sexta-feira, 14 de abril de 2023

Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) visita barragem contaminada com material radioativo em Caldas (MG)

 


Pela primeira vez, que se tenha noticia, a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), com sede em Viena, na Áustria, e a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), levam especialistas internacionais, de segunda-feira (17/4), a 26/4, para vistoriar as barragens com rejeitos radioativos, na Unidade de Caldas (MG), administrada pela Indústrias Nucleares do Brasil (INB), sucessora da extinta paulista Nuclemon. Esta empresa do governo, foi a estatal que operava com material radioativo e contaminou centenas de operários, muitos, que morreram abandonados pelo poder público. 

Coincidentemente, 26 de abril marca os 37 anos da explosão de um dos quatro reatores de Chernobyl, na Ucrânia, ex-União Soviética. Caldas matem mais de 16 mil tambores com Torta II (material radioativo), dos quais, 6.400 enferrujados; além de problemas sérios de contaminação, conforme o blog tem informado ao longo de seus cinco anos de existência.

As informações oficiais sobre a evento que começa segunda-feira dão conta que os engenheiros geotécnico, professor do Massachusetts Institute of Technology (MIT), Andrew Whittle; e o especialista da Canadian Nuclear Safety Commission (CNSC), Grant Su, farão palestra “com o objetivo de ampliar o conhecimento do problema em questão e abordar possíveis soluções”. Extra oficialmente, circula que é uma forma branda de a AIEA ver de perto o problema crônico das instalações de Caldas, para onde a INB planeja transferir o restante dos rejeitos da Nuclemon, que permanecem em depósitos paulista em Interlagos ((USIN) e um sítio em Botuxim, contra a vontade da população, ambientalistas e parlamentares.

O blog contatou a CNEN sobre a visita dos especialistas e porque nada foi noticiado ao público, imprensa e governo de Caldas. 

“A CNEN participa do projeto BRA9061 – Strengthening National Infrastructure for Radiation Safety junto à Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) com o objetivo de fortalecer a cultura de segurança radiológica no Brasil. Como parte do projeto BRA9061, estamos organizando o evento EVT2208107 – Expert Mission on Monitoring and risk assessment of mining dams and ponds containing radionuclidesEsse evento consistirá em um workshop a ser realizado entre os dias 17 e 26 de abril de 2023, que terá a participação de dois especialistas com experiências expressivas e destaque internacional na área de barragens de rejeitos radioativos”, informou a CNEN. 

Os especialistas foram sugeridos pela AIEA aceitos pela CNEN, informou a Comissão. Mas por que ficou sem divulgação? “O evento tem como público-alvo servidores da CNEN, e de alguns outros órgãos com relação direta com o tema, quais sejam: da Agência Nacional de Mineração (ANM), das Indústrias Nucleares do Brasil (INB), da Agência Nacional de Águas (ANA) e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA). A programação do evento inclui uma visita técnica à instalação da Unidade de Descomissionamento de Caldas (UDC/Caldas), com objetivo de conhecer uma barragem de rejeitos radioativos. Os custos dos especialistas convidados, com passagens e hospedagens, ficaram a cargo da AIEA. Os demais custos relacionados às diárias e passagens são de responsabilidade dos participantes junto às suas instituições”. 

O blog quis saber também quem banca financeiramente o evento. “A AIEA financia passagens e hospedagens dos especialistas convidados e cabe aos demais participantes obterem o financiamento de suas respectivas instituições. A INB está apoiando o evento viabilizando a visita técnica à UDC/Caldas, onde também serão realizadas palestras entre os dias 24e 26/04/2023.  A CNEN está arcando apenas com os custos dos deslocamentos de seus servidores para a visita à instalação em Poços de Caldas (MG), com objetivo de permitir uma maior troca de experiências com os especialistas”.  

Os especialistas foram indicados pela AIEA em função do objetivo do projeto. Os critérios de escolha foram também da AIEA, “baseados no conhecimento científico”, aprovados pela Comissão. A Unidade de Caldas foi a primeira mina de urânio do País e hoje está executando um conjunto de ações para o seu descomissionamento, que deve “cumprir os requisitos aplicáveis das Normas da CNEN e possuir Planos de Proteção Radiológica Ambiental e Ocupacional”.  

FOTO: BARRAGEM – CALDAS – 

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sexta-feira, 7 de abril de 2023

Presidente Lula tira a Nuclep do programa de privatização

 


O presidente Luiz Inácio Lula da Silva retirou nesta sexta-feira (07/04) a Nuclep - Nuclebras Equipamentos Pesados - em Itaguaí, (RJ), do programa nacional de privatização. A empresa foi criada pelo acordo Brasil-Alemanha, de 1975, sob o guarda-chuva da holding Nuclebras, para fabricar equipamentos para as usinas atômicas de Angra dos Reis e o prometido submarino nuclear, por exemplo. 

Desde fevereiro, os funcionários têm feito manifestações na entrada da Nuclep exigindo a exoneração do presidente da empresa, o contra-almirante Carlos Henrique Silva Seixa e de toda a diretoria militar da empresa.  Seixas, segundo eles, foi nomeado diretor administrativo no governo de Michel Temer, julho de 2016; acumulou a presidência interinamente em abril de 2017; em dezembro do mesmo ano foi nomeado presidente; mantido no cargo durante toda a gestão do então presidente Jair Bolsonaro. Nesse meio tempo, o número de empregados caiu de 1058 para 762. 

Na terça-feira (4/4), os sindicalistas e representantes da Associação dos funcionários da Nuclep se reuniram em Brasília com o ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência da República, Marcio Macedo. Eles reiteraram as demandas. “Ouvi as reinvindicações dos representantes e me comprometi no diálogo para buscar soluções”, afirmou o ministro. 

EXONERAÇÃO - 

O movimento pela saída de Seixas está em curso desde fevereiro, quando a diretoria do Sindicato dos Metalúrgicos do Rio de Janeiro, em ata da assembleia geral extraordinária dos trabalhadores da Nuclep, consignou o pedido de destituição do presidente e de sua diretoria. O documento endereçado aos parlamentares da base aliada do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, manifesta a insatisfação com a permanecia dos dirigentes da Nuclep.  Acusam a direção da empresa de responsabilidade pela “perda dos diretos sociais, trabalhistas e financeiros sofridas pelos trabalhadores”. Assinam o documento o presidente do sindicato, Jesus Cardoso dos Reis Santos e o diretor, Melquizedeque Cordeiro Flôr. Ambos estão sendo interpelados judicialmente pelo presidente da Nuclep; o diretor administrativo, contra almirante Oscar Moreira da Silva Filho; e o diretor comercial e Industrial, Nicola Mirto Neto.

No documento enviado à Justiça, Seixas e os dois diretores da Nuclep afirmam que estão se sentindo “ofendidos em sua honra, especialmente quanto à afirmação de violação dos direitos sociais, trabalhistas e financeiros dos trabalhadores”. Ele também está sendo acusado de mandar cortar uma antiga árvore que fazia sombra bem no caminho da Nuclep. Nega o corte da árvore e diz que ingressou na empresa no governo da presidente Dilma Rousseff. 

ACORDO BRASIL -ALEMANHA - 

A Nuclep nasceu a partir do acordo nuclear Brasil-Alemanha, firmado pelo presidente Ernesto Geisel, em 27 de junho de 1975, que originou a holding Nuclebras, e diversas subsidiárias, como a empresa em Itaguaí. Previa-se, na época, a construção de oito usinas atômicas e o enriquecimento de urânio pelo método “Jet nozle”, que sequer a Alemanha dominava. Com o passar do tempo, mais precisamente no final da década de 80, a Marinha conseguiu enriquecer urânio por ultracentrifugação, utilizando verbas secretas, como a “Delta 3”, no Centro Experimental de Aramar, São Paulo. 

A Nuclep já enfrentou muitos problemas porque não havia demandas para as usinas: apenas a norte-americana Angra 1 e a alemã Angra 2 foram inauguradas. Já Angra 3, a segunda unidade pelo acordo, começou a ser erguida em 1984 e permanece em construção. A Nuclep passou a atender às demandas de submarinos convencionais e do protótipo do submarino nuclear. Além disso, expandiu as suas atividades para outras áreas. Produz equipamentos pesados e estratégicos à diversos setores da indústria, atuando nas áreas nuclear, offshore, químico/petroquímico, naval, siderúrgica, mineração, hidrelétrica, termoelétrica, petróleo e gás. 

A Nuclep ocupa uma área de 1.5 milhão de metros quadrados, com 85 mil metros quadrados de área fabril, localizada no município de Itaguaí, com acesso para três grandes capitais brasileiras: São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. 

FOTO: Sindimetal – manifestação - 

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Cerca de 6.440 tambores enferrujados com material radioativo estão na fila para serem reembalados em Caldas (MG)


Quarenta por cento, ou seja, 6.440 tambores enferrujados, de um total de  16.100, contendo material radioativo denominado Torta II (urânio e tório) continuam na fila para serem reembalados na Unidade de Caldas (MG), da Indústrias Nucleares do Brasil (INB), sucessora da paulista Nuclemon, que operou no Brooklin. O material é mais conhecido como “herança maldita” do que restou da empresa, fechada em 1993, e foi levado para Caldas na “calada da noite”, como o Blog tem informado. Esta semana, a INB informou que no mês passado, a remediação dos embalados de Torta II atingiu 60%.

 “A remediação consiste na substituição dos embalados de Torta II por novos tambores metálicos e na substituição dos paletes que comportam o material. A atividade, que está em sua segunda fase, foi aprovada e está sendo fiscalizada pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN)”. O Blog também tem informado a intenção de a INB transferir de Botuxim e Interlagos o restante do material radioativo da Nuclemon para unidade de Caldas. 

Segundo a estatal, a primeira fase de remediação dos 16.100 tambores aconteceu de janeiro a maio de 2022, quando onde foram priorizadas as pilhas instáveis e foi possível superar a meta com menos de dois meses de operação, tendo, por fim, um resultado de sobre-embalagem e substituição de paletes de 3.500 tambores metálicos. 

PRIORIDADE: OS MAIS ENFERRUJADOS - 

A segunda fase da atividade iniciou em setembro de 2022 com meta de remediação de 16.100 tambores metálicos. Após seis meses de operação, foi atingido 60% de embalados remediados. “Na primeira parte da operação foram priorizados os embalados mais oxidados (enferrujados). Logo, a segunda etapa tem sido relativamente mais fácil e sua conclusão está prevista até novembro de 2023”, explicou o Gerente de Descomissionamento de Caldas, João Viçozo da Silva Junior. “Essa sobre-embalagem implica na melhoria da capacidade de contenção desses embalados e também, uma vez que eles estão empilhados, na melhoria da capacidade de sustentação das pilhas”, finalizou o gerente. 

Os profissionais envolvidos na operação passaram por diversos treinamentos antes do início da atividade, segundo a empresa. Para os funcionários do hospital contratado pela INB, foram ministrados treinamentos de proteção radiológica e de atendimento à emergência radiológica.

ANTPEN - 

O material denominado de Torta II é um resíduo proveniente do tratamento químico da monazita. Centenas de trabalhadores da Nuclemon, fechada em 1992, se contaminaram com o material radioativo e muitos morreram com câncer e outras doenças respiratórias. As vítimas e familiares doentes fundaram em 2006, a ANTPEN, Associação Nacional dos Trabalhadores da Produção de Energia Nuclear. Eles lutam na Justiça por indenização e garantia permanente de plano de saúde que conquistavam depois de muita persistência de seus advogados.

PRIMEIRA MINA DE URÂNIO - 

Conforme informações oficiais, a Unidade em Descomissionamento de Caldas - UDC, inaugurada em 06 de maio de 1982, foi a primeira unidade de extração e beneficiamento de minério para a produção de concentrado de urânio no País, a etapa inicial do Ciclo do Combustível Nuclear. As atividades de produção dessa unidade cessaram em 1995 devido à falta de interesse do mercado e a indefinição sobre os rumos do programa nuclear brasileiro.

 A UDC compreende uma área de 1.360 hectares e está localizada no município de Caldas, sul de Minas Gerais. Atualmente é realizado o controle dos materiais remanescentes da mineração e beneficiamento de urânio através do tratamento de água ácida, do gerenciamento de resíduos e rejeitos sólidos, da gestão de segurança de barragens, da gestão ambiental da área, incluindo recomposição da vegetação, da gestão da segurança dos trabalhadores e do monitoramento radiológico e ambiental da região. Tem sido frequentes denúncias de problemas de contaminação nas barragens. 

“A UDC vem executando diversas ações de descomissionamento, como a desmontagem e demolição de áreas industriais, a disponibilização de áreas atualmente usadas no tratamento de águas ácidas para suas recuperações ambientais, assim como a definição das melhores soluções de descomissionamento para a cava da mina, barragens e pilhas de resíduos de mineração”, informa a empresa. E mais: “Essas soluções serão descritas em um Plano de Ambiental de Descomissionamento, nos termos da regulamentação ambiental, e em um Plano de Abandono, nos termos da regulamentação nuclear”. Depós de tanto tempo. 

E Completa: “O comissionamento compreende as ações, ao término da vida útil do empreendimento, para a mitigação de impactos ambientais e recuperação de áreas degradadas, objetivando disponibilizá-las a outros possíveis usos pela sociedade”. Fontes do blog comentam que as medidas já deveriam ter sido tomadas pelas décadas que a herança maldita se arrasta, provocando insegurança e medo na população local. 

FOTO: Acerto INB – 

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Angra 1 é religada

 


A usina Angra 1 foi conectada ao Sistema Interligado Nacional (SIN) hoje (7/4), às 17h19, após reparo das linhas de vapor do conjunto turbogerador.  A usina estava desligada desde a terça feira (4/4), quando foi inspecionada por técnicos da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen) e do Ibama. 

Segundo a Eletronuclear, a inspeção foi acordada entre os dois órgãos, tendo em vista a “liberação líquida não planejada que ocorreu em setembro” do ano passado em Angra 1. A liberação foi de material radioativo, não mencionada pela companhia. 

Integrantes do Ministério Público Federal, do Instituto Estadual do Ambiente (Inea) e do Instituto de Radioproteção e Dosimetria (IRD) também participaram da inspeção. A reportagem sobre o vazamento em setembro foi publicada há cerca de um mês pelo Jornal O Globo. 

FOTO: acervo Eletronuclear – 

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terça-feira, 4 de abril de 2023

Angra 1 será desligada hoje (04/04) por problemas no turbogerador

 


A usina nuclear Angra 1 também está com problemas no turbogerador e será desligada nesta terça-feira (04/04), às 19h. A Eletronuclear fez o comunicado ao Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). O desligamento é em comum acordo com o Operador, segundo a companhia. “A parada tem como objetivo possibilitar o reparo em uma tubulação de vapor do conjunto turbogerador”. Como Angra 2, Angra 1 também está com o sistema problemático. O equipamento faz parte do sistema elétrico da usina, sem nenhuma relação com a parte nuclear. A duração prevista da paralização é de dois dias. A empresa manterá todos informados sobre a evolução da situação, informou.

sexta-feira, 31 de março de 2023

Glória Alvarez revela assédio no passado em redação. No setor nuclear, faz observações e críticas. Não perca!

 


Diretora conselheira da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), Glória Alvarez tem vasta experiência em assessorias de imprensa, como na Eletronuclear, mas também passou por grandes empresas de jornalismo como a TV Globo, TV Educativa, entre outras. Glória Alvarez trabalhou para a Associação Brasileira de Energia Nuclear (ABEN), mas faz ressalvas, por achar que a entidade precisa de mais planejamento, por exemplo. Na área nuclear, aliás, ela avisa: “Sem levar a sério a comunicação transparente, massiva, clara, não vejo um futuro brilhante para a área nuclear”. A jornalista tarimbada, com um currículo bastante diversificado, admitiu assédio, em uma das redações, no passado: chegou a ser demitida, “por não aceitar as paqueras”. Nas chefias, lutou por concurso e por melhores condições de trabalho para a sua equipe. Numa assessoria, tirou lágrimas de alegria de um funcionário idoso quando conseguiu espaço perto de uma janela para todos, o que antes era privilégio dos chefes. Não perca a entrevista com Glória Alvarez, encerrando março, em homenagem às mulheres. 

BLOG: Como começou a sua participação na área nuclear?

 GLÓRIA ALVAREZ: Comecei a trabalhar na área no ano 2000, sem experiência no setor. Já trabalhara como repórter e apresentadora em TV (Globo e Educativa). Como repórter em revista (Fatos e Fotos e Desfile); em jornais (Globo, Última Hora e JB); e como assessora na editora Nova Fronteira; como diretora de Comunicação no Tribunal de Justiça do RJ.

BLOG: O que acha que foi decisivo para cobrir a área nuclear? Conhecia, gostava?

GLÓRIA: Desconhecia inteiramente a área nuclear. Foi um desafio. Estudei muito, pois meu cargo era diretamente ligado ao presidente e à diretoria, que me davam muito espaço. Com eles aprendi muito. Cheguei no ano 2000 e o presidente era o engenheiro Ronaldo Fabrício que declarou, logo que cheguei, não ter entendido meu currículo. Sim, porque àquela altura constava no meu currículo cultura (livros, especialmente), moda, obituário, rotina de rua, Caderno da Família, Direito e Justiça. Enfim bastante diversificado. Especialmente para atender a uma empresa focada em energia nuclear. 

BLOG: Naquela época, sem as ferramentas digitais, quais os maiores desafios técnicos? 

GLÓRIA: A primeira vez que ouvi falar em ferramentas digitais foi quando o William Waack, então correspondente do JB na Alemanha, que veio visitar a redação e deu uma parada no Informe JB, onde eu era subeditora do Ancelmo Góis. Ficou nos contando as aventuras de ter à mão um PC (Personal Computer) para trabalhar. Fiquei deslumbrada. Até então usava uma Remington azul, com papel carbono para copiar as matérias. 

BLOG: Como era a relação com os colegas? Tranquila? 

GLÓRIA: Na mídia impressa e televisiva sempre tive ótimas relações com colegas. A troca de informações, a confirmação de algum fato que desconhecia, eram oportunidades maravilhosas para conhecermos melhor nossos companheiros.

BLOG: E na comunicação empresarial? 

GLÓRIA: Na comunicação empresarial sabíamos que determinados acessos diretos à diretoria era motivo de ciúmes. Mas, nada que impedisse nosso trabalho. Com as equipes de Comunicação com as quais trabalhei fiz questão de melhorar as condições de trabalho. Lembro que ao chegar no Tribunal de Justiça encontrei a assessoria encurralada num minúsculo espaço, sem janelas. Redatores ficavam de frente para a parede. Apelei ao então presidente da Casa, desembargador Thiago Ribas, por um espaço melhor. Acabamos ganhando uma sala que havia sido de um desembargador, com janelão aberto para a Baía da Guanabara. O funcionário mais antigo da assessoria, um senhor idoso, ao ser instalado de frente para a baía, chorou de alegria.

 BLOG: E na Eletronuclear? 

GLÓRIA: Ao chegar na Eletronuclear fiz uma enorme pressão para que o novo concurso público tivesse espaço para jornalista concorrer. E consegui. Com isso, a segunda colocada, Juliana Rezende, veio a ser uma competente auxiliar. A cada ocasião de possibilidade de aumentar seu salário, eu o fazia. Ela continua na Casa, brilhando, e muito agradecida até hoje. 

BLOG: Sofreu algum preconceito ou vivenciou ação machista por ser mulher? 

GLÓRIA: Quando fui trabalhar no jornal O Globo, fiquei no Segundo Caderno, chefiado por um conhecido jornalista.. Ainda como estagiária, ele chegou a me demitir porque eu não aceitava as paqueras. Fui à direção reclamar e quem me protegeu foi a Margarida Autran. Voltei para a redação e logo depois fui efetivada. Margarida é uma grande amiga, até hoje. Ações machistas enfrentei em várias ocasiões. Algumas acenavam com possibilidades de melhorias dentro da carreira. À época, quanto mais publicidade déssemos a esses assédios, pior para a mulher. Negávamos e ficávamos caladas. 

BLOG: Quais as maiores dificuldades? E desafios em termos de relacionamento, de divulgar bem a informação? 

GLÓRIA: Logo que cheguei no setor nuclear fiz várias conversas com aqueles que poderiam vir a ter contato com a imprensa e, também, sempre que oportuno, com os funcionários em geral. O tema era a necessidade de sermos o mais transparentes possível. Evidente que a desconfiança rondava o meu trabalho. Eu era uma jornalista, com muitos contatos, e “perigosa”. O trabalho foi “de formiguinha” até ganhar credibilidade de todos sem deixar de atender à imprensa. Um dos grandes desafios era o vocabulário usado na indústria nuclear. O que para diretores e funcionários era muito claro, para o público em geral era ilegível. Aos poucos fui adequando o vocabulário e criei um GUIA ELETRONUCLEAR DE PRONTA RESPOSTA. Isto é, cada setor respondia a perguntas que programávamos. O GUIA era publicado no site da empresa, o que facilitava muito o atendimento à imprensa. Fazíamos atualizações periódicas e cada gerente de área era responsável pelas respostas. 

BLOG: Na Eletronuclear como foram os desafios e as dificuldades?

GLÓRIA: Um atendimento bem complicado foi no dia 31 de dezembro de 2009. O temporal que desabou em Angra dos Reis e na Ilha Grande. Atingiu hotéis, barrancos na estrada e o risco de atingir as usinas nucleares mobilizou a mídia. Às 8h do dia 01/2014 eu já estava na casa do presidente, na Barra da Tijuca, atendendo à imprensa. 

BLOG: Trabalhou como assessora em outras empresas? 

GLÓRIA: Fui assessora do Corredor de Transporte Centro-Leste, fiz algumas campanhas eleitorais e fui gerente de Comunicação do Sebrae-RJ. 

BLOG: Desde quando assessora a Associação Brasileira de Energia Nuclear (ABEN)? 

GLÓRIA: Assessorei a ABEN por pouquíssimo tempo. Considero a Comunicação deles complicada não só por falta de recursos, mas, também, (ou por consequência) por falta de profissionalismo e planejamento.

BLOG: Hoje é bem mais fácil trabalhar porque há comunicação digital ou não? 

GLÓRIA: Claro que facilitou a nossa vida. O celular é uma ferramenta indispensável, hoje. Com ele criamos e publicamos textos, fazemos reuniões, discutimos matérias, entrevistamos fontes, ilustramos, enfim, temos à mão todos os recursos do antigo PC. 

BLOG: Como analisa o futuro da comunicação na área nuclear no Brasil? 

GLÓRIA: A área nuclear precisa entender que a Comunicação é fundamental para hoje e para amanhã. Pouquíssimas pessoas conhecem os benefícios da energia nuclear. Para o conforto da eletricidade, para a prevenção e cura da saúde o meio ambiente. Sem levar a sério a comunicação transparente, massiva, clara, não vejo um futuro brilhante para a área nuclear. 

PERFIL: Carioca de São Cristóvão e criada em Santa Tereza. Filha de comerciante natural da Galícia, Espanha. A mãe, natural do município de Rio Bonito (RJ). Tem um filho advogado três netos. Formada em jornalismo televisivo pela Faculdade Hélio Alonso; pós graduada em Comunicação Empresarial; formada em Cochee/ Diretora de Mulher e LGBTIA+ na Associação Brasileira de Imprensa (ABI), onde também é conselheira. 

FOTO: Acervo pessoal-  

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Tereza Lobo conta um pouco a sua trajetória no setor nuclear na época da ditadura e sem internet. "Nada fácil", lembra a jornalista neste mês em homenagem às mulheres.

 


Não era nada fácil cobrir energia nuclear na ditadura, sem as ferramentas digitais disponíveis hoje, correndo de uma matéria para a outra, esperando na fila do telex para enviar um texto. Essas são algumas das lembranças da jornalista Tereza Lobo, carinhosamente chamada de Teca, pela legião de amigos. Depois de passar pelo Jornal do Comércio, Folha de S. Paulo, ela saiu do Jornal do Brasil, acumulando na bagagem muitas lembranças de reportagens das mais variadas sobre a história nuclear brasileira. Quem “correu atrás da notícia” naquela época sabe bem das intenções que rondavam algumas cabeças em defender de armas nucleares. “Era difícil cobrir o setor nuclear, em plena ditadura. A grande pergunta, com respostas duvidosas, era se o Brasil queria fazer sua bomba atômica. Afinal, era um governo de militares”, relembra Tereza. Aqui, ela conta parte de sua trajetória profissional, conta como era preciso vencer as dificuldades para apurar uma matéria e até de uma passagem em Angra 1 quando um jornalista foi proibido de entrar na usina.  Tereza não lembra ter vivido preconceito ou machismo., nesta entrevista no mês em homenagem às mulheres.  

A cobertura hoje? “A quantidade de acontecimentos e notícias é gigantesca neste mundo em ebulição, o que desloca o setor nuclear pra fora da pauta. A cobertura mais detalhada e confiável fica por conta de publicações cientificas ou, no dia a dia, blog especializado que acompanha o setor e busca informações com fontes diversas, não se restringindo ao oficial. São muitos argumentos contra e a favor da energia nuclear. Fica difícil bater o martelo”. Eis a entrevista: 

BLOG:  Quando começou a cobrir a área da energia nuclear? Onde trabalhava? 

TEREZA LOBO: Foi no meu primeiro emprego, no Jornal do Comércio, final dos anos 1970.  Fiquei responsável por toda a área de energia: petróleo, elétrica e nuclear. Logo depois fui para a sucursal do Estado de S. Paulo, no Rio, cobrindo o mesmo setor, e acabei me especializando. Por isso mesmo fui para a Folha de S. Paulo e Jornal do Brasil.

BLOG: Já conhecia o assunto ou foi novidade? 

TEREZA: Conhecia muito pouco, mas pesquisei e estudei bastante. Adoro o tema até hoje, muito polêmico e de grande importância geopolítica. Afinal, é uma energia que pode levar à bomba atômica, daí a interferência do mundo, liderada pelos EUA, no programa nuclear do Irã. 

BLOG: Como analisa as dificuldades daquela época sem internet? 

TEREZA: O Google da época eram os folhetos das empresas, matérias de jornais e revistas, departamento de pesquisa do jornal onde trabalhava, um ou outro livro achado depois de vasculhar muito as livrarias. Um calhamaço de papel que entupia as gavetas na redação.  E uma busca frenética por fontes de informação. Corria-se contra o tempo para que as matérias ficassem prontas até o fechamento do jornal. As redações usavam uma engenhoca, chamada telex, que perfurava uma fita amarela com códigos que reproduziam o texto. As sucursais transmitiam tal fita para a sede do jornal, que a decodificava. Simples assim. Viajar e voltar no mesmo dia pra escrever matéria na redação era uma aventura. Às vezes levava minha maquininha de escrever, meu notebook. Aí a dificuldade era passar a matéria para o jornal. Se havia algum telefone disponível – não havia celular – ditava-se o texto para um paciente colega da redação. Ou corria-se para o Correios que transmitiria a matéria por telex. Em um evento com cobertura de vários jornais era preciso voar para não enfrentar fila no telex, o que atrasaria o fechamento do jornal. 

BLOG: Como era a busca por informação? 

TEREZA: Era difícil cobrir o setor nuclear, em plena ditadura. A grande pergunta, com respostas duvidosas, era se o Brasil queria fazer sua bomba atômica. Afinal, era um governo de militares. A CNEN (Comissão Nacional de Energia Nuclear) fez um curso técnico para jornalistas, mas evitava entrevistas. Aprendemos muito no curso, o que foi fundamental para não cometer erros na parte técnica e desqualificar a matéria toda. Sabia até desenhar um esquema grotesco das usinas nucleares.

BLOG: Os físicos ajudavam. 

TEREZA? Sim. Foram os físicos, como Luís Pinguelli Rosa e Ênio Candotti, duas referências nacionais, engenheiros e geólogos, entre outros, que complementavam as informações técnicas e comentavam os acontecimentos, muitas vezes com declarações bombásticas (sem trocadilhos). Não era muito fácil conseguir informações. Em compensação, quando surgia algum fato, como atrasos, acidentes, custos ou alguma declaração polêmica, era comum ganhar a primeira página porque a notícia gerava discussão. Mesmo porque, havia uma discussão mundial sobre energia nuclear, com polaridade de opiniões, alimentando o interesse jornalístico. A Folha de S. Paulo me dava muita liberdade para escrever. O programa nuclear brasileiro foi uma tragédia desde o começo, um sorvedouro de dinheiro, impossível de ser contabilizado, uma sucessão de erros, muitos escândalos.  O Brasil comprou a primeira usina nuclear, Angra 1, da americana Westinghouse, um projeto obsoleto abandonado pela empresa já naquela época. Não deu outra. Lá pelas tantas, o primeiro acidente. Diagnóstico: erro de projeto, devidamente apontado pelos físicos. Depois, em 1975, veio o Programa Nuclear firmado com a Alemanha que previa a construção de oito usinas e, até hoje, somente Angra 2 está em operação, enquanto Angra 3 está parada devido a denúncias de corrupção. Foram tantas as paradas e adiamentos de obras e de geração que as usinas acabaram com o apelido de vaga-lume nas páginas dos jornais. Os equipamentos de Angra 2 ficaram armazenados um tempão se deteriorando e acumulando custos de manutenção e juros. As usinas demoraram tanto a entrar em operação que já são consideradas obsoletas, embora o governo fale em atualização, o que gera muitas dúvidas, principalmente quanto à segurança.  Tudo isso, é claro, gera muita polêmica e material para a mídia. 

BLOG: Na época, o que achava sobre o uso da energia nuclear? 

TEREZA: O abastecimento de energia é fundamental para o desenvolvimento de uma nação e usinas nucleares respondem por uma grande fatia da matriz energética de alguns países. No entanto, um acidente com vazamento de radioatividade para o meio ambiente pode levar à morte milhares de pessoas.  Os acidentes na usina nuclear de Chernobil, em 1986, na Ucrânia ainda soviética, e na de Fukushima, em 2011, no Japão, deixaram marcas traumáticas e por muito tempo mobilizou a mídia. A radiação de Chernobil chegou a outros países europeus e a então URSS não pode mais esconder o ocorrido do mundo. Chernobil, até hoje, é uma cidade fantasma. E o grave acidente na usina de Fukushima levou a chanceler federal da Alemanha Angela Merkel a lançar o programa de desativação de 17 usinas até o final de 2022. E foi criticada por isso. No entanto, três usinas ainda estavam operando no ano passado quando começou a guerra na Ucrânia e o consequente corte no fornecimento de gás russo. Desativar usinas nucleares por serem consideradas perigosas ou ficar sem energia durante o inverno congelante? O atual chanceler Olaf Scholz, com apoio do parlamento, adiou a desativação das três usinas até abril. Diante disso, as críticas devem considerar o contexto da época em que as decisões são tomadas, com a liberdade de serem repensadas frente a um mundo velozmente mutável.

BLOG: O que achava da participação dos militares no setor? Era cordialmente recebida pelos assessores de imprensa na época? 

TEREZA: O programa nuclear era um mistério, com notícias veladas sobre programas paralelos como o projeto Atlântico, dos militares, e o projeto Solimões, da Aeronáutica. A construção de submarinos em Itaguaí, incluindo um de propulsão nuclear, gerava desconfianças. Os assessores de imprensa eram cordiais, assim como as fontes oficiais, mas muita pergunta ficava com resposta atravessada. Certa vez o almirante Maximiano da Fonseca acabou falando para os jornalistas que o Brasil queria ter a bomba atômica. Manchete dos jornais e um reboliço no governo para desmentir. A Folha de S. Paulo chegou a interromper minhas férias porque eu seria processada por causa de uma matéria em que dizia que o programa nuclear tinha três preços: o oficial, o com juros e multas e o contabilizado pelo setor. Desistiram do processo.

BLOG:  Havia algum tipo de preconceito ou machismo por ser repórter mulher? Alguma agressividade por parte de assessores ou entrevistados da área nuclear?

TEREZA: Nunca percebi preconceitos ou machismo nessa área. Mesmo o lado oficial não era agressivo, mas houve um caso em que um dos jornalistas foi impedido de entrar em um evento na usina Angra 1. 

BLOG: Quando parou de cobrir nuclear?  Boas lembranças? 

TEREZA: Os jornais impressos foram acabando, pedi demissão do Jornal do Brasil em 1996, aos prantos.  Muitas boas lembranças, muitas viagens, entrar em instalações de acesso restrito. Em uma viagem à Alemanha, desci a uma mina de sal onde ficam armazenados os tambores de rejeitos radioativos. Fiquei assombrada. A dezenas de metros abaixo da superfície abre-se uma caverna branca tão grande que permite o tráfego folgado de veículos de certo porte.

BLOG: O que acha da cobertura da energia nuclear na atualidade? E da energia nuclear? 

TEREZA: A quantidade de acontecimentos e notícias é gigantesca neste mundo em ebulição, o que desloca o setor nuclear pra fora da pauta. A cobertura mais detalhada e confiável fica por conta de publicações cientificas ou, no dia a dia, blog especializado que acompanha o setor e busca informações com fontes diversas, não se restringindo ao oficial. São muitos argumentos contra e a favor da energia nuclear. Fica difícil bater o martelo. 

PERFIL:

Me formei em Comunicação pela PUC – Rio. Trabalhei no Jornal do Comercio, Folha de S. Paulo e Jornal do Brasil. Passei um tempo escrevendo para alguns veículos como freelancer. E ingressei no mundo corporativo, sempre no setor de Comunicação, trabalhando para a Coca-Cola e depois, na Petrobras, como editora entre outras funções. Hoje me dedico ao estudo de história e geopolítica e me aventuro nas artes. Acompanho os astros pra entender um pouco o que acontece aqui Terra. O poderoso Plutão, por exemplo, foi descoberto em 1930. Início do nazismo, incubador da Segunda Guerra Mundial que culminou com o lançamento de duas bombas atômicas.

FOTO: Acervo pessoal – 

COLABORE COM O BLOG – CINCO ANOS DE JORNALISMO INDEPENDENTE – AGRADECEMOIS A SUA CONTRIBUIÇÃO - PIX: 21 99601-5849.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                

E o grave acidente na usina de Fukushima levou a chanceler federal da Alemanha Angela Merkel a lançar o programa de desativação de 17 usinas até o final de 2022. E foi criticada por isso. No entanto, três usinas ainda estavam operando no ano passado quando começou a guerra na Ucrânia e o consequente corte no fornecimento de gás russo. Desativar usinas nucleares por serem consideradas perigosas ou ficar sem energia durante o inverno congelante? O atual chanceler Olaf Scholz, com apoio do parlamento, adiou a desativação das três usinas até abril. Diante disso, as críticas devem considerar o contexto da época em que as decisões são tomadas, com a liberdade de serem repensadas frente a um mundo velozmente mutável. BLOG: O que achava da participação dos militares no setor? Era cordialmente recebida pelos assessores de imprensa na época? TEREZA: O programa nuclear era um mistério, com notícias veladas sobre programas paralelos como o projeto Atlântico, dos militares, e o projeto Solimões, da Aeronáutica. A construção de submarinos em Itaguaí, incluindo um de propulsão nuclear, gerava desconfianças. Os assessores de imprensa eram cordiais, assim como as fontes oficiais, mas muita pergunta ficava com resposta atravessada. Certa vez o almirante Maximiano da Fonseca acabou falando para os jornalistas que o Brasil queria ter a bomba atômica. Manchete dos jornais e um reboliço no governo para desmentir. A Folha de S. Paulo chegou a interromper minhas férias porque eu seria processada por causa de uma matéria em que dizia que o programa nuclear tinha três preços: o oficial, o com juros e multas e o contabilizado pelo setor. Desistiram do processo. BLOG:  Havia algum tipo de preconceito ou machismo por ser repórter mulher? Alguma agressividade por parte de assessores ou entrevistados da área nuclear? TEREZA: Nunca percebi preconceitos ou machismo nessa área. Mesmo o lado oficial não era agressivo, mas houve um caso em que um dos jornalistas foi impedido de entrar em um evento na usina Angra 1. BLOG: Quando parou de cobrir nuclear?  Boas lembranças? TEREZA: Os jornais impressos foram acabando, pedi demissão do Jornal do Brasil em 1996, aos prantos.  Muitas boas lembranças, muitas viagens, entrar em instalações de acesso restrito. Em uma viagem à Alemanha, desci a uma mina de sal onde ficam armazenados os tambores de rejeitos radioativos. Fiquei assombrada. A dezenas de metros abaixo da superfície abre-se uma caverna branca tão grande que permite o tráfego folgado de veículos de certo porte. BLOG: O que acha da cobertura da energia nuclear na atualidade? E da energia nuclear?  TEREZA: A quantidade de acontecimentos e notícias é gigantesca neste mundo em ebulição, o que desloca o setor nuclear pra fora da pauta. A cobertura mais detalhada e confiável fica por conta de publicações cientificas ou, no dia a dia, blog especializado que acompanha o setor e busca informações com fontes diversas, não se restringindo ao oficial. São muitos argumentos contra e a favor da energia nuclear. Fica difícil bater o martelo. BREVE CURRICULUM - Me formei em Comunicação Social pela PUC – Rio. Trabalhei no Jornal do Comercio, Folha de S. Paulo e Jornal do Brasil. Passei um tempo escrevendo para alguns veículos como freelancer. E ingressei no mundo corporativo, sempre no setor de Comunicação, trabalhando para a Coca-Cola e depois, na Petrobras, como editora entre outras funções. Hoje me dedico ao estudo de história e geopolítica e me aventuro nas artes. Acompanho os astros pra entender um pouco o que acontece aqui Terra. O poderoso Plutão, por exemplo, foi descoberto em 1930. Início do nazismo, incubador da Segunda Guerra Mundial que culminou com o lançamento de duas bombas atômicas. FOTO: Acervo pessoal – COLABORE COM O BLOG – CINCO ANOS DE JORNALISMO INDEPENDENTE – AGRADECEMOIS A SUA CONTRIBUIÇÃO - PIX: 21 99601-5849.

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