segunda-feira, 3 de junho de 2024

MME, BNDES e VALE anunciam edital para materiais estratégicos como urânio e terras raras

 


Materiais estratégicos como urânio e terras raras estão da lista das ofertas em edital do Ministério de Minas e Energia (MME), o Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES) e a Vale, que “mira em projetos de pesquisa, desenvolvimento, implantação ou operação de minérios para transição energética, descarbonização e fertilização de solo” e fazem parte da chamada publica para a seleção de investimentos em participações no setor de mineração. Segundo o MME, estão aptas para participar do certame companhias com sede e operações no Brasil ou entidades com sede no exterior que detenham, no momento do primeiro investimento do fundo, ativos no Brasil que correspondam a 90% ou mais, e receita operacional bruta anual de até R$ 300 milhões.

De acordo com o edital publicado pelo BNDESPar, subsidiária integral do banco, as empresas que serão contempladas pelo fundo serão as detentoras de títulos minerários ou de direitos sobre recursos minerais, direta ou indiretamente. As substâncias previstas para a exploração serão: urânio, terras raras, cobalto, cobre, estanho, lítio, fosfato, níquel, zinco, potássio, entre outras. 

“O Brasil é um grande expoente em reserva e produção dos minerais estratégicos para a transição energética. Esse fundo será de grande importância para desenvolvermos o setor mineral, gerando emprego e renda em empreendimentos sustentáveis, seguros e que tragam benefícios sociais para as localidades onde estão inseridos”, afirmou o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira. "O fundo viabilizará projetos, sobretudo, para pequenas e médias mineradoras. Essa parceria será fundamental para fomentar novos investimentos no setor”, completou. 

(FONTE: ASCOM – MME - 

FOTO: Mina de urânio em Itataia -  local acaba de ser aprovado pela CNEN - 

 Colabore com o BLOG – Seis anos de jornalismo independente – contribua via PIX: 21 996015849 – 

Contato: malheiros.tania@gmail.com)

domingo, 2 de junho de 2024

Guerra da Ucrânia alavancou exportações de amianto do Brasil, por Matheus Gouvêa de Andrade, no DW

 


Contrariando tendência global, exploração do produto avança no Brasil em meio a limbo jurídico. Mais de 60 países já proibiram o material devido aos riscos para a saúde. 


Recentemente, os Estados Unidos deram novos passos no banimento do amianto, que já ocorre em mais de 60 nações. Por sua vez, no Brasil, o tema se encontra em um limbo jurídico, já que a utilização do produto foi proibida, mas sua exportação prossegue – e avança. 

Uma das razões é a guerra da Ucrânia, que fez com que países buscassem alternativas à Rússia, maior exportadora o mundo. Neste cenário, associações e especialistas afirmam que o amianto oferece riscos em toda a distribuição, e pressionam por um total banimento, enquanto os recursos recebidos pelos envios ao exterior seguem em alta e movimentam a economia da região exportadora. 

Em 2017, o Supremo Tribunal Federal (STF) tomou a decisão de banir a extração, produção, uso e venda do amianto crisotila do Brasil, já que a substância foi considerada cancerígena. Neste contexto, a empresa suíça Eternit, que é responsável pela empresa Sama, chegou a suspender as atividades na cidade de Minaçu. O munícipio no norte de Goiás conta com a mina de Cana Brava, de onde se origina a produção brasileira. É a terceira maior produção de amianto crisotila do mundo. 

Por sua vez, em 2019, a Assembleia Legislativa de Goiás aprovou a lei nº 20.514, autorizando as atividades no estado com fins exclusivos para exportação, e as atividades foram retomadas. Em novembro de 2022, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) atendeu um pedido do Ministério Público Federal (MPF) e determinou a suspensão da exploração até que fosse avaliado se a legislação é ou não inconstitucional. Já em janeiro de 2023, o STF permitiu a continuidade da exploração até que o tema tenha uma resolução final por parte da Corte.

A fundadora da Associação Brasileira dos Expostos por Amianto (ABREA), Fernanda Giannasi, aponta que a questão atualmente saiu de pauta. "O tema não é visto como prioridade, e há uma situação muito negativa. O prazo nos preocupa, já que não se sabe quando o processo terá um término", lamenta. 

No meio da disputa judicial, a pequena Minaçu, com cerca de 30 mil habitantes, apresentou grande expansão na receita de seus envios do material ao exterior nos últimos anos. A alta foi acima de 55% entre 2021 (US$ 61,4 milhões) e 2022 (US$ 96,6 milhões), segundo dados da Comex. Em 2023, o valor seguiu em nível semelhante, com US$ 95,9 milhões. 

"A guerra da Ucrânia levou muitos países a garantirem o abastecimento de amianto. Quando houve restrições às exportações da Rússia, muitos buscaram alternativas, como no caso do Brasil", afirma Giannasi, que é presença constante em fóruns internacionais sobre o amianto. 

"A cidade vai acabar". 

O antropólogo Arthur Pires Amaral morou por dez meses em Minaçu entre 2016 e 2017 visando escrever sua tese de doutorado intitulada Com o peito cheio de pó, defendida na Universidade Federal de Goiás (UFG). O estudo se debruça sobre o amianto na cidade. Em 2017, seguindo a proibição pelo STF, Pires lembra que o clima era de grande pessimismo devido às perspectivas de fim da exploração do minério. 

"Os moradores diziam que a cidade ia acabar", conta. O antropólogo lembra que eram comuns as demissões em empregos ligados à exploração de amianto, incluindo de engenheiros. 

Segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), em 2017, Minaçu registrou 222 de demissões no setor extrativo de minerais, frente a apenas 20 admissões, com um saldo negativo de 202 empregos. No entanto, com o boom das exportações, o cenário se inverteu. Em 2023, o setor contratou 404 pessoas, contando com 166 demissões, em um balanço positivo de 238 vagas. A atividade lidera as contratações na cidade, com a indústria de transformação em segundo lugar, com 238 admissões. 

Os volumes das vendas de amianto também seguiram a tendência de recuperação. Em 2018, segundo balanço anual da Eternit, ano que a empresa aponta que houve forte impacto no mercado interno pela proibição, 119,1 mil toneladas foram entregues pela empresa. No ano de 2023, as vendas totalizaram 190 mil toneladas, uma alta de quase 60%. 

Sem limite de tolerância - 

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), as fibras de amianto do tipo crisotila causam danos ao pulmão e são cancerígenas, não existindo limites de tolerância para exposição. Entre 1996 e 2017, a Fundacentro apontou mais de 3.000 mortes ligadas ao amianto no Brasil. 

Giannasi aponta que todos incluídos na cadeia da exploração seguem expostos ao material. Desde a retirada do amianto das minas, passando pelo transporte terrestre e portuário, existem riscos, indica. Nos casos de acidentes com os caminhões transportando o material, não somente o próprio motorista como todos os presentes na pista podem sofrer a contaminação, lembra Giannasi. 

Em março, os Estados Unidos anunciaram a proibição da única forma da forma crisotila, décadas depois de a maioria dos países desenvolvidos ter começado a eliminar gradualmente a matéria-prima. 

A permissão nos Estados Unidos era um dos argumentos utilizados por defensores do amianto, como o Instituto Brasileiro do Crisotila (IBC), para manter a exploração do produto no Brasil. Procurado, o IBC não atendeu ao pedido de resposta. 

Sama é "mãe de Minaçu" -

 Por sua vez, na visão de Pires, as notícias internacionais não alteram a percepção sobre o tema em Minaçu. "O banimento na União Europeia (UE) não teve grande impacto", aponta. O antropólogo conta que a atividade no munícipio gira no entorno do amianto, que é inclusive exaltado em monumentos pela cidade. 

"Muitas pessoas me diziam que a Sama é a 'mãe de Minaçu'", diz. A cidade começou a ser construída em volta da mina da Cana Brava, e a exploração atraiu uma série de trabalhadores em situações vulneráveis de diferentes estados do interior do Brasil. "Eram famílias que não tinham alternativas e receberam uma oportunidade pela Sama", pontua.

 Além dos trabalhos, o antropólogo destaca que a empresa costumava oferecer as principais atividades culturais de Minaçu e escolas para os filhos dos empregados. "O amianto dominou não apenas a economia, mas também a cultura de Minaçu", Pires resume. "Nunca houve a construção de uma alternativa econômica durante estes 50 anos de exploração. Não se pensava sequer na possibilidade da mineração de amianto se exaurir", afirma. 

Neste cenário, os riscos envolvendo o material e os questionamentos à exploração ficaram de lado. "O desemprego aparece como um risco mais proeminente do que aqueles associados ao material. Há certo ocultamento dos adoecimentos", conta Pires. 

Além disso, segundo o antropólogo, há uma grande culpabilização individual das vítimas. "Todos sabem de alguém que morreu após trabalhar na Sama. Mas falam que a pessoa adoeceu por não usar os equipamentos de segurança corretamente, ou então culpam hábitos como fumar e consumir bebidas alcoólicas", afirma. 

Problema exportado à Índia - 

Na Índia, o uso do amianto não é restrito, mas a mineração sim, o que impulsiona o país como o maior importador global, com mais de 40% das encomendas. Até 2021, o maior fornecedor era a Rússia, posto ocupado pelo Brasil a partir de 2022. Em 2023, 84,6% dos envios de amianto brasileiro foram para o país. 

"Promovido como um material barato, o uso do amianto está generalizado em toda a Índia", afirma Pooja Gupta, que foi coordenadora da Rede de Banimento do Amianto na Índia (BANI). Segundo ela, as associações veem o aumento da produção no Brasil com preocupação, pois pode levar a níveis mais elevados de exportação para o país. "O movimento pode ser visto como uma ameaça à saúde pública na Índia, pois pode perpetuar o uso de produtos que contêm amianto e aumentar o risco de doenças relacionadas ao material entre os trabalhadores e a população em geral", avalia. "Houve uma redução na importação de amianto brasileiro em 2018 e esta foi uma notícia positiva. Mas, infelizmente, com a retomada da produção, os trabalhadores indianos estarão novamente sujeitos a mortes devido ao amianto extraído no Brasil", aponta. 

"O aumento da produção de fibras minerais de amianto no Brasil para exportar para países como a Índia é um exercício de duplo padrão", afirma Gopal Krishna, um dos fundadores da BANI. Em 2023, durante a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Índia, durante a cúpula do G20, a BANI exigiu a paralisação da exportação de amianto ao país, já que "a biologia humana é a mesma em todos os lugares". 

(Reportagem de Matheus Gouvea de Andrade, no DW, em 31/05/2024)

 FOTO inserida pelo blog, de Fernanda Giannasi – Arquivo pessoal - 

Colabore com o BLOG. Seis anos de jornalismo independente – Contribua via Pix: 21 99601-5849).

segunda-feira, 27 de maio de 2024

Angra 1: depois de 14 dias desligada por defeito em equipamento, a usina volta a operar

 


Desligada no dia 13/5 devido a uma fuga de vapor em trocador de calor do circuito de água de alimentação principal, a usina nuclear Angra 1 foi reconectada ao Sistema Interligado Nacional (SIN), às 14h06 desta segunda-feira (27). Segundo a Eletronuclear, os reparos foram realizados e a previsão é de que a unidade alcance 100% de potência nesta terça-feira (28). 

Comprada da empresa norte -americana Westinghouse na década de 70, Angra 1 foi inaugurada em 1985, e poderá ter sua vida útil prorrogada por mais 20 anos, se Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) autorizar. A licença de funcionamento da usina termina em dezembro. Angra 1 já foi desligada diversas vezes  por conta de defeitos, troca de combustível e ações judiciais. A usina tem capacidade para gerar 650 MW, o equivalente a 10% da energia elétrica consumida na cidade do Rio de Janeiro.     

FOTO: ELETRONUCLEAR – 

COLABORE COM O BLOG – SEIS ANOS DE JORNALISMO INDEPENDENTE – CONTRIBUA VIA PIX: 21 996015849 - 

 

domingo, 26 de maio de 2024

Max Lemos quer saber sobre desembolso de R$ 200 milhões à empresa francesa e contratos de publicidade da Eletronuclear

 


Os cerca de R$ 200 milhões que a Eletronuclear desembolsou para pagar a empresa francesa Framatome, os valores dos contratos de publicidade da companhia este ano, são alguns dos pedidos de informações que integram o requerimento número 1432/2024, do deputado federal Max Lemos (PDT-RJ), para a ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira. O requerimento foi encaminhado à Câmara dos Deputados para que Silveira seja convidado a prestar informações também sobre quanto a Eletrobras dotou para aporte em 2024, tendo em vista o “risco de não continuar” com os projetos de Angra 3 e não pretender renovar a licença de Angra 1.  


“A transparência nos gastos com publicidade é crucial, especialmente em tempos de crise financeira”, e entender “os critérios de prioridade para pagamentos de serviço é fundamental para assegurar que a gestão financeira da Eletronuclear está sendo conduzida de forma prudente e estratégica, justificou o parlamentar. No requerimento, Max Lemos também quer saber se houve quebra do acordo coletivo, sem anuência com os empregados, que retirou benefícios de excepcionais (portadores de deficiência) e autistas, na Eletronuclear. 


O deputado quer saber mais: quantas consultorias prestam serviço a Eletronuclear e o valor gasto no último biênio; quantos escritórios de advocacia a companhia possui e seus contratos em vigor; se o presidente da Eletronuclear, Raul Lycurgo, é funcionário cedido pela Advocacia Geral da União (AGU), e em qual data houve a cessão. E ainda, em quanto reduziu a rubrica de pessoal, manutenção, serviços e operação; e se os ocupantes de cargos de ouvidor e coordenadoria de governança empresarial são preenchidos por pessoas com experiência comprovada nas funções. 

Desde ontem o blog está tentando contato com o ministro. 

FOTOS: DEPUTADO MAX LEMOS, MINISTRO ALEXANDRE SILVEIRA  E RAUL LYCURGO - DIVULGAÇÃO - 

COLABORE COM O BLOG – SEIS ANOS DE JORNALISMO INDEPENDENTE – CONTRIBUA VIA PIX: 21 99601-5849 – CONTATO: malheiros.tania@gmail.com


sexta-feira, 24 de maio de 2024

Receita Federal apreende material radioativo em bagagem de mão no Aeroporto de Guarulhos

 


A Receita Federal apreendeu material radioativo durante operação conjunta com a Agencia Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), no Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP), entre os dias 17 e 20. A Comissão Nacional de Energia nuclear (CNEN foi acionada e enviou técnicos do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN), para inspecionar o material. Entre os itens apreendidos, foram encontrados equipamentos médicos avaliados em US$ 166 mil, incluindo produtos radioativos.

 A operação foi desencadeada após a Anvisa desconfiar que participantes da Feira Hospitalar 2024, ocorrendo na capital paulista entre 21 e 24 de maio, poderiam estar trazendo material hospitalar e/ou medicamentos sem a devida autorização para exposição no evento. Segundo nota da CNEN, à medida que os passageiros desembarcavam, a equipe de fiscalização retinha a bagagem de mão e a passava pelo raio-x. Durante a inspeção, os fiscais encontraram cápsulas que, à primeira vista, pareciam ser apenas medicamentos comuns. No entanto, ao abrirem a embalagem, identificaram o símbolo de risco de radiação, o que levou ao acionamento imediato da Comissão. “As cápsulas estavam na bagagem de mão de um passageiro que chegou na segunda-feira, 20. Os fiscais da Anvisa informaram à equipe do IPEN/CNEN que a empresa envolvida alegou desconhecer a necessidade de autorização prévia para o transporte dos medicamentos”. 

FOTO: CNEN - ANVISA

COLABORE COM O BLOG - SEIS ANOS DE JORNALISMO INDEPENDENTE - CONTRIBUA - 21 996015849 


Mina de urânio no Nordeste: CNEN aprova local do projeto, cercado de alertas sobre casos de câncer

 


A Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) aprovou nesta sexta-feira (24/5) o local do projeto conjunto de mineração na jazida de urânio de Itataia, em Santa Quitéria, a 210 KM de Fortaleza (CE). Para desenvolver o projeto a Indústrias Nucleares do Brasil (INB), detentora dos direitos minerários da jazida, mantém parceria com a empresa privada Galvani - Fosnor Fertilizantes Fosfatados do Norte-Nordeste SA. A autorização para construção e operação da mina, terá que passar pelo crivo do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos recursos Naturais Renováveis (Ibama). 


O projeto Santa Quitéria vem sendo questionado por ter percorrido décadas deixando suspeitos rastros de casos de câncer na população. No site, da Galvani, consta a foto de um homem de chapéu sorrindo e a frase: “construir o futuro com segurança e responsabilidade social”. Em benefícios para a população: “Serão investidos mais de 2 bilhões de reais para a construção do complexo mineroindustrial. A massa salarial, considerando apenas os cerca de 500 empregos diretos, será de 100 milhões de reais por ano e aquecerá a economia regional”. 

Representantes da Fiocruz Ceará, por meio da Coordenação de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde (CAAPS), da área de Saúde e Ambiente e do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM), registraram relatos sobre doenças como câncer e outras questões relacionadas à saúde chamando a atenção para a sua gravidade, em reuniões no ano passado. O BLOG também encontrou vídeos nas redes sociais respaldando a preocupação dos envolvidos na questão. Com 10 anos de atuação, o movimento nacional surgiu no Pará em luta contra a Vale e atua em 14 estados, incluindo o Ceará. 

"SE A BOIADA PASSAR" - 


Outras críticas têm sido registradas. Um dos mais respeitados conhecedores da trajetória nuclear brasileira, com participação ativa em pesquisas de campos, nos últimos 30 anos, o professor Célio Bermann, do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (USP), já relatou a história do Projeto Santa Quitéria, com exclusividade ao BLOG. Doutor em Engenharia Mecânica na área de Planejamento de Sistemas Energéticos pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), mestre em Engenharia de Produção na área de Planejamento Urbano e Regional pela COPPE/UFRJ e graduado em Arquitetura e Urbanismo pela USP, ele fez vários alertas: 

“Este projeto é antigo. Envolvia inicialmente a Nuclebrás (empresa que antecedeu a INB) e a Fosfertil (empresa administrada pela holding Petrofértil, da Petrobras), pois o minério a ser explorado é constituído pela associação do urânio com o fosfato. Em 1987 eu trabalhava como consultor no projeto Itataia e tive a oportunidade de conhecer de perto a irresponsabilidade e o descaso com que a Nuclebrás administrava os trabalhos de prospecção da mina”, contou ao BLOG em entrevista exclusiva.

E muito mais: “Em novembro daquele ano estive na região para levantar dados para os estudos de viabilidade econômica e avaliação de impacto ambiental do projeto. Amostras de rochas retiradas da mina eram enviadas para análise em Caldas (MG), onde o urânio era naquela época explorado pela Nuclebrás. Encontrei amostras de rochas deixadas na praça central do distrito denominado Lagoa do Mato próximo à mina de Itataia. O caminhão que vinha de Minas Gerais para carregar as amostras tinha quebrado no caminho. Os funcionários da Nuclebrás que trabalhavam na mina não tiveram dúvidas. Deixaram as amostras expostas na praça onde crianças brincavam e com diversos animais como cabras, porcos e galinhas”. 

O que aconteceu depois? “Quando teve conhecimento de que os isótopos presentes naquelas pedras apresentavam um nível significativo de radioatividade, a população do vilarejo exigiu da Nuclebrás a interrupção das atividades de prospecção da mina. Soube mais tarde que comerciantes, políticos da região e representantes da paróquia local se deslocaram em caravana até a capital Fortaleza onde se localizava o escritório central da Nuclebrás”. Como souberam do perigo? “Essa população havia sido alertada pela mídia (rádio, TV e jornais) dos problemas da radioatividade com o acidente radiológico do césio 137 ocorrido em Goiânia em setembro daquele ano. Lembro também da exposição realizada por técnicos da Nuclebrás, quando fui conhecer as instalações relatando que a água que era retirada da mina durante os trabalhos de prospecção...” 

O que acontecia? “Essa água acabava sendo utilizada para irrigar a horta onde eram cultivados diversos produtos servidos nas refeições dos trabalhadores da mina, como alface, tomate, batatas, entre outros. No relato, esses técnicos indicavam que todos os produtos que serviam para a alimentação eram monitorados. Afirmavam que o índice de radioatividade detectado nos alimentos eram muito baixos e não ofereciam risco à saúde dos trabalhadores da mina, esquecendo-se de que o efeito da radioatividade é cumulativo, isto é, o organismo acumula ao longo do tempo a radiação a que o organismo está sendo exposto”, contou Bermann. 

Havia relatos de doenças? “Ao longo dos anos que se seguiram, na região vários casos de câncer foram observados nos trabalhadores da mina, sem que a relação causa-efeito tivesse sido estabelecida.  O projeto de exploração da mina de Itataia acabou sendo “esquecido” até 2009 quando foi formado esse Consórcio Santa Quitéria composto pela INB e pela empresa de fertilizantes Galvani”. 

O que sabe mais sobre esse projeto? “Os estudos foram retomados. Em 2014 foi iniciado o processo de licenciamento ambiental junto ao Ibama. Cabe ressaltar que a licença ambiental já havia sido obtida pela INB em 2004, concedida pela Superintendência Estadual do Meio Ambiente do Ceará (SEMACE). Entretanto, o fato de tratar-se de um empreendimento relacionado com atividades nucleares, levou o Ministério Público Federal (MPF) a solicitar na Justiça, através de Ação Civil Pública, o cancelamento da licença ambiental concedida pelo órgão estadual, passando então para a esfera federal (Ibama) a competência do processo de licenciamento, que seguiu até que, em fevereiro de 2019, o projeto de instalação da usina foi negado pelo Ibama. Segundo o órgão, à época, o "projeto de mineração de fosfato e urânio foi arquivado em razão da inviabilidade ambiental do estudo apresentado". Na decisão o órgão apontou a "ausência de dados sobre radiação" no manejo do urânio, "subdimensionamento de riscos", "ausência de efetividade das medidas mitigadoras", "ausência de comunidades no diagnóstico social" e a "falta de simulação computacional sobre dispersão de poluentes radioativos". 

Como obter maiores informações sobre o caso? “No meio acadêmico podem ser encontrados muitos estudos como o artigo de Medeiros e Diniz publicado em 2015 sob o título “A mina de Itataia em Santa Quitéria-CE: o urânio e os risco da exploração”. No entanto, o projeto ganhou novos contornos com a recente assinatura de um memorando entre o governo do Ceará e o Consórcio. Sob a alegação de que o projeto foi reestruturado, o anúncio deste entendimento foi acompanhado dos supostos benefícios do investimento previsto e da criação de empregos, como sempre. Fala-se também em “destravar” o licenciamento ambiental, o que pode acontecer com o atual processo de desmonte ambiental. Assim, se a “boiada passar”, a exploração do urânio em Itataia poderá ser iniciada em 2023”, disse, na ocasião. 

 LEIA  NO BLOG: 

Em 06/10/2020 – Célio Bermann critica retomada da exploração de minas de urânio e alerta sobre riscos de contaminação por radiação.  

Em 22/09/2023 – Mina de urânio de Santa Quitéria: Fiocruz Ceará e entidades civis manifestam preocupação com casos de câncer e contaminação radioativa. 

FOTOS: SANTA QUITÉRIA - INB – 

E CÉLIO BERMANN - ARQUIVO PESSOAL 

 COLABORE COM O BLOG – SEIS ANOS DE JORNALISMO  INDEPENDENTE – CONTRIBUE VIA PIX: 21 99601-5849 – CONTATO : malheiros.tania@gmail.com

 

quarta-feira, 22 de maio de 2024

Porta-aviões nuclear dos EUA demanda medições de radiação no ar e nas águas da Baía da Guanabara

 


Atividades de medição de radiação no ar, na água e nos sedimentos marinhos da Baía de Guanabara estão sendo realizadas por conta do porta-aviões norte-americano de propulsão nuclear “George Washington” (US Navy), que está fundeado nas águas da Guanabara, desde a segunda-feira (20/5),  Os trabalhos de verificação radioativa começara anteriormente à chegada do navio e continuarão durante todo o período de fundeio, incluindo o dia após a sua partida, na sexta-feira (24/5). "O treinamento é importante diante de guerras reais ao redor do mundo". O secretário Naval de Segurança Nuclear e Qualidade (SecNSNQ), almirante de esquadra Petronio Augusto Siqueira de Aguiar, informou que o objetivo é assegurar que não haja contaminação radiológica proveniente dos reatores nucleares do navio ou da água de resfriamento descarregada. Disse também que além do monitoramento ambiental, estão sendo realizadas medições radiológicas nos tripulantes licenciados do "George Washington", bem como nos materiais, lixos e águas servidas retirados do navio. 


Segundo ele, o protocolo, supervisionado pela SecNSNQ e pelo Instituto de Radioproteção e Dosimetria (IRD), da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), visa garantir a segurança radiológica no meio ambiente do entorno das cidades do Rio de Janeiro e de Niterói”. O secretário adjunto de Segurança Nuclear e Qualidade, contra-almirante (EN) Humberto Morais Ruivo, informou que “as atividades de monitoração ambiental são a certeza de que tanto os Estados Unidos da América, responsável pela segurança de seus meios dotados com propulsão nuclear, assim como o Estado brasileiro, por meio de sua instituição normatizadora atribui atenção especial às medidas preconizadas para a segurança nuclear naval”. Acrescentou que a “importância da parceria estratégica mantida entre a CNEN e IRD com as organizações militares da Marinha responsáveis pelo setor nuclear”. 

Segundo o diretor do IRD, André Quadros, com todos os órgãos envolvidos, o Instituto realizou o rastreamento radiológico do em torno da embarcação, além de coleta de água e sedimentos da Baía da Guanabara para análise nos laboratórios do IRD. “Essa ação é fundamental para que juntos, SecNSNQ, CNEN e IRD, possamos garantir que a passagem do porta-aviões no Rio de Janeiro respeitou as medidas de proteção radiológica vigentes.” 

GUERRAS REAIS AO REDOR DO MUNDO - 

Segundo a Marinha, os treinamentos começaram com os navios ainda atracados, no dia 13 de maio, com a chegada do USCGC “James”, na Base Naval do Rio de Janeiro, em Niterói (RJ). Na fase marítima, que marcou oficialmente o início da comissão, foram realizados exercícios de qualificação de pilotos e das equipes operativas dos navios. Os testes de comunicações e manobras com navios e aeronaves, realizados pelas duas Fragatas brasileiras e os três navios norte-americanos, visaram testar e aprimorar a interoperabilidade das Forças envolvidas, elevando a capacidade de atuação conjunta, o entendimento mútuo e a pronta resposta em operações multilaterais. 

A “Southern Seas -2024” também contribuiu para a cooperação e a diplomacia naval entre os países, promovendo o intercâmbio entre “shipriders”, com o embarque de militares da USN nos navios brasileiros e de militares da MB nos navios estadunidenses, a fim de possibilitar a troca de conhecimentos entre as Marinhas. O Comandante do Grupo-Tarefa (GT) responsável pela operação, capitão de mar e guerra Caetano Quinaia Silveira, considerou que o objetivo do treinamento foi alcançado. 

“A possibilidade de operar com os norte-americanos foi uma oportunidade de treinamento imprescindível, uma vez que esses militares estão envolvidos em guerras reais ao redor do mundo”, acrescentou o Comandante, ao falar sobre a importância para a Marinha do Brasil em realizar um exercício com os EUA. Desde a segunda-feira (20/5) foi iniciada a fase de porto da Operação, no Rio de Janeiro (RJ). A Força-Tarefa norte-americana cumprirá os compromissos planejados para a sua estadia na cidade, onde permanecerá até o dia 24 de maio. Após essa data, dará continuidade à “Southern Seas – 2024”, navegando por outros países do continente sul-americano: Argentina, Chile, Colômbia, Equador, Peru e Uruguai. 

Fonte: Agência Marinha de Notícias - 

COLABORE COM O BLOG - SEIS ANOS DE JORNALISMO INDEPENDENTE - CONTRIBUA VIA PIX: 21 99601-5849 - 

Em destaque

Bomba atômica! Pra quê? Brasil e Energia Nuclear - Editora Lacre

O livro “Bomba atômica! Pra quê? Brasil e Energia Nuclear”, da jornalista Tania Malheiros, em lançamento pela Editora Lacre, avança e apr...