quinta-feira, 8 de julho de 2021

Novas usinas nucleares: definição de locais deve ocorrer em 24 meses

 


O Ministério de Minas e Energia (MME) retoma a pesquisa para definir os possíveis locais onde serão instaladas as plantas nucleares previstas no Plano Nacional de Energia (PNE-2050). O Ministério espera concluir os estudos nos próximos 24 meses, quando então o governo definirá os possíveis locais. As informações estão sendo divulgadas pela coordenação do XII Seminário Internacional de Energia Nuclear (XII SIEN), que será realizado em agosto, no formato online. 

Alguns especialistas e pesquisadores têm manifestado opiniões sobre os locais mais adequados e vão debater o assunto durante o XII SIEN. Já confirmaram presença o Chefe do Departamento de Desenvolvimento de Novos Empreendimentos da Eletronuclear, Marcelo Gomes; o Presidente da Associação Brasileira de Energia Nuclear (ABEN), Carlos Mariz; o Diretor da Atomo Radioproteção e Segurança, Gian Maria Sordi; e como moderadora a 2ª Diretora-Tesoureira da Sociedade Brasileira de Biociências Nucleares (SBBN), Adélia Sahyun. 

No início do ano foi divulgo que o MME estava prestes a destinar recursos de pesquisa e desenvolvimento para a conclusão dos estudos visando o mapeamento de novos sítios para a implantação de futuras usinas nucleares no Brasil. O prazo para a liberação dos recursos era de 60 dias, mas nada foi informado depois. 

A Articulação Antinuclear, que reúne dezenas de entidades civis no país, continua promovendo diversas manifestações contra a intenção do governo de construir novas usinas, como as já anunciadas para o Nordeste. 

Especialistas projetam investimentos de cerca de US$ 50 bilhões em um período de 30 anos, o que representa cerca de R$ 300 bilhões em três décadas, o equivalente a R$ 10 bilhões por ano, apenas para as novas plantas nucleares. A possibilidade de construção de oito usinas nucleares até 2050 no Nordeste, assumirá “papel estratégico na retomada econômica pós-pandemia do coronavirus (Covid-19)”, asseguram. 

As metas fazem parte do PNE 2050, que poderá gerar forte movimentação de recursos no setor nuclear, segundo eles. Isso, além da expectativa de investimentos de R$ 15,5 bilhões na retomada das obras da usina nuclear Angra 3. O edital foi divulgado no Diário Oficial da União (DOU), em 25 de fevereiro. 

Na semana passada, o BNDES realizou a licitação vencida por consórcio belga e espanhol. Já Eletronuclear promoveu sessão pública para a escolha de empresas que vão atuar no empreendimento. Angra 3 começou a ser construída em 1984, pelo acordo nuclear Brasil-Alemanha, assinado em 1975. 

A retomada das obras tem sido criticada por ambientalistas da Sociedade Angrense de Proteção Ecológica (SAPE), entre outras entidades antinucleares, que consideram a energia nuclear perigosa para a população e o meio ambiente. 

FOTO: Angra 3 - acervo Eletronuclear 


terça-feira, 6 de julho de 2021

Sociedade Angrense de Proteção Ecológica (SAPE) contesta retomada de Angra 3 e denuncia à ABI boicote à informação

 


Com a avanço das ações visando à retomada das obras da usina nuclear Angra 3, a Sociedade Angrense de Proteção Ecológica (SAPE) discute a questão com entidades locais, nacionais e internacionais, enquanto ações judiciais tentando barrar os empreendimentos nucleares na região caminham lentamente. Além do imbróglio judicial, com alertas sobre os graves impactos ambientais e nas aldeias indígenas, a entidade fará denúncia à Associação Brasileira de Imprensa (ABI) sobre boicote sofrido junto à mídia local. “As entrevistas são concedidas e nada é publicado. Fomos avisados.”, afirma Maria Clara Sevalho, da coordenação da SAPE e da Articulação Antinuclear Brasileira. Eis a entrevista: 

 BLOG: O governo decidiu retomar as obras da usina nuclear Angra 3. O consórcio belga-espanhol foi vencedor e há sessão pública em andamento. O processo caminha para que a usina seja inaugurada em 2026. Qual a opinião da SAPE? 

SAPE: A entidade foi fundada no movimento antinuclear, na época de ditadura. A nossa luta contra Angra 3 já tem mais de uma década. Insistimos que o Brasil é solar e não nuclear. Devemos investir na energia do futuro. Reforçamos que a energia nuclear é suja, cara e perigosa. Seguimos com processo judicial sobre o plano de emergência, denunciando a precariedade das simulações e do município de Angra dos Reis para situações de emergência nuclear. Esse investimento bilionário que Angra 3 representa atende aos interessas das empreiteiras e não aos interesses da população. 

BLOG: Quais as ações da entidade? 

SAPE: Para além das ações judiciais – que são lentas, incertas, e refletem a desigualdade de poder presente na região – a SAPÊ procura agir no sentido de trazer essas discussões para a sociedade local, nacional e internacional, nas várias redes de resistência ao nuclear e na interação com as outras lutas de resistência. Assim, atuamos com as comunidades de Itacuruba que resistem ao projeto de expansão do nuclear para a beira do São Francisco, as comunidades do Ceará que lutam contra a mineração de Urânio, por exemplo. E gerar mobilização. 

BLOG: Como está a ação na Justiça para barrar a construção da UAS? 

SAPE: Está em andamento. Conseguimos importantes vitórias com pareceres favoráveis aos nossos claros argumentos de que as comunidades tradicionais e a população de um modo geral não possuem voz ativa nessa construção antidemocrática. 

BLOG:  Com Angra 3, haverá a construção de mais UAS. Como a SAPE reagirá? 

SAPE: Nossa luta em todas as instâncias continuará firme. Projetamos com força e assim seguiremos. A SAPE tem um importante papel de fazer o contraponto à narrativa da Eletronuclear (estatal gestora das usinas) na região, trazendo informação para a população sobre os riscos e problemas da energia nuclear. Sabendo, entretanto, da enorme disparidade de poder entre a empresa e a sociedade civil. 

BLOG:  Como está o plano de emergência para as usinas? Há informações? 

SAPE: O acesso que temos é a base de pesquisas como minha própria dissertação de mestrado onde avaliamos o plano de uma forma social, tendo em vista o turismo desestruturado nas zonas de planejamento de emergência. 

BLOG:  Como está o diálogo com as populações indígenas locais? 

SAPE: Nosso diálogo sempre foi estruturado no coletivo, na escuta solidária. Temos parceria com os povos tradicionais há muitas décadas, e isso nunca mudou. Estamos lutando lado a lado por mais justiça socioambiental desde sempre. B

BLOG: A SAPE tem algum encontro com representantes viando dialogar sobre as usinas? 

SAPE: No momento estamos nos fortalecendo enquanto movimento nacional, juntando lideranças de diversas regiões do país que também lutam contra projetos nucleares em territórios tradicionais. 

BLOG: Até que ponto a pandemia do coronavirus está dificultando as ações da SAPE? 

SAPE: A pandemia fortaleceu os encontros virtuais, expandiu nossa voz nas “lives” e conseguimos criar uma cartilha sobre nossa luta com apoio de diversos movimentos. Agora estamos realizando um ciclo de diálogos sobre o momento atual da cidade com a participação de muitos estudiosos sobre as lutas que estamos enfrentando na cidade como a censura dos nossos movimentos nos diversos conselhos municipais e imprensa local. 

BLOG: Como a entidade analisa hoje os impactos ambientais nas comunidades indígenas da central nuclear? 

SAPE: A SAPE denuncia sempre os impactos ambientais que as usinas nucleares causam nas aldeias indígenas, que existem desde o início da construção da rodovia Rio-Santos de Mangaratiba (RJ) até Ubatuba (SP), primeiro investimento necessário para a vinda dos equipamentos e mão de obra. Estes impactos se concentram principalmente na extinção de áreas de manguezais, mudança de fauna e flora marítima na área onde os reatores despejam a água do sistema de resfriamento, alterando o equilíbrio da cadeia alimentar nos arredores,  especulação imobiliária, turismo predatório, crescimento populacional desordenado em áreas de preservação ambiental próximas as comunidades tradicionais. Tudo isso acarretou em poluição extrema dos rios e praias de diversos bairros como o Frade, Bracuí e Perequê que se encontram a poucos quilômetros da usina. Nossas denúncias são constantes. 

BLOG:  Há informações de que a SAPE está com dificuldades para prestar informações sobre a sua atuação em Angra. É verdade? 

SAPE: Sim, muita dificuldade junto à imprensa local. Estamos redigindo uma nota de repúdio para enviar à Associação Brasileira de imprensa (ABI) entre hoje e amanhã. O conselheiro da SAPE, Rafael Ribeiro, está finalizando o texto. Nas redes sociais, estamos fazendo de forma articulada, organizada. 

FOTO: Central Nuclear de Angra dos Reis: Acervo Eletronuclear

 

quarta-feira, 30 de junho de 2021

O fantasma da crise energética, por Mário Moura

 


Definitivamente não serviu de lição a crise no fornecimento de energia, que gerou um apagão no País. Isso há vinte anos, por falta de chuvas para abastecer as hidroelétricas, fonte renovável de menor custo da matriz energética brasileira. O fantasma da crise energética volta a nos preocupar. Estamos diante de uma nova crise no setor, que nas últimas duas décadas foi tímido na diversificação da nossa matriz. O governo de plantão repete os anteriores, culpa o clima e usa a mesma estratégia para evitar o apagão. Resultado: o consumidor vai pagar o pato. 

A partir de julho a bandeira tarifária será reajustada em 52%, o que representa, na prática, aumento na conta de luz mensal. A escassez de água nos reservatórios das regiões Sudeste e Centro-Oeste, responsável por 70% da força hidráulica em território nacional, segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), faz com que a energia se torne mais cara, por que o sistema necessitará da produção de energia via termoelétricas, mais caras e nocivas ao meio ambiente. 

O anúncio do governo do lançamento de um programa de incentivo para que o consumo diminua, não chega a ser o racionamento de 2001 e 2002,  mas desenha-se uma nova crise, resultado das sucessivas falhas no sistema nacional que revela a insegurança energética que vem de longe, e continua prejudicando o desenvolvimento do País. A história se repete, perpetuando uma incerteza econômica que já poderia ter sido superada há muito tempo. 

Não há como negar o despreparo da gestão da energia no Brasil, sem oferta necessária para o seu crescimento. Pior: essa realidade se revela num cenário de sombras, num instante de baixa na economia, especialmente em razão da pandemia. Diante disso, não é a melhor solução aumentar o custo da energia para os consumidores, que em consequência terá que conviver também com o risco de alta da inflamação, como profetizam os economistas, em razão do encarecimento do custo de vida, provocado pela energia mais cara. 

Como anuncia o governo, o aumento da tarifa extra deve vigorar até novembro, quando a chuva chegar e encher os reservatórios. Enquanto isso, é justa a preocupação da população com os possíveis racionamentos e o aumento do custo de vida. Ao considerar que a evolução do sistema elétrico dará conta do suprimento de energia e que não haverá crise. 

O governo bota fé na campanha para reduzir o consumo na indústria e grandes empresas e no aumento da taxa que afetará os lares brasileiros. Mesmo diante de tantos desafios, o ministro das Minas e Energia, Bento Albuquerque ganhou poderes adicionais para gerir uma crise desse tamanho, de acordo com a Medida Provisória publicada esta semana. A fé não costuma falhar, mas não dá para confiar que não viveremos hoje, a mesma insegurança por falta de energia elétrica, que vivemos no passado. 

Autor: Mário Moura, jornalista.

 

terça-feira, 29 de junho de 2021

Angra 3: fechamento da esfera de aço e instalação da piscina de combustíveis usados (urânio); prioridades para a empresa vencedora de licitação.

 


A estatal Eletronuclear realizou nesta terça-feira (29/6) a sessão pública para a abertura das propostas da licitação dos serviços de obras civis e de parte da montagem eletromecânica previstos no Plano de Aceleração do Caminho Crítico de usina Angra 3, em Angra dos Reis (RJ). Entre as principais medidas que constam no Plano de Aceleração do Caminho Crítico de Angra 3 está a conclusão da superestrutura de concreto do edifício do reator da usina. Além disso, será feita uma parte importante da montagem eletromecânica, que inclui o fechamento da esfera de aço da contenção e a instalação da piscina de combustíveis usados (urânio), da ponte polar e do guindaste do semipórtico. 

 O comunicado foi feito à noite pela Eletrobrás a seus acionistas e ao mercado; e disponibilizado pela Eletronuclear.  “A contratação visa a adiantar algumas atividades de construção da usina antes mesmo de a companhia contratar a epecista – EPC significa engenharia, gestão de compras e construção, na tradução do inglês – que irá empreender a obra global da unidade”. 

O proponente mais bem classificado deverá apresentar os documentos de habilitação para serem verificados, motivo pelo qual não será divulgado, ainda, o nome do primeiro colocado. Após o término dessa análise, será agendada nova sessão para informar o resultado aos licitantes e abrir prazo para recursos. 

Segundo a Eletronuclear, caso o proponente mais bem classificado seja inabilitado, será convocado o segundo colocado para apresentar sua documentação. Os recursos necessários para realizar os serviços que são objeto dessa licitação são provenientes do Adiantamento para Futuro Aumento de Capital (Afac) aprovado pela Eletrobras em julho do ano passado. 

Em 2020, a holding liberou R$ 1,052 bilhão para a Eletronuclear. Para 2021, estão previstos R$ 2,447 bilhões adicionais, dos quais R$ 850 milhões já foram liberados. O montante total do Afac consta no Plano Diretor de Negócios e Gestão (PDNG) 2021-2025 da Eletrobras. 

A expectativa da Eletronuclear é que o contrato com a empresa vencedora da licitação seja assinado no segundo semestre e que a retomada das obras ocorra até o final deste ano. O índice atual de conclusão da construção de Angra 3 é de 65%. A companhia prevê que a usina entre em operação em novembro de 2026. Nesta terça-feira o BNDES assinou contrato com um consórcio de empresas belgas e espanhola para estruturar o projeto de conclusão da usina. Leia no Blog. 

FOTO: Angra 3 - Acervo Eletronuclear

 

Consórcio belga e espanhol vence concorrência para estruturar projeto de conclusão de Angra 3

 


O consórcio Angra Eurobras NES, formado pelas empresas belgas Tractebel Engineering Ltda (líder), Tractebel Engineering S.A, e a espanhola Empresários Agrupados Internacional S.A,  venceu a concorrência para a estruturação do projeto de retomada e conclusão das obras da usina nuclear Angra 3.  O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) acaba de assinar o contrato com o consórcio. 

Ao longo dos anos, a Eletronuclear, subsidiária da holding Eletrobrás, acumulou uma divida de cerca de R$ 6,6 bilhões ao BNDES e a Caixa Econômica Federal (CEF) por conta de Angra 3. A usina já consumiu cerca de R$ 7 bilhões dos cofres públicos desde o início de sua construção em 1984; e precisaria de mais R$ 15 bilhões para ser inaugurada em 2026. “O consórcio terá a atribuição de definir a projeção dos investimentos necessários à implementação do projeto, o cronograma detalhado da obra e a especificação de como se dará a contratação de uma ou mais construtoras para a realização dos trabalhos”, informou o BNDES. 

A contratação do consórcio faz parte dos serviços técnicos que o BNDES presta à Eletronuclear — proprietária da usina — desde 2019, visando estruturar o modelo jurídico, econômico e operacional de parceria junto à iniciativa privada, para a construção, manutenção e exploração de Angra 3. 

De acordo com modelo proposto pelo BNDES, as obras serão retomadas por meio de EPC (Engineering, Procurement and Construction), modalidade de contratação de serviços de engenharia na qual a construtora contratada ficará responsável ”não só pela execução da obra em si, mas também por eventuais complementos ao projeto de engenharia e pela compra dos materiais e equipamentos necessários à finalização da obra”. 

Angra 3 poderá ter um ou mais contratos de EPC, dependendo das recomendações técnicas a serem feitas pelo consórcio contratado, informou a Eletronuclear. Segundo Lidiane Delesderrier Gonçalves, superintendente da Área de Estruturação de Empresas e Desinvestimento do BNDES, o Angra Eurobras NES será responsável também por assessorar a contratação das construtoras. 

"Esse assessoramento, que incluirá a avaliação das propostas técnicas das empresas proponentes, é considerado de suma importância para garantir um processo seletivo bem-sucedido, atraindo empresas de reconhecida qualidade técnica", afirma. Angra 3 vai gerar mais de 10 milhões de MWh por ano, energia suficiente para atender aproximadamente 6 milhões de residências. 

Formado pelas empresas Tractebel Engineering Ltda. (líder), Tractebel Engineering S.A. e Empresários Agrupados Internacional S.A., o consórcio terá a atribuição de definir a projeção dos investimentos necessários à implementação do projeto, o cronograma detalhado da obra e a especificação de como se dará a contratação de uma ou mais construtoras para a realização dos trabalhos. 

Segundo o BNDES, o grupo Tractebel, cuja história começa no século XIX, tem experiência em vários países do mundo na atuação com energia nuclear. A espanhola Empresários Agrupados, empresa de engenharia, criada em 1971, é atuante no setor de geração de energia elétrica, com experiência na implantação de usinas nucleares. 

“A contratação do consórcio, composto por empresas com vasta experiência em assessoramento à implementação de usinas nucleares no mundo, permitirá que se projete ao mercado a confiança necessária para atrair parceiros construtores de primeira linha e uma ampla gama de agentes financiadores no Brasil e no mundo”, explica Leonardo Cabral, diretor de Privatizações do BNDES. 

Angra 3 é a segunda usina comprada no pacote do acordo nuclear Brasil-Alemanha, em 1975.  Angra 3 terá potência instalada de 1.405 MW e cerca de 82.000 metros quadrados de área construída, o equivalente a dez campos de futebol. 

FOTO: Angra 3 - Acervo Eletrobras/Eletronuclear. 


segunda-feira, 14 de junho de 2021

CNEN alerta sobre extravio de material radioativo (iodo-131)


A Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) foi informada na tarde do último sábado (12/6) do extravio de uma embalagem para uso exclusivo médico-hospitalar contendo o elemento radioativo iodo-131 (I-131). O conteúdo extraviado serviria para duas a quatro doses aplicadas em procedimentos de diagnóstico e é considerado de baixo risco. Mesmo com a periculosidade relativamente pequena, a CNEN, informa que acionou a sua equipe de emergência e a Coordenação de Resposta a Emergência (CoRE). 

O material foi produzido pelo Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN/CNEN), em São Paulo. A empresa encarregada do transporte, autorizada pela CNEN a esse tipo de operação, coletou no Instituto, no dia 7 de junho, um lote com 15 embalados de I-131. Destes, 14 foram regularmente entregues a seus destinatários. 

A falta de um deles teria sido percebida quando o veículo de entrega chegou a um hospital de Belo Horizonte e o material não foi localizado no compartimento de carga. A empresa transportadora busca verificar se o material foi indevidamente entregue a outro cliente. A CNEN está averiguando os procedimentos e abriu uma sindicância para apurar o ocorrido. 

O iodo-131 está acondicionado em embalagens de chumbo que o blindam e evitam qualquer irradiação para o ambiente. Estas embalagens estão em um balde plástico especialmente preparado para este tipo de transporte (foto abaixo). Segundo a CNEN, tanto o balde quanto as embalagens em seu interior estão identificados com o trifólio, símbolo da radiação. 

Como todo radiofármaco, o seu uso ou manipulação inadequados podem vir a causar danos à saúde. Caso alguém localize o material, é importante entrar em contato com a CNEN pelos telefones (21) 99769 7313 ou (21) 99872 4624, ou com as autoridades de segurança mais próximas. 

As informações foram divulgadas pela CNEN. 

 

quinta-feira, 10 de junho de 2021

Risco de contaminação radioativa na troca de cobertura que abriga 15 mil tambores com torta II (urânio e tório), em Minas. Exclusivo para o blog.

 


Sob risco de contaminação radioativa, está em curso uma delicada operação de substituição das coberturas (telhado) dos sítios de Torta II (subproduto de areias monazíticas contendo urânio e tório), na área AA-171 da unidade de Caldas, planalto de Poços de Caldas, em Minas Gerais (MG), da estatal indústrias Nucleares do Brasil (INB). Há riscos de disseminação radioativa via contaminação do solo, água de chuva e ar. 

“Um dos acidentes que pode ocorrer é a queda de telhas com suspensão de Torta II no ar durante as atividades de troca de telhas, com ou sem vítimas. Abalroamento, cortes, esmagamentos, fraturas, atropelamentos, asfixias também são possíveis”, consta em documento a que o blog teve acesso com exclusividade. 

O local abriga cerca de 15 mil tambores com Torta II, armazenados há anos em Caldas, em condições nada seguras, cobertos por telhados danificados pelo tempo, chuvas e ventos. O material é herança maldita da extinta Nuclemon, em São Paulo, onde durante décadas o Brasil operou com material radioativo das areias monazíticas subtraídas do litoral da Bahia, Rio de Janeiro e Espírito Santo. No passado, a China esteve prestes a comprar o estoque, mas as negociações não frutificaram. 

SUSPEITA DE INCORPORAÇÃO - 

“Na possiblidade da ocorrência de acidentes – durante a operação - com ou sem vítimas, bioanálises extras em relação à programada serão realizadas sempre que houver suspeita de incorporação” (absorção de material radioativo). 

O trabalho, iniciado há cerca de 15 dias, não divulgado pela INB, está sendo feito por trabalhadores de empresa terceirizada, “sujeitos à exposições ocupacionais, classificados como indivíduos ocupacionais expostos”, segundo informações obtidas pelo BLOG. A área total construída é de 724.1232 metros quadrados e o tempo total da obra é de cerca de 120 dias. 

As várias atividades envolvendo a troca do telhado estão sendo acompanhadas pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN). As telhas substituídas e o material descartado da obra, ou entulho, formado por solo, concreto e outros materiais, serão separados, no pátio que circunda os sítios de Torta II. Depois, transportados na carroceria de caminhão, envelopados em lona plástica, para área bem próxima, delimitada, dentro da instalação. 

Considerados rejeitos, os materiais e as lonas serão monitorados e as possíveis partes contaminadas, separadas em pedaços, depositados em outros tambores. A unidade de Caldas está instalada numa de área de cerca de 18 km2, onde funcionou a primeira unidade de mineração e beneficiamento de urânio do Brasil. 

PRIMEIRA UNIDADE DE MINERAÇAO - 

Segundo a literatura disponível e a própria INB, a exploração do urânio no Brasil teve início em 1982, em Poços de Caldas.  Em 1995, a INB constatou que era economicamente inviável a operação da unidade e encerrou suas atividades. Dez anos depois, foi iniciada a descontaminação de suas instalações e terrenos. 

A empresa garante que as instalações, o solo, as águas e os equipamentos da antiga mineração são permanentemente monitorados, assim como os materiais radioativos que ali estão estocados (os tambores com Torta II), para “proteger o meio ambiente e assegurar a saúde dos trabalhadores da unidade e dos moradores da região”. 

Segundo a empresa, na Unidade em Descomissionamento de Caldas (UDC) está instalado o Laboratório Ambiental de Análises Químicas e Radiológicas que realiza as análises necessárias ao monitoramento do meio ambiente em áreas onde funcionam as unidades da INB na Bahia, no Ceará, em Minas Gerais e em São Paulo. 

Em 2012 o IBAMA aprovou o Plano de Recuperação de Áreas Degradadas (PRAD), que foi elaborado a partir de estudos nas áreas de hidrologia, geoquímica, hidroquímica e radioproteção, realizados com o objetivo de definir as obras a serem realizadas e as ações de recuperação ambiental que devem ser desenvolvidas na unidade. Isso quer dizer que o plano foi aprovado há quase dez anos. 

A empresa garante também que monitora as águas que passam através da unidade e o meio ambiente nas suas vizinhanças, em um círculo de aproximadamente 10 Km de raio. As matrizes monitoradas são água, sedimento, poeira no ar, solo, peixes e produtos agropecuários. Os parâmetros analisados são: o pH, parâmetros físicos e químicos das águas; os elementos estáveis; e os elementos radioativos, ou radionuclídeos, informa empresa, que ainda não divulgou as informações sobre a operação de substituição do telhado, com riscos de contaminação. 

FOTO: Unidade em Caldas - Acervo INB.

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