segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Terras raras: professores relatam preocupações com provável exploração próxima às escolas

 


Depois de visitar oito escolas na região onde duas mineradoras australianas pretendem explorar terras raras, em Poços de Caldas, as deputadas estaduais Beatriz Cerqueira e Bella Rodrigues (PT) devem agendar audiências públicas para alavancar o debate contra as atividades minerárias prejudiciais à população, principalmente na localidade conhecida como Zona Sul, com cerca de 60 mil moradoras. Durante a visita na sexta-feira (13/8), as parlamentares ouviram diversos relatos sobre o medo que a população está sentindo, e o temor é ampliado pela desinformação a respeito dos projetos e pelo assédio de representantes das empresas em busca de apoio dos moradores. 


As australianas Viridis e Meteoric negam as acusações, mas há relatos da comunidade escolar, registrados pela Comissão de Educação, Ciência e Tecnologia da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), que visitou as escolas. A cidade está localizada dentro cratera de um vulcão extinto há 80 milhões de anos. As riquezas minerais como as terras raras estão próximas a escolas e hospitais, e segundo as parlamentares, a preocupação é ouvir os moradores e saber sobre o que estão sentindo diante do problema. 


A área mais impactada é a zona sul, onde está prevista a instalação do Projeto Colossus, da mineradora australiana Viridis. São 373 hectares e estimativa de produção de cinco milhões de toneladas por ano, além do uso de três milhões de litros de água por dia. A área destinada à exploração fica a cerca de 300 metros de residências, escolas e hospital, como tem sido divulgado por moradores. 

“Tem escolas públicas ao lado das cavas. Isso é muito assustador. Mais assustador ainda é a falta de informação", indigna-se a deputada Beatriz Cerqueira. Após a escuta nas oito escolas, ela listou as reclamações mais impactantes e criticou a prática da empresa de tentar convencer a comunidade com práticas como patrocinar eventos culturais e falar de forma técnica “para as pessoas não compreenderem quais são os impactos”. 

Bella Gonçalves também criticou a falta de informações sobre os impactos na saúde respiratória, os riscos da radioatividade, a contaminação das águas, o fluxo de caminhões, os níveis de ruído e outras consequências que a atividade pode gerar. A deputada citou que o Ibama soltou uma nota técnica apontando a necessidade de mais estudos para o licenciamento ambiental da mineração. “O documento mostra que mesmo os órgãos públicos precisam de mais informações”, comentou.

RISCOS - 

O professor Reinaldo Souza, da Escola Estadual Professor José Castro de Araújo, uma das visitadas, afirmou que o grande temor da comunidade é a proximidade das cavas à área urbana. Ele diz que estudos independentes apontam que a atividade vai causar impacto no recurso hídrico da cidade, que é totalmente dependente da água da chuva. Como a mineração utiliza grande quantidade de água, o receio é aprofundar o problema de escassez já vivido em algumas épocas do ano. “Gera essa preocupação também, além da contaminação, a poluição atmosférica, a perda de biodiversidade, várias outras questões que estão envolvidas com a exploração”, complementa o professor. 

Quérima Franco, professora da Escola Municipal Maria Ovídia Junqueira, escolheu morar na região há 30 anos para ter mais qualidade de vida. Ela relata que os moradores sempre consideraram o local “uma minicidade dentro de uma cidade grande”. Até dois anos atrás, contava com comércio e serviços que facilitavam a vida dos moradores. A professora lamentou que o bairro perdeu equipamentos como o banco, a unidade policial e o Samu. Segundo ela, a propaganda entre a comunidade é de que, se a mineração for aceita, tudo vai melhorar. “Parece que foi uma moeda de troca. Parece que nós estamos recebendo uma imposição", desconfia. Quérrima lembra que a qualidade do ar é muito boa e o temor dos moradores é com as mudanças que possam advir da mineração. “Da porta da janela da minha casa, eu vejo aquela mata, vejo água, vejo tudo e agora tudo vai se acabar porque, a 300 metros da minha casa, vai acontecer a mineração e tudo vai ser retirado de lá”. 

ASSÉDIO - 

Professor da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio, a Escola Padrão, Vinícius Hilário de Lima, reclama que a chegada da mineração pegou a comunidade de surpresa e as informações ainda não são muito transparentes. De acordo com o professor, representantes da empresa têm feito propagandas em veículos locais e procurado escolas e a comunidade, fazendo assembleias para convencimento dos benefícios da atividade. “Só que ela (a empresa) sempre deixava de explicar como seria feita essa exploração. E aí a gente foi descobrindo depois, por iniciativa dos próprios moradores e da comunidade escolar e comunidade dos bairros aqui da Zona Sul, qual seria a proporção da cava dessa mineradora, a proximidade que estaria aqui da nossa escola”, conta ele. 

Vinícius Hilário, professor da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio, a Escola Padrão, reclama, ainda, da falta de transparência no processo de instalação da mineradora. A prefeitura já teria autorizado a instalação de equipamentos da empresa, sem consultar ou comunicar à comunidade. “A gente começou a perceber o tanto que a comunidade não só não sabia que isso aconteceria, que poderia acontecer, muito menos das consequências negativas de devastação ambiental e do assédio que já tinha começado”. 

Na Escola Municipal Vitalina Rossi, uma turma chegou a receber camisas com patrocínio da Viridis, o que chamou a atenção da Comissão. Para Beatriz Cerqueira, um problema grave é a desinformação da população sobre o que está acontecendo na região. Os questionamentos feitos pelas comunidades escolares serão encaminhados para os órgãos ambientais e uma audiência pública deve ser marcada para debater os resultados da visita e cobrar das autoridades esclarecimentos. 

AUDIÊNCIA - CENTRO DE INTELIGÊNCIA E TECNOLOGIA AVANÇADAS EM TERRAS RARAS, proposto pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Sul de Minas - Campos Poços de Caldas e Universidade Federal de Alfenas - Ministério de Ciência e Tecnologia e Inovação - será na próxima terça-feira (25/8) - às 10h  

(FOTOS E TEXTOS COM ENTREVISTAS NAS ESCOLAS – ASSESSORIA DA ALMG – ASSESSORIA DAS PARLANTARES) – 

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