O Instituto de Pesquisas
Energéticas e Nucleares (IPEN), da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN),
em São Paulo, um dos mais importantes da América Latina, está comemorando 68
anos de fundação esta semana, com atribuições fundamentais para garantir a
saúde da população, mas dependendo de reposição no quadro de funcionários: dos
cerca de 500, 60% já podem se aposentar. Enquanto o quadro de colaboradores é
quase o mesmo.
Em 2021, o IPEN foi alvo de disputas políticas pelo controle da
produção de radioisótopos (medicamentos para diagnóstico e tratamento de
combate ao câncer), mas a excelência do Instituto manteve o seu protagonismo do
trabalho. O IPEN continua suprindo 85% da demanda nacional: são pelo menos dois
milhões de procedimentos por ano via o Instituto.
E na contramão de tantos
avanços, ainda armazena rejeitos radioativos da década de 70, por falta de um depósito definitivo no País. O BLOG conversou
com a diretora do IPEN, a engenheira química, Isolda Costa. Ela iniciou
sua trajetória no IPEN no início dos anos 1980 como bolsista, e tornou-se a
primeira mulher a ocupar o cargo de comando na Instituição. Eis a entrevista:
BLOG: Como estão as atividades do IPEN no momento?
ISOLDA: Temos
pesquisas e ensino de excelência, dois programas de pós-graduação, o de
Tecnologia Nuclear, com a Universidade de São Paulo; outro próprio, o Mestrado
Profissional em Tecnologia das Radiações em Ciências da Saúde, além da
Iniciação Científica, dos programas de pós-doutorado e estágios para alunos de
graduação. Temos também duas áreas de produção, uma é a de radiofármacos, na
qual suprimos 85% da demanda nacional, com cerca de dois milhões de
procedimentos por ano.
BLOG: Na área da radiação?
ISOLDA: Temos também a única
fábrica integrada de elemento combustível de toda a América Latina. Além disso,
prestamos serviços, que incluem o recolhimento, depósito de rejeitos, serviços
de calibração de equipamentos, de fontes, de detectores de radiação. O
IPEN/CNEN também presta serviço de resposta à emergência radiológica no estado
de São Paulo.
BLOG: Outras pesquisas?
ISOLDA: Temos a componente inovação, como
parte da pesquisa. Importante salientar que há pesquisas básicas
aplicadas, e no âmbito da pesquisa aplicada temos grandes investimentos com
recursos orçamentários, usando a lei de inovação para fortalecer essa área.
BLOG: Planos para o futuro.
ISOLDA: Há muito a realizar, mas, no cenário
atual, uma de nossas principais metas é incentivar, potencializar a área de
inovação, que a gente acredita que as parcerias público-privadas serão o
futuro. Também estamos estudando a mudança do modelo de gestão que nós temos
hoje para a Rádiofarmácia, essa é uma das nossas metas para o futuro.
BLOG:
Como assim?
ISOLDA: Temos o orçamento da União e projetos financiados pelas
várias instâncias, que são parcerias com empresas, FAPESP, FINEP, CNPq.
BLOG:
No caso do radioisótopo houve a quebra do monopólio e o IPEN perderia a
produção. Como ficou?
ISOLDA: O IPEN/CNEN continua na produção como era antes
da quebra do monopólio para a iniciativa privada porque nenhuma empresa ainda
se capacitou para poder substituir. Eles previam que, em dois anos, teriam já
instalação, mas isso não aconteceu. Portanto, o Instituto continua suprindo,
abastecendo o mercado.
BLOG: As importações de insumos continuam?
ISOLDA: Nada
mudou, por enquanto. O Instituto continua importando insumos da Rússia, da
África do Sul e da Holanda. A perspectiva para o final deste ano e para 2025 é
continuar importando, continuar atendendo a demanda. Inclusive, a gente tem
projeto de modernização da área de produção do Iodo, para melhorar as condições
de produção.
BLOG: Como sobreviver?
ISOLDA: O IPEN não tem repasse ao SUS, todo
o nosso recurso que é gerado pela venda dos radiofármacos se transforma em
uma GRU, ou seja, volta pro Caixa da União. E temos que esperar, todo ano, a
aprovação da LOA, pra liberação dos recursos.
BLOG:
Qual a situação do
contingente de servidores?
ISOLDA: O número de servidores não chega a 500, dos
quais 60% já podem se aposentar, e o número de colaboradores é
praticamente o mesmo, 506. Estamos aguardando o concurso, provavelmente em
janeiro, para dar mais fôlego a algumas áreas. Precisamos de, pelo menos, 50
vagas.
BLOG: Por falta de depósitos, no passado, o IPEN servia também de
depósito de material radioativo. E hoje? Onde está sendo armazenado (caso
exista) o material radioativo descartado ou produzido pelo IPEN?
ISOLDA: Na verdade,
o IPEN armazena rejeitos desde os anos finais de 70 e continua até hoje
recebendo rejeitos do próprio Instituto e do Estado de São Paulo. Então, nós
não temos ainda problema de armazenamento. Os nossos depósitos são ativos e têm
uma capacidade ainda grande, comparando com os outros depósitos existentes no
Brasil, tipo Recife, Belo Horizonte. Somando a capacidade deles hoje, é menor
do que o que o IPEN/CNEN ainda tem de espaço.
BLOG: Novidade no aniversário?
ISOLDA: Foi
inaugurada a Unidade Móvel com Acelerador de Feixe de Elétrons para tratamento
de efluentes industriais para fins de reuso. A unidade representa um avanço
significativo na tecnologia de tratamento de efluentes, reforçando o
compromisso do IPEN com a inovação e a sustentabilidade. O projeto contou com
apoio da Agência Internacional de Energia Atômica (IAEA em sua sigla em
Inglês), Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), CNPq, Nuclebrás
Equipamentos Pesados S.A. (Nuclep) e Truckvan. O diretor de Pesquisa e
Desenvolvimento da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), Wilson
Aparecido Parejo Calvo, responsável pelo projeto, abiu a cerimônia de
inauguração com uma apresentação na Sala de Seminários do CETER antes da visita
às instalações.
BLOG: Mensagem
da direção do IPEN sobre a importância do Instituto para a
sociedade, a ciência, estudantes, pesquisadores.
ISOLDA: O IPEN desempenha
um papel crucial na sociedade ao promover avanços significativos na área
nuclear e correlatas, com destaque para saúde, meio ambiente, energias
renováveis, lasers e aplicações, biotecnologia, ciência dos materiais,
engenharia nuclear, metrologia das radiações, reatores, rejeitos e outras. Suas
pesquisas e inovações contribuem para o desenvolvimento sustentável, oferecendo
soluções que beneficiam tanto a população quanto o meio ambiente. Além disso, o
IPEN é um importante centro de formação e capacitação para estudantes e
pesquisadores, proporcionando um ambiente fértil para a troca de conhecimentos
e o desenvolvimento de novas competências. Agradecemos a todos que colaboram e
apoiam essa missão, pois juntos construímos um futuro mais promissor e
sustentável.
FOTO: ISOLDA COSTA - IPEN – CNEN – Produção de
Reagentes Liofilizados para Radiognósticos. O PESQUISADOR
Demerval Rodrigues participou de parte da entrevista. Colabore com o blog –
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