segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Cientistas brasileiros se manifestam em defesa da democracia e do futuro do Brasil


Pesquisadoras, pesquisadores, professoras, professores, estudantes e profissionais da educação e da ciência lançam carta pública sobre o segundo turno das eleições presidenciais de 2026 e convidam a comunidade científica e educacional a aderir à mobilização. 

Entidades científicas e educacionais – Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Academia Brasileira de Ciências (ABC), Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG), Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (ANDIFES), Conselho Nacional das Instituições da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica (CONIF), União Nacional dos Estudantes (UNE), União dos Estudantes do Brasil (UNES), Federação de Sindicatos de Trabalhadores Técnico-Administrativos em Instituições de Ensino Superior Públicas do Brasil (FASUBRA Sindical) e Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (ANDES-SN) – apresentam carta em defesa da democracia e do futuro do Brasil. No documento, as instituições alertam para o rompimento da base democrática do país. 

“O autoritarismo nem sempre anuncia o fim da democracia. Pode chegar pelas urnas, prometer respeitar a Constituição e, uma vez no poder, esvaziar as instituições que deveriam limitá-lo: transformar adversários em inimigos, apresentar a imprensa como ameaça, tratar universidades como espaços de doutrinação e chamar de defesa da liberdade a perseguição política. Assim os direitos são corroídos sem serem abolidos, uma regra enfraquecida hoje, uma instituição intimidada amanhã, uma minoria desprotegida depois e, quando a sociedade percebe, o excepcional já parece normal. Não é preciso fechar o Congresso para enfraquecer a democracia: basta tornar as instituições incapazes de exercer suas responsabilidades. Uma democracia começa a adoecer quando seus cidadãos aceitam para os outros a perda dos direitos que exigem para si”, destaca. 

A carta está aberta à adesão de pesquisadoras, pesquisadores, professoras, professores, estudantes e profissionais da educação e da ciência de todo o País. Os interessados em apoiar o documento e fortalecer a mobilização em defesa da democracia podem registrar sua assinatura por meio do formulário disponível neste link. 

Leia o documento na íntegra: Carta de cientistas brasileiros em razão do segundo turno das eleições presidenciais – 2026 -  

Um galo sozinho não tece uma manhã -  “O sertanejo é, antes de tudo, um forte.” Euclides da Cunha escreveu isso há mais de um século, olhando para gente que o Brasil oficial preferia não ver. É dessa força que falamos, a de um povo que atravessou seca, enchentes, fome, ditadura e pandemia e segue de pé, trabalhando, criando os filhos, enchendo escolas e postos de saúde, pedindo pouco e entregando muito. Somos pesquisadoras e pesquisadores, professoras e professores, estudantes e técnicos de todas as regiões do país. Muitos de nós somos a primeira geração da família a entrar numa universidade. Aprendemos a ler na escola pública, estudamos com bolsas, pesquisamos em laboratórios financiados pelo povo brasileiro. Não falamos de cima: falamos de dentro. E, se você pensa diferente de nós, leia mesmo assim, o que defendemos protege também o seu direito de discordar. Defendemos a Constituição de 1988: o pacto que assegura eleições livres, imprensa sem censura, autonomia universitária, direito de greve, educação, Sistema Único de Saúde e limites ao poder de quem governa. Nenhuma dessas conquistas caiu do céu — cada uma tem uma história, resulta de lutas concretas e foi construída com mobilização e resistência. Por isso nenhum grupo, partido ou família é dono da nação, nem pode monopolizar valores como pátria, família, liberdade e fé, que pertencem a milhões de brasileiros honestos e trabalhadores. Sabemos reconhecer esse método porque o vimos ser empregado aqui. Primeiro, ataca-se quem mede: em 2019, o diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais foi exonerado em meio à controvérsia sobre os dados de desmatamento produzidos pelo próprio instituto, dados que não eram opinião, mas evidência. Quem quebra o termômetro não cura a febre; apenas impede que ela seja vista. Depois, desqualifica-se quem sabe: na pandemia, tratamentos sem eficácia comprovada foram promovidos publicamente enquanto vacinas e recomendações científicas eram desacreditadas, essa conta foi paga em velórios. Em seguida, sufoca-se quem forma: universidades chamadas de lugares de “balbúrdia”, bolsas de pesquisa sem reajuste por anos, financiamento da ciência bloqueado mesmo depois de o Congresso proibir o bloqueio. Então, fabrica-se a desconfiança nas urnas eletrônicas: anos de insinuações, sem prova capaz de demonstrar fraude, de que elas não expressavam a vontade popular. Foi nesse ambiente que ocorreram, em 8 de janeiro de 2023, a invasão e a depredação das sedes dos Três Poderes. E, quando nada basta, silencia-se quem testemunha: o jornalista Dom Phillips e o indigenista Bruno Pereira foram assassinados na Amazônia enquanto documentavam atividades ilegais. O autoritarismo nem sempre anuncia o fim da democracia. Pode chegar pelas urnas, prometer respeitar a Constituição e, uma vez no poder, esvaziar as instituições que deveriam limitá-lo: transformar adversários em inimigos, apresentar a imprensa como ameaça, tratar universidades como espaços de doutrinação e chamar de defesa da liberdade a perseguição política. Assim os direitos são corroídos sem serem abolidos, uma regra enfraquecida hoje, uma instituição intimidada amanhã, uma minoria desprotegida depois e, quando a sociedade percebe, o excepcional já parece normal. Não é preciso fechar o Congresso para enfraquecer a democracia: basta tornar as instituições incapazes de exercer suas responsabilidades. Uma democracia começa a adoecer quando seus cidadãos aceitam para os outros a perda dos direitos que exigem para si. A literatura já nos contou onde isso termina. Em Os Sertões, Euclides narra como a República convenceu a si mesma de que um povoado de sertanejos pobres ameaçava a nação e enviou contra Canudos sucessivas expedições, até a destruição completa. O inimigo interno era gente pobre, vivendo e rezando no sertão. É esse o pior serviço do discurso de ódio: ele procura quem foi esquecido o ano inteiro e oferece, em troca do voto, não comida nem escola nem remédio, mas um culpado, o vizinho, o professor, o cientista, o imigrante, o indígena, o pobre do outro lado. Promete devolver a dignidade e deixa intactas as estruturas que produzem a desigualdade. Vale perguntar a quem interessam certas escolhas. A quem interessa um país onde a casa de apostas chega ao celular antes de o posto de saúde chegar ao bairro? A quem interessa exportar matérias-primas estratégicas e depender de tecnologias que poderíamos desenvolver? A quem interessa transformar a fé sincera de milhões em instrumento de poder? A quem interessa desacreditar as instituições capazes de revelar fatos inconvenientes? Perguntar quem ganha também é método. E quando se atacam políticas de inclusão, como na lei catarinense que proibiu cotas étnico-raciais nas universidades estaduais e foi declarada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal este ano, não se está apenas discutindo uma política de acesso. Está-se decidindo quem terá oportunidades de chegar à universidade e, com elas, de pensar, pesquisar e ensinar neste país. Pátria se defende com ciência e indústria, não apenas com bandeira na janela. Família se defende com creche, merenda, posto de saúde e emprego, não apenas com discurso. Liberdade se defende garantindo que o outro também possa falar. E soberania não se proclama: constrói-se. O mundo disputa tecnologias, dados, minerais estratégicos e energia, e o Brasil não pode aceitar um destino em que outros desenvolvem as tecnologias, controlam as plataformas e decidem o valor das nossas riquezas. A cooperação internacional é indispensável; a submissão não é. Um país não é soberano quando precisa alugar aquilo que deveria saber fazer. A ciência avança onde se pode perguntar, verificar e corrigir. Foi ela que ajudou a transformar a agricultura, a extrair petróleo em águas profundas, a produzir vacinas em instituições públicas e a antecipar secas e enchentes, e dela dependem respostas para as mudanças do clima, para a inteligência artificial e para as transformações do trabalho. Enfraquecer universidades, imprensa, institutos e tribunais reduz a capacidade coletiva de reconhecer erros, justamente o que permite a um país aprender, em vez de repetir suas tragédias. Quanto vale um voto? Em quatro anos, ele ajuda a decidir se haverá creche no bairro e médico no posto, se a filha de quem nunca entrou numa universidade poderá estudar nela, se produziremos nossas próprias vacinas ou seguiremos dependendo da decisão de outros países. O voto é a expressão mais igualitária da nossa cidadania, uma pessoa, um voto, e seu valor não depende de riqueza, escolaridade, sobrenome, religião ou lugar de nascimento. Por isso não podemos permitir que o medo, a mentira ou o ódio decidam por nós. Quem assina esta carta reafirma seu compromisso com a Constituição, as eleições livres, a integridade das urnas, a liberdade de ensinar e pesquisar e o direito de discordar. 

É à luz desses princípios, e das escolhas que estão diante do Brasil, que declaramos nosso apoio à candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência da República. 

Esse posicionamento expressa uma escolha política coletiva de seus signatários, sem significar adesão irrestrita a um governo ou renúncia ao direito de crítica. Nosso compromisso permanece sendo com a democracia, com a população brasileira e com o futuro do país. João Cabral de Melo Neto escreveu que “um galo sozinho não tece uma manhã: ele precisará sempre de outros galos”. É esse o pedido desta carta. Assine, convide outras pessoas a assinar e leve essa conversa à escola, ao laboratório, ao hospital e à sua família. Uma assinatura é um gesto; milhares de vozes tecem uma manhã e o Brasil não pode desistir de pensar por si, decidir por si e construir o próprio futuro. 

(FOTO – Divulgação SBPC - Foto: Ricardo Stuckert) – 

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