Neste domingo (13/9), faz 39 anos do maior acidente radiológico do mundo, com uma cápsula de césio-137, em Goiânia (GO), que provocou a morte quase imediata de quatro pessoas e a contaminação de dezenas; o Blog relembra uma história vitoriosa de ousadia: os bastidores da viagem de um grupo de 50 vítimas, entre adultos e crianças, à Cuba, em 1992, cinco anos depois da tragédia, para receber acompanhamento e tratamento médico no país que contava com as experiências aos contaminados de Chernobyl (26/4/1986). O personagem que viabilizou a viagem, articulando contatos, alguns ainda hoje desconhecidos, conversou com o Blog sobre a elaboração do documento assinado por Fidel Castro, em plena conferência – a Rio 92 – no Riocentro (RJ). As articulações que antecederam à viagem, a estada em Cuba, o legado da vivência inédita, a capacidade de enfrentar desafios, são lembrados aqui com exclusividade pelo engenheiro Fernando Peregrino, nascido em Belém do Pará, no Rio de Janeiro desde 1971, na época presidindo a Faperj (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro). Hoje, pró-reitor de Gestão e Governança da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e vice-presidente do Clube de Engenharia do Brasil. Eis o relato:
FERNANDO PEREGRINO.
"Cuba acumulava experiência por meio do programa criado para receber pessoas atingidas pela radiação na tragédia de Chernobyl. Mas a história de como as vítimas do acidente com o césio-137 conseguiram chegar à Havana começou de maneira quase improvável. E, como acontece tantas vezes, não nasceu de uma decisão tomada nos altos escalões do poder, mas da iniciativa das próprias vítimas, da solidariedade de algumas pessoas e de uma sucessão de encontros, ousadias e circunstâncias favoráveis.
Dois artistas entram na minha sala -
Em 1992, eu era presidente da FAPERJ, no governo Leonel Brizola.
Certo dia, cheguei ao meu gabinete para mais uma jornada normal de trabalho e encontrei, sentados diante da minha mesa, dois rostos conhecidos de milhões de brasileiros: os atores Joana Fomm e Otávio Augusto.
Provavelmente por serem artistas tão conhecidos da televisão, meu pessoal do gabinete havia permitido que entrassem e me aguardassem ali antes mesmo da minha chegada.
Eles tinham vindo me pedir ajuda.
A presidente da Associação das Vítimas do Césio-137, Terezinha Nunes Fabiano, os procurara porque as vítimas estavam profundamente insatisfeitas com a assistência que vinham recebendo em Goiás. Havia medo, insegurança e uma enorme angústia em relação às consequências futuras da radiação.
Queriam ir à Cuba.
A esperança era de que lá encontrassem uma assistência médica especializada e, sobretudo, um tratamento digno.
Até aquele momento, confesso, o problema das vítimas do césio-137 não fazia parte da minha agenda. Mas, de repente, ele estava ali, diante de mim. Tinha rosto, tinha voz, tinha urgência.
E era impossível ficar indiferente.
Por que me procuraram?
Poucos meses antes, em fevereiro daquele mesmo ano, eu havia viajado à Cuba integrando uma delegação liderada por Darcy Ribeiro. O objetivo era recrutar pesquisadores para a Universidade Estadual do Norte Fluminense, a UENF, que estava sendo implantada sob sua direção.
Darcy Ribeiro também participaria de um evento na Casa de las Américas, ao lado de José Saramago, Gabriel García Márquez e outros intelectuais. A viagem acabou marcada por um grande fenômeno marítimo que nos deixou isolados no hotel por algum tempo, juntamente com aqueles escritores, até sermos resgatados.
Contudo havia outra circunstância importante:
Eu estava envolvido na organização da ECOTECH, seminário da Secretaria Estadual de Ciência e Tecnologia do Estado do Rio de Janeiro, realizado paralelamente à Rio-92. Entre os participantes estava o médico pediatra cubano, Carlos Dotres, que possuía experiência no atendimento às milhares de vítimas de Chernobyl.
Era uma oportunidade que não podíamos desperdiçar.
“Depende de uma pessoa: o Comandante” -
Decidimos procurar Carlos Dotres.
Esperamos que ele descesse do palco do seminário e pedi ao meu amigo, o físico nuclear Luiz Pinguelli Rosa, que nos apresentasse.
A conversa foi cordial e afetuosa. Explicamos a situação das vítimas brasileiras e perguntamos se Cuba poderia recebê-las.
Dotres não fez rodeios:
— Tudo bem. Podemos cuidar delas. Mas depende de uma pessoa: o Comandante. Falem com o embaixador de Cuba no Brasil, Jorge Bolaños.
Era o primeiro sinal concreto de que aquele sonho talvez fosse possível.
Consegui o telefone do embaixador e liguei. Mais tarde, alguém da Embaixada telefonou para minha casa: Jorge Bolaños me receberia às oito da manhã, em um hotel em Copacabana. Foi ali que Bolaños me deu talvez a informação mais importante de toda aquela jornada. Fidel Castro estaria no Rio de Janeiro para a Rio-92 e havia uma pessoa de sua absoluta confiança que poderia levar o assunto diretamente a ele: Rosa Elena Simeón, ministra cubana ligada às áreas de ciência e meio ambiente.
Bióloga, participante da Revolução Cubana, de origem da classe média, era uma pessoa muito próxima de Fidel, ela estava naquele momento no Riocentro, supervisionando a montagem do estande de Cuba. Eu precisava chegar até ela.
Como entrar no lugar mais vigiado do mundo?
O Riocentro estava prestes a receber delegações de 179 países e mais de uma centena de chefes de Estado e de governo.
Como entrar ali e chegar à ministra cubana?
Mais uma vez, uma circunstância ajudou.
A FAPERJ havia implantado em maio daquele ano a Rede Rio de Computadores (a Internet), com uma conexão internacional pela Embratel. Organizações da sociedade civil que trabalhavam no Riocentro, lideradas pela Alternex (Projeto do Ibase do sociólogo Betinho) precisavam de maior capacidade de tráfego para transmitir notícias da Rio-92 e nos pediram ajuda para usar nossa infraestrutura.
Nós cedemos essa capacidade. Por causa disso, recebi um passe da ONU que me permitia entrar e circular pelo Riocentro. Com aquele passe no bolso e a proposta na cabeça, fui procurar Rosa Elena.
“Pode preparar o convênio. Eu cuidarei do resto” -
Encontrei-a no estande cubano.
Apresentei-me e mostrei uma minuta de protocolo de cooperação que eu próprio havia preparado na FAPERJ. O documento previa as assinaturas de Fidel Castro, Leonel Brizola e do secretário estadual de Ciência e Tecnologia.
Era, reconheço hoje, uma mais uma grande ousadia. Sem qualquer articulação prévia com o Itamaraty, eu estava tentando construir um compromisso oficial entre o Brasil e outro pais, Cuba, por meio de um estado subnacional, o Estado do Rio de Janeiro para atender às vítimas do maior acidente radiológico em tempo de paz da história, e o primeiro do Brasil. Tudo ao contrário do que deve ser feito...
Rosa Elena ouviu atentamente. Não criou obstáculos. Não pediu semanas de análise. Não ergueu uma muralha burocrática. Foi direta. Comprometeu-se a falar com Fidel e recomendar a assinatura. E encerrou nossa conversa com uma frase que nunca esqueci:— Pode preparar o convênio. Eu cuidarei do resto. Naquele instante, o que parecia uma ideia quase impossível começou a se transformar em realidade.
Como Brizola e Collor ficaram sabendo
Havia, porém, um detalhe nada pequeno: nem o governador Brizola nem o governo federal sabiam ainda da iniciativa. Era preciso envolver o Itamaraty e a Comissão Nacional de Energia Nuclear, a CNEN. Afinal, tratava-se de vítimas de um acidente radiológico brasileiro que seriam levadas para tratamento em outro país. Como presidente da FAPERJ eu não tinha acesso direto e permanente ao governador. Normalmente, tudo deveria passar pelo secretário de Ciência e Tecnologia.
Mas o tempo corria. Não dava tempo de fazer essa tramitação.
Soube pelos jornais que Brizola e o presidente Fernando Collor participariam da inauguração de um CIEP na Barra da Tijuca, chamado Leopoldo Collor de Mello. Peguei a minuta do protocolo e fui para lá. Esperei os dois descerem a tradicional rampa do CIEP. Fiquei no final da rampa. Ao chegarem, aproximei-me e interrompi a caminhada.
— Governador, com licença, gostaria de lhe comunicar que, depois de tratativas que conduzimos com autoridades cubanas, está prevista para amanhã a assinatura de um protocolo do senhor com o presidente Fidel Castro, no Riocentro, para o tratamento das vítimas do acidente do césio-137 de Goiânia.
Mostrei-lhe o documento. Brizola, olhou a minuta e, tão surpreendido quanto Collor, perguntou ao presidente:
— Importante, não é presidente? Collor concordou. Foi então que Brizola percebeu algo que nós não havíamos percebido. — Professor Peregrino, por favor, inclua o nome do governador de Goiás nas assinaturas. Afinal, as vítimas são daquele estado, não é verdade?
Brizola tinha razão. Na correria para viabilizar a ajuda, havíamos cometido um erro político e institucional: Goiás precisava estar representado. Voltei para a FAPERJ e corrigi imediatamente o documento. Naquele momento, senti que estávamos muito perto. O sonho daquelas famílias começava a ganhar a força dos atos oficiais.
12 de junho: Fidel chega para assinar -
A assinatura foi marcada para o dia seguinte, 12 de junho, em espaço de aproximadamente 100 metros quadrados, em um mezanino do Riocentro.
No dia da cerimônia, desde cedo, fui procurado pela segurança de Fidel para acertarmos seu trajeto e definir como seria o evento quem poderia entrar no recinto. Pedi ajuda ao presidente da Turisrio, Sergio Ricardo, experiente na área internacional.
Um dos responsáveis pela segurança colocou um papel em minhas mãos e disse:
— Escreva aqui os nomes das pessoas que entrarão no recinto. Só essas pessoas poderão entrar. A responsabilidade sobre mim deu um pico. Imaginei se algo acontecer.... (tempo depois vi pela TV, Fidel quase caiu do palanque e um segurança segura-lo pelo braço, eu o reconheci, era o mesmo guarda costa) -
De repente, eu estava participando dos detalhes de segurança de um dos líderes políticos mais conhecidos — e mais ameaçados — do mundo.
Fidel desembarcaria do carro oficial ao lado do Riocentro e caminharia de um portão que ficava cerca de cem metros do local da cerimônia.
Do alto do mezanino, através do vidro, vi a cena. Separados por uma dessas grades, diplomatas de vários países corriam para se aproximar dele. Alguns praticamente tropeçavam uns nos outros para conseguir vê-lo de perto... admiravam um mito internacional.
E eu pensava em como tudo aquilo começara: duas pessoas sentadas na minha sala, pedindo ajuda em nome de famílias assustadas.
Agora Fidel Castro caminhava em nossa direção para assinar o acordo que escrevi e que permitiria atender aquelas vítimas. Foi um dos momentos mais emocionantes de toda essa história.
Um gesto que dizia mais que um discurso -
Logo no início de sua fala, Fidel contou que, pela primeira vez, havia saído de Cuba sem saber que assinaria um acordo no país de destino. Segundo ele, Jorge Bolaños o informara quando tinha descido as escadas do avião ao desembarcar no aeroporto no Brasil.
Pensei comigo mesmo: havíamos conseguido atravessar, em pouquíssimo tempo, estruturas burocráticas de dois países completamente diferentes. E criar um fato inédito, internacional, Fidel e todo seu aparato de governo haviam sido “contornados” pela nossa ousadia... Não tinha tido só o governo Brizola, o do Collor, mas tambémo o do Fidel....Senti orgulho...Não orgulho pessoal por estar mexendo na agenda de autoridades tão importantes, mas pela constatação de que, quando existe uma causa humana concreta e pessoas dispostas a agir, barreiras aparentemente intransponíveis e formais podem cair.
Nesses dias, uma TV italiana nos procurou e fez uma matéria no dia do evento que fizemos com a sociedade civil, artistas e intelectuais.
Mas o momento que mais me marcou ainda estava por acontecer.
Na primeira fila da sala do mezanino, estava Terezinha Nunes Fabiano, a presidente da Associação das Vítimas, com sua filha, Natasha, uma menina loira, de aproximadamente nove anos, vítima da irradiação.
Ao final, Fidel com a mão, fez um gesto e chamou a menina. Ela atravessou a sala e se aproximou da mesa onde as autoridades estavam. Fidel curvou-se por cima da mesa, segurou-a pelos braços, ergueu-a e beijou-lhe o rosto. Os flashes da imprensa mundial explodiram ao redor. Aquele beijo tinha uma força extraordinária.
Não era apenas um gesto de carinho com uma criança. Era também uma mensagem pública contra o medo e o preconceito que cercavam as vítimas do césio-137. Tido como um dos principais problemas do irradiados dos acidentes.
Muitas delas carregavam não apenas as consequências físicas e psicológicas do acidente, mas o estigma. Havia pessoas, inclusive familiares, que tinham medo de se aproximar, tocar ou conviver com quem fora irradiado.
Ao tomar aquela menina nos braços e beijá-la diante das câmeras, Fidel parecia dizer ao mundo: essas pessoas não podem ser condenadas ao isolamento. Elas precisam ser acolhidas.
Bastaria ficar por ai...
Foi um gesto simples, contra o preconceito, um dos mais críticos problemas do irradiado. Ele não sabe de seu futuro por conta de eventuais efeitos de alterações genéticas, que podem ocorrer ate a terceira geração. Foi um gesto singular e profundamente humano e de grande efeito pedagógico.
Fidel, Brizola e um minuto inesquecível -
Terminada a cerimônia, Fidel deixou a mesa ladeado por Brizola e pelo governador de Goiás. Formou-se um pequeno tumulto em torno dele. Consegui aproximar-me para cumprimentá-lo. Fidel apertou minha mão e ouviu o que eu dizia. Nesse instante, os fotógrafos começaram a chamá-lo para uma foto.
Ele não soltou minha mão.
Virou-se para os fotógrafos, levantou um dedo e fez um sinal (lembram o gesto de uma propaganda de uma cerveja na época?) — Um minuto! Queria terminar de ouvir o que eu estava dizendo.
Só depois se voltou para as câmeras e jornalistas. Essa acabou sendo a única fotografia que tive com Fidel naquele episódio.
Curiosidade: muitos anos depois, eu estava assistindo ao desastre do edifício que caiu na Barra da Tijuca – Palace II (1998) – pois a Coppe foi chamada pelos moradores para identificar as causas do desabamento, ao meu lado em pé, diante dos escombros, estava o Sergio Ricardo da Turisrio, ele era um morador do prédio:
- Peregrino, todos os dias eu lhe vejo (sic)? Eu tenho uma foto nossa com Fidel no evento do césio?! Claro que pedi uma copia dela, ele estava do lado oposto que eu na foto que mencionei. Editei ela para me destacar e deixei apenas Fidel e eu.... (risos). Guardo-a como lembrança de uma história que conseguiu reunir, depois de muito tempo, dois gigantes da política latino-americana: Fidel Castro e Leonel Brizola.
Mas o mais importante ainda precisava acontecer. As vítimas tinham que chegar à Cuba.
Antes da viagem, uma missão técnica precursora -
Depois da assinatura, passamos à organização da ida das famílias.
Criei uma comissão técnica formada por professores e especialistas da UERJ, liderada pelo físico Carlos Eduardo Veloso de Almeida, que havia atuado no acidente, além de médicos, outros especialistas e um representante da Fundação Leide das Neves Ferreira, de Goiás.
Fomos à Cuba conhecer as instalações e avaliar as condições de atendimento. Visitamos o local onde as vítimas de Chernobyl foram recebidas e conversamos com os médicos envolvidos no programa, além da ministra Rosa Elena.
A comissão concluiu que a seleção deveria obedecer a critérios médicos e também considerar as condições familiares, evitando provocar ainda mais sofrimento com separações desnecessárias entre pais e filhos. O grupo técnico foi então à Goiânia. Ao final, foram selecionadas dezenas de crianças acompanhadas de seus familiares.
Agora faltava uma questão decisiva: como pagar as passagens?
Um telefonema de São Paulo -
Cuba arcaria com as despesas de estada e alimentação, mas, como presidente da FAPERJ, eu não dispunha de orçamento para comprar as passagens aéreas.
Então aconteceu outra daquelas surpresas que marcaram essa história. Recebi uma ligação do secretário do governador Luiz Antônio Fleury Filho, de São Paulo. O governador havia decidido financiar as passagens.
O governo paulista faria um cheque administrativo em favor de quem indicássemos. Pensei imediatamente na burocracia. Se aquele dinheiro entrasse formalmente no orçamento estadual, poderíamos perder semanas até conseguir transformá-lo em bilhetes aéreos. Indicamos a associação dos funcionários da FAPERJ que estava engajada naquele projeto. No dia seguinte, um emissário do governador Fleury apareceu em minha sala trazendo o cheque. Meses depois, encontrei o governador entrando na Associação Comercial do Rio de Janeiro. Interrompi sua caminhada, apresentei-me e agradeci.
Ele chamou os assessores que estavam ao redor e disse algo de que nunca me esqueci:
— Vejam. Prestem atenção. Como é difícil esse gesto acontecer. Ele veio me agradecer o apoio que demos ao projeto das vítimas do césio-137.
O embarque -
Chegou finalmente o dia da viagem. A totalidade das pessoas ali era de baixa renda. Algumas talvez nunca tivessem viajado de avião. Muito menos para fora do Brasil. Fui recebê-las no aeroporto de Guarulhos.
A cena era uma mistura de ansiedade, esperança, medo, crianças, pais, malas, vozes e uma agitação compreensível diante do desconhecido.
Em determinado momento, precisei subir e ficar em pé no balcão da companhia aérea para tentar organizar o grupo e evitar que alguém se perdesse ou perdesse o voo.
Uma confusão. Mas deu tudo certo. Eles foram.
Depois de tudo o que havia acontecido desde aquela manhã em que Joana Fomm e Otávio Augusto apareceram no meu gabinete, as vítimas do césio-137 finalmente embarcavam para Cuba.
Ali, a burocracia, a política e a diplomacia deixavam de ser abstrações. Tinham um destino concreto: aquelas famílias. Elas permaneceriam cerca de 50 dias em Cuba.
O que aconteceu depois -
Posteriormente, realizamos em Goiânia um seminário com médicos cubanos, liderados pelo doutor Carlos Dotres.
Segundo os relatos que recebemos, as vítimas passaram por exames físicos e psicológicos. O clima entre as famílias era de muito otimismo.
Mas o acordo produziu também um resultado estruturante. Nossa estratégia não era apenas levar um grupo para Cuba. Queríamos aprender com a experiência cubana na prevenção, no acompanhamento e no tratamento das consequências de acidentes e ocorrências envolvendo radiação. A FAPERJ e a UERJ se uniram para criar uma estrutura capaz de formar profissionais, desenvolver pesquisas e prestar serviços técnicos, inclusive na calibração de equipamentos médicos que utilizavam radiação. Não esqueçamos que no Rio de Janeiro está situada a única usina (Angra 1) - Foi criado na UERJ o Laboratório de Ciências Radiológicas — LCR. Funcionando como legado científico daquele episódio de solidariedade. Esse talvez seja um dos legados menos conhecidos daquela iniciativa: transformar uma ação emergencial de solidariedade em conhecimento científico e capacidade permanente para o Rio de Janeiro e para o Brasil.
Uma política pública que nasceu de baixo para cima -
Quando olho para trás, considero aquela experiência inesquecível.
Não dispúnhamos de grandes recursos financeiros nem de extraordinário poder político.
O que aconteceu foi uma verdadeira política pública bottom-up: de baixo para cima, do cidadão para o Estado. Não foi um governo que acordou um dia e decidiu idealizar aquela ação. Foram as próprias vítimas que deram partida e começaram tudo. Elas procuraram artistas. Os artistas bateram à porta da FAPERJ. Da FAPERJ chegamos a um médico cubano. Dele, ao embaixador. Do embaixador, a Rosa Elena. De Rosa Elena, a Fidel. Depois vieram Brizola, o governador de Goiás, o governo federal, especialistas, médicos e o apoio de São Paulo.
Uma corrente humana e institucional foi sendo formada.
No início havia apenas pessoas com medo, sentindo-se desamparadas e querendo ajuda. No final, dois países estavam envolvidos e dezenas de brasileiros atravessavam o continente em busca de assistência.
O que mais me emocionou?
Guardo muitas imagens. A de Fidel caminhando pelo Riocentro enquanto diplomatas de vários países corriam para vê-lo. A do instante em que percebi que aquela caminhada terminaria diante de um documento que eu ajudara a construir. A menina, Natasha, sendo erguida e beijada diante das câmeras.
As famílias embarcando em Guarulhos. E talvez a lembrança mais forte seja perceber que, em algum momento daquela história, cada pessoa decidiu não dizer: “isso não é problema meu”. Joana Fomm e Otávio Augusto poderiam não ter ido à FAPERJ. Eu poderia ter explicado que aquilo não estava entre as atribuições normais da Fundação. Carlos Dotres poderia ter encerrado o assunto dizendo que dependia de canais diplomáticos. Jorge Bolaños poderia ter recomendado que aguardássemos. Rosa Elena poderia ter pedido documentos e mais documentos. Brizola poderia ter dito que o problema era de Goiás. Fleury poderia ter dito que era responsabilidade do governo federal. Mas não foi isso que aconteceu. Cada um, à sua maneira, decidiu empurrar aquela história um pouco adiante. E foi assim que uma porta aparentemente impossível acabou se abrindo.
Uma história que merece ser lembrada -
Não considero que essa história tenha simplesmente desaparecido. O esquecimento faz parte da trajetória humana. Há acontecimentos que ficam soterrados pelo tempo até que alguém resolva recuperar seus personagens, documentos e lembranças.
Cabe a nós reativar a memória.
Especialmente quando ela revela algo que ainda tem muito a ensinar. A ida das vítimas do césio-137 a Cuba mostrou que instituições importam, governos importam, ciência importa e diplomacia importa. Mas mostrou também que, antes de tudo isso, importam as pessoas. Pessoas capazes de se indignar com o sofrimento de outras pessoas. Pessoas dispostas a telefonar, procurar, insistir, improvisar caminhos, assumir responsabilidades e não aceitar como resposta que determinada solução é impossível.
Mais de três décadas depois, essa continua sendo, para
mim, a maior lição daquela história: uma boa causa move montanhas.
Quando pessoas de boa vontade se unem em torno dela, obstáculos que pareciam intransponíveis começam a desaparecer.
E foi assim, em 1992, no ano em que o Rio de Janeiro recebia o mundo para discutir o futuro do planeta, que uma pequena corrente de solidariedade conseguiu levar vítimas brasileiras do césio-137 até Cuba, um caso icônico de como devemos cuidar do meio ambiente.
No meio da grandiosidade da Rio-92, aquela talvez tenha sido uma história pequena aos olhos do mundo. Para aquelas famílias, porém, era imensa".
FERNANDO PEREGRINO: Engenheiro formado pela Universidade Federal Fluminense (UFF), mestre e doutor em Engenharia de Produção pela Coppe/UFRJ – Pró-reitor de Gestão e Governança da UFRJ e vice-presidente do Clube de Engenharia do Brasil.
(FOTOS- ACERVO PESSOAL DE FERNANDO PEREGRINO) –
COLABORE COM O BLOG – OITO ANOS DE JORNALISMO INDEPENDENTE – CONTRIBUA VIA PIX: 21 99601-5849 – contato: malheiros.tania@gmail.com



.jpg%20-%20BRASIL%20MINERAL%2023%2007%202026.jpg)









.jpg%20-%20BRASIL%20MINERAL%2023%2007%202026.jpg)