Uma
cidade pouco conhecida dos brasileiros, outrora ocupada por comunidades
indígenas, vive hoje sob o medo de abrigar uma usina nuclear que,
consequentemente, produzirá lixo atômico e incertezas quanto ao seu futuro.
Trata-se de Itacuruba, que significa “grão de pedra, seixo”, no tupi antigo
itakuruba,
localizada nas proximidades do Rio São Francisco, o tão castigado “Velho
Chico”, em Pernambuco.
A história de Itacuruba remonta ao século XVII, em pleno
sertão da região Nordeste, com índios catequisados por jesuítas, que marcaram o
seu passado. A velha cidade foi inundada e passou por várias transformações. A atual Itacuruba foi projetada na década de
1980 para receber a população deslocada em decorrência da criação do Lago
Itaparica, a Barragem Luiz Gonzaga, entre outras. A possibilidade de
transformar a cidade num polo de produção de energia nuclear - primeiro no
Nordeste – vem fortalecendo os movimentos sociais e ambientais contrários ao
empreendimento.
Natural da aldeia Krenak na região do médio Rio Doce (MG), líder
que influenciou a inclusão de um capítulo na Constituição sobre a proteção dos
direitos dos indígenas, Ailton Krenak concede esta entrevista exclusiva ao Blog.
Aqui, ele critica a intenção do governo
de construir a usina nuclear em Itacuruba, aponta falhas históricas, entre
outras coisas.
- A primeira vez que eu
soube dessa intenção foi através de indígenas da região, o povo Pancararu,
perto de Paulo Afonso, durante o governo de Michel Temer. Eles viram o
movimento de engenheiros e técnicos por lá e ficaram apavorados. Sondei, na
época, quando fiquei sabendo que o Brasil não estava com dinheiro para retomar
o projeto de usinas nucleares. Mas há cerca de dez dias o assunto voltou
novamente à tona, com sujeitos do governo anunciando a construção da usina. Estamos
vendo novamente esse movimento. São projetos políticos e oportunistas. Sabemos que o Brasil não tem dinheiro pra
isso, comentou Krenak.
Ele lembra que Organizações Não Governamentais (ONGs)
como a Articulação Antinuclear Brasileira, formada por mais de trinta entidades
civis; e a Diocese da Floresta, em Pernambuco, estão organizadas, promovendo
eventos virtuais, debatendo o assunto, mostrando os problemas decorrentes da
energia nuclear e os estragos que poderá provocar em Itacuruba. “Há um
movimento forte no Nordeste, atento às intenções dos governos em levar esse
projeto adiante, mas eu acho difícil, porque não há dinheiro”, comentou.
Krenak
chama a atenção para problemas ambientais já ocorridos em polos atômicos no
Brasil. Não à toa os índios tupis-guaranis, antigos habitantes de Angra dos
Reis, batizaram de “Itaorna”, a praia em que está erguida a central nuclear com
as usinas Angra 1 e Angra 2, em funcionamento. Em tupi-guarani “Itaorna”
significa “pedra mole”. No caso específico do município de Angra dos Reis, Krenak
lembra que, na década de 60, início do projeto de instalação da central
nuclear, o governo militar promoveu uma das maiores remoções de populações
indígenas nativas.
- Foi uma desocupação desordenada com índios sendo levados
para as regiões próximas e hoje vimos que eles estão muito próximos às usinas
nucleares (Angra 1 e Angra 2 e Angra 3 em construção), o que é lamentável.
Hoje,
além do momento complicado da pandemia do coronavirus (COVID-19), da escassez
de recursos e da falta de credibilidade do governo, Krenak utiliza o caso da
usina Angra 3, a fim de exemplificar o quanto o projeto de Itacuruba tem poucas
chances.
Com as obras iniciadas em 1984, interrompidas por falta de decisão
política e denúncias de corrupção, apesar de o governo garantir que estão sendo
retomadas e que a usina entrará em operação em 2026, Krenak reitera que não leva
fé nisso.
- As notícias sobre a retomada das obras de Angra 3 podem ser um
“ensaio” para distrair a opinião pública. Pode ser que haja a intenção de
manter o mundo em suspense, em estado de sofrimento permanente, gerando mais uma
crise social, em plena pandemia. Eles tentam retomar uma fissura nuclear, num
governo precário. Em vez de anunciar investimentos sem recursos, o governo
deveria arrumar emprego para 30 milhões de brasileiros que vivem hoje na linha da
pobreza. O que mais me preocupa é a insegurança institucional política e
permanente.
MINAS DE URÂNIO, OUTRO PROBLEMA -
Ailton Krenak também opinou sobre
a intenção do governo, já colocava em prática, de extrair urânio de jazidas que
estavam praticamente desativadas, por conta de riscos de contaminação do solo e
meio ambiente, além de registros de doenças como o câncer na população próxima
ao local.
O nome Caetité deriva da língua tupi e significa “Mata da pedra
grande”, segundo a literatura disponível. Pelo nome original de batismo, os
índios possivelmente conheciam muito bem a riqueza que a região guardava. A
retomada da extração de urânio em Caetité, criticada por pesquisadores e
ambientalistas, no Brasil, faz parte de “um pacote gerido por tecnocratas”,
avalia Krenak.
- Esses tecnocratas têm ideia fixa em projetões e sentem
saudades da época do Brasil grande, que não se importavam com questões
ecológicas e ambientais. É uma visão que às vezes até desanima. Eles querem lidar
com tecnologia de alto risco, sem respeitar a terra, a natureza. No caso de
Itacuruba, os movimentos estão muito fortes. Seria uma aventura insana. Eles
vão receber um sonoro não”. E completou: “O mundo é cada um de nós”.
PERFIL -
Um
dos mais respeitados líderes indígenas do País, que influenciou a inclusão de
um capítulo na Constituição sobre a proteção dos direitos dos indígenas segue
lutando pela questão ambiental: Ailton Krenak. Ele fincou definitivamente seu
nome, símbolo na de luta pelos povos indígenas, desde a década de 80. No
discurso em setembro de 1987, na Assembleia Nacional Constituinte, chamou a
atenção do mundo sobre a questão indígena.
No plenário da Câmara dos Deputados,
ao mesmo tempo em que fazia um apelo às lideranças políticas para que
aprovassem uma emenda constitucional tratando dos direitos dos índios, Krenak aplicava sobre a própria face tinta preta de jenipapo, produto
usado por sua tribo, os Krenaks, em situações de luto.
Registrado para ficar na
História, o gesto significava um protesto contra o risco de a emenda não ser
aprovada. O discurso chamou a atenção do país e, como resultado do trabalho de
Krenak e de outras lideranças da época, foi incluído na Constituição um
capítulo sobre a proteção dos direitos dos indígenas, uma conquista inédita até
então.
A carreira de liderança de Krenak vai muito além. Pesquisas mostram que
em seu histórico de luta pelos povos indígenas constam a participação na
fundação de entidades como a União das Nações Indígenas, que existiu nos anos
1980, a Aliança dos Povos da Floresta (que, além de índios, incluía grupos
extrativistas, como seringueiros) e a criação do Núcleo de Cultura Indígena, na
Serra do Cipó, em Minas Gerais. Com vários livros publicados, recentemente, a
sua vida foi tema do documentário Ailton
Krenak: o sonho de pedra.
FOTO: Ailton Krenak – arquivo
pessoal.