O Ministério Público
Federal (MPF) recomendou ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos
Recursos Naturais Renováveis (Ibama) que não renove a licença de operação da
Unidade de Concentrado de Urânio (URA), localizada no município de Caetité, no
sudoeste da Bahia. A medida visa a suspender a renovação até que seja feita uma
consulta prévia, livre e informada as comunidades quilombolas afetadas pelo
empreendimento URA/Caetité, operado pelas Indústrias Nucleares do Brasil (INB).
O Blog apurou que a licença de Operação (LO) nº 1728/2025, ainda tem validade
de três anos, com várias condicionantes. Apurou também que a URA não está operando
desde meados do ano passado, e que neste ano de 2026 a produção foi zero.

A URA
já registrou graves problemas em suas instalações em 2023 quando um vendaval
destruiu galpões e telhados. Dois anos, depois, um trabalhador caiu dentro de
uma célula com material químico e radioativo. A unidade ocupa uma área de 1.700
hectares, localizada em uma província onde estão identificados 17 depósitos
minerais. Na URA está implantada a única mineração de urânio em atividade no
país. Nela são realizadas as duas primeiras etapas do ciclo do combustível
nuclear: a mineração e o beneficiamento do minério, que resulta no produto
chamado
concentrado
de urânio ou yellowcake. Este material beneficiado há cerca de cinco
seguia para a URENCO (consórcio de empresas formados pela Inglaterra, Holanda e
Alemanha) para ser enriquecido. Mas desde então, o yellowcake seguia para a
Internexco GmbH, do grupo Rosatom, da Rússia, que realizava o enriquecimento.
Enriquecido, voltava ao Brasil, pelo Porto do Rio, rumo a INB, em Resende, onde
era transformado em patilhas e depois, seguia para a central Nuclear de Angra a
fim de alimentar os reatores de Angra 1 e angra 2.
MPF E A CONSTITUIÇÃO -
De
acordo com o documento do MPF, pelo menos 14 comunidades quilombolas
localizadas em um raio de até 20 quilômetros da URA, nos municípios baianos de
Caetité e Livramento de Nossa Senhora, nunca foram submetidas ao processo de
consulta, apesar de o empreendimento estar em operação desde 1999, e de a
Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) estar em vigor no
Brasil desde 2004.- O MPF aponta que a norma da OIT exige que povos
tradicionais sejam consultados sempre que medidas administrativas, como o
licenciamento ambiental de grandes empreendimentos, possam afetar diretamente
seus territórios e modos de vida.
“O direito à consulta prévia não é uma mera
formalidade, mas uma garantia fundamental para que as comunidades tradicionais
decidam sobre os impactos em seus territórios. A ausência de titulação formal
da terra não pode servir de pretexto para ignorar a voz dessas populações em
processos de licenciamento tão sensíveis”, destacou o procurador da República
Marcos André Carneiro Silva, titular do ofício estadual de Defesa das
Populações Indígenas e Comunidades Tradicionais do MPF. O MPF ressalta ainda
que a ausência de titulação definitiva dos territórios quilombolas não impede o
direito à consulta. Segundo a recomendação, há pelo menos 13 procedimentos de
regularização fundiária em tramitação no Incra envolvendo comunidades da região,
alguns iniciados há mais de uma década.
RENOVAÇÃO EXIGE NOVA ANÁLISE –
O MPF argumenta também que a renovação da licença ambiental não constitui um
ato automático, pois envolve nova análise técnica e eventual imposição de
condicionantes ambientais e sociais. Por isso, segundo o órgão, a renovação da
autorização também exige a observância do direito à consulta das comunidades
potencialmente afetadas. O documento lembra ainda que já existem tratativas
entre o MPF e as INB para a realização de um acordo extrajudicial voltado à
implementação da consulta junto às comunidades quilombolas da área de
influência direta do empreendimento. O Ibama tem o prazo de 30 dias para
informar ao MPF se acatará a recomendação e quais providências serão adotadas
para garantir o cumprimento da Convenção 169 da OIT.
PROBLEMAS ANTIGOS -
A
planta de produção da Unidade de Concentração de Urânio
(URA) teve outros problemas no passado recente. Um vendaval registrado no dia
31 de dezembro de 2023 paralisou a unidade, destelhando galpões e telhas caídas
sobre tanques, conforme o blog noticiou com exclusividade no dia 13/1/2023. Na
ocasião, a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) informou ter questionado
a INB sobre as condições de uma manta para verificação da “extensão da
contaminação” de urânio no local. A iluminação noturna da URA também esteve
precária: diversos refletores não estavam funcionando. Assim, à noite,
vigilantes fazem rodas utilizando lanternas. Tudo teria sido reparado, segundo
a estatal, na época.
VELHAS DENÚNCIAS - Na época do vendaval, em
2023, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) confirmou que a área
de produção do concentrado de urânio havia sido a mais danificada. Esta é uma
prova de que eventos climáticos extremos podem afetar instalações que operam
com material radioativo. Segundo o MCTI, naquela época, a INB continuava
implementando ações “remediadoras na área das bacias de processo, também
afetada pelo evento climático extremo”. E mais: “Uma das bacias continua
inoperante devido à manutenção pendente”.
A URA já foi alvo de diversas denúncias ao longo de sua entrada em
operação, no ano 2000. Há décadas, moradores e entidades civis denunciam
vazamento de material radioativo contaminando o meio ambiente, por
exemplo. A partir do vendaval, a URA
continuava a sua trajetória contabilizando mais danos. Também segundo o MCTI,
em relação às atividades da mina, a INB havia comunicado à CNEN – que legisla,
fiscaliza e executa – “a suspensão temporária das operações de lavra na Mina do
Engenho, com a justificativa de que houve o acúmulo elevado de minério estocado
no pátio de britagem da instalação”. Conforme o BLOG mostrou na ocasião, com
fotos exclusivas, nas áreas que deveriam estar protegidas, estavam guindastes,
motores, cobertos com telhas do cancerígeno e amianto, que continuavam
quebradas. Também naquela época, em nota, o Ibama informou que estava
acompanhando a URA, por meio de “vistorias técnicas in loco”. E acrescentou que
mantinha comunicação direta e constante com a empresa “a respeito da
necessidade de implementação das medidas exigidas na licença ambiental”.
TRABALHADOR
CAIU EM CÉLULA -
Em outubro de 2025, outro grave problema mobilizou o Sindicato
dos Mineradores de Brumado e Microrregião (SINDMINE) quer exigiu esclarecimentos
aos canais de fiscalização do governo, sobre o acidente com um trabalhador
ocorrido no 1º dia daquele mês. O funcionário caiu em uma das oito células com
material radioativo e químico da URA. Segundo o Sindicato, não se tratava
apenas de um “evento não usual”, como a INB e a ANSN (Autoridade Nacional) divulgaram.
“Trata-se de um acidente de trabalho grave, ocorrido em ambiente de alto risco
químico e radiológico”, reiterou o SINDMINE em nota divulgada na ocasião.
LICENÇA
DO IBAMA -
O Ibama aprovou a licença de da unidade para
a INB, operar a URA, de acordo com o processo número 02001.000458/90-03, com
validade condicionada ao cumprimento às condicionantes. “O IBAMA,
mediante decisão motivada, poderá modificar as condicionantes e as medidas de
controle e adequação, suspender ou cancelar esta Licença, caso ocorra: a)
Violação ou inadequação de quaisquer condicionantes ou normas legais; b)
Omissão ou falsa descrição de informações relevantes, que subsidiaram a
expedição da licença; c) Superveniência de graves riscos ambientais e à saúde.
1.3. Qualquer alteração das especificações do projeto, da finalidade do
empreendimento, do escopo dos programas ou dos prazos previstos deverá ser
precedida de anuência do IBAMA. 1.4. Comunicar de imediato, via Sistema
Nacional de Emergências Ambientais (Siema), a ocorrência de acidentes
ambientais, independente das medidas tomadas para seu controle”, consta no documento
obtido pelo Blog.
“Esta Licença não exime o empreendedor (INB) da obtenção de
outras autorizações junto a outros órgãos porventura exigíveis, não autoriza
supressão de vegetação nativa nem manejo de fauna silvestre, a renovação desta
Licença deverá ser requerida num prazo mínimo de 120 (cento e vinte) dias,
antes do término da sua validade”. De acordo com o documento, a licença autoriza
o “Transporte de Material Radioativo Diuranato de Amônio (DUA), classificado
como material de Baixa Atividade Específica, condicionado para transporte em
volumes industriais’, específicos, com a apresentação de ofícios destinados ao
transporte, entre outras exigências. O Blog solicitou ao Ibama e a INB
informações sobre a URA.
LEIA NO BLOG:
03/10/2025 –Trabalhador cai em célula
no setor de extração de urânio da INB na Bahia; 05/10/2025 – INB nega ("não procede") e confirma informação do Blog sobre
operário que caiu em célula no setor de extração de urânio; 06/10/2025 – Empregado da INB acidentado teve contato com materiais radioativo e
químico, denuncia SINDMINE; 23/04/2025 - Eventos climáticos extremos ainda afetam instalações com material
radioativo. MCTI e Ibama prestam informações exclusivas ao Blog; 13/01/2024
- Vendaval paralisa planta de produção de urânio de Caetité; 24/01/2024
- INB tem que informar sobre contaminação de urânio em Caetité (BA);
refletores sem funcionar levam vigilantes a usarem lanternas em rondas noturnas
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(FOTOS: INB E blog) –
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