Rio de Janeiro, 18 de agosto de 2026 - A Indústrias Nucleares do Brasil (INB) planeja construir um galpão para armazenar de forma definitiva cerca de 1.757 toneladas de material radioativo denominado Torta II (contendo urânio, tório e terras raras) estocados há décadas na Usina de Interlagos (USIN), em São Paulo. Na conta estão também equipamentos, peças e ferramentas da antiga Usina de Santo Amaro (Usam), da Nuclemon, que sucedeu a Orquima, no Brooklin, desativada na década entre as décadas de 80 e 90, onde centenas de operários se contaminaram, ficaram doentes, morreram: uma das maiores manchas na História Trabalhista Brasileira.
A ideia agora é tentar se livrar da USIN e colocar seu terreno à venda por R$ 210 milhões. A INB quer também vender toneladas de Pó de U02 (urânio em pó) para fazer caixa, já que as suas contas atravessam momento cada vez mais difícil.
A decisão da criação do galpão e da venda do urânio, além da venda do imóvel em São Paulo, consta em documento da INB datado de 30 de junho, obtido pelo Blog. A reportagem buscou informações junto à INB, sem sucesso. Entre as indagações, o Blog quis saber sobre o local de construção do galpão: será no município mineiro de Caldas, onde a INB mantém instalações desativas e repletas de material radioativo? Não houve resposta. O terreno da USIN era de cerca de 24 mil metros quadrados, mas no site da INB consta 60 mil metros quadrados.
Em São Paulo a INB mantém também armazenados cerca de 3.500 toneladas de Torta II no Sítio São Bento, em Botuxim. O material estava estocado em sete silos, que são grandes depósitos em forma de piscinas retangulares, construídas em concreto.
Os silos ocupam aproximadamente 800 metros quadrados em área isolada de 20 mil metros quadrados da propriedade, em local isolado por cercas e muros. O Sítio São Bento possui uma área total de aproximadamente 300 mil metros quadrados. O documento da INB não faz menção a este local. No documento de 30/6, o Conselho de Administração da INB relata as dificuldades da empresa com propostas orçamentarias não suficientes para 2027, apontando orientação estratégica para o seu reequilíbrio.
No âmbito do Programa de Dispêndios Globais e Orçamento de Investimento para o exercício de 2027, composto pela estimativa da Receita no valor de R$ 1.314.602.68,23 (mais de um bilhão) e pela fixação de despesas correntes e investimentos no valor de R$ 1.394.774.910,64 (mais de um bilhão) e depreciação e amortização e previsões de contingências judiciais prováveis no montante de R$ 209.172.000,00 (duzentos e nove milhões).
A situação prevê a necessidade de “uma celebração de novo termo entre a INB e a ENBPar (Empresa Brasileira de Participações em Energia) para a transferência de recursos a serem aplicados em Projetos Estratégicos e investimentos já apresentados na modalidade de adiantamento para Futuro Aumento de Capital (AFAC) com valor estimado de R$ 99.510.084,00. E recomenda afastar a necessidade de contingenciamento orçamentário ou constituição de operações de crédito, tais como: veda de 11 toneladas de Pó de U02 (urânio) com receita estimada em R$ 105 milhões; venda de cerca de 10 toneladas de materiais (rejeitos de processo) com receita de R$ 25 milhões), venda de 30 toneladas de pó de U02 com fornecimento de material pela cliente (Eletronuclear), resultado de receita estimada de R$ 50 milhões; venda de imóvel onde está localizada a unidade de São Paulo com receita estimada em R$ 210 milhões.
Ao longo de seus oito anos de existência o Blog já publicou dezenas de reportagens sobre as unidades da INB, principalmente em Caldas, onde as instalações com materiais radioativos avançaram na época da ditadura. O Blog registrou rios, fauna e flora contaminados, devastados pela contaminação, árvores cortadas e muito mais. A história da Orquima, a primeira unidade nuclear brasileira tem sido constantemente relembrada: leia no livro Cobaias da Radiação, a história não contada da marcha nuclear brasileira e de quem ela deixou para trás (Tania Malheiros).
(FOTOS USIN e Caldas - BLOG) –
COLABORE COM O BLOG – OITO ANOS
DE JORNALISMO INDEPENDENTE – CONTRIBUA VIA PIX: 21 99601-5849 – CONTATO – malheiros.tania@gmail.com




O incansável trabalho de Tânia Malheiros merece todo nosso respeito e admiração, já que são décadas de verdadeiro jornalismo investigativo e não trabalho de copia e cola, que fazem constantemente e desrespeitosamente com seus textos precisos e confiáveis. A INB tem uma história de desrespeito com a saúde dos trabalhadores e com o meio ambiente tão bem retratados nas obras de Tânia Malheiros, a quem rendo meus sinceros agradecimentos.
ResponderExcluir