quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Lula sanciona Projeto de Lei dos minerais críticos como as terras raras e critica "traidores da pátria"

 


O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) criticou os “traidores da pátria” ao sancionar nesta quarta-feira (16/9) o Projeto de Lei (PL 2780/2024) que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE) e o Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos (CIMCE), vinculado à Presidência da República. Ao sancionar o projeto, Lula afirmou que o Brasil propõe uma nova agenda de mineração para o mundo. "Antes de tudo, é preciso vencer os adversários internos. Como sempre, os traidores da pátria, mais uma vez, caíram de joelhos diante dos Estados Unidos. Prometeram entregar nossos minerais críticos e terras raras em estado bruto, a preço de banana, como aconteceu no passado com nosso minério de ferro", disse Lula. 

"Não permitiremos que a história se repita. Que os inimigos do Brasil entendam uma vez por todas: nossa soberania não está à venda. A riqueza do Brasil tem um único dono: o povo brasileiro", completou. A legislação prevê a criação de um fundo garantidor para estimular investimentos no setor e institui um crédito tributário de R$ 5 bilhões para incentivar o processamento e a transformação de minerais em território nacional. Também autoriza a União a criar um fundo de natureza privada, do qual poderá participar como cotista com aporte de até R$ 2 bilhões. 

O presidente defendeu uma atividade mineradora social e ambientalmente justa, sustentável e industrializante. A proposta é que a exploração das terras raras gere empregos qualificados, royalties justos e desenvolvimento tecnológico no território nacional. Para isso, o Marco Legal prevê incentivos à verticalização da cadeia, estimulando a instalação de plantas de separação e produção de ímãs e ligas metálicas no Brasil. A medida pode beneficiar diretamente o setor industrial do interior paulista, que já possui polos metalmecânicos e eletroeletrônicos em cidades como Araçatuba, Birigui e Penápolis. 

CAPÍTULO À PARTE - 


O governo começou a manifestar grande preocupação em relação aos minerais críticos nacionais depois que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump declarou seu interesse pelas terras raras brasileiras. Recentemente, a empresa americana USA Rare Earth comprou a Serra Verde, a única mineradora em operação no Brasil, localizada em Minaçu, Goiás. 

Enquanto isso, empresas australianas como a Viridis e Meteoric ingressaram no território mineiro (Caldas e Poços de Caldas) por volta de 2024, depois de acordo com o governador estadual, com o objetivo de explorar as terras raras. Há muito o que se esclarecer sobre a operação das empresas que já causaram críticas do Ibama, moradores, parlamentares e ambientalistas. 

As empresas australianas estariam participando de processo seletivo de projetos para financiamento do BNDES, a fim de serem contempladas com verbas públicas, conforme já foi noticiado. O Blog tenta informações oficiais sobre o caso. 

(FOTO: Primeira foto de Ricardo Stuckert - Serra Verde) – 

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terça-feira, 15 de setembro de 2026

Ibama renova licença de operação da única mina e usina de beneficiamento de urânio no país, por 10 anos, com condicionantes em riscos ambientais

 


O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) renovou por 10 anos a Licença de Operação (LO) nº 274/2002 da Unidade de Concentração de Urânio (URA) da Indústrias Nucleares do Brasil (INB), em Caetité (BA). É a terceira renovação autorizando a continuidade das atividades como a lavra de urânio na Mina do Engenho e o beneficiamento do minério para produção de concentrado de urânio, únicos em operação no País. O Ibama estabelece uma série de condicionantes gerais e específicas. A autorização poderá ser suspensa ou cancelada se houver “violação ou inadequação de quaisquer condicionantes ou normais legais”, “omissão ou falsa descrição de informações relevantes, que subsidiaram a expedição da licença; superveniências de graves riscos ambientais e à saúde”. 


Em caso de acidente, estabelece que a INB terá 30 dias para apresentar relatórios com as ações de respostas adotadas. “Esta licença não exime a INB da obtenção de outras autorizações porventura exigidas junto a outros órgãos competentes”. Como também não autoriza supressão de vegetação nativa, nem manejo de fauna silvestre, sendo que o descumprimento poderá acarretar penalidades legais”. 

A instalação abrange várias áreas edificações como o Prédio da Caldeiraria (AA-573); Prédio da Lubrificação e Pintura (AA-574); Serviço de Proteção Radiológica (AA580); Controle de Acesso às Áreas de Beneficiamento do Minério de Urânio (AA-581); Controle de Acesso à Área de Proteção de Concentrado de Urânio (AA-582); Controle de acesso à mina da, entre outros.   Na complexidade do local tem ainda a unidade de descontaminação (AA-585); Laboratório de controle ambiental (LCA - AA-591); Horto (AA-592); Depósito de Resíduos Sólidos (AA-593); Barragem de Águas Claras (AA-610); Bacia de captação e adução de água bruta (AA-620); Bacias de contenção de efluentes líquidos tratados e de águas recicláveis (AA-630); Bacia de drenagens pluviais da Usina (AA-631). 

FAUNA E FLORA - 

A validade da licença está “condicionada ao fiel cumprimento das condicionantes” e deverá ser publicada em 30 dias. Eis algumas condições para o funcionamento da instalação: Os dados primários, ou dados brutos, de biodiversidade (flora e fauna), deverão ser inseridos no SISBia (Sistema de gestão e Dados de Biodiversidade), a ser comprovado mediante o recibo de dados válidos expedidos pelo SISBia e juntado ao processo. Esta Licença não autoriza supressão de vegetação nativa nem manejo de fauna silvestre. O não cumprimento das condicionantes, além da sujeição às penalidades legais, poderá acarretar a suspensão desta Licença de Operação. 

EFLUENTES E REJEITOS - 

São condicionantes específicos: o monitoração Ambiental de Efluentes e Rejeitos, da Qualidade do Ar e das Águas Superficiais e Subterrâneas; o gerenciamento de Resíduos Sólidos das Áreas Administrativas e de Apoio;  a Educação Ambiental, com ênfase nas comunidades vizinhas ao empreendimento; visando o manejo sustentável da Caatinga e conscientização sobre recursos hídricos subterrâneos; a Comunicação Social, a ser executado em Caetité e Lagoa Real, porém, com ações específicas para as comunidades vizinhas ao empreendimento; com prestação de contas contínua sobre a rotina operacional e dados de monitoramento. 

ÁREAS CONTROLADAS - O Ibama estabeleceu também que a INB deve realizar a manutenção de estradas e vias de acesso; e execução do Programa de Monitoramento de Fauna Terrestre; como dar continuidade à execução do Planto de Recuperação de Áreas Degradadas aprovado pelo IBAMA em 2014, devendo-se primar pelo incremento da diversificação de espécies na produção e no plantio de mudas, bem como das práticas alternativas como é o caso da nucleação. E mais: assegurar a funcionalidade das estruturas de isolamento, proteção e monitoramento das áreas controladas de maneira a impedir, de forma efetiva, a entrada de animais domésticos (bovídeos, equídeos etc.) ou pessoas que não possuam relação com o empreendimento. 

Cabe à INB executar o monitoramento da qualidade das águas subterrâneas na circunvizinhança da URA/INB e fora da Área de Influência direta do empreendimento, no âmbito do “Programa Socioambiental de Monitoramento de Águas em Comunidades”, apresentando anualmente ao Ibama os resultados obtidos. “Para os parâmetros que apresentarem concentrações superiores aos valores de referência aplicáveis ou alterações relevantes em relação ao histórico de monitoramento, deverão ser avaliadas as possíveis causas e a eventual relação com as atividades desenvolvidas na URA/INB, a título de demonstração da existência ou não de impactos do empreendimento sobre os recursos hídricos subterrâneos”. 

FONTES POTENCIAIS DE CONTAMINAÇÃO - 

A INB, segundo o Ibama, terá igualmente que apresentar, no prazo de 12 (doze) meses, avaliação técnica da rede dos poços de monitoramento de águas subterrâneas, considerando: o modelo hidrogeológico conceitual e numérico atualizado, elaborado para o tipo de aquífero da área; as direções preferenciais de fluxo subterrâneo; a localização das fontes potenciais de contaminação e a distribuição de pontos a montante e a jusante das fontes de impactos.  Entre as condicionantes especificas constam também que a INB deve “desenvolver e executar o Programa de Gerenciamento de Áreas Contaminadas (PGAC) nas áreas potencialmente contaminadas ou contaminadas decorrentes das atividades de beneficiamento (Planta Química, tanques e Ponds), e demais normas, diretrizes e estratégias técnicas pertinentes (ANSN, IAEA), entre outros. 

IBAMA E ANSN - 

“O Ibama é responsável pelos monitoramentos previstos na Licença de Operação do empreendimento, os quais incluem monitoramentos ambientais de efluentes e rejeitos, da qualidade do ar e das águas subterrâneas. Quanto à emissão de licenças e autorizações para atividades nucleares, transferência e comércio interno/externo de materiais nucleares, trata-se de atribuição da Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN)”, informou o Ibama ao Blog. 

LICENÇA AMBIENTAL - Segundo a INB informou em seu site, o processo de licenciamento ambiental da unidade teve início com a LO nº 65/99, com referência ao início das atividades de lavra e lixiviação do minério. “A URA entrou em produção comercial em 2000, com a Mina Cachoeira, onde a extração de minério a céu aberto ocorreu até 2014, quando foi atingido o limite previsto para esse modelo de lavra, e desde 2020, a produção de urânio na unidade é realizada a partir da Mina do Engenho, também a céu aberto”. 

Ao longo de sua operação, a URA já produziu mais de 4 mil toneladas de concentrado de urânio (yellowcake), destinado à fabricação do combustível nuclear utilizado pelas usinas brasileiras. Nos últimos anos, a pasta amarela sai da Bahia para Rússia onde é transformada em gás (hexafluoreto) e depois pelo processo de enriquecimento. Uma vez enriquecido, volta ao Brasil, seguindo para a Fábrica de Elementos Combustíveis (FEC) da INB, em Resende (RJ) onde passa para a forma de pastilhas, inseridas em varetas de zircaloy, que seguem para Angra dos Reis, onde são colocadas nos reatores de Angra 1 e ou Angra 2.  

ACIDENTE - 


As instalações da INB em Caetité já registraram vários problemas, como o caso da queda de um operador na URA. O homem caiu e se feriu ao pisar numa tampa de ferro que estava aberta, em uma das oito células do setor de extração de urânio (área 160) às 10h30 em 1º de outubro de 2025. Em nota interna de esclarecimento a INB declarou que a informação “não procede”. Mas logo em seguida reiterou: “O fato envolveu um empregado que, durante atividade rotineira no setor de extração, sofreu uma queda em compartimento contendo solvente orgânico descarregado”. A empresa negou e confirmou ao mesmo tempo. Não informa como e porque o empregado sofreu a queda. E assim o caso foi encerrado, com a empresa tentando desqualificar a informação. 

VENDAVAL - 

Danos provocados por vendaval, no dia 31 de dezembro de 2023, paralisam as atividades de lavra na mina do Engenho, da URA), por um tempo. Na época, a informação do BLOG foi confirmada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). A área de produção do concentrado de urânio foi a mais danificada. Esta é uma prova de que eventos climáticos extremos podem afetar instalações que operam com material radioativo. 

VAZAMENTO -  


Em julho deste ano de 2026 o Blog divulgou um vazamento de amônia (produto altamente tóxico) ocorrido no dia 21 de junho (21/6) na URA. Na ocasião, o Ibama exigiu ao INB um documento com a descrição do acidente e “as medidas adotadas para seu atendimento e demais informações técnicas necessárias à avaliação da ocorrência”. Após o recebimento da comunicação, a Superintendência do Ibama na Bahia notificou a empresa, por meio do Ofício nº 571/2026/SUPES-BA, requerendo a apresentação, do “relatório circunstanciado com a descrição das causas do acidente’, entre as outras exigências. 

CAETITÊ - 

A unidade ocupa uma área de 1.700 hectares, localizada em uma província mineral com recursos que chegam a 87 mil toneladas de urânio e onde estão identificados 17 depósitos minerais. De 2000 a 2015, a INB Caetité produziu 3.750 toneladas de concentrado de urânio a partir da extração a céu aberto de uma dessas jazidas – a mina Cachoeira. A mina que se encontra em operação hoje é a mina do Engenho. - 

(FOTOS: INB e BLOG )- 

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sábado, 12 de setembro de 2026

Nos 39 anos do acidente com uma cápsula de césio-137, a viagem de contaminados a Cuba, em 1992, por Fernando Peregrino

 


Neste domingo (13/9), faz 39 anos do maior acidente radiológico do mundo, com uma cápsula de césio-137, em Goiânia (GO), que provocou a morte quase imediata de quatro pessoas e a contaminação de dezenas; o Blog relembra uma história vitoriosa de ousadia: os bastidores da viagem de um grupo de 50 vítimas, entre adultos e crianças, a Cuba, em 1992, cinco anos depois da tragédia, para receber acompanhamento e tratamento médico no país que contava com as experiências aos contaminados de Chernobyl (26/4/1986). O personagem que viabilizou a viagem, articulando contatos, alguns ainda hoje desconhecidos, conversou com o Blog sobre a elaboração do documento assinado por Fidel Castro, em plena conferência – a Rio 92 – no Riocentro (RJ). As articulações que antecederam à viagem, a estada em Cuba, o legado da vivência inédita, a capacidade de enfrentar desafios, são lembrados aqui com exclusividade pelo engenheiro Fernando Peregrino, nascido em Belém do Pará, no Rio de Janeiro desde 1971, na época presidindo a Faperj (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro). Hoje, pró-reitor de Gestão e Governança da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e vice-presidente do Clube de Engenharia do Brasil. Eis o relato: 

FERNANDO PEREGRINO. 


"Cuba acumulava experiência por meio do programa criado para receber pessoas atingidas pela radiação na tragédia de Chernobyl. Mas a história de como as vítimas do acidente com o césio-137 conseguiram chegar à Havana começou de maneira quase improvável. E, como acontece tantas vezes, não nasceu de uma decisão tomada nos altos escalões do poder, mas da iniciativa das próprias vítimas, da solidariedade de algumas pessoas e de uma sucessão de encontros, ousadias e circunstâncias favoráveis. 

Dois artistas entram na minha sala - 

Em 1992, eu era presidente da FAPERJ, no governo Leonel Brizola. 

Certo dia, cheguei ao meu gabinete para mais uma jornada normal de trabalho e encontrei, sentados diante da minha mesa, dois rostos conhecidos de milhões de brasileiros: os atores Joana Fomm e Otávio Augusto. 

Provavelmente por serem artistas tão conhecidos da televisão, meu pessoal do gabinete havia permitido que entrassem e me aguardassem ali antes mesmo da minha chegada. 

Eles tinham vindo me pedir ajuda. 

A presidente da Associação das Vítimas do Césio-137, Terezinha Nunes Fabiano, os procurara porque as vítimas estavam profundamente insatisfeitas com a assistência que vinham recebendo em Goiás. Havia medo, insegurança e uma enorme angústia em relação às consequências futuras da radiação. 

Queriam ir à Cuba. 

A esperança era de que lá encontrassem uma assistência médica especializada e, sobretudo, um tratamento digno. 

Até aquele momento, confesso, o problema das vítimas do césio-137 não fazia parte da minha agenda. Mas, de repente, ele estava ali, diante de mim. Tinha rosto, tinha voz, tinha urgência. 

E era impossível ficar indiferente. 

Por que me procuraram? 


Poucos meses antes, em fevereiro daquele mesmo ano, eu havia viajado a Cuba integrando uma delegação liderada por Darcy Ribeiro. O objetivo era recrutar pesquisadores para a Universidade Estadual do Norte Fluminense, a UENF, que estava sendo implantada sob sua direção. 

Darcy Ribeiro também participaria de um evento na Casa de las Américas, ao lado de José Saramago, Gabriel García Márquez e outros intelectuais. A viagem acabou marcada por um grande fenômeno marítimo que nos deixou isolados no hotel por algum tempo, juntamente com aqueles escritores, até sermos resgatados. 

Contudo havia outra circunstância importante: 

Eu estava envolvido na organização da ECOTECH, seminário da Secretaria Estadual de Ciência e Tecnologia do Estado do Rio de Janeiro, realizado paralelamente à Rio-92. Entre os participantes estava o médico pediatra cubano, Carlos Dotres, que possuía experiência no atendimento às milhares de vítimas de Chernobyl. 

Era uma oportunidade que não podíamos desperdiçar. 

Depende de uma pessoa: o Comandante” - 

Decidimos procurar Carlos Dotres.

Esperamos que ele descesse do palco do seminário e pedi ao meu amigo, o físico nuclear Luiz Pinguelli Rosa, que nos apresentasse. 

A conversa foi cordial e afetuosa. Explicamos a situação das vítimas brasileiras e perguntamos se Cuba poderia recebê-las. 

Dotres não fez rodeios: 

— Tudo bem. Podemos cuidar delas. Mas depende de uma pessoa: o Comandante. Falem com o embaixador de Cuba no Brasil, Jorge Bolaños. 

Era o primeiro sinal concreto de que aquele sonho talvez fosse possível. 

Consegui o telefone do embaixador e liguei. Mais tarde, alguém da Embaixada telefonou para minha casa: Jorge Bolaños me receberia às oito da manhã, em um hotel em Copacabana. Foi ali que Bolaños me deu talvez a informação mais importante de toda aquela jornada. Fidel Castro estaria no Rio de Janeiro para a Rio-92 e havia uma pessoa de sua absoluta confiança que poderia levar o assunto diretamente a ele: Rosa Elena Simeón, ministra cubana ligada às áreas de ciência e meio ambiente. 

Bióloga, participante da Revolução Cubana, de origem da classe média, era uma pessoa muito próxima de Fidel, ela estava naquele momento no Riocentro, supervisionando a montagem do estande de Cuba. Eu precisava chegar até ela. 

Como entrar no lugar mais vigiado do mundo? 

O Riocentro estava prestes a receber delegações de 179 países e mais de uma centena de chefes de Estado e de governo. 

Como entrar ali e chegar à ministra cubana? 

Mais uma vez, uma circunstância ajudou. 

A FAPERJ havia implantado em maio daquele ano a Rede Rio de Computadores (a Internet), com uma conexão internacional pela Embratel. Organizações da sociedade civil que trabalhavam no Riocentro, lideradas pela Alternex (Projeto do Ibase do sociólogo Betinho) precisavam de maior capacidade de tráfego para transmitir notícias da Rio-92 e nos pediram ajuda para usar nossa infraestrutura. 

Nós cedemos essa capacidade. Por causa disso, recebi um passe da ONU que me permitia entrar e circular pelo Riocentro. Com aquele passe no bolso e a proposta na cabeça, fui procurar Rosa Elena. 

Pode preparar o convênio. Eu cuidarei do resto” - 

Encontrei-a no estande cubano.

Apresentei-me e mostrei uma minuta de protocolo de cooperação que eu próprio havia preparado na FAPERJ. O documento previa as assinaturas de Fidel Castro, Leonel Brizola e do secretário estadual de Ciência e Tecnologia. 

Era, reconheço hoje, uma mais uma grande ousadia. Sem qualquer articulação prévia com o Itamaraty, eu estava tentando construir um compromisso oficial entre o Brasil e outro pais, Cuba, por meio de um estado subnacional, o Estado do Rio de Janeiro para atender às vítimas do maior acidente radiológico em tempo de paz da história, e o primeiro do Brasil. Tudo ao contrário do que deve ser feito...

Rosa Elena ouviu atentamente. Não criou obstáculos. Não pediu semanas de análise. Não ergueu uma muralha burocrática. Foi direta. Comprometeu-se a falar com Fidel e recomendar a assinatura. E encerrou nossa conversa com uma frase que nunca esqueci:— Pode preparar o convênio. Eu cuidarei do resto. Naquele instante, o que parecia uma ideia quase impossível começou a se transformar em realidade. 

Como Brizola e Collor ficaram sabendo 

Havia, porém, um detalhe nada pequeno: nem o governador Brizola nem o governo federal sabiam ainda da iniciativa. Era preciso envolver o Itamaraty e a Comissão Nacional de Energia Nuclear, a CNEN. Afinal, tratava-se de vítimas de um acidente radiológico brasileiro que seriam levadas para tratamento em outro país. Como presidente da FAPERJ eu não tinha acesso direto e permanente ao governador. Normalmente, tudo deveria passar pelo secretário de Ciência e Tecnologia. 

Mas o tempo corria. Não dava tempo de fazer essa tramitação. 

Soube pelos jornais que Brizola e o presidente Fernando Collor participariam da inauguração de um CIEP na Barra da Tijuca, chamado Leopoldo Collor de Mello. Peguei a minuta do protocolo e fui para lá. Esperei os dois descerem a tradicional rampa do CIEP. Fiquei no final da rampa.  Ao chegarem, aproximei-me e interrompi a caminhada.

 — Governador, com licença, gostaria de lhe comunicar que, depois de tratativas que conduzimos com autoridades cubanas, está prevista para amanhã a assinatura de um protocolo do senhor com o presidente Fidel Castro, no Riocentro, para o tratamento das vítimas do acidente do césio-137 de Goiânia. 

Mostrei-lhe o documento. Brizola, olhou a minuta e, tão surpreendido quanto Collor, perguntou ao presidente: 

— Importante, não é presidente? Collor concordou. Foi então que Brizola percebeu algo que nós não havíamos percebido. — Professor Peregrino, por favor, inclua o nome do governador de Goiás nas assinaturas. Afinal, as vítimas são daquele estado, não é verdade? 

Brizola tinha razão. Na correria para viabilizar a ajuda, havíamos cometido um erro político e institucional: Goiás precisava estar representado. Voltei para a FAPERJ e corrigi imediatamente o documento. Naquele momento, senti que estávamos muito perto. O sonho daquelas famílias começava a ganhar a força dos atos oficiais. 

12 de junho: Fidel chega para assinar - 

A assinatura foi marcada para o dia seguinte, 12 de junho, em espaço de aproximadamente 100 metros quadrados, em um mezanino do Riocentro. 

No dia da cerimônia, desde cedo, fui procurado pela segurança de Fidel para acertarmos seu trajeto e definir como seria o evento quem poderia entrar no recinto. Pedi ajuda ao presidente da Turisrio, Sergio Ricardo, experiente na área internacional. 

Um dos responsáveis pela segurança colocou um papel em minhas mãos e disse: 

— Escreva aqui os nomes das pessoas que entrarão no recinto. Só essas pessoas poderão entrar. A responsabilidade sobre mim deu um pico. Imaginei se algo acontecer.... (tempo depois vi pela TV, Fidel quase caiu do palanque e um segurança segura-lo pelo braço, eu o reconheci, era o mesmo guarda costa) - 

De repente, eu estava participando dos detalhes de segurança de um dos líderes políticos mais conhecidos — e mais ameaçados — do mundo. 

Fidel desembarcaria do carro oficial ao lado do Riocentro e caminharia de um portão que ficava cerca de cem metros do local da cerimônia. 

Do alto do mezanino, através do vidro, vi a cena. Separados por uma dessas grades, diplomatas de vários países corriam para se aproximar dele. Alguns praticamente tropeçavam uns nos outros para conseguir vê-lo de perto... admiravam um mito internacional.

E eu pensava em como tudo aquilo começara: duas pessoas sentadas na minha sala, pedindo ajuda em nome de famílias assustadas. 

Agora Fidel Castro caminhava em nossa direção para assinar o acordo que escrevi e que permitiria atender aquelas vítimas. Foi um dos momentos mais emocionantes de toda essa história. 

Um gesto que dizia mais que um discurso - 

Logo no início de sua fala, Fidel contou que, pela primeira vez, havia saído de Cuba sem saber que assinaria um acordo no país de destino. Segundo ele, Jorge Bolaños o informara quando tinha descido as escadas do avião ao desembarcar no aeroporto no Brasil. 

Pensei comigo mesmo: havíamos conseguido atravessar, em pouquíssimo tempo, estruturas burocráticas de dois países completamente diferentes. E criar um fato inédito, internacional, Fidel e todo seu aparato de governo haviam sido “contornados” pela nossa ousadia... Não tinha tido só o governo Brizola, o do Collor, mas também o do Fidel....Senti orgulho...Não orgulho pessoal por estar mexendo na agenda de autoridades tão importantes, mas pela constatação de que, quando existe uma causa humana concreta e pessoas dispostas a agir, barreiras aparentemente intransponíveis e formais podem cair. 

Nesses dias, uma TV italiana nos procurou e fez uma matéria no dia do evento que fizemos com a sociedade civil, artistas e intelectuais. 

Mas o momento que mais me marcou ainda estava por acontecer. 

Na primeira fila da sala do mezanino, estava Terezinha Nunes Fabiano, a presidente da Associação das Vítimas, com sua filha, Natasha, uma menina loira, de aproximadamente nove anos, vítima da irradiação. 

Ao final, Fidel com a mão, fez um gesto e chamou a menina. Ela atravessou a sala e se aproximou da mesa onde as autoridades estavam. Fidel curvou-se por cima da mesa, segurou-a pelos braços, ergueu-a e beijou-lhe o rosto. Os flashes da imprensa mundial explodiram ao redor. Aquele beijo tinha uma força extraordinária.

Não era apenas um gesto de carinho com uma criança. Era também uma mensagem pública contra o medo e o preconceito que cercavam as vítimas do césio-137. Tido como um dos principais problemas do irradiados dos acidentes. 

Muitas delas carregavam não apenas as consequências físicas e psicológicas do acidente, mas o estigma. Havia pessoas, inclusive familiares, que tinham medo de se aproximar, tocar ou conviver com quem fora irradiado. 

Ao tomar aquela menina nos braços e beijá-la diante das câmeras, Fidel parecia dizer ao mundo: essas pessoas não podem ser condenadas ao isolamento. Elas precisam ser acolhidas. 

Bastaria ficar por ai...

Foi um gesto simples, contra o preconceito, um dos mais críticos problemas do irradiado. Ele não sabe de seu futuro por conta de eventuais efeitos de alterações genéticas, que podem ocorrer ate a terceira geração. Foi um gesto singular e profundamente humano e de grande efeito pedagógico. 

Fidel, Brizola e um minuto inesquecível - 

Terminada a cerimônia, Fidel deixou a mesa ladeado por Brizola e pelo governador de Goiás. Formou-se um pequeno tumulto em torno dele. Consegui aproximar-me para cumprimentá-lo. Fidel apertou minha mão e ouviu o que eu dizia. Nesse instante, os fotógrafos começaram a chamá-lo para uma foto. 

Ele não soltou minha mão. 

Virou-se para os fotógrafos, levantou um dedo e fez um sinal (lembram o gesto de uma propaganda de uma cerveja na época?) — Um minuto! Queria terminar de ouvir o que eu estava dizendo. 

Só depois se voltou para as câmeras e jornalistas. Essa acabou sendo a única fotografia que tive com Fidel naquele episódio. 

Curiosidade: muitos anos depois, eu estava assistindo ao desastre do edifício que caiu na Barra da Tijuca – Palace II  (1998) – pois a Coppe foi chamada pelos moradores para identificar as causas do desabamento, ao meu lado em pé, diante dos escombros, estava o Sergio Ricardo da Turisrio, ele era um morador do prédio:

- Peregrino, todos os dias eu lhe vejo (sic)? Eu tenho uma foto nossa com Fidel no evento do césio?! Claro que pedi uma copia dela, ele estava do lado oposto que eu na foto que mencionei. Editei ela para me destacar e deixei apenas Fidel e eu.... (risos). Guardo-a como lembrança de uma história que conseguiu reunir, depois de muito tempo, dois gigantes da política latino-americana: Fidel Castro e Leonel Brizola. 

Mas o mais importante ainda precisava acontecer. As vítimas tinham que chegar à Cuba. 

Antes da viagem, uma missão técnica precursora - 

Depois da assinatura, passamos à organização da ida das famílias. 

Criei uma comissão técnica formada por professores e especialistas da UERJ, liderada pelo físico Carlos Eduardo Veloso de Almeida, que havia atuado no acidente, além de médicos, outros especialistas e um representante da Fundação Leide das Neves Ferreira, de Goiás. 

Fomos a Cuba conhecer as instalações e avaliar as condições de atendimento. Visitamos o local onde as vítimas de Chernobyl foram recebidas e conversamos com os médicos envolvidos no programa, além da ministra Rosa Elena. 

A comissão concluiu que a seleção deveria obedecer a critérios médicos e também considerar as condições familiares, evitando provocar ainda mais sofrimento com separações desnecessárias entre pais e filhos. O grupo técnico foi então à Goiânia. Ao final, foram selecionadas dezenas de crianças acompanhadas de seus familiares. 

Agora faltava uma questão decisiva: como pagar as passagens? 

Um telefonema de São Paulo - 

Cuba arcaria com as despesas de estada e alimentação, mas, como presidente da FAPERJ, eu não dispunha de orçamento para comprar as passagens aéreas. 

Então aconteceu outra daquelas surpresas que marcaram essa história. Recebi uma ligação do secretário do governador Luiz Antônio Fleury Filho, de São Paulo. O governador havia decidido financiar as passagens. 

O governo paulista faria um cheque administrativo em favor de quem indicássemos. Pensei imediatamente na burocracia. Se aquele dinheiro entrasse formalmente no orçamento estadual, poderíamos perder semanas até conseguir transformá-lo em bilhetes aéreos. Indicamos a associação dos funcionários da FAPERJ que estava engajada naquele projeto. No dia seguinte, um emissário do governador Fleury apareceu em minha sala trazendo o cheque. Meses depois, encontrei o governador entrando na Associação Comercial do Rio de Janeiro. Interrompi sua caminhada, apresentei-me e agradeci. 

Ele chamou os assessores que estavam ao redor e disse algo de que nunca me esqueci:

— Vejam. Prestem atenção. Como é difícil esse gesto acontecer. Ele veio me agradecer o apoio que demos ao projeto das vítimas do césio-137. 

O embarque - 

Chegou finalmente o dia da viagem. A totalidade das pessoas ali era de baixa renda. Algumas talvez nunca tivessem viajado de avião. Muito menos para fora do Brasil. Fui recebê-las no aeroporto de Guarulhos. 

A cena era uma mistura de ansiedade, esperança, medo, crianças, pais, malas, vozes e uma agitação compreensível diante do desconhecido. 

Em determinado momento, precisei subir e ficar em pé no balcão da companhia aérea para tentar organizar o grupo e evitar que alguém se perdesse ou perdesse o voo. 

Uma confusão. Mas deu tudo certo. Eles foram. 

Depois de tudo o que havia acontecido desde aquela manhã em que Joana Fomm e Otávio Augusto apareceram no meu gabinete, as vítimas do césio-137 finalmente embarcavam para Cuba. 

Ali, a burocracia, a política e a diplomacia deixavam de ser abstrações. Tinham um destino concreto: aquelas famílias. Elas permaneceriam cerca de 50 dias em Cuba. 

O que aconteceu depois - 

Posteriormente, realizamos em Goiânia um seminário com médicos cubanos, liderados pelo doutor Carlos Dotres. 

Segundo os relatos que recebemos, as vítimas passaram por exames físicos e psicológicos. O clima entre as famílias era de muito otimismo. 

Mas o acordo produziu também um resultado estruturante. Nossa estratégia não era apenas levar um grupo para Cuba. Queríamos aprender com a experiência cubana na prevenção, no acompanhamento e no tratamento das consequências de acidentes e ocorrências envolvendo radiação. A FAPERJ e a UERJ se uniram para criar uma estrutura capaz de formar profissionais, desenvolver pesquisas e prestar serviços técnicos, inclusive na calibração de equipamentos médicos que utilizavam radiação. Não esqueçamos que no Rio de Janeiro está situada a única usina (Angra 1) - Foi criado na UERJ o Laboratório de Ciências Radiológicas — LCR. Funcionando como legado científico daquele episódio de solidariedade. Esse talvez seja um dos legados menos conhecidos daquela iniciativa: transformar uma ação emergencial de solidariedade em conhecimento científico e capacidade permanente para o Rio de Janeiro e para o Brasil. 

Uma política pública que nasceu de baixo para cima - 

Quando olho para trás, considero aquela experiência inesquecível. 

Não dispúnhamos de grandes recursos financeiros nem de extraordinário poder político. 

O que aconteceu foi uma verdadeira política pública bottom-up: de baixo para cima, do cidadão para o Estado. Não foi um governo que acordou um dia e decidiu idealizar aquela ação. Foram as próprias vítimas que deram partida e começaram tudo. Elas procuraram artistas. Os artistas bateram à porta da FAPERJ. Da FAPERJ chegamos a um médico cubano. Dele, ao embaixador. Do embaixador, a Rosa Elena. De Rosa Elena, a Fidel. Depois vieram Brizola, o governador de Goiás, o governo federal, especialistas, médicos e o apoio de São Paulo. 

Uma corrente humana e institucional foi sendo formada. 

No início havia apenas pessoas com medo, sentindo-se desamparadas e querendo ajuda. No final, dois países estavam envolvidos e dezenas de brasileiros atravessavam o continente em busca de assistência. 

O que mais me emocionou

Guardo muitas imagens. A de Fidel caminhando pelo Riocentro enquanto diplomatas de vários países corriam para vê-lo. A do instante em que percebi que aquela caminhada terminaria diante de um documento que eu ajudara a construir. A menina, Natasha, sendo erguida e beijada diante das câmeras. 

As famílias embarcando em Guarulhos. E talvez a lembrança mais forte seja perceber que, em algum momento daquela história, cada pessoa decidiu não dizer: “isso não é problema meu”. Joana Fomm e Otávio Augusto poderiam não ter ido à FAPERJ. Eu poderia ter explicado que aquilo não estava entre as atribuições normais da Fundação. Carlos Dotres poderia ter encerrado o assunto dizendo que dependia de canais diplomáticos. Jorge Bolaños poderia ter recomendado que aguardássemos. Rosa Elena poderia ter pedido documentos e mais documentos. Brizola poderia ter dito que o problema era de Goiás. Fleury poderia ter dito que era responsabilidade do governo federal. Mas não foi isso que aconteceu. Cada um, à sua maneira, decidiu empurrar aquela história um pouco adiante. E foi assim que uma porta aparentemente impossível acabou se abrindo. 

Uma história que merece ser lembrada - 

Não considero que essa história tenha simplesmente desaparecido. O esquecimento faz parte da trajetória humana. Há acontecimentos que ficam soterrados pelo tempo até que alguém resolva recuperar seus personagens, documentos e lembranças. 

Cabe a nós reativar a memória.

 Especialmente quando ela revela algo que ainda tem muito a ensinar. A ida das vítimas do césio-137 a Cuba mostrou que instituições importam, governos importam, ciência importa e diplomacia importa. Mas mostrou também que, antes de tudo isso, importam as pessoas. Pessoas capazes de se indignar com o sofrimento de outras pessoas. Pessoas dispostas a telefonar, procurar, insistir, improvisar caminhos, assumir responsabilidades e não aceitar como resposta que determinada solução é impossível. 

Mais de três décadas depois, essa continua sendo, para mim, a maior lição daquela história: uma boa causa move montanhas.

Quando pessoas de boa vontade se unem em torno dela, obstáculos que pareciam intransponíveis começam a desaparecer. 

E foi assim, em 1992, no ano em que o Rio de Janeiro recebia o mundo para discutir o futuro do planeta, que uma pequena corrente de solidariedade conseguiu levar vítimas brasileiras do césio-137 até Cuba, um caso icônico de como devemos cuidar do meio ambiente. 

No meio da grandiosidade da Rio-92, aquela talvez tenha sido uma história pequena aos olhos do mundo. Para aquelas famílias, porém, era imensa". 

FERNANDO PEREGRINO: Engenheiro formado pela Universidade Federal Fluminense (UFF), mestre e doutor em Engenharia de Produção pela Coppe/UFRJ – Pró-reitor de Gestão e Governança da UFRJ e vice-presidente do Clube de Engenharia do Brasil. 

(FOTOS- ACERVO PESSOAL DE FERNANDO PEREGRINO) – 

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sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Meteoric afirmou que ANSN atestou que a mineradora australiana está isenta de radioatividade; geólogos do CDTN/CNEN afirmaram que as licenças ambientais deveriam ser canceladas

 


A mineradora australiana Meteoric Resources afirmou ao Blog em nota ontem à noite que recebeu da Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN), autarquia vinculada ao Ministério de Minas e Energia (MME), o aval sobre a isenção da empresa no que se refere a níveis da radioatividade em suas instalações em Poços de Caldas (MG). No dia 3/9, a o Ministério Público Federal, através da Procuradoria da República no município de Divinópolis (MG), se posicionou favorável à suspensão dos processos de licenciamento ambiental número 634/2024, das empresas australianas Viridis e Meteoric, visando à exploração e o beneficiamento de terras raras, até que a ANSN, conclua a fiscalização e ateste se os níveis de radioatividade estão dentro dos limites de segurança, em Ação Civil Pública envolvendo os municípios de Caldas, Poços de Caldas e Andradas (MG).  Em seminário recente sobre terras raras, dois geólogos do CDTN, da CNEN, afirmaram que as licenças ambientais das empresas deveriam ser canceladas. (Leia aqui)


Em nota, esta semana, a Meteoric afirmou que não tem problemas de radioatividade, visto que a ANSN realizou no dia 16 de junho de 2026, “inspeção regulatória nas instalações da Planta Piloto da Meteoric em Poços de Caldas, avaliando o processo operacional, fazendo medições de radioatividade e coletando amostras para análises químicas e radiológicas”. Após esta avaliação, segundo a Meteoric, a ANSN emitiu relatório conclusivo classificando a instalação como isenta de controle regulatório, de acordo com os critérios estabelecidos pela Norma ANSN 4.01, uma vez que as amostras analisadas apresentaram radioatividade total menor que 10 Bq/g.” 

Na avaliação da mineradora, “o relatório técnico da ANSN encerra a discussão sobre a questão radiológica, atestando que não há risco de radioatividade associada às atividades desenvolvidas atualmente pela Meteoric e planejadas para serem executadas no âmbito do Projeto Caldeira”. A Meteoric declarou que “respeita a atuação institucional do Ministério Público e considera legítimo o acompanhamento dos órgãos de controle. Entretanto, informações técnicas atualizadas são relevantes para a adequada análise das questões levantadas no processo, como por exemplo, a manifestação definitiva da ANSN emitida no final de agosto”. A manifestação do MPF, por meio da Procuradoria da República, foi divulgada no dia 7/9, por entidades que integram a ACP. 

VIRIDIS TAMBÉM SE DEFENDE - 

A Viridis informou, a ANSN realizou fiscalização completa no centro de pesquisa e processamento de terras raras (CPTR) da mineradora, com levantamento radiométrico, medição das taxas de exposição à radiação gama e coleta de amostras em seis pontos do processo produtivo. O parecer conclusivo foi que a instalação é isenta de controle regulatório radiológico”, defende a empresa australiana. Na ação civil pública, os requerentes sustentam que “não foi feita a necessária consulta prévia, livre e informada, aos povos e comunidades tradicionais que vivem nas regiões afetadas; há violações da competência federal em razão do risco radioativo do empreendimento, do vício de competência hidrográfica e da existência de impactos interestaduais. 

ANSN TEM EXIGÊNCIAS PARA SE MANIFESTAR - 

O Blog recebeu a informação sobre a ACP no final da noite de 7/9 e desde então vem tentando contato com a ANSN. “Em relação à demanda, registramos que a ANSN não foi procurada para se manifestar antes da publicação da matéria. Nesse contexto, reiteramos nosso entendimento de que um eventual posicionamento posterior, dissociado da apuração que à antecedeu, não contribuiria de forma adequada para a compreensão da questão”, informou a ANSN. 

Contribuiria sim, pois trata-se de um caso que mobiliza milhares de moradores, apenas 60 mil, no bairro conhecido como Zona Sul. 


As atividades das empresas australianas têm sido alvo constante de denúncias e críticas de entidades civis, parlamentares federais, como a deputada Duda Salabert; estaduais, como Bella Gonçalves e Beatriz Cerqueira, municipais, ambientalistas. Moradores têm se manifestado nas redes sociais e em diversas reportagens veiculadas por muitos veículos de comunicação. 

Há cerca de 60 dias em seminário sobre Terras Raras em Poços de Caldas, a deputada federal Duda Salabert reuniu moradores e entidades civis, além de representantes do governo estadual e federal. No evento, geólogos do Centro de Desenvolvimento Tecnológico Nuclear (CDTN), da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), defenderam o cancelamento das licenças das duas empresas, apresentando importantes argumentos, conforme o Blog publicou. São contradições que mereciam explicações dos órgãos que atuam na fiscalização, diante do medo que a população tem manifestado.   

ENTIDADES NA  ACP 

O Ministério Público Federal, através da Procuradoria da República no município de Divinópolis (MG), defende a suspensão temporária dos processos de licenciamento ambiental dos projetos Colossus e Caldeira, das empresas australianas Viridis e Meteoric, respectivamente, até que a ANSN conclua a fiscalização atestando se os níveis de radioatividade estão dentro dos limites de segurança. 

A ACP foi movida pelo Instituto Guaicuy, Federação das Comunidades Quilombolas do Estado de Minas Gerais (N'Golo), Aliança em Prol da APA Pedra Branca, Associação Poços Sustentável (APS), Planeta Solidário, Associação Anjos de Focinho de Vargem Grande do Sul e Bikers Mogiana”. Manifestaram interesse na Ação Civil Pública o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), e a Fundação Cultural Palmares (FCP). A decisão caberá à Justiça.

(FOTOS – VIRIDIS E METEORIC) – COLABORE COM O BLOG – OITO ANOS DE JORNALISMO INDEPENDENTE – CONTRIBUA VIA PIX: 21 99601-5849 – Contato: malheiros.tania@gmail.com

 

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Submarino nuclear: Nuclep conclui etapa do projeto iniciado há décadas que o presidente Lula prometeu realizar

 


A NUCLEP concluiu nesta quarta-feira (9/9), seu escopo na fabricação da Seção de Qualificação do Submarino Nuclear Convencionalmente Armado (SNCA), uma das etapas técnicas necessárias à construção do primeiro submarino brasileiro com propulsão nuclear, no âmbito do Programa de Desenvolvimento de Submarinos (PROSUB), da Marinha do Brasil. 

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva prometeu conseguir recursos no orçamento para concluir o projeto do primeiro submarino nuclear brasileiro, iniciado há cerca de 40 anos. O presidente fez a promessa na quarta-feira (19/8) ao discursar durante a segunda visita oficial no Centro Industrial Nuclear de Aramar (CINA), em Iperó, São Paulo, onde o Brasil enriquece urânio e desenvolve o projeto atômico, que inseriu o país no seleto clube do átomo, na década de 80. 


Na ocasião, Lula disse que o submarino faz parte do projeto nuclear pacifico do Brasil, que tem acordo com a França desde 2009. O presidente lembrou que em 2007, quando visitou Aramar, prometeu e conseguiu liberar R$ 1,4 bilhão para o projeto. Mas depois, questões no orçamento impediram os avanços do projeto, entre outros, como o desenvolvimento de turbinas da Aeronáutica também, em 2010. A paralisação dos projetos prejudica estudantes de engenharia que acabam se formando e deixando o Brasil atraídos por empregos no exterior, reconhece Lula. 

Diretamente, ele disse a Aloizio Mercadante, presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que o os projetos precisam também do Banco. O presidente comentou que as tecnologias em Aramar refletem décadas de investimentos técnicos, científicos e de capacitação profissional orientados pela Estratégia Nacional de Defesa, que não podem ser perdidas. Durante a visita foi destacado que esse domínio tecnológico é estratégico para a indústria e o desenvolvimento científico do país, com o submarino desempenhando papel importante na proteção do mar territorial e na soberania nacional. 

Lula disse que o submarino faz parte do projeto nuclear pacifico do Brasil, que tem acordo com a França desde 2009, quando ele e o presidente da França, Nicolas Sarkozy, assinaram um acordo histórico para viabilizar o empreendimento atômico. Conforme amplamente divulgado na época, tratava-se de acordo de transferência de tecnologia para fabricação do submarino, sem envolver a tecnologia nuclear. O projeto caminha na base naval em Itaguaí (RJ). 

NUCLEP - 


Conforme a Nuclep informou nesta quarta-feira (9/9) a Seção de Qualificação funciona como uma representação de parte do casco resistente do futuro submarino. Ela é construída antes das seções definitivas para comprovar que materiais, processos de soldagem, equipamentos e profissionais atendem aos rigorosos requisitos técnicos exigidos pelo projeto. A estrutura não fará parte do submarino final, mas sua fabricação é essencial para atestar que a indústria está qualificada para construí-lo, informou a empresa. 

“A conclusão dessa etapa reforça uma competência desenvolvida pela NUCLEP ao longo de décadas na construção naval militar brasileira”. A empresa participou da fabricação de cascos resistentes de submarinos das classes Tupi e Tamoio e, no PROSUB, dos quatro submarinos convencionais da Classe Riachuelo: Riachuelo, Humaitá, Tonelero e Angostura. Para o presidente da NUCLEP, Adeilson Telles, o marco representa a preservação de um conhecimento estratégico para o país. 

“O Brasil levou décadas para formar profissionais, desenvolver tecnologia e construir uma capacidade industrial apta a participar de um projeto dessa complexidade. A conclusão da Seção de Qualificação mostra que esse conhecimento está no país e precisa ser preservado. Para a NUCLEP, é mais um marco de uma trajetória diretamente ligada à construção dos submarinos brasileiros. Para o Brasil, representa avanço em autonomia tecnológica, Defesa e soberania nacional”, afirma. A participação da NUCLEP no futuro SNCA também está ligada ao Laboratório de Geração de Energia Nucleoelétrica (LABGENE), protótipo terrestre, em escala real, da planta de propulsão nuclear, visitada pelo presidente Lula. Em Aramar, a Nuclep participa da fabricação do Bloco 40, estrutura que abriga o reator nuclear e sistemas associados, e já concluiu uma importante fase desse fornecimento.

“Nossa empresa atua, assim, em duas frentes diretamente relacionadas ao futuro submarino: no desenvolvimento da tecnologia de propulsão nuclear em terra, por meio do LABGENE, e na qualificação dos processos industriais necessários à construção do casco resistente”. Segundo o engenheiro Vinícius Leone, gerente do contrato, a conclusão da etapa confirma a capacidade técnica desenvolvida para o programa. 

“Com a conclusão da Seção de Qualificação e os avanços obtidos no Bloco 40, a NUCLEP reafirma sua posição como um dos principais ativos tecnológicos da Base Industrial de Defesa brasileira, contribuindo diretamente para a preservação de competências críticas, para o fortalecimento da soberania nacional e para a continuidade de um projeto que colocará o Brasil entre o seleto grupo de nações detentoras da tecnologia de construção e operação de submarinos com propulsão nuclear," destaca. Com a entrega, comentou, “ampliamos nossa contribuição ao PROSUB e consolidamos nossa experiência em projetos estratégicos para a Base Industrial de Defesa, reunindo capacidade fabril, engenharia especializada e conhecimento aplicado ao desenvolvimento da autonomia tecnológica brasileira´. 

(FOTOS – GOVERNO FEDERAL – NUCLEP) – 

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