Depois de visitar oito escolas na região onde duas mineradoras australianas pretendem explorar terras raras, em Poços de Caldas, as deputadas estaduais Beatriz Cerqueira e Bella Rodrigues (PT) devem agendar audiências públicas para alavancar o debate contra as atividades minerárias prejudiciais à população, principalmente na localidade conhecida como Zona Sul, com cerca de 60 mil moradoras. Durante a visita na sexta-feira (13/8), as parlamentares ouviram diversos relatos sobre o medo que a população está sentindo, e o temor é ampliado pela desinformação a respeito dos projetos e pelo assédio de representantes das empresas em busca de apoio dos moradores.
As australianas Viridis e Meteoric negam as acusações, mas há relatos da comunidade escolar, registrados pela Comissão de Educação, Ciência e Tecnologia da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), que visitou as escolas. A cidade está localizada dentro cratera de um vulcão extinto há 80 milhões de anos. As riquezas minerais como as terras raras estão próximas a escolas e hospitais, e segundo as parlamentares, a preocupação é ouvir os moradores e saber sobre o que estão sentindo diante do problema.
A área mais impactada é a zona sul, onde está prevista a instalação do Projeto Colossus, da mineradora australiana Viridis. São 373 hectares e estimativa de produção de cinco milhões de toneladas por ano, além do uso de três milhões de litros de água por dia. A área destinada à exploração fica a cerca de 300 metros de residências, escolas e hospital, como tem sido divulgado por moradores.
“Tem escolas públicas ao lado das cavas. Isso é muito assustador. Mais assustador ainda é a falta de informação", indigna-se a deputada Beatriz Cerqueira. Após a escuta nas oito escolas, ela listou as reclamações mais impactantes e criticou a prática da empresa de tentar convencer a comunidade com práticas como patrocinar eventos culturais e falar de forma técnica “para as pessoas não compreenderem quais são os impactos”.
Bella Gonçalves também criticou a falta de informações sobre os impactos na saúde respiratória, os riscos da radioatividade, a contaminação das águas, o fluxo de caminhões, os níveis de ruído e outras consequências que a atividade pode gerar. A deputada citou que o Ibama soltou uma nota técnica apontando a necessidade de mais estudos para o licenciamento ambiental da mineração. “O documento mostra que mesmo os órgãos públicos precisam de mais informações”, comentou.
RISCOS -
O professor Reinaldo Souza, da Escola Estadual Professor José Castro de Araújo, uma das visitadas, afirmou que o grande temor da comunidade é a proximidade das cavas à área urbana. Ele diz que estudos independentes apontam que a atividade vai causar impacto no recurso hídrico da cidade, que é totalmente dependente da água da chuva. Como a mineração utiliza grande quantidade de água, o receio é aprofundar o problema de escassez já vivido em algumas épocas do ano. “Gera essa preocupação também, além da contaminação, a poluição atmosférica, a perda de biodiversidade, várias outras questões que estão envolvidas com a exploração”, complementa o professor.
Quérima Franco, professora da Escola Municipal Maria Ovídia Junqueira, escolheu morar na região há 30 anos para ter mais qualidade de vida. Ela relata que os moradores sempre consideraram o local “uma minicidade dentro de uma cidade grande”. Até dois anos atrás, contava com comércio e serviços que facilitavam a vida dos moradores. A professora lamentou que o bairro perdeu equipamentos como o banco, a unidade policial e o Samu. Segundo ela, a propaganda entre a comunidade é de que, se a mineração for aceita, tudo vai melhorar. “Parece que foi uma moeda de troca. Parece que nós estamos recebendo uma imposição", desconfia. Quérrima lembra que a qualidade do ar é muito boa e o temor dos moradores é com as mudanças que possam advir da mineração. “Da porta da janela da minha casa, eu vejo aquela mata, vejo água, vejo tudo e agora tudo vai se acabar porque, a 300 metros da minha casa, vai acontecer a mineração e tudo vai ser retirado de lá”.
ASSÉDIO -
Professor da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio, a Escola Padrão, Vinícius Hilário de Lima, reclama que a chegada da mineração pegou a comunidade de surpresa e as informações ainda não são muito transparentes. De acordo com o professor, representantes da empresa têm feito propagandas em veículos locais e procurado escolas e a comunidade, fazendo assembleias para convencimento dos benefícios da atividade. “Só que ela (a empresa) sempre deixava de explicar como seria feita essa exploração. E aí a gente foi descobrindo depois, por iniciativa dos próprios moradores e da comunidade escolar e comunidade dos bairros aqui da Zona Sul, qual seria a proporção da cava dessa mineradora, a proximidade que estaria aqui da nossa escola”, conta ele.
Vinícius Hilário, professor da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio, a Escola Padrão, reclama, ainda, da falta de transparência no processo de instalação da mineradora. A prefeitura já teria autorizado a instalação de equipamentos da empresa, sem consultar ou comunicar à comunidade. “A gente começou a perceber o tanto que a comunidade não só não sabia que isso aconteceria, que poderia acontecer, muito menos das consequências negativas de devastação ambiental e do assédio que já tinha começado”.
Na Escola Municipal Vitalina Rossi, uma turma chegou a receber camisas com patrocínio da Viridis, o que chamou a atenção da Comissão. Para Beatriz Cerqueira, um problema grave é a desinformação da população sobre o que está acontecendo na região. Os questionamentos feitos pelas comunidades escolares serão encaminhados para os órgãos ambientais e uma audiência pública deve ser marcada para debater os resultados da visita e cobrar das autoridades esclarecimentos.
AUDIÊNCIA - CENTRO DE INTELIGÊNCIA E TECNOLOGIA AVANÇADAS EM TERRAS RARAS, proposto pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Sul de Minas - Campos Poços de Caldas e Universidade Federal de Alfenas - Ministério de Ciência e Tecnologia e Inovação - será na próxima terça-feira (25/8) - às 10h
(FOTOS E TEXTOS COM ENTREVISTAS NAS ESCOLAS – ASSESSORIA DA ALMG – ASSESSORIA DAS PARLANTARES) –
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