O acidente com uma cápsula de césio-137, (substância
radioativa), ocorrido em Goiânia, está completando 35 anos, com processos até
hoje sem solução. Segundo o presidente da
Associação dos Militares Vítimas do Césio-137, Luiz Gonzaga Barros Carneiro, são
432 processos de militares, da Polícia Militar e dos Bombeiros, tramitando no
Judiciário. "Nossa dificuldade é conseguir pensão para os militares
envolvidos no caso, chamados de veteranos do césio.
Atualmente, Goiás tem 754
beneficiários, entre civis e militares, que recebem pensão", comentou
Gonzaga Barros. De acordo com o levantamento mais recente da entidade, 132
militares morreram de câncer entre 1987 e o mês passado, sem acesso a nenhum
benefício, seja o recebimento de pensão ou a promoção de patente, informou.
MEMÓRIA DO ACIDENTE -
A história que chocou a
opinião pública não pode ser esquecida. Uma cápsula de césio-137 – substância
radioativa componente de um aparelho usado no tratamento de câncer, de propriedade
do Instituto Goiano de Radioterapia (IGR), foi deixada na antiga sede do já
desativado instituto. De acordo com as notícias da época, no dia 13 de setembro
de 1987, os catadores de papel Wagner Motta Pereira e Roberto Santos Alves
entraram no local, retiraram o aparelho, abriram algumas partes e venderam uma
delas, a que continha a cápsula com o césio-137, para Devair Alves Ferreira,
dono de um ferro-velho. Ao arrombar a cápsula, a golpes de marreta, Devair
liberou o césio, um pó brilhante, parecido com purpurina. A cápsula com o césio
137 passou de mão em mão, em várias casas de família. Por fim, foi
levada de ônibus à Vigilância Sanitária por Maria Gabriela Ferreira, mulher de
Devair. Ela suspeitou que os problemas de saúde da sua família tivessem alguma
relação com o equipamento.
O então presidente da República, José Sarney, mandou
prender os culpados pelo acidente e visitou dez pessoas contaminadas,
internadas no Hospital Geral do Instituto Nacional de Assistência Médica da
Previdência Social (Inamps) em Goiânia. O diretor-geral da Polícia Federal,
Romeu Tuma, anunciou a abertura de inquérito. O presidente da CNEN, Rex Nazaré,
admitiu a necessidade de rever as normas de licenciamento e fiscalização de
instituições de Medicina Nuclear o país. O ferro-velho e as moradias dos
pacientes mais contaminados foram demolidos. O Exército deslocou pessoas para
região. Funcionários da CNEN ainda sem saber a dimensão do acidente,
não tomaram precauções de segurança ao medirem a radiação: usavam calça jeans,
tênis e sapatos.
Os médicos Orlando Alves Teixeira, Criseide Castro Dourado e
Carlos Bezzerril, sócios-proprietários do Instituto de Radioterapia; e o
responsável técnico do instituto, físico hospitalar Flamarion Barbosa Coulart,
foram indiciados pela Polícia Federal (PF). Na CNEN, só houve um indiciado: o
chefe do Departamento de Instalações Nucleares e Materiais Nucleares, físico
José Rosental. Mais tarde, a Procuradora da República solicitou a exclusão de
Rosental do caso e a Justiça acolheu o pedido. Enquanto a CNEN afirmava que o
caso estava sob controle, a cada dia apareciam outros focos de contaminação.
No
dia 23 de outubro de 1987 ocorreram as duas primeiras mortes. A menina Leide
das Neves Ferreira, de 6 anos, filha de Ivo Alves Ferreira e sobrinha de Devair,
foi uma das quatro vítimas fatais. Com as mãos contaminadas, Leide havia comido
um pedaço de pão. Ela teve ulcerações na língua, boca e garganta, e lesões
internas. A segunda vítima foi a tia da menina e mulher de Devair, Maria
Gabriela, de 38 anos. Ambas morreram no Hospital Naval Marcilio Dias, no Rio de
Janeiro, onde foram internadas com outros contaminados. No dia
27 de outubro daquele ano morreu a terceira vítima: Israel Batista dos Santos
de 22 anos, que trabalhava no ferro-velho e ajudara Devair a abrir o aparelho.
No dia seguinte, morreu o empregado do ferro-velho Admilson Alves de Souza, de
18 anos. O catador de papel Roberto Santos Alves, de 21 anos, sobreviveu, mas
teve o antebraço amputado por causa das lesões provocadas pela contaminação.
O
medo da contaminação levou a uma atitude violenta os moradores da vizinhança do
Cemitério-Parque, em Goiânia, onde a menina Leide foi sepultada. Eles atiraram
pedras e pedaços de cruzes de concreto contra o cortejo, em protesto pela
escolha do local para enterrar as vítimas da contaminação
radioativa. O presidente da CNEN, Rex Nazaré Alves culpou os donos
da clínica, que não teriam comunicado à Comissão a desativação do aparelho
radiológico. Os donos, por sua vez, culparam os catadores de papel e a própria
CNEN, que deixou de fiscalizar o equipamento na antiga sede do instituto. Cerca
de 112 mil pessoas que temiam estar contaminadas foram examinadas durante dois
meses no Estádio Olímpico de Goiânia. Para atender às vítimas do acidente, o
governo de Goiás criou a Fundação Leide das Neves.
Segundo a médica Maria Paula
Curado, que presidiu a Fundação naquela época, 244 pessoas estavam realmente
contaminadas e 50 delas tiveram que receber tratamento hospitalar. Entre as 50
pessoas, 28 tiveram lesões e queimaduras causadas pela radiação. Desse grupo,
10 pacientes foram submetidos a cirurgias plásticas reparadoras, das quais oito
sofreram síndrome aguda da radiação, depressão da medula, hemorragias e
distúrbios de comportamento. No grupo de pessoas mais graves, cinco
pessoas contraíram câncer e duas estavam em tratamento, naquela época. “Mas não
existe um exame sequer capaz de provar que o câncer foi provocado pelo
acidente”, avisava a médica. Devair morreu em maio de 1994 de insuficiência
renal e hepática, conforme atestado médico.
LIXO RADIOATIVO -
Além de famílias
destroçadas e outras que lutam na Justiça para serem indenizadas, o acidente
deixou um grande problema para o futuro: seis mil toneladas de rejeitos
radioativos armazenados no depósito em Goiânia com atividade radioativa por
pelo menos 300 anos. Nesse total, estão 1.343 caixas metálicas; 4223 tambores
de 200 litros; 10 contêineres marítimos; e oito recipientes de concreto.
FOTO: Técnicos vistoriando locais contaminados. Imprensa da época.
Leia no BLOG, em 16/9/2021: "Acidente
com capsula de césio-137 em Goiânia faz 34 anos. Foi batismo de fogo, deixou
mortos, medo e seis mil toneladas de lixo radioativo”;
em 17/09/2021: “Acidente
de Goiânia, 34 anos depois. Casas foram demolidas. Famílias tiveram que sair
deixando tudo: fotos, brinquedos, lembranças”. Por Heitor Scalambrini Costa e
Odesson Alves Ferreira;
em 28/09/2021: “Acidente com césio-137 em Goiânia, 34
anos depois”, por Célio Bermann.
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