Rio de Janeiro, 27 de julho de 2026 - Exclusivo - As lembranças das plantações de morangos da família,
no bairro da Cascata, em Águas da Prata-, Estância Hidromineral, SP -, esbarram-se
hoje nos temores das ações de mineradoras em municípios vizinhos, de olhos nas
terras raras, que poderão levá-los também a deixar a cidade na pele de “refugiados
ambientais”. No limite da mineira Poços de Caldas, a paulista Águas da Prata reúne
moradores que se tornaram guardiões do território enfrentando, em audiências públicas,
o Projeto Colossus de Mineração de Terras Raras, da empresa australiana Viridis
Mining and Minerals. É o caso de Alexandre Schippnick, graduado em Biologia, no
Centro Universitário da Fundação de Ensino Octávio Bastos (UNIFEOB), mestre em
Agroecologia e Desenvolvimento Rural pela Universidade Federal de São Carlos,
no Centro de Ciências Agrárias, que desde 2008, trabalha como educador,
oficineiro, consultor e técnico de campo em projetos de Agroecologia e
Agrofloresta.

Alexandre contou ao Blog que as preocupações se acentuaram no dia
17 de maio de 2025 quando ele e vários ambientalistas da cidade participaram da
audiência pública do Projeto Colossus e souberam do processo, que já estava
avançado, de pedido de Licença Ambiental da empresa para minerar no município
de Poços de Caldas. Logo após a audiência, eles se organizaram para entender a
situação dos pedidos de licenciamento e os riscos ambientais a que a região e
os municípios limítrofes estavam sujeitos. Em parceria com o poder público, os guardiões
da sociedade civil, se articulavam com grupos de estudo, de whatsapp,
organizando reuniões com lideranças da região, participando de audiências
públicas para construção do Plano Diretor Municipal.
VAGALUMES ILUMINAVAM AS NOITES
-
Uma infância feliz, cercada pela natureza, não é à toa que Alexandre está
preocupado com as cavas que as mineradoras devem fazer em Poços de Caldas, atingindo
as águas de sua cidade. “Na fase de criança, passei morando numa casa, no
bairro Moneda, muito próxima de uma fazenda e de uma plantação de café,
brincando nas ruas e entre os pés de café. A região toda, entre as montanhas da
Serra da Mantiqueira, era repleta de vida, com as noites sendo iluminadas por
revoadas de vagalumes, às margens do córrego que passa no bairro com dezenas de
sapos fazendo uma sinfonia e as aleluias revoando em volta dos postes de luz.
Minha adolescência, passei fazendo trilhas a pé ou de bicicleta para as várias
cachoeiras que correm nos vales das Serras de Águas da Prata”.
A vida profissional
é rica de experiências junto a natureza. “Já trabalhei em projetos em
assentamentos rurais do MST e agricultores familiares nas regiões de Ribeirão
Preto, Itapeva, Andradina, Botucatu, Águas da Prata, todos no Estado de SP.
Morei 10 anos em Botucatu e em 2023, voltei a morar em Águas da Prata buscando
mais uma vez o refúgio que essa cidade tranquila, cheia de florestas e
cachoeiras. Hoje, em casa, cultiva um jardim Agroecológico e Agroflorestal com
plantas medicinais, hortaliças, e flores apícolas/meliponícolas e plantas
ornamentais. Construiu também um viveiro de plantas para cuidar das mudas que
utilizo em projetos sócioambientais em que trabalho, além de ter feito parte do
Coletivo Sussuarana.
Alexandre também integra o Coletivo Embaúba, em ambos
desenvolvendo trabalhos de Educação Ambiental e plantio agroflorestal e
convencional de árvores nativas. Atuo também na ONG Guará e no Conselho de Meio
Ambiente de Águas da Prata (COMADs).
IMPACTOS DEVASTADORES -
Hoje disse, a luta
está fortalecida para proteger as águas e florestas, pois a cidade depende
diretamente ou indiretamente da água, e a sua qualidade depende da proteção dos
solos, florestas, rios e nascentes, comentou.
“Já está mais do que claro que os
projetos de mineração de terras raras Projeto Colossus, da empresa Viridis; e o
Projeto Caldeira, e de outra empresa australiana, a Meteoric Resources, ameaçam
causar impactos sem precedentes: impactos ambientais no solo, água, ar,
ecossistemas naturais; impactos sócioeconômicos na economia dos municípios que
vivem de ecoturismo ligado a florestas e água e que tem empresas que tem sua
economia fundamentada na extração de água; impactos sócioculturais em
comunidades tradicionais, comunidades indígenas e agricultores que tem sua vida
intrinsecamente relacionada com a natureza e a ambientes rurais/periurbanos; impactos
devastadores em projetos culturais que estão intimamente ligados às belezas
naturais, cênicas, ao ecoturismo, as montanhas, trilhas e cachoeiras, projetos
estes como o Caminho da Fé e a Associação Vereda Cultural, ambos em Águas da
Prata”.
REFUGIADOS AMBIENTAIS
Para o biólogo, a destruição que a mineração de
terras raras pode causar, com a ameaça de degradar ecossistemas e contaminar a
água é profunda e pode acabar com as bases que sustentam territórios,
municípios, ecossistemas naturais, comunidades, vidas.
“A população de Águas da
Prata construiu suas vidas, famílias, empresas e identidade cultural
fundamentada nestas bases essenciais e destruir isso pode fazer com que a
população tenha que deixar a cidade, transformando a população em refugiados
ambientais”, comentou. Alexandre fala com conhecimento de causa, pois conhece a
fundo a cidade. Ele nasceu em São/Paulo, capital no ano de 1983, onde viveu até
os sete anos. A família mudou-se para Águas da Prata/SP buscando uma melhor
qualidade de vida.
“Minha família já tinha casa em sítio em Águas da Prata e frequentavam a cidade há anos a passeio”. A mãe, funcionária pública e pai, formado
em administração. O pai se radicou em uma propriedade no bairro da Cascata, em
Águas da Prata, cultivando hortas e morangos. “Meu pai também ajudava bastante
a comunidade do bairro da Cascata, o qual é um bairro com uma população em
situação de vulnerabilidade social, a mãe costumava caminhar até o Bosque
Estadual de Águas da Prata, importante remanescente de Mata Atlântica que
abriga nascentes de uma das melhores águas do país e as águas mais radioativas
das Américas. Águas estas que são medicinais, ajudaram a tratar problemas de
saúde de minha mãe e trouxeram fama a Estância Hidromineral de Águas da Prata”,
contou
Alexandre, que participa de projetos ambientais de preservação da
natureza, com plantios e oficinas. A bióloga Mariana Montagner, bacharel e licenciada em Ciências Biológicas pela pela Escola
Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo – USP,
também faz parte dos guardiões de Águas da Prata, em defesa da cidade.
Mariana
está nas fotos do plantio de mudas nativas realizado na Praça em frente ao
Parque Estadual de Águas da Prata, em parceria com o Coletivo Sussuarana de
Agroecologia, ONG Planeta Plantar, e a Prefeitura local, entre outros. Ela lembrou que a região é reconhecida internacionalmente pela UNESCO como Reserva da Biosfera, dada as suas especificidades botânica, faunística e e geológica. "Águas da Prata é uma Estância Hidromineral, e toda a Caldeira produz água para milhões de pessoas. Daqui há nascentes que abastecem as Bacias do Rio Pardo, Rio Grande e Mogi Guaçu. Essas águas sustentam a população dos municípios banhados por essas bacias hidrográficas, indústrias, empresas agropecuárias e florestas". Por isso, destacou Mariana, "não há argumentos plausíveis que possam justificar a contaminação e destruição de nossa região por mineração de terras raras".
GUARDIÃ NA CÂMARA -
Moradora
de Águas da Prata, a vereadora Lucinda de Almeida Noronha, (PT), também está no
front dos guardiões para impedir prejuízos ao município. Ela disse ao
Blog que está trabalhando pela defesa da cidade, na pauta da mineração de
terras raras. “Quando surgiram as primeiras informações sobre os projetos de
mineração de terras raras na região da Caldeira de Poços de Caldas, compreendi
que o debate extrapolava a atividade minerária. Para Águas da Prata, tratava-se
de discutir a proteção da água, da saúde, do patrimônio natural, do turismo e
da própria identidade de uma Estância Hidromineral”, disse. E fez questão de esclarecer:
“Antes de assumir qualquer posicionamento, optei por estudar o tema e buscar
informações junto a pesquisadores e órgãos públicos, entre eles o IBAMA, a
Agência Nacional de Mineração (ANM), o Ministério de Minas e Energia, o
Ministério do Meio Ambiente e o Ministério Público Federal”.
SOBERANIA NACIONAL
Em Brasília, informou que esteve com a então ministra do Meio Ambiente, Marina
Silva, acompanhada do ambientalista Daniel Tigre e da deputada estadual mineira
Bela Gonçalves. “A principal orientação recebida foi fortalecer o conhecimento
sobre o território e construir instrumentos permanentes de proteção ambiental,
independentemente da existência de um empreendimento específico. Entre as
sugestões apresentadas pela ministra estava a aproximação com a UNESCO, como
forma de valorizar e fortalecer o reconhecimento do patrimônio natural da nossa
região”.
Na mesma agenda, acrescentou, reunião também com o ministro Guilherme
Boulos.
“Apresentamos a preocupação com o avanço dos projetos minerários na
divisa entre Minas Gerais e São Paulo e defendemos que a discussão sobre a
soberania nacional em torno das terras raras deveria partir da escuta dos
territórios diretamente afetados. O ministro comprometeu-se a levar essa
preocupação ao Governo Federal”.
RADIOATIVIDADE -
Ao lado do prefeito
Carlos Henrique Fortes Dezena, do presidente da Câmara Rafael Dezena de
Freitas, do vereador José Sebastião Chiodetto da Silva e do secretário
municipal de Meio Ambiente, Marcos Santos, Lucinda disse que participou de
audiência pública na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, conduzida pelas
deputadas Bela Gonçalves e Beatriz Cerqueira.
“Na ocasião, apresentamos aos
órgãos federais presentes uma série de questionamentos sobre o processo de
licenciamento ambiental, especialmente quanto à suficiência dos estudos
constantes no EIA-RIMA, aos riscos relacionados à radioatividade, aos impactos
sobre os recursos hídricos, à ausência de parâmetros internacionalmente
consolidados para esse tipo de empreendimento e à necessidade de aplicação do
princípio da precaução”.
Em busca de maiores informações sobre a questão da mineração
e seus prováveis potenciais efeitos prejudiciais à cidade, Lucinda solicitou orientação
técnica junto à Fundação SOS Mata Atlântica, com os mesmos parlamentares, para
discutir estratégias de proteção de um território inserido nos biomas Mata
Atlântica e Cerrado. “A partir das orientações recebidas em Brasília, iniciamos
as aproximações com a UNESCO e, paralelamente, construímos uma cooperação
técnica com pesquisadores da Unicamp. Essa parceria começou com uma reunião
entre pesquisadores e representantes do Município de Águas da Prata e vem
reunindo profissionais de diversas áreas do conhecimento para desenvolver
estudos ambientais, hidrológicos, geológicos, jurídicos e socioeconômicos sobre
o território. A expectativa é que esse trabalho também conte com a participação
da Associação Brasileira de Avaliação de Impacto (ABAI), ampliando a rede de
especialistas envolvidos”.
ANDRADAS NA ESCUTA -
Os guardiões estão atentos e
buscam outras forças para ampliar a proteção dos territórios. Lucina participou
da Assembleia Popular realizada em Andradas, município mineiro, e de outras
reuniões regionais sobre o tema, “sempre defendendo que decisões dessa
magnitude sejam tomadas com base em evidências científicas, transparência e
ampla participação das comunidades potencialmente afetadas” Apresentou
propostas voltadas ao fortalecimento da proteção ambiental do município, entre
elas alterações na Lei Orgânica relacionadas à proteção dos recursos hídricos e
a defesa da elaboração de um Zoneamento Ambiental como instrumento permanente
de planejamento territorial. Desse processo, disse ela, nasceu o programa “Águas
da Prata – Território da Água e da Vida”, bem como a elaboração de um
dossiê técnico reunindo informações históricas, ambientais, culturais,
econômicas e institucionais do município, com o objetivo de subsidiar
pesquisadores, órgãos públicos e autoridades. Anunciou o apoio do deputado
federal Paulo Teixeira, e destacou:
“A minha atuação nunca foi pautada por uma
oposição genérica à mineração. Tenho consciência da importância estratégica das
terras raras para o desenvolvimento tecnológico e para a transição energética.
O que defendo é que decisões dessa natureza sejam tomadas com responsabilidade,
base científica, transparência e participação social, respeitando a vocação de
cada território. No caso de Águas da Prata, essa vocação está diretamente
ligada à água. Somos uma Estância Hidromineral, e nossa economia, nossa
identidade e nossa qualidade de vida dependem da preservação dos recursos
hídricos e do patrimônio natural. É essa convicção que tem orientado toda a
minha atuação”.
PROJETO CALDEIRA -
O Projeto Caldeira é composto por 69
licenças (com uma área total de 193 km2) localizadas na região
sudoeste do Estado de Minas Gerais, perto da cidade de Poços de Caldas, segundo
o site da empresa. A Caldeira possui uma Estimativa de Recursos Minerais de
grande dimensão e de elevado grau, com caraterísticas que permitem a extração
seletiva de áreas de grau ultra elevado para gerar retornos económicos atrativos
ao longo do ciclo de preços das mercadorias. “O projeto também tem credenciais
de sustentabilidade superiores devido à sua baixa intensidade energética e à
não necessidade de uma instalação de armazenamento de rejeitos”.
ZEMA FECHOU
ACORDO COM A VIRIDIS -
No dia 29 de fevereiro de 2024, o então governador Romeu
Zema fechou acordo com a australiana Viridis, ao chegar em Poços de Caldas de helicóptero.
“O foco da visita’ foi a assinatura de um protocolo de investimentos com a
Viridis Mineração e Minerais, uma proeminente empresa australiana que escolheu
a cidade mineira para implantar o novo projeto.
O governador foi recebido pelo
prefeito, Sérgio Azevedo e demais autoridades, que discutem demandas da cidade.
As informações estão no site da Prefeitura deda cidade. A assinatura acontece
no Palace Casino e sela o compromisso da Viridis com o estado de Minas Gerais,
mediante um investimento da ordem de R$ 1,35 bilhão destinado ao
beneficiamento e tratamento de elementos de terras raras. “A iniciativa não só
promete consolidar a posição de Minas Gerais como um hub de mineração e
tecnologia de ponta, mas também trará benefícios diretos à população local, com
a criação de aproximadamente 120 empregos permanentes”. A instalação de
empresas australianas, envolvendo importantes polêmicas, não mereceria maior
reflexão? Acompanhe outras reportagens no Blog.
(FOTOS – PROJETOS DE ÁGUAS DA
PRATA – PESSOAIS – PREFEITURA DE POÇOS DE CALDAS) – COLABORE COM O BLOG – OITO ANOS
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