segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Terras raras: guardiãs de Poços de Caldas defendem moradores das ações de mineradoras australianas

 

Rio de Janeiro, 10 de agosto de 2026 - 


"O que a vida quer da gente é coragem". A frase do romance Grande Sertão: Veredas (1956), de João Guimarães Rosa, se encaixa como  luva para definir as corajosas moradoras do município mineiro de Poços de Caldas, que têm enfrentado diversos desafios para defender as terras que abrigam as suas casas, no bairro conhecido como Zona Sul, com 60 mil habitantes, a 300 metros de onde deverão ser abertas as cavas para a extração das cobiçadas terras raras.  As guardiãs Julia Ávila e Rose Nascimento participam de eventos e debates sobre o tema, questionam a autorização do governo sobre as ações das mineradoras, denunciam as falhas apontadas nas licenças ambientais concedidas às empresas australianas Viridis e Meteoric, atuando na região faz pelo menos dois anos. 

Aos 26 anos, autônoma, Júlia não abre mão de reiterar as ações "predatórias" que as mineradoras estão promovendo nas proximidades da Zua Sul, onde já há notícias sobre leilões de terrenos e imóveis. “Se não leiloam agora, não vendem mais, depois que as cavas começarem a ser abertas, desvalorizando tudo, dando um banho de poeira em todos os lugares”, comentou. 

Júlia já enviou solicitação de informações sobre as notícias de contaminação radioativa que a mineração poderá causar a diversos órgãos do governo municipal, estadual e federal. Em seminário recente sobre terras raras promovido pele a deputada Duda Salabert (PSOL-MG), Júlia, questionou o que poderá ocorreu a seu filho, de quatro anos, portador da Síndrome de Li-Fraumeni, doença rara e hereditária que aumenta muito o risco do desenvolvimento de vários tipos de câncer ao longo da vida, muitas vezes ainda na infância ou na juventude. A síndrome, explicou, é causada por uma alteração no gene TP53, que funciona como um protetor contra tumores. A criança não pode receber qualquer dose de radiação e necessita de cuidados especiais. 


O caso do menino será encaminhado ao Ministério da Saúde, prometeu Duda Salabert. Júlia disse ao Blog que precisa de muitas informações sobre a situação dela e de outros moradores. Por isso, enviou documento ao Ministério Público Federal do Estado de Minas Gerais afirmando ter conhecimento sobre a decisão da Justiça Federal determinando uma análise técnica conclusiva sobre os aspectos radiológicos do empreendimento. “Enquanto essas questões permanecem em avaliação, preciso de informações claras, técnicas e individualizadas para compreender os possíveis impactos sobre meu filho. Caso essas evidências não demonstrem sua segurança, adotarei as medidas cabíveis para protegê-lo”, afirmou. 

Júlia aguarda o retorno e sabe que não está sozinha na busca de informações sobre o que se pretende fazer pela segurança dos moradores da região. 


A colega de luta no bairro, Rose Nascimento, 53 anos, doméstica, também não se deixa vencer pelos contatos das mineradoras a moradores da Zona Sul. No seminário, comentou que os moradores são tratados como “terroristas”, com locais invadidos, enquanto caminhões passam por ruas repletos de sacos, provavelmente com material retirado de algumas cavas. 

Rose chorou ao reiterar que moradores estão ficando doentes; com as primeiras notícias sobre a ação das mineradoras em 2023, que aumentam desde 2025. “Buscamos informações e a garantia de que não seremos cobaias das mineradoras”, afirmou. 

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