Rio de Janeiro, 27 de outubro de 2026 -
Baiana, negra, origem na pobreza, órfã na infância, superou dificuldades, enfrentou o racismo, destacando-se nos estudos, via políticas públicas e muita dedicação para alcançar altos vôos, e chegar à Alemanha, ao doutorado, e registrar no currículo o pioneirismo de ser uma das primeiras mulheres químicas no mundo. Ela é Irene Alleluia Meyer, que acaba de doar seu acervo pessoal ao Museu de Astronomia e Ciência Afins (MAST), no Rio de Janeiro.
O MAST recebeu na tarde desta terça-feira (27/10) uma das mais importantes doações dos últimos anos: o acervo pessoal da renomada química, professora e pesquisadora baiana, escritora Irene Alleluia Meyer. A incorporação desse conjunto documental ao MAST constitui uma iniciativa de especial relevância para a preservação da memória da ciência e da tecnologia no Brasil.
Mulher negra e nordestina, que sofreu racismo no Brasil e na Alemanha, oriunda de uma família de poucos recursos e que não a incentivava a prosseguir nos estudos e na carreira acadêmica, Irene construiu uma trajetória científica marcada pela superação de importantes barreiras sociais, raciais e de gênero. Sua formação culminou em um feito pioneiro: tornou-se uma das primeiras mulheres a obter o título de doutora em Química Nuclear no mundo.
Parte importante de sua trajetória profissional foi construída no Instituto Nacional de Tecnologia (INT), onde atuou como pesquisadora. A vinculação do INT ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) confere um significado adicional à preservação de seu legado por outra instituição vinculada ao MCTI, o Museu de Astronomia e Ciências Afins, que tem entre suas atribuições a preservação e a pesquisa da memória científica e tecnológica brasileira. Sua trajetória de superação, dedicação à ciência e conquista da independência é detalhada em autobiografia "Alleluia: Passos e percalços de uma baiana lutadora", lançada em 2019.
UM MARCO PARA O MUSEU -
A doação representa também um marco para o próprio MAST: o acervo de Irene Alleluia Meyer será o primeiro acervo pessoal de uma pessoa negra a integrar as coleções sob a guarda da instituição. Sua incorporação contribui, assim, para ampliar a diversidade de trajetórias, experiências e sujeitos representados no patrimônio científico brasileiro e para preservar a memória de mulheres que participaram da construção da ciência e da tecnologia no país.
INFÂNCIA E SUPERAÇÃO -
Irene nasceu em abril de 1944, em Salvador, Bahia. Após a morte prematura de sua mãe, ela e a irmã mais nova foram entregues pelo pai para serem criadas por uma tia materna. Em vez de acolhimento, as duas enfrentaram uma infância extremamente rígida e dolorosa, marcada por maus-tratos, falta de afeto e rotinas exaustivas de trabalho doméstico, sendo tratadas como empregadas da casa. Determinada a mudar o seu destino, Irene enxergou nos estudos e na educação a única via possível para conquistar sua autonomia profissional e liberdade financeira. Assim, com muito custo, conseguiu concluir o secundário e em seguida foi selecionada para cursar Química em Recife, tendo somente sido possível porque conseguiu uma bolsa de estudos que a ajudou se manter, não sem passar por dificuldades, sozinha em uma cidade que ela não conhecia e sem ajuda da família.
Após a graduação, conseguiu aperfeiçoar sua formação na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, fez mestrado na PUC-RJ, seguido de especialização e doutorado na Alemanha. Todo seu percurso acadêmico foi feito como bolsista de diferentes programas de fomento à pesquisa. Quando Irene percebeu que somente por meio dos estudos ela teria alguma chance de mudar sua realidade, tinha consciência de que não seria uma experiência fácil e de fato não foi. Vivenciou diversos episódios de racismo, principalmente na Alemanha.
Sua trajetória de superação, dedicação à ciência e conquista da independência é detalhada em autobiografia "Alleluia: Passos e percalços de uma baiana lutadora", lançada em 2019. Segundo a crítica da historiadora Maria Ferreira, no entanto, “racismo” é uma palavra que pouco aparece ao longo do livro, a autora prefere usar os termos “preconceito” ou “discriminação”, o que são escolhas válidas, mas que minimizam a gravidade dos fatos. “É preciso nomear o problema para que o mesmo seja visto em gravidade, pois racismo é crime e deveria ser enfrentado como tal”, observou a historiadora.
E acrescentou: “Com a narrativa dos estudos de Irene, percebemos o quanto a área da Educação mudou para melhor ao longo dos anos, tornando-se mais acessível às pessoas das classes mais baixas. Além de termos noção do quanto o sistema educacional brasileiro evoluiu, também podemos vislumbrar o período da Ditadura Militar, pois a autora relata episódios em que foi diretamente afetada pelo regime”.
E mais: “Irene passou por muitas privações e conseguiu superá-las, vencer as barreiras da vida, o que torna sua história admirável. É bom ver a evolução e sua ascensão social. Assim como, ficamos felizes que ela tenha se permitido viver o amor”. Em 26 de março de 2015, dias antes de completar 70 anos, casou com Karl-Rudolph Meyer, alemão da cidade de Colônia, oitenta anos.
AUTOBIOGRAFIA BEM HUMORADA -
Em 2019, publicou o livro Alleluia: Passos e percalços de uma bailarina lutadora (Editora Gramma). Escrita de forma contundente e, ao mesmo tempo, bem-humorada, a obra narra desde as memórias difíceis de sua meninice até as conquistas da vida adulta e maturidade. “O livro serve como inspiração sobre o poder transformador da educação e da resiliência feminina”, comentou a crítica.
"Alleluia: passos e percalços de uma baiana lutadora", além de trazer ilustrações belíssimas, também é enriquecido com fotografias de diferentes momentos da vida autora, como a que ilustra a capa, que foi tirada na ocasião de sua defesa do doutorado na Universidade de Karlsruhe, na Alemanha. Para a criadora do movimento de Escritoras Descoloniais da Bahia, Maria Ferreira, na leitura, o leitor percebe sinceridade nas palavras de Irene, principalmente por ela revelar segredos da família.
Não foi uma narrativa fácil de escrever, porque mesmo depois de adulta, há feridas que não saram nunca e ter que relembrar todas elas, com certeza deve ter sido bastante doloroso. Ainda no prefácio, a autora diz que não é um livro apresentado linearmente e que prefere nomeá-lo como “relato de vida”, no qual apresenta diversos tipos de memórias. É uma história que começou a ser escrita em 2010, mas só foi publicada em 2019, tendo passado por um momento de perda completa dos arquivos em 2012. De nossa parte, fica o agradecimento por Irene ter tido a disposição de dividir sua história com o mundo, que ela possa inspirar e motivar muitas outras pessoas que passam pelas adversidades da vida e pensam que não podem vencê-las.
Trajetória Acadêmica e Científica -
Sua dedicação à ciência a levou a construir um perfil acadêmico de destaque nacional e internacional. Graduação: Mudou-se para Recife em 1964, onde se formou em Química pela Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP) em 1969. Rio de Janeiro e Fitoquímica: Em 1970, ingressou na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Lá, tornou-se pupila do professor Otto Richard Gottlieb — cientista indicado ao Prêmio Nobel e uma das maiores referências mundiais em fitoquímica (química de plantas). Mestrado e Docência: Concluiu seu mestrado em Química Analítica pela PUC-Rio em 1975. Pouco antes, em 1974, havia sido aprovada em um concurso público para lecionar Química Geral na Universidade Federal Fluminense (UFF). Doutorado na Alemanha: Em maio de 1975, após ser selecionada em um processo altamente concorrido (com mais de 500 candidatos), viajou para a Alemanha para dar continuidade à sua especialização científica.
CARREIRA E APOSENTADORIA -
Irene consolidou sua carreira como pesquisadora de carreira no Instituto
Nacional de Tecnologia (INT). Em 2010, aos 66 anos de idade e com 36 anos
de serviço formalizado, tirou uma licença de três meses para fazer um curso de
capacitação em Auckland, na Nova Zelândia. Essa viagem serviu como um período
de reflexão que a levou a decidir, finalmente, por sua aposentadoria definitiva
no retorno ao Brasil, garantindo o que ela chamou de sua "completa
liberdade" após uma vida inteira de batalhas. (FONTE: ASCOM MAST – FOTOS DIVULGAÇÃO)
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