Assembleia Constituinte para garantir o capítulo de Ciência e Tecnologia na Constituição Federal de 1988.
PREMIADAS - Entre as agraciadas
estavam Ana Mae Tavares Bastos Barbosa, professora emérita da Universidade
de São Paulo (USP), premiada na categoria Humanidades; Iris Concepcion
Linares de Torriani, professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp),
na área de Exatas e Ciências da Terra; e Luisa Lina Villa, professora da
Universidade de São Paulo, vencedora na categoria Ciências Biológicas e da
Saúde. FOTO ABAIXO
A 7ª edição do Prêmio Carolina Bori Ciência & Mulher também
concedeu três menções honrosas. Na área de Humanidades, foi
reconhecida Maria Arminda do Nascimento Arruda, professora da USP. Em
Exatas e Ciências da Terra, a homenagem foi concedida a Marilia Oliveira
Fonseca Goulart
, docente da Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
Já na área de Ciências Biológicas e da Saúde, a menção honrosa foi atribuída
a Nísia Verônica Trindade Lima, professora da Fundação Oswaldo Cruz
(Fiocruz), ex-ministra da Saúde.
O prêmio é realizado anualmente, alternando
duas categorias – “Mulheres Cientistas” e “Meninas na Ciência”. Esta edição foi
dedicada às “Mulheres Cientistas”, que homenageia pesquisadoras com trajetórias
de destaque em três grandes áreas do conhecimento: Humanidades; Ciências
Biológicas e da Saúde; e Engenharias, Exatas e Ciências da Terra. Instituído
em 2019, o Prêmio Carolina Bori Ciência & Mulher é uma das principais
iniciativas da SBPC para combater desigualdades estruturais de gênero, já que,
embora as mulheres representem mais da metade da população, elas ocupam cerca
de 30% dos postos de pesquisa em atividade no mundo. Uma das iniciativas é o combate das desigualdades de gênero.
Durante a solenidade, a
presidente da SBPC, Francilene Procópio Garcia, destacou o valor da
participação feminina na ciência: “Celebrar as mulheres na ciência é reforçar o
compromisso público e a dedicação para com o País. Esta solenidade nos lembra a
importância de dar visibilidade a esses nomes para afirmar que as mulheres
brasileiras produzem ciência de alto nível e são capazes de liderar equipes e
influenciar políticas públicas”. A presidente ressaltou ainda que a igualdade
de gênero deve ser encarada como uma agenda estratégica de desenvolvimento:
“Não há soberania científica quando metade do talento nacional enfrenta
barreiras estruturais. Precisamos resistir e buscar a transformação nessas
estruturas para construir ambientes acadêmicos mais seguros, éticos e
verdadeiramente inclusivos”, completou a dirigente.
QUEM FOI CAROLINA BORI – LEIA
PARTE DA ENTREVISTA DE CAROLINA BORI, AO JORNALISTA RAFAEL REVADAM, PARA A
REVISTA CIÊNCIA HOJE, EM 1998, QUE AQUI TRANSCREVEMOS:
O nome da premiação é
uma homenagem a Carolina Martuscelli Bori (1924-2004), psicóloga e primeira
mulher a presidir a SBPC. Pioneira na Análise Experimental do Comportamento no
Brasil, Carolina Bori teve atuação determinante na defesa da liberdade acadêmica
e na articulação da comunidade científica durante a elaboração da Constituição
Federal de 1988. No dia 04 de janeiro de 2024, Carolina Bori completaria 100
anos.
Professora da Universidade de São Paulo (USP) Carolina Bori foi movida
por inquietações. Descobriu a psicologia enquanto cursava pedagogia na USP, foi
para os Estados Unidos aprender sobre uma ciência que se apoiava menos em
livros e mais no contato com pessoas e, ao voltar, percebeu problemas estruturais
do Brasil: lutou pela formação e por melhor remuneração de professores, pela
regulamentação da Psicologia como ensino e profissão e defendeu que a ciência
só é relevante se ela chegar às pessoas.
Em entrevista à Revista Ciência Hoje,
em 1998, Carolina Bori disse: “A ciência gera tanto conhecimento quanto
desenvolvimento, no entanto, eles ficam restritos e não são usados pela maioria
da população. A minha preocupação com a divulgação é essa: é preciso melhorar a
vida das pessoas, não apenas em termos de tornar os produtos gerados pela
ciência disponíveis, mas também torná-las mais críticas em relação ao mundo em
que vivem. Para isso, é preciso informá-las, para que elas entendam o que é a
ciência e a própria transformação que ela está promovendo no mundo atual. Agora,
isto ainda está distante de acontecer. O fato de uma parcela da população viver
totalmente sem informação e distante do conhecimento científico é, para mim, um
absurdo”.
Carolina Bori nasceu em São Paulo, em 1924. Filha de pai italiano e
de mãe brasileira, ela dividiu a infância em casa com seus cinco irmãos. Sempre
apaixonada por estudos, começou a frequentar a escola com seis anos e, aos 11,
foi para o ginásio, o atual ensino médio. O contato com o ensino básico foi
essencial para escolher a área que desejaria atuar no futuro: a educação. No
início da década de 1940, entrou no curso de Pedagogia da USP, onde se formou
em 1947. “Naquela época não existia essa grande disputa por vagas e, na [área
da] educação, não existia nada além do curso de Pedagogia”, explicou à revista
Ciência Hoje. Na entrevista, a cientista comentou, que foi no curso de
pedagogia que conheceu sua segunda paixão, a psicologia.
“A psicologia foi o
campo que me pareceu mais seguro, mais ligado ao conhecimento científico,
diferente de outras áreas, que eram muito filosóficas.” No período em que
cursava a faculdade, Bori viu chegar na Universidade de São Paulo a professora
Annita Cabral.
Segundo os relatos de Bori, Cabral mudaria o ensino de
Psicologia na instituição, antes dominado por um professor francês que via a
disciplina como um campo filosófico. Com a nova docente, a Psicologia passou a
ser ensinada como ciência. Cabral propunha uma revisão de conhecimentos e,
principalmente, discussões individualizadas sobre as faculdades mentais, como a
memória e a percepção. Foi com Cabral também que a universidade paulista
começou a discutir os estudos experimentais na Psicologia. Quando chegou ao
último ano da graduação, Carolina Bori foi convidada por Annita Cabral para ser
sua primeira assistente na cadeira de Psicologia da USP. Esse cargo lhe
renderia o mestrado na New School for Social Research, em Nova Iorque,
defendido em 1952.
“A professora Annita havia feito seu doutorado na New School
e, como sua primeira assistente, fui encaminhada para lá. O catedrático tinha
essa grande missão de orientar o seu assistente, escolher o lugar em que ele
pudesse se aperfeiçoar e que atendesse ao interesse da cadeira.” No mestrado,
Carolina Bori estudou os experimentos realizados pelo psicólogo alemão Kurt
Lewin (1890-1947) e seus discípulos sobre motivação, confrontando-os com
teorias da época. Ao concluir o mestrado, retornou à USP e à orientação da
professora Annita Cabral, para a realização do doutorado, título obtido em
1954.
“No doutorado, dei sequência ao tema do mestrado. Aproveitei para expor a
teoria de motivação, utilizando dados de pesquisas de campo que fiz nos Estados
Unidos. Eu achava que tinha que incluir na dissertação de mestrado pesquisa de
campo, mas minha orientadora, a professora Tamara Dembo, julgou que apenas a
elaboração teórica era suficiente. Quando voltei ao Brasil, utilizei os dados
para a tese de doutorado que defendi na USP.” Com a defesa do doutorado,
Carolina Bori começou a se engajar na criação do curso de Psicologia na USP, um
movimento encabeçado por sua orientadora, Cabral, que teve sucesso em 1958.
Bori, inclusive, passou a integrar o corpo docente da nova formação curricular.
O sucesso na implementação do curso de Psicologia na USP fez com que Carolina
Bori se envolvesse na sua criação em outras instituições: no campus de Rio
Claro da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp Rio Claro), na Universidade
de Brasília (UnB) e na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Mas a
instalação de cursos não era o suficiente, era necessária a consolidação da
Psicologia como profissão no País.
Foi nos primeiros anos da década de 1960 que
Carolina Bori começou a atuar pela regulação da Psicologia no Brasil.
Primeiramente, à frente da Associação Brasileira de Psicologia, e depois na
Sociedade de Psicologia de São Paulo. Bori é um dos principais nomes
responsáveis pela articulação direta com políticos para a aprovação da lei nº
4.119/62, que determina o currículo mínimo para a formação em Psicologia e
regulamenta a profissão no Brasil. A regulação também lhe rendeu o registro nº
1 no conselho da categoria. Da luta pela Psicologia à luta pela Ciência - O
engajamento político durante o processo de regulação da Psicologia no Brasil
impulsionou Carolina Bori a lutar pela estruturação de um sistema nacional de
ciência no País. Assim, conheceu uma das maiores instituições ativistas que
lutavam por essa causa, a SBPC.
“Comecei a participar da SBPC em 1969, como
membro do conselho dessa sociedade. Eu achava que a Psicologia não podia ficar
separada das demais ciências, e precisava estabelecer um diálogo com elas. De
certa forma minha entrada na SBPC foi também a aceitação da Psicologia pela
comunidade científica, que estava inclusive curiosa em relação ao conteúdo da
psicologia e à ajuda que esta poderia dar na compreensão da sociedade.” Na
SBPC, Carolina Bori foi um dos principais nomes a defender que a comunidade
científica passasse a olhar para além da estrutura de ciência do País, se
envolvendo, assim, com grandes questões políticas e sociais, como a própria
restauração da democracia. “Eu lembro que, em 1976, em Brasília, Carolina Bori
defendeu com muito rigor a possibilidade de apresentar na Assembleia
Legislativa moções a favor da redemocratização e de uma nova Constituinte. E
foi por conta de uma dessas moções que, no ano seguinte, o Governo Federal não
apoiou a realização da Reunião Anual da SBPC em Fortaleza”, contou o presidente
de honra Ennio Candotti, falecido em 2023.
Em 1987, Bori foi eleita a primeira
presidente mulher da SBPC, cargo que ocupou até o ano de 1989. Em seu mandato,
intensificou a posição da SBPC para se articular na construção da atual
Constituição Federal, promulgada em 1988. “Carolina foi presidente da SBPC
durante anos decisivos da vida democrática do País. Na Constituinte de 1987-88,
ela era a nossa presidente e defendeu as causas indígenas, da mulher e também
do meio ambiente, questão que era nova no cenário da comunidade científica, e
defendeu todas as causas com bastante firmeza”, complementou Candotti.
Para
Bori, a proposta elaborada pela SBPC para a Constituinte não se restringia a
levantar pontos apenas para o desenvolvimento científico e tecnológico, mas
para o desenvolvimento social da nação. “Estamos na expectativa de ação,
urgente, imediata, no sentido de que nossas propostas se concretizem na nova
Constituição como uma contribuição da comunidade acadêmica para a criação de um
país moderno, um país novo, um país que faça valer os direitos das pessoas que
vivem nele”, disse em julho de 1987, durante a abertura da 39ª Reunião Anual da
SBPC, realizada na UnB. Em seus últimos anos de vida, Carolina Bori
intensificou o olhar à educação. Para ela, o Brasil não valorizava os
professores e não conseguia enxergar como a precariedade na relação com os
educadores afeta diretamente a construção de uma sociedade – pontos que podem
ser levantados até nos dias de hoje.
“Existe um problema crucial que é a
formação de professores. Eu acho que os professores ganham pouco e não há
materiais com conhecimentos atualizados para essas pessoas. Não sei quantos
relatórios sobre isso eu li: o do Banco Mundial, o da Unesco, e esses
relatórios mostram que nós não estamos acertando na qualificação desses
profissionais. À medida que essas dificuldades aparecem na formação de
professores, a população vai ficando para trás. A população nasce, cresce, fica
velha e não sabe nada”, disse em 1999, na entrevista para a revista Ciência
Hoje. Carolina Bori morreu no dia 5 de outubro de 2004, aos 80 anos. Do seu
legado, é possível encontrar leis, normas, cursos e, principalmente, uma série
de medidas pela difusão da ciência na sociedade. Carolina Bori é nome da
plataforma nacional de revalidação dos diplomas internacionais, também de uma
série de prédios de universidades públicas, como na UFSCar e em Brasília, além
de uma agência de divulgação científica e, especialmente, do um prêmio criado
pela SBPC, em 2019, para valorizar meninas e mulheres que estão revolucionando
a ciência nacional, assim como ela.
Em um de seus últimos discursos públicos,
na 50ª Reunião Anual da SBPC, em Brasília, no ano 2000, Carolina Bori
aproveitou que seria homenageada para homenagear um dos seus ídolos na ciência,
o educador e escritor Anísio Teixeira: “Voltando do exterior, após o mestrado,
eu participei pela primeira vez da SBPC. Lembro-me que a Reunião Anual estava
sendo realizada em uma universidade. Recife? Eu estava numa sala de aula para
apresentar um trabalho via sessão oral diante de uma plateia acomodada em
carteiras escolares. Sem muita cerimônia descrevi sobre ‘experimentação em
Psicologia’.
Como assistente da Universidade de São Paulo, eu havia saído do
País para estudar o que se denominava Psicologia Experimental. Terminada a
apresentação de 10 minutos, a primeira pergunta que me foi feita foi por um
senhor sentado na primeira fileira. ‘Professora, será possível experimentar em
Psicologia?’ E continuou: ‘como é que se pode medir o psicológico?’. Minhas
respostas não foram consideradas suficientes e a discussão se ampliou.
Terminada a sessão, fiquei sabendo que havia discutido com Anísio Teixeira!
Aprendi com ele que a educação não é privilégio, é um direito de todas as
pessoas e um dever do Estado. Conhecia-o pelos livros, e agora pessoalmente.
Conto esse episódio mais para os jovens e para os que estão se iniciando nas
Reuniões Anuais da SBPC. Participem das atividades programadas, conheçam os
cientistas e pesquisadores e aprendam sobre assuntos que muito poucas escolas
ou universidades estão estudando. É uma oportunidade rara.”
Esta reportagem foi
produzida com base em áudios, matérias e demais documentos textuais que compõem
o Memorial Carolina Bori. Criado pela SBPC, o Memorial dispõe de um acervo
digitalizado e de acesso público para comemorar o centenário da pesquisadora, escreveu o jornalista Rafael Revadam.
(FOTOS:
Jornal da USP – informações Jornal da USP – Jornalistas: Michel Sitnik –
Gustavo Radarlli e Cecilia Bastos) – Entrevista publicada de Rafael Revadam - Jornal
da Ciência/ 1998) – COLABORE COM O BLOG – SETE ANOS DE JORNALISMO INDEPENDENTE –
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