terça-feira, 28 de setembro de 2021

Acidente com césio-137 em Goiânia, 34 anos depois. Por Célio Bermann

 


No último dia 10 de setembro tive a oportunidade de ouvir o depoimento da pesquisadora Célia Helena Vasconcelos, que em 2019 defendeu a dissertação de mestrado em Letras e Linguística na Universidade Federal de Goiás, com o título “Césio 137 trinta anos depois: silenciamento discursivo de uma tragédia”. 

O depoimento de Célia se deu num debate organizado pela Pastoral da Comunicação da Diocese de Floresta (PE) para lembrar os 34 anos do acidente radiológico de Goiânia / Césio 137. Vale assinalar que a Diocese de Floresta, município localizado no agreste pernambucano, na região do médio Rio São Francisco, onde a Eletronuclear planeja a construção, na cidade de Itacuruba, de uma central nuclear com seis reatores nucleares, busca auxiliar na organização de um movimento local e regional de resistência a este projeto, trazendo para o debate temas nacionais relacionados à energia nuclear. 

Em outra oportunidade voltaremos à discussão sobre a insanidade política, econômica, social e ambiental desse projeto, para nos dedicarmos ao relato de Célia Helena sobre a tragédia em Goiânia, que se inicia no dia 13 de setembro de 1987 e se estende até os dias de hoje. 

Célia Helena tinha 19 anos, era mãe de uma menina de poucos meses, e estava grávida da segunda filha quando, no dia 29 de setembro, técnicos da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), devidamente paramentados com roupas para proteção radiológica, bateram à sua porta de casa para proceder a “averiguações”. Sem maiores explicações e trajando macacões brancos que os assemelhavam a “marcianos”, passaram a percorrer os aposentos da casa com cintilômetros, instrumento de precisão utilizado para reconhecer a quantidade e o tipo de radiação. 

A casa de Célia Helena ficava na Rua 26, a 150 metros do depósito de ferro-velho de Devanir, local onde, no dia 15 de setembro, ou seja, 15 dias antes, uma caixa contendo  uma cápsula de cloreto de césio - um sal obtido a partir do radioisótopo 137 do elemento químico césio. A caixa foi aberta a marretadas naquele dia de 15 de setembro, expondo as radiações ionizantes a todas as pessoas próximas, objetos, roupas, alimentos e plantas. 

A caixa havia sido levada por dois rapazes que procuravam sobreviver como catadores de lixo. Dois dias antes, no dia 13 de setembro, eles haviam encontrado um equipamento radiológico que estava desativado havia dois anos, e que fora simplesmente abandonado no prédio onde antes estava localizado o Instituto Goiano de Radioterapia (IGR), e que naquele momento estava sendo demolido. 

Conforme o relato de Célia Helena, os dois rapazes já haviam tentado abrir a caixa, no domicílio de um deles, na Rua 57. Entretanto, apenas conseguiram fazer furos, o suficiente para que as radiações ionizantes de raios-gama do césio 137 se propagassem no ambiente. Um dos rapazes, inclusive, já no primeiro dia, teve enjoos e mal estar, e procurou um posto de saúde. 

Pois bem, a existência de problemas relacionados com a irradiação já era conhecida pelos órgãos de saúde de Goiânia desde o dia 14 de setembro de 1987, problemas que se tornaram mais evidentes depois do dia 15 quando a cápsula contendo o césio 137 foi aberta. Poucas horas após a exposição ao material radioativo, as pessoas que estavam no depósito de ferro-velho começaram a desenvolver sintomas: náuseas, seguidas de tonturas, com vômitos e diarreias. Alarmados, os familiares dos contaminados foram inicialmente a drogarias procurar auxílio, alguns procuraram postos de saúde e foram encaminhados para hospitais. 

Diagnosticados inicialmente com intoxicação alimentar, apenas quando o físico Walter Mendes Ferreira, suspeitando de que se tratava de efeitos da exposição à radiação, recomendou o isolamento dos pacientes, é que a identificação da gravidade do quadro por parte dos órgãos de saúde foi finalmente possível. 

Entretanto, a imediata divulgação à população da cidade de Goiânia da situação de intoxicação radiológica existente foi impedida pela ação do governo de Goiás, que jamais admitiu isto. Naquela mesma época estava sendo realizado em Goiânia o 1º GP Internacional de Motovelocidade no Autódromo Ayrton Senna, e o governador Henrique Santillo não queria que a divulgação causasse pânico e afastasse os participantes estrangeiros. 

Como já foi informado, apenas no dia 29 de setembro, ou 15 dias depois do início da contaminação radiológica, houve a divulgação do problema iniciando assim o processo de monitoramento nas áreas próximas daquelas que estiveram sujeitas aos efeitos das radiações ionizantes. 

Nos dias que se seguiram, os indivíduos identificados com a contaminação radiológica foram encaminhados ao Estádio Olímpico e acomodados em barracas de isolamento. Muitos receberam alta após tomarem banho com água, vinagre e sabão de coco.  Os casos mais graves foram transferidos para hospitais. 

Enquanto que o pânico e o caos se propagavam na cidade de Goiânia e nas regiões próximas, sabe-se que cerca de 112 mil pessoas foram examinadas. Destas, verificou-se que 271 apresentaram níveis significativos de material radioativo. Até hoje não há consenso sobre o número de vítimas do césio 137 em Goiânia. Quatro pessoas morreram um mês após a exposição à radiação. O governo de Goiás registra 66 mortos. O depósito de ferro-velho e dezenas de casas foram demolidos. Centenas de objetos, de refrigeradores a sofás, o pavimento de ruas inteiras, veículos, e até mesmo árvores e animais foram destruídos e descartados como lixo nuclear. 

Cerca de seis mil toneladas de lixo radioativo foram recolhidas e enterradas no município de Abadia de Goiás, a cerca de 20 km de distância de Goiânia, em um local posteriormente transformado pela CNEN no Centro Regional de Ciências Nucleares do Centro-Oeste (CRCN-CO), como Unidade Técnico-Científica para abrigar como Depósito Final os rejeitos radioativos do Césio-137. 

Quais lições podemos tirar da tragédia nuclear com o césio-137 em Goiânia? 

A sucessão de irresponsabilidades, primeiramente do Instituto Goiano de Radioterapia que não tomou nenhuma providência para o descarte adequado do equipamento radiológico; posteriormente dos diversos órgãos de saúde cujo conhecimento do risco foi demorado e não resultou na imediata divulgação para a população; do governo estadual, que preferiu preservar o calendário de um evento esportivo ao invés de privilegiar a saúde e segurança da população que estava sendo exposta aos efeitos da radiação. Ainda, os técnicos da CNEN, pela demora em iniciar o monitoramento, e por não disponibilizar para os indivíduos mais expostos os mesmos equipamentos e indumentária que estavam utilizando. 

Cabe assinalar que outro aspecto a merecer destaque é a invisibilidade que o desastre radiológico acabou por ser tratado na cidade de Goiânia. Como destaca Célia Helena, nos terrenos que tinham sido contaminados com a radiação, cujas construções foram derrubadas e cobertas com concreto, não há nenhuma placa, nenhum aviso sobre o que ali havia ocorrido. 

Mesmo a construção de um Memorial na Rua 51, que havia sido uma promessa da administração municipal na época da tragédia, nunca foi concretizada. O desastre radiológico em Goiânia, considerado de nível 5 pela Escala Internacional de Eventos Nucleares da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), como ‘Acidentes com consequências de longo alcance’, segundo nomenclatura da agência, está sendo deliberadamente “esquecido”. Pelo bem da saúde e segurança da população brasileira, não podemos esquecer! 

Artigo de Célio Bermann - Doutor em Engenharia Mecânica na área de Planejamento de Sistemas Energéticos pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), mestre em Engenharia de Produção na área de Planejamento Urbano e Regional pela COPPE/UFRJ e professor associado do Instituto de Energia e Ambiente da USP.

quarta-feira, 22 de setembro de 2021

Governo libera R$ 19 milhões para a compra de insumos destinados à medicina nuclear. Valor é considerado insuficiente para o tratamento de pacientes com câncer até o final do ano

 


O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações acaba de liberar R$ 19 milhões para o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares da Comissão Nacional de Energia Nuclear (IPEN-CNEN) destinados à compra de insumos (radioisótopos), para a produção de medicamentos com radiação (radiofármacos) vendidos às clinicas. 

A informação foi confirmada há pouco (22/09) pelo presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Nuclear (SBMN), George Coura, que havia denunciado o desabastecimento do diagnóstico e tratamento de pacientes com câncer por causa da interrupção da entrega do produto. “Foi uma vitória parcial, mas ainda não soluciona o problema até o final do ano”, avisou. FOTO - IPEN/CNEN

Rejeitos radioativos em Caldas (MG): parlamentares protestam; ações de segurança em caso de emergência são consideradas por técnicos da área nuclear

 


Parlamentares mineiros já decretaram que não querem rejeitos radioativos em seu território. O prefeito Ailton Goulart avisou ao presidente da estatal Indústrias Nucleares do Brasil (INB), Carlos Freire, que não aceitará o “presente de grego”. Fica cada vez mais acirrado o impasse sobre o destino dos rejeitos radioativos. Eventuais ações de segurança em caso de situações de emergência levaram técnicos do Sistema de Proteção ao Programa Nuclear Brasileiro (Sipron) à Caldas.

 Nesta terça-feira (21/09), a Comissão de Administração Pública da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (Alemg) bateu o martelo: nada de mais rejeitos na cidade. Enquanto isso, a INB começa a elaborar um plano Ambiental por exigência do Ibama, visando descomissionar a unidade em Caldas.

Conhecidos como Torta II, chegam a 15 mil tambores os rejeitos existentes na unidade da INB, em Caldas; e outros, que podem ultrapassar uma tonelada, armazenados na Usina de Interlagos (USIN) da INB, em São Paulo, estão na iminência de serem transferidos para Caldas, também. As toneladas de Torta II são provenientes da paulista Usina de Santo Amaro (USAM), da Nuclemon, desativada em 1992. 

Com barragens de águas e rejeitos que afetam também Poços de Caldas e cidades vizinhas, no passado recente ocorreram casos de contaminação de solo e água. 

A situação vem se agravando com as informações a partir dos Ministérios Públicos de Pouso Alegre (MG) e de São Paulo, publicadas pelo blog em 27/8, sobre a intenção da INB de transferir mais rejeitos para Caldas, para esvaziar a USIN visando a venda do terreno. 

SITUAÇÕES DE EMERGÊNCIA - 

O presidente da INB, depois de receber o prefeito de Caldas, no Rio, prometeu visitar a instalação no dia 14, mas cancelou a visita. Esta semana, a INB começou a convidar moradores de Andradas, Caldas e Poços de Caldas, para participarem da “construção do Programa de Educação Ambiental (PEA) da Unidade em Descomissionamento de Caldas (UDC)”. Segundo a estatal, de 21 a 23 de setembro, estão sendo realizadas oficinas que fazem parte da elaboração do Diagnóstico Socioambiental Participativo, que irá subsidiar o PEA. 

O caso dos rejeitos está envolvendo o Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República (GSI/PR), que integra o Sistema de Proteção ao Programa Nuclear Brasileiro (Sipron). Eles visitaram Caldas na última semana a fim de informações sobre as etapas do processo de descomissionamento da instalação nuclear. Segundo a INB, o Sipron visa "prever, planejar, aperfeiçoar e atuar com eventuais ações de segurança em casos de emergência”.

 O capitão de mar e guerra Alexandre Souza de Aguiar, titular de Emergência Nuclear do Departamento de  Coordenação do Sipron, anunciou que a intenção é fazer a mesma visita com outro grupo  em 2022. Se for o caso, disse, inserir  no programa um exercício de emergência na unidade de Caldas. 

Pegamos alguns subsídios da equipe técnica da UDC para que, numa situação de emergência na área  radiológica ou de segurança física, possamos contribuir para tentar mitigar ou prevenir qualquer dano à instalação”, comentou.  

FOTO – BARRAGEM DE REJEITOS – ARQUIVOS -

Senado aprova a MP -1049 criando a Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN). Acabou o poder de fiscalização da CNEN.

 


O Senado Federal aprovou ontem (21/09) a Medida Provisória nº 1049, criando a Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN), autarquia federal com autonomia administrativa, técnica e financeira, originada da cisão da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN). Cabe à ANSN a responsabilidade pelo licenciamento e a fiscalização da pesquisa, lavra, posse, produção, utilização, processamento, enriquecimento, armazenamento, transporte, transferência, comércio, importação e exportação de minérios, minerais e materiais nucelares. 

Caberá a ANSN a responsabilidade por instalações nucelares, radioativas e minero-industriais que contenham materiais radioativos, assim como depósitos e gestão de rejeitos radioativos, resíduos sólidos radioativos e planos de emergência nuclear e radiológica. 

A CNEN foi fundada pelo presidente da República Juscelino Kubitschek, no dia 10 de outubro de 1956. Teve em seu comando o físico nuclear Rex Nazareth, um dos principais protagonistas do programa nuclear paralelo (militar) brasileiro, de 1982 a 1990. 

A atividade de fiscalização da CNEN sempre foi combatida por especialistas do setor, principalmente quando o Brasil se viu às voltas com o drama provocado pelo acidente com uma cápsula de césio-137, em Goiânia, em 1987. O acidente provocou a morte de quatro pessoas e um número nunca devidamente conhecido de contaminados; além de gerar seis toneladas de lixo radiativo armazenados em depósito na região. 

Conforme o blog já publicou, são diversas as atribuições que saem do guarda-chuva da CNEN para da nova autarquia. A MP-1049 transfere da CNEN para a ANSN o exercício do poder de polícia sobre atividades de sua competência, que, por sua vez, constitui fato gerador da taxa de licenciamento, controle e fiscalização de instalações e matéria nucleares e suas instalações. 

A ANSN deverá ainda criar e manter cadastro nacional do histórico de doses de radiação dos indivíduos expostos nas atividades reguladas. 

COMPETÊNCIA PRIVATIVA - 

Não será da ANSN e sim do Comando da Marinha, a competência privativa para regular, licenciar, fiscalizar e controlar os meios navais com plantas nucleares, embarcações, quanto a segurança nuclear; proteção radiológica; segurança física. Transporte do combustível nuclear. Quando o Brasil tiver o seu submarino nuclear, a fiscalização, portanto, será do Comando da Marinha. 

INFRAÇÕES - A MP-1049 estabelece que as infrações administrativas às normas de segurança nuclear, proteção radiológica e de segurança física serão classificadas como infrações leves, graves ou gravíssimas, conforme o risco de dano aos indivíduos, propriedades e ao meio ambiente. Os valores das multas serão fixados pela Diretoria Colegiada da ANSN, entre o mínimo de R$ 5.000,00 e o máximo de R$ 100.000.000,00. 

Caberá a CNEN e à Indústrias Nucleares do Brasil (INB) a comercialização exclusiva de materiais nucleares, compreendidos no âmbito do monopólio da União. 

Pela MP-1049, aprovada agora, a nova autarquia terá patrimônio próprio, autonomia administrativa, técnica e financeira. Sua sede e foro serão na cidade do Rio de Janeiro e sua atuação será em todo o território nacional.

O Blog tem divulgado artigos e matérias sobre o tema.  Leia “Governo estuda separar funções da Comissão Nacional de Energia Nuclear” (09/08/2019); artigos do engenheiro/servidor da CNEN, Sidney Rabello (24/5/2021) e (26/5/2021); e nota oficial da Marinha (25/5/2021); Câmara dos Deputados debate a criação da ANSN (12/08); e Câmara dos Deputados aprova Medida Provisória criando a ANSN (3/9). FOTO: Usinas nucleares - Eletronuclear/Eletrobras.

segunda-feira, 20 de setembro de 2021

Falta de verba na medicina nuclear começa a paralisar o diagnóstico e tratamento contra o câncer. Ricos só terão atendimento em outros países

 


Brasileiros portadores de tumores neuroendócrinos (pulmão, sistema respiratório e gastrointestinal), sejam ricos ou pobres, não puderam realizar nesta segunda-feira (20/9) o tratamento pelo Sistema Único de Saúde (SUS), clínicas particulares e até mesmo no Instituto Nacional do Câncer. A informação é do presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Nuclear (SBMN), o médico nuclear George Coura, que desde a semana passada vem alertando sobre o desabastecimento de radioisótopos (substância radioativa) produzida pelo Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares  da Comissão Nacional de Energia Nuclear (IPEN-CNEN), do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações, pela falta de verbas. O problema vai afetar outros tratamentos, avisou. 

Segundo fontes do setor, há quatro anos o orçamento do Ipen para a produção do radioisótopo vem sofrendo importantes cortes. Este ano, por exemplo, o orçamento seria de R$ 63,9 milhões – considerado insuficiente. 

É com o radioisótopo como o lutécio-177, que o Ipem produz o radiofármaco usado no tratamento de tumores neuroendócrinos.  O presidente da SBMN alerta que a cada semana a paralisação de um dos vários radioisótopos vai afetar a um tipo de tratamento contra o câncer. 

“Estamos diante de um potencial desabastecimento generalizado e de crise sanitária, na impossibilidade de o paciente ser tratado ou de realizar os exames. Só não terá o problema quem puder pegar um avião para ser tratado em outro país”, comentou. 

A cada semana a situação vai se agravar, afirmou, porque outros medicamentos essenciais deixarão de ser produzidos. O Brasil importa radioisótopos de produtores da África do Sul, Holanda e Rússia, além de aquisição de insumos nacionais.  

Os radioisótopos possibilitam que os médicos vejam o funcionamento de órgãos e tecidos vivos por meio de imagens como as tomografias, radiografias e cintilografias. Cerca de dois milhões de procedimentos médicos são realizados por ano utilizando radioisótopos, em 440 clínicas cadastradas para realizar o trabalho semanalmente. Cerca de 440 mil pelo SUS e o restante pela rede privada. 

A SBMN reitera que a falta de parte dos insumos já está sendo extremamente prejudicial aos pacientes – que ficam sem alternativas para seguirem com diagnósticos e tratamentos – e a notícia de que não há previsão da retomada regular da produção dos radiofármacos possa agravar mais ainda a situação. 

MINISTRO PEDE DINHEIRO - 

Em entrevista ao “Pânico”, programa de TV, o ministro da Ciência, Tecnologia e Inovações, Marcos Pontes, admitiu que vai faltar o medicamento no Brasil. A situação é de emergência, avisou. Segundo ele, o orçamento para a compra é de R$ 90 milhões – maior do que o orçamento do Ipem. O ministro informou que para tentar resolver o problema, pediu ao ministério da Economia R$ 18 milhões para esta semana; e que vai tentar uma liberação de R$34 milhões junto ao Congresso; mais R$ 55 milhões até o final do ano.  

FOTO:  IPEN -

sexta-feira, 17 de setembro de 2021

Acidente de Goiânia, 34 anos depois. Casas foram demolidas. Famílias tiveram que sair deixando tudo: fotos, brinquedos, lembranças. Por Heitor Scalambrini Costa e Odesson Alves Ferreira

 


O fenômeno da radioatividade descoberto pelo físico francês Henri Becquerel em 1896, mostrou que o núcleo de um átomo muito energético tende a se estabilizar, emitindo o excesso de energia na forma de partículas e ondas. As radiações emitidas por esses núcleos chamadas de partículas, alfa e beta (pouco penetrantes) possuem massa, carga elétrica e velocidade. Os raios gama são os mais perigosos por serem mais penetrantes (energéticos), e de efeitos extremamente nocivos para a vida, são emitidos na forma de ondas eletromagnéticas, não possuem massa, e se propagam com a velocidade de 300.000 km/s. 

Portanto, quando temos a presença indesejável de um material radioativo em local onde não deveria estar, existe assim a contaminação radioativa que gera irradiações. Para descontaminar um local, retira-se o material contaminante. Sem o contaminante o lugar não apresentará irradiação, nem ficará radioativo. Irradiação não contamina, mas contaminação irradia. 

Feito este preâmbulo, relembramos o ocorrido há 34 anos, naquele 13 de setembro de 1987, no município de Goiânia (GO), considerado o maior acidente radiológico do mundo. Um aparelho de radioterapia contendo o material radioativo césio-137 (produzido em reatores nucleares) encontrava-se abandonado no prédio do Instituto Goiano de Radioterapia (IGR), instituto privado, no centro de Goiânia, desativado há cerca de 2 anos (isto mesmo, havia 2 anos que o equipamento estava abandonado no local). Dois homens, Roberto e Wagner, à procura de sucata, entraram no prédio do Instituto sem nenhuma dificuldade, pois o mesmo se encontrava em escombros, sem portas e nem janelas, e levaram o aparelho até Devair, dono de um ferro-velho. 

Durante a desmontagem do aparelho, foram expostos ao ambiente 19 g de cloreto de césio-137 (CsCl), pó semelhante ao sal de cozinha. O encontrado não era exatamente na forma de pó, mais parecia como uma pasta, de cor acinzentada, e virava pó quando friccionado. Mas o que chamava muita atenção é que no escuro, brilhava intensamente com uma coloração azulada. Encantado com o brilho do material, Devair, passou a mostrá-lo e até distribuí-lo a amigos e familiares, inclusive para os irmãos Odesson e Ivo, que levou um pouco de césio para sua filha, Leide. 

Expostas ao material radioativo, as pessoas começaram a desenvolver sintomas da contaminação (tonturas, náuseas, vômitos e diarreia), algumas após horas de exposição e outras após alguns dias, levando-as a procurarem farmácias e hospitais. Foram medicadas como portadoras de uma doença contagiosa. Os sintomas só foram caracterizados como contaminação radioativa em 29 de setembro, depois que a esposa do dono do ferro-velho, Maria Gabriela, levou parte do aparelho desmontado até a sede da Vigilância Sanitária. No dia 23 de outubro daquele ano morria Maria Gabriela, esposa de Devair e sua sobrinha Leide. Devair, juntamente com outras 15 pessoas, foram encaminhadas para tratamento de descontaminação no Hospital Naval Marcílio Dias no Rio de Janeiro, vindo a falecer em 1994. 

Nestes 34 anos seis pessoas da mesma família Alves Ferreira morreram. 

Para a verdade dos fatos, é necessário deixar registrado que o governo na época não sabia ainda o que estava acontecendo. Até que no dia 29 de setembro, um dia após Maria Gabriela e Geraldo (catador de recicláveis que morava no ferro-velho) terem levado a peça que continha o césio a Vigilância Sanitária. O físico Walter Mendes, de férias na cidade, solicitou um contador Geiger do escritório da Nuclebrás de Goiânia, emprestando-o à Vigilância Sanitária. E aí sim, foi constatado a radioatividade. 

A propagação do césio-137 para as casas próximas onde o aparelho foi desmontado se deu por diversas formas. Merece destaque o fato de o CsCl ser higroscópico, isto é, absorver água da atmosfera. Isso faz com que ele fique úmido e, assim, passe a aderir com facilidade na pele, nas roupas e nos calçados. Levar as mãos ou alimentos contaminados à boca resulta em contaminação interna do organismo, o que aconteceu com Leide de seis anos de idade. 

Oficialmente, segundo a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), quatro pessoas morreram, e além delas, das 112.800 pessoas que foram monitoradas, em 6.500 foram encontradas contaminação discreta: desse total 250 apresentaram contaminação corporal interna e externa que mereceram maior atenção e acompanhamento. Destas, 49 foram internadas e 21 exigiram tratamento médico intensivo. 

Os trabalhos de descontaminação dos locais afetados produziram cerca de seis mil toneladas de lixo contaminado com 19 gramas de césio-137. O lixo armazenado em caixas, tambores, contêineres eram constituídos de roupas, utensílios domésticos, plantas, solo, animais de estimação, veículos, materiais de construção (algumas casas foram implodidas, sem que pudesse tirar nada de dentro, nem brinquedos, fotografias). Todo este lixo radioativo foi armazenado em um depósito construído na cidade de Abadia de Goiás, vizinha a Goiânia, onde deverá ficar, pelo menos, 180 anos. 

Quatorze anos depois, o governo de Goiás incluiu mais 600 pessoas na lista de vítimas. O Ministério Público Estadual (MPE) chegou à conclusão que, policiais e funcionários que trabalharam durante o período da tragédia foram contaminados e alguns morreram em consequência de doenças provocadas pelo césio. E estas mortes nunca entraram nas estatísticas oficiais. 

Por outro lado, o Centro de Assistência Leide das Neves Ferreira (em homenagem à menina vítima fatal do acidente), criado pelo governo do estado para acompanhar os contaminados, não admitia relacionar o acidente com o césio, as mortes e as doenças denunciadas pelo MPE. Foi então assinado um acordo entre o Estado e o MPE para que as novas vítimas, seus filhos e netos recebessem assistência médica e indenização. 

Após trinta e quatro anos do desastre radioativo, as várias pessoas contaminadas pela radioatividade não recebem os medicamentos, que, segundo leis instituídas, deveriam ser distribuídos pelo governo. E muitas pessoas envolvidas diretamente com o ocorrido, ainda vivem nas redondezas da região do acidente, entre as Ruas 57, Avenida Paranaíba, Rua 74, Rua 80, Rua 70 e Avenida Goiás, sem oferecer nenhum risco de contaminação. 

Este desastre deixou marcas profundas nas pessoas mais diretamente afetadas e que sobreviveram, e em todo município. O que caracterizou este episódio, e deixou evidente a sociedade, foi o despreparo, a inoperância, o improviso e o desinteresse demonstrado pelo poder público com a saúde das pessoas, principalmente manipulando informações. 

A Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) ficou desnudada diante do grave desastre de Goiânia. Mas não é somente a CNEN: todas as atividades nucleares no Brasil continuam surpreendendo negativamente, pois transcorrido 34 anos as atitudes e a postura de hoje são semelhantes a do passado. Pouca coisa mudou, em relação à transparência e a prepotência. E o descrédito é cada vez mais percebido pela população, quando as atividades desenvolvidas na área nuclear permanecem sob sigiloso. 

Os exemplos mais recentes que acontecem, ou podemos dizer tragédias anunciadas, é o que atingem as populações vizinhas da barragem de resíduos radioativos (área equivalente a 100 Maracanãs) no município de Caldas em Minas Gerais, e da mina de urânio de Caetité na Bahia. Mas estas são outras histórias que devemos estar atentos para evitar que a população padeça e morra pela irresponsabilidade de governantes. 

Artigo de Heitor Scalambrini Costa, professor associado aposentado da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), graduado em Física pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP/SP), Mestrado em Ciências e Tecnologias Nucleares na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e Doutorado em Energética, na Universidade de Marselha/Comissariado de Energia Atômica (CEA)-França. Ativista antinuclear; e Odesson Alves Ferreira, da Associação das Vítimas do Césio 137/AVCésio.

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

Governo adia construção de reator capaz de produzir insumos para a medicina nuclear. Desabastecimento em clínicas de tratamento contra o câncer pode ocorrer nos próximos dias

 


Enquanto o governo adia a construção do Reator Multipropósito Brasileiro (RMB), em Iperó (SP), que daria independência à produção de material radioativo para a realização de exames e tratamento contra o câncer e outras doenças, os centros de medicina nuclear correm o risco de ficar desabastecidos. O drama para pacientes que dependem de tratamento deve ocorrer a partir da próxima segunda-feira (20/09), quando o Instituto de Pesquisa em Energia Nuclear (IPEN), da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) terá a produção suspensa de todos os fármacos e de isótopos radioativos por falta de verbas. 

À noite, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações divulgou  nota  informando que desde junho de 2021 vem trabalhando com o Ministério da Economia para a maior disponibilização de recursos para a produção de radiofármacos pelo Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN), vinculado a esta pasta por meio da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN/MCTI). Para a recomposição do orçamento do Instituto, o Governo Federal por meio do MCTI está sensibilizando o Congresso Nacional pela votação e aprovação do PLN 16/2021 prevista para a próxima semana. 

“Tão logo tenhamos a informação quanto ao recebimento dos recursos orçamentários extras e, consequentemente, à normalização nos fornecimentos, entraremos em contato imediatamente por meio do Serviço de Gestão Comercial do IPEN-CNEN”, consta parte de comunicado do IPEN/CNEN enviado  aos serviços de medicina nuclear.  

O problema é gravíssimo e pode afetar milhares de pessoas. Cerca de dois milhões de procedimentos médicos são realizados, por ano, utilizando radioisótopos, pelo Sistema Único de Saúde (SUS), em 440 clinicas cadastradas para realizar o trabalho semanalmente. Somente o RMB, dará autonomia ao Brasil na área de produção de radioisótopos. Mas o projeto não recebe nenhuma verba há anos, conforme o blog vem divulgando desde março do ano passado. 

A suspensão da produção anunciada pelo IPEN agora, segundo a Sociedade Brasileira de Medicina Nuclear (SBMN), “causará importantes danos à sociedade como um todo”, seja em pacientes atendidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS), seja por permitir diagnósticos mais precisos para cirurgias, por exemplo. Na nota da SBMN, o IPEN anunciou que depende da liberação de verbas orçamentárias extraordinárias para a retomada de seu funcionamento. “Até que isso aconteça, a Medicina Nuclear Brasileira fica de mãos atadas e os pacientes, sem seus devidos procedimentos médicos”, afirmo presidente da SBMN, George Coura Filho. 

EMPOLGADOS DISCURSOS - 

O projeto de construção do Reator Multipropósito Brasileiro (PMB) costuma motivar empolgados discursos políticos pela autossuficiência nacional na produção de radioisótopos e fontes radioativas, aplicados no diagnóstico e tratamento de doenças como o câncer. Mas o projeto não sai do papel. Os radioisótopos possibilitam que os médicos vejam o funcionamento de órgãos e tecidos vivos por meio de imagens como as tomografias, radiografias e cintilografias. 

A falta de decisão de governos para destravar a construção do RMB levará o país este ano a gastar mais de R$ 60 milhões (de acordo com a alta do dólar), importando radioisótopos da África do Sul, Rússia, Holanda e principalmente da Argentina. O Brasil importa cerca de 4% da produção mundial anual do radioisótopo molibdênio-99. O decaimento radioativo do molibdênio-99 produz o radioisótopo tecnécio-99m, utilizado nos radiofármacos (substância química) mais empregados na medicina nuclear. Para se ter ideia da necessidade do RMB, cerca de dois milhões de procedimentos médicos são realizados, por ano, utilizando radioisótopos, pelo Sistema Único de Saúde (SUS), em 440 clinicas cadastradas para realizar o trabalho semanalmente. 

Cerca de 440 mil pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e o restante pela rede privada. O apelo social do projeto é que a partir do funcionamento do RMB, haveria um aumento significativo da utilização do serviço pelo SUS. As informações são do engenheiro civil, mestre em engenharia nuclear e doutor em tecnologia nuclear, José Augusto Perrotta, coordenador do RMB, tecnologista sênior da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), responsável pelo empreendimento. A construção do RMB foi orçada em US$ 500 milhões, quando idealizada em 2009. Até hoje foram aplicados apenas R$ 230 milhões. Para a sua entrada em funcionamento, teriam que ser aplicados, em média, cerca de US$ 100 milhões, ao longo de cinco anos. 

CRISE MUNDIAL – 

O projeto do RMB ganhou força em 2009, a partir da crise mundial provocada pela paralisação do reator canadense National Research Universal (NRU), que atendia na época a cerca de 30% da demanda mundial de molibdênio-99. “O problema gerou o primeiro desabastecimento internacional do medicamento, algo sem precedentes”, comentou Perrotta. Quatro reatores de pesquisa estão em funcionamento no Brasil. Somente o reator EIA-R1, instalado no Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN), da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), produz radioisótopos. O EIA-R1 funciona há 63 anos, e espera-se que tenha mais 10 anos de vida. Contudo, ele não tem capacidade de produzir radioisótopos em escala necessária. Por isso, o IPEN, através da CNEN, importa todo o molibdênio-99 utilizado na produção de radiofármacos.  

Segundo Perrotta, a CNEN gasta US$ 15 milhões por ano com essa importação, que gera um faturamento de R$ 120 milhões, ano, recursos que vão direto para o caixa do governo. Sem o EIA-R1, o país ficará ainda mais dependente, alerta Perrotta, em seus mais de 40 anos de experiência no setor nuclear no Brasil e exterior.  “Alguns estádios para as olimpíadas custaram mais do que o valor do RMB”, comentou Perrotta. Lembrou que a Argentina iniciou projeto semelhante no mesmo tempo que o Brasil. Mas o projeto argentino já está com 70% das obras prontas. “Acreditamos que podemos recuperar o tempo perdido”, acredita.

FOTO: Ilustração da maquete do RMB - CNEN 

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