A diretora geral de Instalações Radioativas e Controle da Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN), Lorena Pozzo, ameaçou restringir para 85% a capacidade operacional autorizada do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN/CNEN), caso diversas determinações exigidas pelo órgão não sejam atendidas, por conta do incidente ocorrido no dia 29 de maio, com material radioativo. Lorena foi pesquisadora do Ipen durante cerca de 10 anos. No documento obtido pelo Blog ela exige que o Ipen apresente histórico da instalação nos últimos cinco anos, e avisa que o não atendimento ou insatisfatório poderá acarretar a restrição. O Ipen terá que apresentar comprovação fotográfica da ausência de rejeitos radioativos acumulados e fora dos locais estipulados no interior do depósito de rejeitos radioativos.
A diretora do Ipen, Isolda Costa, não se manifestou sobre a decisão da ex-pesquisadora, atual diretora da ANSN. Mas confirmou que pertences de dois funcionários (uma luva e um calçado) foram contaminados por material radioativo, no dia 29 de maio, durante trabalho realizado em área controlada do Centro de Radiofarmácia. Segundo o Ipen, os empregados foram examinados e não apresentaram contaminação.
Em março, fumaça em reator de quase 60 anos gerou interrupção nos trabalhos do Ipen, um dos mais importantes institutos da América Latina, que este ano comemora 70 anos de fundação, com um déficit de mais de 500 servidores. Vinculado à Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), o Ipen é um dos principais fornecedores de radiofármacos para o Sistema Único de Saúde (SUS), em especial, para o tratamento e diagnóstico de doenças como o câncer.
Há cerca de três anos a Câmara dos Deputados aprovou a privatização da produção que ficaria nas mãos da iniciativa privada.
O caso da fumaça na sala do reator em março reduziu a produção dos radioisótopos. O Ipen fornece radiofármacos a 430 clínicas e hospitais em todo o país, contribuindo para 2 milhões de procedimentos médicos anuais, muitos deles relacionados ao diagnóstico e tratamento de pacientes com câncer, segundo a CNEN.
A Comissão é presidida por Francisco Rondinelli. A assessoria da entidade informou que o documento sobre o caso ocorrido no dia 29 de maio foi elaborado por profissionais habilitados em proteção radiológica, que analisaram “o episódio envolvendo a presença de traços de tecnécio-99 durante a retirada de sensores biológicos de uma autoclave utilizada no processo produtivo do radiofármaco. Além disso, aponta as medições realizadas, os procedimentos adotados e os resultados obtidos”.
INVESTIGAÇÃO POLICIAL -
O Ipen “repudia veementemente a circulação de informações falsas sobre suposto acidente radiativo em suas instalações que teria provocado contaminação de servidores. A fonte dessa fakenews foi uma denúncia anônima recepcionada pela Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN) que, antes mesmo de qualquer análise prévia sobre sua veracidade, gerou uma notificação ao IPEN, difundida posteriormente de forma leviana e irresponsável por algumas pessoas nas redes sociais”, divulgou o Ipen em nota, ao informar que “os autores das fakenews serão objeto de investigação policial e devidamente processados”.
De acordo com as informações do Ipen, o caso ocorreu da seguinte forma: “No dia 29 de maio, durante a rotina de produção de geradores de Molibdênio-99 / Tecnécio-99m, a roupa de um técnico do Centro de Radiofarmácia foi contaminada. O incidente foi prontamente identificado pelos detectores da instalação e o operador realizou a limpeza e o isolamento imediato de sua vestimenta. Após esse procedimento, o piso próximo ao detector reteve um leve traço de contaminação que foi identificado na segunda-feira, 1 de junho, no calçado de um segundo operador”.
O Instituto informou que os dois profissionais foram submetidos ao exame de contagem de corpo inteiro, que avalia possíveis contaminações internas. “O procedimento constatou que a contaminação se limitou exclusivamente às roupas externas, garantindo que nenhum dos operadores sofresse qualquer consequência à sua saúde. Por não haver sequelas ou riscos residuais, nenhum funcionário permanece sob observação. Os envolvidos passaram por novo treinamento e o caso segue sob avaliação interna para o aprimoramento dos processos de controle e segurança. A ocorrência foi imediata e integralmente informada à Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) por meio de um relatório técnico, não havendo motivo, portanto, para se falar em qualquer tipo de contaminação radiológica que tenha colocado a saúde de servidores em risco”, assegurou.
Conforme a nota do Ipen, “apesar de toda prevenção própria dos equipamentos de proteção individual (EPIs), ocorrências desse tipo podem acontecer eventualmente. Por essa razão, em caso de incidente, o profissional passa por um monitoramento de dose acumulada e exame de corpo inteiro”. A legislação trabalhista permite, acrescentou, “doses acumuladas baixas para quem mexe com processos radiativos”. O IPEN é responsável por atividades de tecnologia nuclear, radioisótopos e pesquisa científica, mantém uma equipe de pesquisadores dedicados e ativos com projetos promissores como o Lu-177-PSMA-IT, em fase de testes clínicos, e estudos com moléculas marcadas com a lfa-emissores, como o Ac-225. Mesmo sem concurso público e com os afastamentos de empregados por aposentadorias o Instituto sobrevive com dificuldade.
Funcionários comentaram que a preocupação levantada sobre a redução do quadro de servidores e o possível aumento no risco de acidentes é legítima e demanda uma discussão ampla. Para mitigar esse risco de forma absoluta e garantir a segurança operacional, o IPEN optou por reestruturar sua capacidade produtiva. O catálogo, que no passado contava com mais de 30 produtos, foi reduzido para os seis principais produtos necessários para a medicina nuclear brasileira. Caso a redução de servidores continue avançando, o instituto será obrigado a restringir ainda mais sua cartela, alertaram.
(FOTOS: LORENA POZZO/ANSN; ISOLDA COSTA - IPEN; FRANCISCO RONDINELLI/CNEN)
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