quinta-feira, 16 de setembro de 2021

Acidente com cápsula de césio-137 em Goiânia faz 34 anos. Foi "batismo de fogo": deixou mortos, medo e seis mil toneladas de lixo radioativo

 


“Batismo de fogo”. É assim que diretores da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) definem o maior acidente radiológico do mundo – fora de usina nuclear - ocorrido em Goiânia com uma cápsula de césio-137 (material radioativo), em setembro de 1987. A tragédia que provocou a morte de quatro pessoas e contaminou outras 271, mostra hoje - 34 anos depois - que pode ter servido de alerta à população brasileira, a partir do medo provocado pelo acidente, que gerou seis mil toneladas de lixo radioativo.

No réveillon de 2017, por exemplo, a CNEN foi acionada para recolher um material estranho caído do espaço numa fazenda em Mato Grosso. “Por favor, venham logo, estamos com medo de morrer contaminados”, disse o fazendeiro. No local, técnicos constataram que estavam diante de uma peça de satélite, sem radiação. Rebates falsos acontecem e são registrados nos sistemas da instituição, disse o diretor de pesquisa e Desenvolvimento, Madison Coelho de Almeida.

Madison e o físico Walter Mendes Ferreira, coordenador do Centro Regional de Ciências Nucleares do Centro-Oeste, da CNEN, livram a Comissão de qualquer responsabilidade no caso. Em entrevista ao blog disseram que o Instituto Goiano de Radioterapia (IGR), “tinha o dever de comunicar o encerramento de suas atividades para que o local fosse descomissionado, mas abandonou o equipamento com o césio 137, sem qualquer aviso”.

No momento, segundo a CNEN, o Brasil possui 2.800 instalações radioativas nas áreas de medicina, indústria, pesquisa e produção de rádio fármacos; mais 30 instalações nucleares e outras 40, minero-indústrias. Todas são fiscalizadas, afirmaram. Afinal, qual a periodicidade de fiscalização? “A fiscalização ocorre a cada autorização concedida e tem um prazo para o vencimento que leva a renovação ou não da autorização. No caso de Goiânia, os operadores da clínica falharam”, afirmaram.

MEMÓRIA DO ACIDENTE

A história que chocou a opinião pública não pode ser esquecida. Uma cápsula de césio-137 – substância radioativa componente de um aparelho usado no tratamento de câncer, de propriedade do Instituto Goiano de Radioterapia (IGR), foi deixada na antiga sede do já desativado instituto. De acordo com as notícias da época, no dia 13 de setembro de 1987, os catadores de papel Wagner Motta Pereira e Roberto Santos Alves entraram no local, retiraram o aparelho, abriram algumas partes e venderam uma delas, a que continha a cápsula com o césio-137, para Devair Alves Ferreira, dono de um ferro-velho. Ao arrombar a cápsula, a golpes de marreta, Devair liberou o césio, um pó brilhante, parecido com purpurina. A cápsula com o césio 137 passou de mão em mão, em várias casas de família.  Por fim, foi levada de ônibus à Vigilância Sanitária por Maria Gabriela Ferreira, mulher de Devair. Ela suspeitou que os problemas de saúde da sua família tivessem alguma relação com o equipamento.

O então presidente da República, José Sarney, mandou prender os culpados pelo acidente e visitou dez pessoas contaminadas, internadas no Hospital Geral do Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social (Inamps) em Goiânia. O diretor-geral da Polícia Federal, Romeu Tuma, anunciou a abertura de inquérito. O presidente da CNEN, Rex Nazaré, admitiu a necessidade de rever as normas de licenciamento e fiscalização de instituições de Medicina Nuclear o país. O ferro-velho e as moradias dos pacientes mais contaminados foram demolidos. O Exército deslocou pessoas para região.  Funcionários da CNEN ainda sem saber a dimensão do acidente, não tomaram precauções de segurança ao medirem a radiação: usavam calça jeans, tênis e sapatos.

Os médicos Orlando Alves Teixeira, Criseide Castro Dourado e Carlos Bezzerril, sócios-proprietários do Instituto de Radioterapia; e o responsável técnico do instituto, físico hospitalar Flamarion Barbosa Coulart, foram indiciados pela Polícia Federal (PF). Na CNEN, só houve um indiciado: o chefe do Departamento de Instalações Nucleares e Materiais Nucleares, físico José Rosental. Mais tarde, a Procuradora da República solicitou a exclusão de Rosental do caso e a Justiça acolheu o pedido.

Enquanto a CNEN afirmava que o caso estava sob controle, a cada dia apareciam outros focos de contaminação. No dia 23 de outubro de 1987 ocorreram as duas primeiras mortes. A menina Leide das Neves Ferreira, de 6 anos, filha de Ivo Alves Ferreira e sobrinha de Devair, foi uma das quatro vítimas fatais. Com as mãos contaminadas, Leide havia comido um pedaço de pão. Ela teve ulcerações na língua, boca e garganta, e lesões internas. A segunda vítima foi a tia da menina e mulher de Devair, Maria Gabriela, de 38 anos. Ambas morreram no Hospital Naval Marcilio Dias, no Rio de Janeiro, onde foram internadas com outros contaminados.   No dia 27 de outubro daquele ano morreu a terceira vítima: Israel Batista dos Santos de 22 anos, que trabalhava no ferro-velho e ajudara Devair a abrir o aparelho. No dia seguinte, morreu o empregado do ferro-velho Admilson Alves de Souza, de 18 anos. O catador de papel Roberto Santos Alves, de 21 anos, sobreviveu, mas teve o antebraço amputado por causa das lesões provocadas pela contaminação.

O medo da contaminação levou a uma atitude violenta os moradores da vizinhança do Cemitério-Parque, em Goiânia, onde a menina Leide foi sepultada. Eles atiraram pedras e pedaços de cruzes de concreto contra o cortejo, em protesto pela escolha do local para enterrar as vítimas da contaminação radioativa.  O presidente da CNEN, Rex Nazaré Alves culpou os donos da clínica, que não teriam comunicado a Comissão a desativação do aparelho radiológico. Os donos, por sua vez, culparam os catadores de papel e a própria CNEN, que deixou de fiscalizar o equipamento na antiga sede do instituto.

Cerca de 112 mil pessoas que temiam estar contaminadas foram examinadas durante dois meses no Estádio Olímpico de Goiânia. Para atender às vitimas do acidente, o governo de Goiás criou a Fundação Leide das Neves. Segundo a médica Maria Paula Curado, que presidiu a Fundação naquela época, 244 pessoas estavam realmente contaminadas e 50 delas tiveram que receber tratamento hospitalar. Entre as 50 pessoas, 28 tiveram lesões e queimaduras causadas pela radiação. Desse grupo, 10 pacientes foram submetidos a cirurgias plásticas reparadoras, das quais oito sofreram síndrome aguda da radiação, depressão da medula, hemorragias e distúrbios de comportamento.  

No grupo de pessoas mais graves, cinco pessoas contraíram câncer e duas estavam em tratamento, naquela época. “Mas não existe um exame sequer capaz de provar que o câncer foi provocado pelo acidente”, avisava a médica. Devair morreu em maio de 1994 de insuficiência renal e hepática, conforme atestado médico.

LIXO RADIOATIVO

Hoje, mais de três décadas depois da tragédia, a direção da CNEN afirma que seus protocolos de fiscalização e segurança foram aprimorados, mas não admite falha no caso do acidente de Goiânia.  “Todos os recursos humanos e materiais foram utilizados, como 315 servidores, além do apoio de equipes do Exército, Marinha e Aeronáutica. “Somos referência internacional no atendimento de acidente radiológico”, afirmaram os diretores. Segundo eles, “o acidente de Goiânia foi um batizado de fogo”.  

Na verdade, além de famílias destroçadas e outras que lutam na Justiça para serem indenizadas, o acidente deixou um grande problema para o futuro: seis mil toneladas de rejeitos radioativos armazenados no depósito em Goiânia com atividade radioativa por pelo menos 300 anos. Nesse total, estão 1.343 caixas metálicas; 4223 tambores de 200 litros; 10 contêineres marítimos; e oito recipientes de concreto.   

FOTO: Técnicos vistoriam locais contaminados. Arquivos imprensa na época .   

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Rejeitos radioativos: INB cancela visita à Caldas; prefeito aguarda justificativa e avisa que tomará providências

 


O presidente da Indústrias Nucleares do Brasil (INB), Carlos Freire Moreira, cancelou a visita agendada para ocorrer nesta terça-feira (14/09) ao município de Caldas (MG), onde a empresa estoca mais de 15 mil tambores com material radioativo e deverá receber pelo menos mais uma tonelada procedente da Usina de Santo Amaro (USIN), em São Paulo. 

A visita havia sido agendada com o prefeito de Caldas, Ailton Goulart, dias após a informação ter sido divulgada pelo blog no dia 27/8. O prefeito esteve na INB e cobrou providências a Freire Moreira: avisou que não aceitará o lixo radioativo na cidade. “Se for preciso, tomaremos medidas jurídicas”, afirmou.  

O prefeito disse que aguarda a confirmação sobre os motivos que levaram o presidente da INB cancelar a visita. É possível que ele esteja às voltas com os preparativos para a sua viagem a Viena, na Áustria, participando da 65ª Conferência da Agência Internacional de Energia Nuclear (AIEA), que será realizada de 17 a 25 deste mês. 

ANTPEN LUTA NA JUSTIÇA - 

Os rejeitos radioativos fazem parte do estoque acumulado da Nuclemon, no Brooklin (SP), empresa da INB, que manuseou torta II e outros materiais nucleares, desde a década de 70.  A longa história gerou prejuízos materiais e humanos incalculáveis, como a contaminação de trabalhadores da empresa, que durante décadas, sem saber, manusearam elementos radioativos. Até hoje o caso da Nuclemon gera sofrimento e prejuízos aos ex-funcionários da empresa, fechada em 1992. 

Abandonados pelo poder público, as vítimas e familiares – pois muitos já morreram-, em 2006, fundaram a ANTPEN (Associação Nacional dos Trabalhadores da Produção de Energia Nuclear), para lutar pela causa. São dezenas de pedidos de indenização na Justiça Paulista. Até hoje, o máximo que as vítimas conseguiram foi o pagamento de um plano de saúde. 

USIN: TERRENO VALIOSO - 

No próximo dia 16/9, o prefeito terá reunião com a equipe do governador Romeu Zema. A Câmara de Vereadores já se manifestou com nota de repúdio contra a decisão da INB.  O caso de Caldas corre na Justiça paulista e de Pouso Alegre (MG). Na Justiça, a INB indica Caldas para receber mais material radioativo, alegando que o lugar é excelente para este objetivo. Indica também o município de Buena, em São Francisco de Itabapoana (RJ). 

Assim como o governo vendeu o terreno da Nuclemon no Brooklin por R$ 12.279,00 o metro quadrado; segundo fontes, a intenção da empresa é esvaziar e fazer o mesmo com o terreno da USIN avaliado hoje em cerca de R$ 3.469,55 por metro quadrado. 

TELHADO TROCADO - 

Com o encerramento das atividades da Nuclemon, em 1992, uma grande parte do material radioativo foi levado para Caldas. Lá, recentemente, INB teve que trocar o telhado de galpões que se deterioraram com o tempo. 

Segundo o cronograma de transferência da INB, conforme documentos do Ministério Público Federal – Procuradoria da República de São Paulo - a Torta II será transportada para o local neste primeiro semestre de 2021 e primeiro semestre de 2022 e, ainda, no primeiro bimestre de 2023. O transporte efetivo desse material está previsto para o primeiro semestre de 2025. 

Leia no blog: Destino de mina de urânio em Poços de Caldas é tema de seminário (18/9/2019); Lixo radioativo enterrado em Poços de Caldas tem que ser eliminado, exigem especialistas (21/09); Primeira mina de urânio é “herança maldita”: barragem pode se romper (20/11/2019); Primeiro exercício simulado em Caldas, para caso de acidente em barragem e mina e urânio desativada (17/12/2019); Risco de contaminação radioativa na troca de cobertura que abriga 15 mil tambores com Torta II, em MG (10/06/2021) – FOTO – INB - Caldas - 

Governo cria empresa para usinas nucleares e Itaipu Binacional

 


O governo federal acaba de criar a Empresa Brasileira de Participações em Energia Nuclear e Binacional S.A – ENBpar, vinculada ao Ministério de Minas e Energia, com sede em Brasília, que abarca as usinas nucleares e Itaipu Binacional. A decisão que vinha sendo analisada desde 2019, visa à privatização da Eletrobras. O Decreto nº 10.791, de 10/09/2021, do presidente Jair Bolsonaro, foi publicado nesta segunda-feira (13/09/2021) no Diário Oficial da União (DOU).  

O governo destinou R$ 4 bilhões no Orçamento de 2021 para a criação da nova estatal, recursos que serão usados para a aquisição do controle da Eletronuclear e da parte que a Eletrobras possui no capital da Itaipu. A EBNpar passará a ser a controladora da Eletronuclear, ou seja, será majoritária no capital votante.  

As usinas nucleares Angra 1 e Angra 2, em operação, e Angra 3, em construção, além da Unidade de Armazenamento a Seco (UAS), para guardar os elementos combustíveis usados das centrais atômicas, são de responsabilidade da Eletronuclear. Para concluir Angra 3, a empresa precisa de R$ 15 bilhões, para que a unidade atômica entre em funcionamento comercial em 2026. Mesmo que empresas privadas nacionais ou internacionais injetem dinheiro na usina, pelo Decreto 10.791, a unidade permanece sob o controle da União.   

FOTO: Central Nuclear - Angra dos Reis - Acervo Eletronuclear.

sexta-feira, 3 de setembro de 2021

Câmara dos Deputados aprova Medida Provisória criando a Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN); agora, é com o Senado

 


A responsabilidade pelo licenciamento e a fiscalização da pesquisa, lavra, posse, produção, utilização, processamento, enriquecimento, armazenamento, transporte, transferência, comércio, importação e exportação de minérios, minerais e materiais nucelares ficarão a cargo da nova Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN). A Câmara dos Deputados aprovou nesta quinta-feira (2) a Medida Provisória (MP-1049) criando a ANSN, autarquia federal com autonomia administrativa, técnica e financeira, originada da cisão da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), cuja vinculação deverá ser estabelecida por meio de ato do Poder Executivo. 

Caberá a ANSN a responsabilidade por instalações nucelares, radioativas e minero-industriais que contenham materiais radioativos, assim como depósitos e gestão de rejeitos radioativos, resíduos sólidos radioativos e planos de emergência nuclear e radiológica. O texto da MP-1049 seguirá para o Senado. 

A CNEN foi fundada pelo presidente da República Juscelino Kubitschek, no dia 10 de outubro de 1956. Teve em seu comando o físico nuclear Rex Nazareth, um dos principais protagonistas do programa nuclear paralelo (militar) brasileiro, de 1982 a 1990. A atividade de fiscalização da CNEN sempre foi combatida por especialistas do setor, principalmente quando o Brasil se viu às voltas com o drama provocado pelo acidente com uma cápsula de césio-137, em Goiânia, em 1987. O acidente provocou a morte de quatro pessoas e um número nunca devidamente conhecido de contaminados; além de gerar toneladas de lixo radiativo armazenados em depósito na região. 

PODER DE POLÍCIA -

 São diversas as atribuições que saem do guarda-chuva da CNEN para da nova autarquia. A MP-1049 transfere da CNEN para a ANSN o exercício do poder de polícia sobre atividades de sua competência, que, por sua vez, constitui fato gerador da taxa de licenciamento, controle e fiscalização de instalações e matéria nucleares e suas instalações. 

A ANSN deverá ainda criar e manter cadastro nacional do histórico de doses de radiação dos indivíduos expostos nas atividades reguladas. 

COMPETÊNCIA DA MARINHA - Por outro lado, não será da ANSN e sim do Comando da Marinha, a competência privativa para regular, licenciar, fiscalizar e controlar os meios navais com plantas nucleares, embarcações, quanto a segurança nuclear; proteção radiológica; segurança física; e o transporte do combustível nuclear. Quando o Brasil tiver o seu submarino nuclear, a fiscalização, portanto, será do Comando da Marinha. 

INFRAÇÕES - 

A MP-1049 estabelece que as infrações administrativas às normas de segurança nuclear, proteção radiológica e de segurança física serão classificadas como infrações leves, graves ou gravíssimas, conforme o risco de dano aos indivíduos, propriedades e ao meio ambiente. Os valores das multas serão fixados pela Diretoria Colegiada da ANSN, entre o mínimo de R$ 5.000,00 e o máximo de R$ 100.000.000,00. 

Caberá a CNEN e à Indústrias Nucleares do Brasil (INB) a comercialização exclusiva de materiais nucleares, compreendidos no âmbito do monopólio da União. 

PAÍS ESTÁ ATRASADO - 

A proposta aprovada pelos deputados prevê sabatina do Senado Federal para a nomeação do diretor-presidente e dos dois diretores da diretoria colegiada da ANSN. Os membros da diretoria exercerão mandatos de cinco anos não coincidentes, sendo vedada a recondução. 

Para o relator, deputado Danilo Forte (PSDB-CE), o país está atrasado nas atividades de regulação e fiscalização do setor nuclear e a separação das demais atividades do setor nuclear já é adotada em países desenvolvidos. 

"No caso dos Estados Unidos, país que detém o maior número de reatores nucleares para geração de energia elétrica no mundo, a regulação do uso civil de materiais nucleares é exercida pela Comissão de Regulação Nuclear – NRC (Nuclear Regulatory Commission), agência independente do governo federal americano, instituída pela Lei de Reorganização do Setor de Energia de 1974, que iniciou suas atividades em 1975. Da mesma forma, as atividades de regulação e fiscalização do setor nuclear são exercidas por entidades independentes na França, Reino Unido, Canadá e, atualmente, no Japão", afirmou o relator. 

Pela MP-1049, a nova autarquia terá patrimônio próprio, autonomia administrativa, técnica e financeira. Sua sede e foro serão na cidade do Rio de Janeiro e sua atuação será em todo o território nacional. A ANSN não exercerá atividades de regulação econômica, comercial e industrial, nem desenvolverá pesquisas ou levantamentos para esse fim. 

O Blog tem divulgado artigos e matérias sobre o tema.  Leia “Governo estuda separar funções da Comissão Nacional de Energia Nuclear” (09/08/2019); artigos do engenheiro/servidor da CNEN, Sidney Rabello (24/5/2021) e (26/5/2021); e nota oficial da Marinha (25/5/2021). 

FOTO – Unidade de Produção de Hexafluoreto (urânio em forma de gás) em Aramar - Marinha – SP).

Prefeito de Caldas (MG) avisa ao presidente da INB: "não vamos aceitar mais lixo atômico em nossa cidade"

 


A Prefeitura de Caldas (MG) deixou bem claro que não vai aceitar receber mil toneladas de rejeitos radioativos (Torta II) armazenados há 20 anos num galpão da Usina de Interlagos (USIN), em São Paulo, da estatal Indústrias Nucleares do Brasil (INB). A intenção da INB de transferir o material radioativo para Caldas foi divulgada pelo blog no dia 27/8, com exclusividade. O prefeito de Caldas, Ailton Goulart se reuniu nesta quinta-feira (02/09) com o presidente da INB, Carlos Freire, na sede da estatal, no Rio. O prefeito avisou que não aceitará receber mais materiais radioativos no município. Ele também quer mais segurança para o material já armazenado em Caldas. Carlos Freire prometeu visitar o local no próximo dia 14/9. No próximo dia 16/9, o prefeito terá reunião com a equipe do governador Romeu Zema.

Além de Caldas, a INB visa transferir o material radioativo para o distrito de Buena, em São Francisco de Itabapoana (RJ). Documentos da Procuradoria da República do Ministério Público Federal (MPF-SP), obtidos pelo blog mostram que este ano a transferência deve começar para Buena, porque “existe orçamento federal para os cursos da logística” e já foram tomadas as providências junto ao Ibama e a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN).

A USIN estoca rejeitos radioativos, herança maldita da Nuclemon, no Brooklin (SP), onde desde os anos 1970, o governo operou com urânio e tório extraídos das terras raras das areias monazíticas subtraídas do litoral brasileiro. Com o encerramento das atividades da Nuclemon, em 1992, uma grande parte do material radioativo foi levado para Caldas. Lá, recentemente, INB teve que trocar o telhado de galpões que se deterioraram com o tempo.

Segundo o cronograma de transferência da INB, conforme documentos do Ministério Público Federal – Procuradoria da República de São Paulo - a Torta II será transportada para o local neste primeiro semestre de 2021 e primeiro semestre de 2022 e, ainda, no primeiro bimestre de 2023. O transporte efetivo desse material está previsto para o primeiro semestre de 2025. “Não vamos aceitar nenhum lixo atômico em Caldas”, garantiu o prefeito. 

Leia no blog: Destino de mina de urânio em Poços de Caldas é tema de seminário (18/9/2019); Lixo radioativo enterrado em Poços de Caldas tem que ser eliminado, exigem especialistas (21/09); Primeira mina de urânio é “herança maldita”: barragem pode se romper (20/11/2019); Primeiro exercício simulado em Caldas, para caso de acidente em barragem e mina e urânio desativada (17/12/2019); Risco de contaminação radioativa na troca de cobertura que abriga 15 mil tambores com Torta II, em MG (10/06/2021) – FOTO –Locais contaminados, que teriam sido descontaminados – INB.

 

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

Câmara Municipal de Caldas (MG) repudia transferência de material radioativo de São Paulo para a cidade: "claro risco de contaminação do meio ambiente e na saúde da população"


A Câmara Municipal do Caldas (MG) acaba de divulgar nota de repúdio contra a intenção da estatal Indústrias Nucleares do Brasil (INB) de transferir para a unidade de Caldas nova remessa de rejeitos radioativos denominados Torta II, armazenados há 20 anos na Usina de Interlagos (USIN), em São Paulo, conforme o blog noticiou com exclusividade na semana passada (27/8) e ontem (31/8).

A unidade de Caldas da INB já abriga cerca de 15 mil tambores com torta II, que precisaram ser removidos de um galpão para outro, no próprio local, para substituição de telhados que estavam deteriorados. Esta matéria foi publicada no dia 10 de junho.

Desta vez, a Câmara se manifesta em nota, representando a população local, repudiando a intenção da INB e da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) de receber mais material radioativo de São Paulo para Caldas. As intenções da INB constam no Inquérito Civil nº 1.34.001.001386/2002-01, que tramita na Procuradora da República, em São Paulo.    

ATIVIDADE ATÍPICA NA BARRAGEM

“O armazenamento de rejeitos e materiais radioativos representa por si só, grave risco ao meio ambiente e a população em geral deste município, havendo claro risco de contaminação do ambiente e repercussão na saúde da população”, afirmam os vereadores na nota. De acordo com a nota, não há também informações claras da INB e da CNEN sobre o real estado de conservação da barragem e dos galpões em que ocorre o armazenamento de rejeitos e materiais radioativo, havendo inclusive, recentemente, atividades atípicas na barragem.

A intenção da INB e da CNEN, segundo a nota, “representa um retrocesso ao descomissionamento já tantas vezes exigido, “bem como causaria prejuízos diretos ao meio ambiente e a saúde pública de Caldas”.  O documento foi enviado a INB e CNEN. FOTO: Unidade Caldas - 

terça-feira, 31 de agosto de 2021

Falta dinheiro para instalação de alarmes nas comunidades próximas à unidade com material radioativo em Caldas (MG)

 


A instalação de alarmes nas comunidades inseridas  na Zona de Autossalvamento (ZAS), em Caldas (MG), onde há unidade com 15 mil tambores de Torta II (material radioativo),  corre o risco de ser adiada, pois o custo estimado para a contratação, no valor de RS 6 milhões, “não é compatível” com o orçamento da estatal Indústrias Nucleares do Brasil (INB). Para a atividade de descomissionamento este ano, a empresa conta com R$ 4,7 milhões, verba liberada apenas em junho.  Segundo a literatura disponível, ZAS é a “região imediatamente a jusante da barragem, em que se considera não haver tempo suficiente para uma adequada intervenção dos serviços e agentes de proteção civil em caso de acidente". 

Há duas décadas, na unidade de Caldas, a INB armazena toneladas de Torta II (material radioativo), procedentes da Nuclemom, em São Paulo. Parte da Torta II, guardada em tambores, na Usina de Interlagos (USIN/SP) deverá seguir para Caldas também.

As informações constam em documentos obtidos pelo blog na semana passada e nesta terça-feira (31/8). Ambos compõem o inquérito civil da Procuradoria da República do Ministério Público Federal (MPF), de São Paulo, sob a responsabilidade do procurador Gustavo Torres Soares; e de Pouso Alegre (MG), com o procurador Júlio Carlos Motta Noronha. O MPF em São Paulo instaurou o inquerido para apurar a regularização ambiental relativa a materiais e rejeitos radioativos armazenados na USIN e cobra solução à INB. 

No inquérito, a estatal apresentou cronograma de atividades no qual prevê a conclusão total do descomissionamento da USIN (retirada de solo contaminado e da Torta II), até o final de 2025. Uma parte do material irá para Buena, distrito do município de São Francisco de Itabapoana (RJ); e Caldas (MG), informou a INB.  A estatal afirma nos documentos que não há riscos ao meio ambiente. 

Questionada sobra segurança de barragens, a INB respondeu: “Os serviços prestados pela empresa Tecwise Sistemas de Automação Ltda para a automatização de todos os piezômetros das duas barragens da UDC (unidade de Caldas), Barragem de Rejeitos (radioativos) e Barragem de Águas Claras foram concluídos em junho de 2021”. 

O procurador da República, Júlio Carlos Motta Noronha, em oficio, enviou documento da INB ao prefeito de Caldas, Ailton Pereira Goulart, no qual a estatal declara que a destinação da torta II, é tema que pertence à União, conforme rege à Constituição nos casos de bens minerais. O prefeito tem prazo de 10 dias para se manifestar. O prefeito já se manifestou publicamente em redes sociais sobre a sua decisão de não receber mais material radioativo na cidade. Hoje, a Câmara Municipal de Caldas requereu audiência pública sobre o caso. 

FOTO: Conteiners na USIN. Leia exclusivo para o blog: “Risco de contaminação radioativa na troca de cobertura que abriga 15 mil tambores com torta II, em Minas, em 10/6/2021.     

Em destaque

Bomba atômica! Pra quê? Brasil e Energia Nuclear - Editora Lacre

O livro “Bomba atômica! Pra quê? Brasil e Energia Nuclear”, da jornalista Tania Malheiros, em lançamento pela Editora Lacre, avança e apr...