segunda-feira, 25 de abril de 2022

Medicina nuclear: IPEN inaugura laboratório com microscópio capaz de visualizar câncer cervical

 


O Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN-SP) inaugura nesta sexta-feira (29/4), às 14h30, o seu primeiro laboratório com microscópio que terá capacidade de visualizar câncer cervical em áreas grandes, além de outras atividades como a realização de análise dos modos de vibração de uma molécula. O microscópio sub-nano a laser com tecnologia francesa: o SNOM (Near-field Scanning Optical Microscopy), se destina a desenvolver novos radiofármacos (insumos utilizados no diagnóstico e combate ao câncer). O IPEN obteve cerca de R$ 16 milhões através de edital da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), com o projeto “Capacitação cientifica, tecnologia e em infraestrutura em radiofármacos e radiações a serviço da Saúde”. 

Segundo o coordenador responsável pelo projeto, Marcelo Linardi, o IPEN, Instituto da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) será a terceira instituição a adquirir o equipamento SNOM deste tipo no mundo, e o mínimo que se espera do equipamento são resultados de ponta. "Para termos ideia do alto nível de caracterização que o equipamento fornece, os grupos de pesquisa que o utilizam publicam com relativa frequência na Nature, uma das mais prestigiadas revistas científicas, com grande fator de impacto. Agora o IPEN terá condições técnicas para produzir trabalhos na área e radiofarmácia e nanotecnologia de alto nível", avaliou Linardi. 

UMA INFINIDADE DE APLICAÇÕES - 

Os pesquisadores Anderson Zanardi de Freitas, coordenador do projeto Multiusuário FAPESP no qual esse equipamento foi enquadrado; e Niklaus Ursus Wetter, do Centro de Lasers e Aplicações, que abriga o laboratório, são os responsáveis pelo equipamento SNOM. Segundo Wetter, são inúmeras as possibilidades de aplicações. "Fica até difícil mencionar as vantagens desse equipamento, tamanha a sua diversidade, desde visualização de câncer cervical em áreas grandes até a visualização de uma única molécula e análise dos modos de vibração desta molécula", informou. 

Ao destacar a importância do IPEN, Linardi lembrou também que o Centro de Radiofarmácia (CECRF) é uma área estratégica do Instituto, que desenvolve e produz radioisótopos e radiofármacos para a realização de diagnósticos e terapia em medicina nuclear. “Para ser uma instituição de vanguarda na pesquisa, desenvolvimento e produção de radiofármacos em prol da qualidade de vida humana, o IPEN deverá estar preparado para atender à demanda de comercialização dos radiofármacos, mesmo que crescente, e preparar-se para a introdução de novos produtos, mantendo o estado da arte no desenvolvimento de radiofármacos”, comentou. 

O IPEN E A NANOTECNOLOGIA - No mesmo evento está programado o lançamento do livro institucional “O IPEN e a Nanotecnologia” da autoria de Linardi, pesquisador emérito do Instituto. A publicação resume todas as atividades do Instituto no campo da ciência e tecnologia, que permeia as inúmeras e diversificadas atividades do IPEN, nas áreas de saúde, energia, materiais e ensino. 

O livro foi prefaciado pelo professor Ado Jorio de Vasconcelos do Laboratório de Nano-Espectroscopia, do Departamento de Física da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). “Nos últimos dois séculos, economia mundial tem exibido ciclos de crescimento ligados às revoluções industriais. Estas revoluções são precedidas por desenvolvimentos técnico-científicos disruptivos que mudam significativamente a nossa forma de vida. A primeira revolução industrial deu-se com o aparecimento da máquina a vapor, seguida de revoluções geradas pela introdução do sistema ferroviário, da energia elétrica, da indústria petroquímica e, por último, da tecnologia da informação. A próxima revolução tecnológica já exibe suas facetas, e apresenta-se relacionada ao desenvolvimento da nanotecnologia.”. 

FOTO: PESQUISADORES IPEN - 

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terça-feira, 12 de abril de 2022

Rocha apreendida pela PF não indica a presença de urânio (material radioativo), assegura o IPEN

 


O material apreendido pela Polícia Federal, no último dia 8, é uma rocha de ocorrência na natureza, e não indica a presença de Urânio; portanto, não representa qualquer ameaça à saúde, segundo análises preliminares do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN-CNEN/SP). Os valores de taxa de dose medidos são muito baixos e, do ponto de vista de Radioproteção, o risco é considerado desprezível, segundo informou Demerval Leônidas Rodrigues, coordenador de Segurança Nuclear, Radiológica e Física do IPEN/CNEN. 

“Todo material radioativo pertence à Classe 7, na classificação de produtos químicos perigosos, que vai de 1 a 9. Contudo, a periculosidade dos materiais radioativos depende de vários fatores, o principal é a atividade radioativa em Bq “Becquerel” do material (antiga unidade Ci “Curie”). Pelo laudo apreendido junto ao material pela Polícia, esse material teria o equivalente a 87g de Urânio, com taxa de dose muito baixa, o que, ainda assim, não apresenta risco à saúde”, afirmou. 

Rodrigues se refere à classificação da Organização das Nações Unidas (ONU), que separa os produtos químicos em nove classes: (1) explosivos; (2) gases; (3) líquidos inflamáveis; (4) sólidos inflamáveis; (5) substâncias oxidantes e peróxidos orgânicos; (6) substâncias tóxicas e substâncias infectantes; (7) material radioativo; (8) substâncias corrosivas; E (9) substâncias perigosas diversas. No caso dos materiais radioativos, de acordo com Rodrigues, os efeitos nocivos que podem causar danos à saúde humana decorrem da dose de radiação recebida por um indivíduo e essa, por sua vez, depende diretamente dos valores das taxas de exposição, da distância do indivíduo em relação ao material e do tempo de permanência próximo. 

Além disso, a dose de radiação recebida por um indivíduo também pode ser resultante da contaminação interna ou externa por materiais radioativos. Essa rocha apreendida, em particular, apresentou valores de taxa de dose muito baixos, similares àqueles encontrados no meio ambiente, e o material não passou por nenhum processo de beneficiamento, ou seja, é apenas uma pedra com suspeitas de conter Urânio e Tório. Portanto, de acordo com Rodrigues, não foi necessária implementar qualquer medida de proteção, como, por exemplo, isolamento de área e do próprio material. 

Rodrigues também afirmou que não existem quaisquer riscos resultantes ou associados a este material a moradores que vivem próximos à residência onde o material foi apreendido. Para uma conclusão mais segura, estão sendo empregadas diferentes técnicas de análise, em diferentes laboratórios do IPEN/CNEN. 

O Laboratório de Cristalografia Aplicada à Ciência de Materiais, do Centro de Ciência e Tecnologia dos Materiais (CCTM), está empregando a técnica fluorescência de raios X, sob a responsabilidade do físico Luis Gallego Martinez e do engenheiro Jesualdo Luiz Rossi. 

Segundo as análises feitas, a rocha contém compostos de silício, alumínio, potássio, cálcio e ferro, comuns em rochas e solos. Também seguiu amostra para o Laboratório de Análise Radiométrica, do Centro de Metrologia das Radiações do IPEN/CNEN, com a técnica de Espectrometria Gama de Alta Resolução, sob a responsabilidade de Marcelo Francis Maduar. Após essas análises, o IPEN/CNEN vai elaborar o relatório conclusivo. 

FOTO: CNEN. Crédito nota: Assessoria de Imprensa IPEN.  

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quinta-feira, 7 de abril de 2022

IPEN contesta acusações da SBMN sobre "interrupções frequentes" do fornecimento de radioisótopos para tratar pacientes com câncer

 


A nota oficial do presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Nuclear (SBMN), médico George Coura Filho, com “acusações” ao Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares, da Comissão Nacional de Energia Nuclear (IPEN-CNEN), responsabilizando a entidade por “interrupções frequentes" do fornecimento de radioisótopos para tratar pacientes com câncer, gerou mal estar. Ele diz na nota que recebeu com “muita satisfação” a aprovação, pela Câmara dos Deputados da PEC-517-2010, que autoriza a privatização da produção de radioisótopos (medicamentos com radiação para combater o câncer). Até aí, tudo bem, segundo os servidores - "é questão de opinião". Nos bastidores, contudo, contam que pode haver dificuldade na execução das parcerias entre as duas instituições.  A SBMB tem convênio com a  Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), com repasses de verbas através do IPEN. 

O blog contatou o gerente do Centro de Radiofarmácia do IPEN, o farmacêutico Emerson Bernardes, que tem mestrado e doutorado em Imunologia Básica e Aplicada pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo (FMRP-USP). Segundo ele, foram aportados recursos pela AIEA da ordem de 755 mil EUROS (cerca de RS 4 milhões), divididos de forma igualitária entre o IPEN, CNPEM (Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais) e SBMN. “Os recursos repassados para a SBMN, através da parceria com o IPEN-AIEA, serão utilizados para produção de Lutécio-177-PSMA, um novo radiofármaco para tratamento de um tipo de câncer de próstata mais agressivo (câncer de próstata metastático resistente à castração)”, informou, ao descartar o rompimento da parceria, que vem sendo comentada nos bastidores do IPEN..  

Quanto às acusações da SBMN, não desculpou: “O que deixou perplexa a maioria dos servidores do Centro de Radiofarmácia não foi o posicionamento da SBMN a favor da PEC 517-2010, mas sim a forma desrespeitosa com a qual se referiram ao IPEN. É uma inverdade, para não dizer leviandade, afirmar categoricamente que interrupções frequentes de fornecimento pelo IPEN prejudicaram a população brasileira”. 

Emerson Bernardes assegura que, nos últimos cinco anos, a única interrupção na produção de geradores foi devido à pandemia, a partir de 2020. Mesmo assim, afirmou, a instituição foi afetada apenas nas primeiras semanas quando não havia voos para o transporte de radioisótopos vindo do exterior. (O Brasil importa radioisótopos da Rússia, África do Sul e Holanda). 

“Nessa situação de pandemia, qualquer grupo privado que já estivesse estabelecido no Brasil sofreria as mesmas consequências. Fora a pandemia, tivemos o problema recente com a falta de orçamento para o IPEN em setembro de 2021, que já não vem ao caso neste momento. Portanto, sinto muito dizer que a SBMN e a sociedade brasileira dependem da importação da maior parte dos radioisótopos necessários para produção dos radiofármacos utilizados em cerca de 80% dos procedimentos de medicina nuclear e não há grupo privado que vá alterar essa situação de dependência internacional”, comentou. 

Na avaliação do gerente do Centro de Radiofarmácia, a falta de conhecimento leva a afirmações que acabam colocando a população brasileira contra o Instituto. “Nesse sentido, gostaria de destacar que o IPEN trabalha há mais de 60 anos, tendo sido pioneiro na produção e introdução de novos radiofármacos no Brasil. Se agora o momento for de abertura, se o Congresso Nacional  entendeu isso - não pelos motivos corretos-, se a população brasileira e a SBMN apoiam essa decisão, então que venham os novos tempos”, comentou.  

E foi adiante: “Por que acusar o IPEN, que vem sobrevivendo sem investimentos, e não questionar os grupos políticos, partidos políticos que deixaram esquecida a PEC por 10 anos? Além de ter seus servidores se aposentando, sem a devida reposição, mantendo a produção com trabalhos aos finais de semana e feriados atendendo a sociedade”. 

Sobre os preços que serão praticados pela iniciativa privada, questionou: “não serão os mesmos preços praticados pelo IPEN; obviamente serão muito mais altos. Ora, se é consenso que os preços serão mais altos, por que então a SBMN diz estar preocupada com o SUS (Sistema Único de Saúde)”? - 

CARTA DA SBMN - 

A SBMN – Sociedade Brasileira de Medicina Nuclear, recebe com muita satisfação a aprovação da PEC 517/2010, em seu inteiro teor, que autoriza a produção privada de radioisótopos de uso médico. Nos últimos cinco anos, muitos pacientes deixaram de realizar exames de cintilografia e tratamentos com radioisótopos por interrupções frequentes de fornecimento pelo IPEN - Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares.

A possibilidade da produção destes insumos pela iniciativa privada é um alento para milhares de pacientes e uma esperança para inúmeros serviços de medicina nuclear, que oferecem esses exames a pacientes do SUS - Sistema Único de Saúde e das operadoras de saúde, bem como geram empregos diretos e indiretos. Reforçamos o entendimento do caráter autorizativo da medida, o que não exclui que a União continue a investir tanto no IPEN, como nos diversos institutos da CNEN - Comissão Nacional de Energia Nuclear, visando não apenas a manutenção da produção atual, o retorno de insumos que não estão sendo produzidos, bem como o desenvolvimento de pesquisas na área, objetivo que está no DNA da fundação do próprio Instituto de Pesquisas Energéticas Nucleares. 

Esperamos que as empresas interessadas na produção de radiofármacos possam trabalhar lado a lado com o IPEN, complementando o mercado de radioisótopos para fins médicos onde ele está deficitário. A quebra do monopólio estatal permitirá o crescimento da Medicina Nuclear como especialidade médica, a exemplo do que ocorreu previamente na questão dos radiofármacos de meia vida curta. Desta forma, a SBMN não acredita que a PEC 517/2010 represente o fim do IPEN, que continuará fundamental, como sempre foi, no desenvolvimento da medicina nuclear brasileira. (Presidente George B. Coura Filho). 

FUTURO DO IPEN: PROJETO PARA QUATRO MIL PACIENTES - 

Sobre o futuro do IPEN, ele garantiu que o Instituto continuará buscando reafirmar a sua marca na inovação. “Hoje mesmo estávamos (alguns de nós) participando de um encontro científico promovido pela AIEA e tivemos a oportunidade de mostrar nosso trabalho, coordenado pelo IPEN e com a parceria do CNPEM e da própria SBMN! 

“Estamos trabalhando num projeto. O IPEN planeja demonstrar a viabilidade de produzir o radionuclídeo Actínio-225 a partir de materiais contidos em rejeito radioativo. O Actínio-225 tem mostrado resultados melhores em casos onde o radionuclídeo Lutécio-177 não foi efetivo em eliminar o tipo de câncer de próstata mais agressivo (câncer de próstata metastático resistente à castração)”. 

A boa notícia é que já fizemos os cálculos. “Em princípio, temos rejeito radioativo material suficiente para produzir o Actínio -225, capaz de tratar mais de quatro mil pacientes, pensando em 4 ciclos de tratamento por paciente. Obviamente, os desafios são imensos, mas temos expertise, interesse, e financiamento da AIEA para buscar soluções para os desafios. E qual a finalidade maior disso tudo?  Voltarmos a ser pioneiros em pesquisa e desenvolvimento, onde a atividade privada ainda não vislumbra lucro, ou seja: função de estado, função do IPEN”.

Mas afinal, o que são esses rejeitos que poderão ser tão bem utilizados? “São agulhas de Rádio-226 que eram usadas para braquiterapia há décadas, mas que foram descartadas. São fontes radioativas seladas deixadas em depósitos de rejeito radioativo. O Rádio-226 tem meia vida muito longa (1600 anos), e pode ser usado como alvo para produção de um outro radionuclídeo (Actínio-225) de muito interesse atual na medicina nuclear. 

FOTO: Acervo do Centro de Radiofarmácia do IPEN - Leia no blog diversas matérias sobre o caso PEC-517/2010; o afastamento do superintendente do IPEN, Wilson Calvo; o projeto sem verbas do reator multipropósito (RMB) que daria autonomia ao Brasil na produção de radiofármacos; o desabastecimento em agosto do ano passado, entre outras. 

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quarta-feira, 6 de abril de 2022

Câmara aprova privatização da produção de radioisótopos, remédios para combater o câncer. Setor público sai derrotado

 


Foram em vão os alertas da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), entre outras entidades; deputados e especialistas para que a produção de radiofármacos (medicamentos com radiação usados no combate ao câncer), fosse mantida no Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN), da Comissão Nacional de Energia Nuclear (IPEN/CNEN). A Câmara dos Deputados aprovou nesta terça-feira (05) a Proposta de Emenda à Constituição 517/10, do senador Álvaro Dias (Podemos-PR), que quebra esse monopólio, permitindo a fabricação pela iniciativa privada de todos os tipos de radioisótopos de uso médico. A matéria irá à promulgação. A matéria foi aprovada em dois turnos de votação com o parecer favorável da comissão especial, de autoria do deputado Gerenal Peternelli (União-SP). 

A Constituição já autoriza, sob regime de permissão, a comercialização e a utilização de radioisótopos para pesquisa e uso médico. A produção por empresas privadas, no entanto, só é permitida no caso de radiofármacos de curta duração (meia-vida igual ou inferior a duas horas). Segundo o deputado Alexandre Padilha (PT-SP), “nem todos os parlamentares sabem, mas, na medida em que uma empresa privada puder registrar sua produção, o IPEN não será mais autorizado a continuar produzindo”. Por isso, disse ele, “vamos sufocar uma empresa pública, tirar sua função de mediar o preço para baixo, causando aumento dos preços dos radiofármacos”. 

O site da Câmara dos Deputados divulgou à noite a derrota dos que lutaram pela manutenção da produção no sistema público. Radioisótopos ou radiofármacos são substâncias que emitem radiação usadas no diagnóstico e no tratamento de diversas doenças, principalmente o câncer. Um dos mais conhecidos é o iodo-131, que emite raios gama e permite diagnosticar doenças na glândula tireoide. Meia-vida é o tempo necessário para que a taxa de decaimento de uma amostra radioativa seja reduzida à metade do seu valor inicial. A meia-vida curta é definida como tendo menos de duas horas. 

Na opinião do deputado Ivan Valente (Psol-SP), A PEC 517/2010 vai vaziar a conclusão do Reator Multipropósito Brasileiro (RMB), instalação destinada a produzir insumos hoje importados. “O diretor do Ipen, Wilson Calvo, foi demitido porque queria fazer uma farmácia pública de radiofármacos a preços mais em conta que a iniciativa privada”, afirmou. Em audiência pública na comissão especial, Calvo disse que o Ipen produz um gerador de molibdênio (substância para produzir radiofármaco) por R$ 6,8 mil, enquanto, na iniciativa privada, ele sai por R$ 17,2 mil. 

FONTE: Agência Câmara de Notícias - Eduardo Piovesan e Geórgia Moraes – FOTO- Alvaro Dias. 

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segunda-feira, 4 de abril de 2022

Prefeito de Angra reitera que usinas nucleares devem ser desligadas; Eletronuclear garante o contrário

 


O prefeito de Angra dos Reis, Fernando Jordão, manteve firme a sua posição nesta segunda-feira (4/4) de que as usinas nucleares Angra 1 e Angra 2 têm que ser desligadas, por conta do temporal  que atingiu a região na sexta-feira (1º/4), provocando quedas de barreiras  e a interrupção de vários pontos nas estradas de aceso à cidade. Já foram contabilizadas 10 mortes e pelo menos quatro pessoas estão desaparecidas. “Se ocorrer um acidente nuclear, precisamos das estradas para retirar a população”, comentou o prefeito hoje cedo. A situação das estradas é a seguinte: BR-101: fechada a partir da Monsuaba, com 4 pontos de obstrução; RJ-155: meia pista liberada; Estrada do Contorno: com retenções. Continua, portanto, o impasse entre a Prefeitura e a Eletronuclear, gestora das usinas atômicas. 

A Eletronuclear divulgou nota informando que o Plano de Emergência Externo (PEE) para a central nuclear de Angra dos Reis não está comprometido por conta das quedas de barreiras nas estradas da Costa Verde. Em nenhum momento, as usinas nucleares da companhia estiveram ilhadas, nem sua segurança foi colocada em xeque. “É preciso explicar primeiro que, se fosse necessária, a evacuação de trabalhadores da empresa e da população seria feita pela BR-101 RJ Sul, tanto no sentido de Angra dos Reis quanto no de Paraty. Acontece que os pontos de obstrução total verificados nessa estrada estão há mais de 60 km da central nuclear, fora das Zonas de Planejamento de Emergência (ZPE) previstas no PEE. Ademais, o caminho até Paraty localizado dentro das ZPE está desobstruído”, garante a empresa. 

Segundo os procedimentos estabelecidos no plano, em caso de emergência, a evacuação poderia abranger pessoas localizadas num raio de até 5 km da central, que seriam levadas para abrigos situados a até 15 km das usinas. Esses abrigos também não foram atingidos pelas chuvas ou por deslizamentos de terra. Dessa forma, no momento, a ação poderia ser realizada com total eficácia. Mas o prefeito Fernando Jordão não aceita a argumentação da Eletronuclear, por considerar que um acidente poderia obrigar a retirada da população muito além do raio de até 5Km, por exemplo. 

A Diretoria de Radioproteção e Segurança Nuclear da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) afirma que “se houver situação que inviabilize uma eventual execução do Plano de Emergência previsto para a Central Nuclear caberia considerar a parada das usinas. “Entretanto, apesar da situação decorrente das condições meteorológicas na região de Angra dos Reis, até o presente momento não há comprometimento das vias de acesso do entorno da Central, que pudessem impactar na execução do Plano de Emergência”, consta na nota divulgada pela Comissão.  

Segundo Eletronuclear, as usinas estão operando normalmente. “Desligá-las não teria nenhum efeito prático para a segurança dos municípios de Angra dos Reis e Paraty, mas privaria a matriz elétrica de 2 gigawatts de potência, que são extremamente necessários para o país. Vale ressaltar que a energia gerada por Angra 1 e 2 equivale a 40% do consumo do estado do Rio de Janeiro. Essa geração teria que ser substituída por fontes térmicas mais caras. No final, quem pagaria a diferença seriam os consumidores”, reitera a empresa. Governo Federal reconheceu a situação de emergência em Angra dos Reis. A medida, publicada no Diário Oficial da União, nesse domingo, 3 de abril, visa acelerar as ações de resposta da esfera federal, fornecendo apoio à população e à Prefeitura, que já vem trabalhando bem antes de o município entrar em estado de alerta máximo. 

CONTRAPARTIDAS PARA ANGRA 3

Segundo a Prefeitura de Angra dos Reis, em relação à construção da usina nuclear Angra 3, a Eletronuclear tem que cumprir uma série de condicionantes firmadas por meio de um Termo de Compromisso, na ordem de R$ 187 milhões. Deste valor, a estatal executou o seguinte: R$ 1.970.389,99 milhões em Reaparelhamento da Defesa Civil do Município; R$ 4.995.405,70 milhões para construção da Clínica da Família, que ainda está em execução; cerca de R$ 1 milhão para a reforma da Unidade Mista de Saúde do Frade, em execução; e R$ 4.965.103,08 milhões para ampliação do sistema de abastecimentos de água do Parque Mambucaba e Bracuí , que ainda está em processo de licitação. 

A Eletronuclear admite que há condicionantes a serem cumpridas, que foram interrompidas por conta da paralisação das obras da usina, em 2015. Agora, contudo, depois de editais e licitações, as obras foram retomadas. 

FOTO: Central Nuclear – ABDAN - 

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domingo, 3 de abril de 2022

Prefeito e Sociedade Angrense (SAPE) querem o desligamento das usinas nucleares; cidade está ilhada por causa das chuvas

 




O prefeito de Angra dos Reis, Fernando Jordão, anunciou que vai pedir o desligamento das usinas nucleares Angra 1 e Angra 2, e decretou estado de emergência em função do volume histórico de chuva registrado nas últimas 48 horas. Vários pontos da cidade foram afetados por deslizamentos de terra. Os agentes localizaram seis corpos - aparentes três crianças e três adultos, sendo que outras cinco pessoas, de acordo com os relatos de parentes, estão desaparecidas. 

Segundo a Prefeitura, todas as sirenes do sistema de alerta - 20 blocos de sirenes, distribuídas em 26 bairros que abrangem as áreas de risco - soaram para alertar moradores sobre a possibilidade de deslizamentos e alagamentos. A Sociedade Angrense de Proteção Ecológica (SAPE) protocolou documento junto a Defesa Civil Estadual, Comissão Nacional de Energia Nuclear CNEN) e a Prefeitura de Angra exigindo o desligamento das usinas até que o Plano de Evacuação tenha condições de ser plenamente realizado. 

A SAPE lembra que a interdição da Estrada Rio-Santos, em vários pontos inviabilizaria a retirada da população em caso de acidente nuclear. Segundo a Prefeitura, deslizamentos de terra ocasionaram a obstrução total da BR 101 no sentido Rio de Janeiro - nos trechos dos Km 447, Km 460 e Km 464. O trânsito na RJ-155 flui em apenas uma das pistas, na altura dos túneis. 

Tanto no continente quanto na Ilha Grande, os moradores estão sendo informados sobre os riscos de deslizamentos por meio do sistema de sirenes e SMS, acionado a partir do monitoramento constante feito pela Defesa Civil no CEMADEN - AR (Centro de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais de Angra dos Reis). A Defesa Civil pede que as pessoas permaneçam em casa e só saiam em caso de ser esta a orientação pelas sirenes, SMSs ou pessoalmente, pelos técnicos que estão nas ruas. 

Em nota divulgada ontem (02/04), a Eletronuclear informou que as usinas nucleares Angra 1 e 2 “operam normalmente, com capacidade total, não tendo sido afetadas pelas fortes chuvas que caíram de ontem para hoje na Costa Verde”. A Empresa acrescentou que há pontos de interdição parcial ou total da BR-101 RJ Sul (Rio-Santos) por conta de deslizamentos de terra, “mas que não afetam as ações de resposta do Plano de Emergência Externo (PEE)”. 

FOTO: Prefeitura de Angra. 

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quinta-feira, 31 de março de 2022

O Instituto de Radioproteção e Dosimetria comemora 50 anos de fundação. Leia a entrevista exclusiva da niteroiense que comanda o IRD.

 


O Instituto de Radioproteção e Dosimetria (IRD) da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), na Avenida Salvador Allende, 3773, Barra da Tijuca (RJ), comemora seu cinquentenário, com uma trajetória internacional, mas pouco conhecida dos brasileiros. Participou de estudos de impacto ambiental das explosões atômicas ocorridas no Hemisfério Norte na década de 60; de pesquisas para detectar a presença de radionuclídeos provenientes de explosões nucleares francesas, no Atol de Mururoa, no Sul do Oceano Pacífico, em 1968; e de trabalhados envolvendo o acidente com uma cápsula de césio-137, em Goiânia (GO),  em setembro de 1987, por exemplo. É de pouco conhecimento também que o IRD está sob a direção da niteroiense Maria Angélica Vergara Wasserman, gradua em Engenharia Agronômica pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (1982), com mestrado em Geociências (Geoquímica) pela Universidade Federal Fluminense (1985) e doutorado em Geoquímica pela Universite de Bordeaux I (1991). Pesquisadora da CNEN desde 1995, Maria Angélica foi contratada em concurso e hoje comanda 179 funcionários. Em entrevista exclusiva ao BLOG, ela fala sobre a história do IRD, e de sua própria. Preconceito em ambiente predominantemente masculino, ela garante que não enfrentou. Eis a entrevista: 

BLOG: De acordo com as informações oficiais, o IRD teve sua origem na década de 60, em um pequeno laboratório de dosimetria do Departamento de Pesquisas Científicas e Tecnológicas da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), situado nas dependências da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Como foi o início? 

MARIA ANGÉLICA: O começo teve a participação de Edgard Meyer e Anna Maria Campos de Araújo, os primeiros diretores do Laboratório de Dosimetria. Inicialmente com apenas quatro servidores, tinha como atribuição básica efetuar calibração de monitores de radioproteção utilizando fontes de referência e monitoração ambiental do impacto das explosões atômicas ocorridas no Hemisfério Norte. 

BLOG: O IRD continua realizando esses trabalhos? 

MARIA ANGÉLICA: Não resta dúvida de que as atividades realizadas hoje no IRD/CNEN foram nucleadas nas ações do Laboratório de Dosimetria.  Os desafios técnicos e relevância dos temas propiciaram seu crescimento e a criação de um novo espaço, em 1972, que já refletia a complexidade  e a extensão da Radioproteção e Dosimetria, em um cenário que permitiu o crescimento - eu diria que quase em paralelo - das áreas de pesquisa e diversas atividades relacionadas à metrologia, à física médica, à biofísica, à  emergência, à radioecologia e demais ciências correlatas, além do apoio à elaboração de normas. 

BLOG: O que pode relembrar sobre as pesquisas do Laboratório de Dosimetria da PUC- Rio? 

MARIA ANGÉLICA: Podemos citar o trabalho do próprio Edgar Meyer, com o artigo “Espectrometria da radioprecipitação causada por bombas francesas, em 1968”, de 1971, que versa sobre o uso de espectrometria gama para detectar a presença de radionuclídeos provenientes de explosões nucleares francesas, no Atol de Mururoa, no sul do Oceano Pacífico, em 1968. As amostras analisadas foram coletadas da atmosfera. Há artigos anteriores, como o de Gross, B., Meyer, E., Aron, A., (1958), Trends of Long Range Fallout Activities in Rio de Janeiro 1956-1958. 

BLOG: E agora, como está o IRD? 

MARIA ANGÉLICA: Hoje mantemos uma estação de monitoramento global que detecta e identifica partículas radioativas e gases nobres também radioativos liberados na atmosfera provenientes de explosões nucleares. A estação integra rede de dados ligada à Organização das Nações Unidas (ONU) mantida pela Comissão Preparatória para a Organização do Tratado para a Proibição Total de Testes Nucleares, assinado em 1996, e envia regularmente dados via satélite para um centro internacional de dados, em Viena, Áustria. O IRD também realiza importantes pesquisas científicas e desenvolvimento tecnológico sobre dispersão de radionuclídeos em diferentes compartimentos ambientais, modelagem de transporte de contaminantes, modelos ambientais integrados, além de desenvolvimento de ferramentas para análise de radioproteção, com banco de dados e projeção de riscos. 

BLOG: O que há sobre radioatividade ambiental no Brasil? 

MARIA ANGÉLICA: O IRD disponibiliza a pesquisadores e interessados em geral um banco de dados ambiental. E um outro projeto que produz dados sobre radioatividade em amostras originarias de uma malha nacional de amostras de solo, sendo que alguns dos radionuclídeos mensurados são oriundos de fallout. Assim, ambos contribuem para o conhecimento da magnitude do que foi o fallout no Brasil. 

BLOG: O que se apresenta no Espaço Memória da Radioproteção? 

MARIA ANGÉLICA: O Espaço Memória da Radioproteção quer mostrar por meio de objetos, materiais audiovisuais, conteúdos diversos o que significa trabalhar em prol da proteção radiológica do público, dos trabalhadores e do meio ambiente. Temos muitas formas de trazer isso para as pessoas, seja por painéis, por objetos como detectores de radiação, sistemas de rastreamento que mapeiam o perfil de um local do ponto de vista de leitura de níveis de radiação, seja uma construção coletiva de reunir palavras associadas à radioproteção, seja constando fatos da nossa história no IRD/CNEN. 

BLOG: Desafio? 

MARIA ANGÉLICA: Nosso maior desafio é promover uma sólida cultura de segurança, treinar, capacitar pessoas e demonstrar o espírito pela ciência nuclear de qualidade que nos une. Nossas entregas à sociedade nos motivam e têm orientado nosso planejamento, as demandas que são apresentadas e como podemos fazer mais e melhor unindo nossas competências. O IRD tem essa tradição de trabalhar em conjunto, de forma sistêmica. A pesquisa de excelência nos move. 

BLOG: Conte sobre a experiência em relação ao acidente de Goiânia? 

MARIA ANGÉLICA: A nossa atuação ocorreu junto com os demais institutos da CNEN. Todos estiveram envolvidos. Foi um aprendizado técnico e humano gigantesco para quem respondeu a esse evento. Saímos mais fortes, melhores como profissionais e como seres humanos, acredito. Damos ainda mais valor ao que fazemos, ao vivenciarmos na prática o significado desse serviço para a sociedade! Essa motivação nos faz avançar. Os profissionais diretamente ligados ao atendimento à emergência contam como foi extenuante, mas reconfortante poder fazer algo para entregar às pessoas uma situação em que elas pudessem retomar suas histórias de vida. 

BLOG: O acidente serviu de escola? 

MARIA ANGÉLICA: Sim. Muitos trabalhos técnicos foram publicados, projetos foram desenvolvidos com organismos internacionais e muito se aprendeu também com esse acidente, em termos de trabalho conjunto. Creio que o legado foi de amplo espectro, desde o aperfeiçoamento de estruturas, como o desenvolvimento de laboratório móvel de bioanálises, com o detector de corpo inteiro e análises in vivo e in vitro, assim como  de ações de pronta resposta a acidentes nucleares e radiológicos, até a integração de toda a força de trabalho do Instituto, seus domínios de atuação, ferramentas computacionais e laboratoriais, permanentemente revistos em exercícios internos e externos. 

BLOG: Destaques? 

MARIA ANGÉLICA: Creio que também mereçam destaques a popularização do símbolo da radioatividade. Indivíduos do público passaram a entender que o material com o símbolo exige manuseio adequado, como se deve buscar informação, caso se deparem com material sinalizado em local inesperado. 

BLOG: Em sua gestão, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), aumentou em 50% o número de bolsas de doutorado do Programa de Pós-Graduação, indicativo de excelente avaliação do Programa.  

MARIA ANGÉLICA: Sim. Houve um aumento de 50% do número de bolsas de doutorado concedidas pela Capes. Com esse incremento da Capes, passaram a ser 15 bolsas de doutorado. Para o mestrado Capes, existem oito bolsas. Há outras bolsas concedidas por agências de fomento e pela própria CNEN. Temos no total 30 bolsas, sendo 17 de doutorado e 13 de mestrado. A maior procura pela nossa pós-graduação é de alunos do Rio de Janeiro, bolsistas ou não, mas temos alunos na Pós-Graduação em Radioproteção e Dosimetria que são de outras regiões além da Sudeste, quais sejam Norte, Nordeste, Sul e alunos oriundos de países da América Latina. 

BLOG:  O IRD está participando de um consórcio internacional para a elaboração de programa de mestrado em Descomissionamento e Remediação Ambiental? O projeto conta com a participação de instituições de Portugal, Bélgica, Noruega, e EUA, e foi apresentado para financiamento, pelo programa Erasmus da Comunidade Europeia? 

MARIA ANGÉLICA: Assim que soubemos que uma proposta de um programa de mestrado em consórcio internacional estava sendo submetida para o Erasmus, manifestamos o interesse em participar. Só teremos esse convênio com o Erasmus caso essa proposta consorciada seja aprovada e todos os desafios posteriores a essa aprovação sejam vencidos. Ainda estamos aguardando o resultado, mas nos sentimos orgulhosos em poder oferecer essa expertise à comunidade científica e trabalharmos em conjunto em tema tão relevante para a radioproteção. Vamos torcer e nos empenhar para tudo dar certo. 

BLOG: Como tem sido o reconhecimento do IRD como centro nacional e mundial em proteção radiológica. 

MARIA ANGÉLICA: Nossos profissionais são convidados a ministrarem cursos e treinamentos como especialistas da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), trabalhamos em parceria com outros centros nacionais importantes para a radioproteção no país. Temos representantes em comitês técnicos de importância como a Unscear (Comitê Cientifico das Nações Unidas sobre os Efeitos da Radiação Atômica) e a ICRP (Comissão Internacional de Proteção Radiológica). Lembro ainda que sediamos o Laboratório Nacional de Metrologia das Radiações Ionizantes, assim designado pelo Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (INMETRO). 

BLOG: Outros exemplos? 

MARIA ANGÉLICA: Sim. As atividades deste laboratório contribuem para a confiabilidade das medições no país nas áreas médica, ambiental, industrial e nas pesquisas. Além disso, desde 1996, o IRD é o Instituto de Ligação com a Organização Mundial da Saúde (OMS), no contexto da Rede de Preparação e Assistência Médica a Radioacidentados. Esses são alguns exemplos de reconhecimento que reforçam nossa atuação em radioproteção. O trabalho com instituições científicas nacionais como o Instituto Nacional de Câncer (INCA), universidades e centros de excelência nacionais e muitos outros parceiros, o que só nos motiva a seguir firmes em prol da proteção do público, trabalhadores e do meio ambiente. 

BLOG:  Qual a participação do IRD na atuação da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA)? 

MARIA ANGÉLICA: Recebemos especialistas do organismo, enviamos alguns dos nossos profissionais para atuar como especialistas da AIEA, por solicitação da Agência, além da participação em projetos coordenados pela AIEA... enfim, há um intercâmbio bastante profícuo. O IRD fornece suporte de proteção radiológica, dosimetria e monitoração individual interna no tratamento médico a radioacidentados, como ocorreu na resposta ao acidente de Goiânia. Nos acidentes radiológicos ocorridos na Bolívia (2001), Chile (2005), Equador (2009) e Peru (2014), o médico brasileiro de renome internacional, Nelson de Lima Valverde, integrou um grupo de peritos internacionais que, convidados pela AIEA, realizam avaliações dos indivíduos radioacidentados naqueles países. No caso específico do acidente radiológico de Ventanilla, Peru, o IRD, como Instituto de Ligação com a OMS, coordenou uma série de reuniões com especialistas do País que culminou com a decisão de prestar assistência internacional ao Peru no tratamento médico de um profissional acidentado. O tratamento foi realizado no Hospital Naval Marcílio Dias, com o apoio de médicos do INCA e do Centro de Medicina das Radiações Ionizantes. 

BLOG: Outras parcerias e cursos? 

MARIA ANGÉLICA: Em parceria com a AIEA, possuímos o curso de Especialização Lato Sensu em Proteção Radiológica e Segurança de Fontes Radioativas, no qual recebemos com frequência alunos de outros países de língua portuguesa. Além disso, formamos mestres e doutores em nosso Programa de Pós-Graduação em Radioproteção e Dosimetria. Ministramos regularmente cursos para órgãos de saúde, do país e do exterior, órgãos de segurança e defesa e demais públicos que aderem ao tema oferecido. O perfil multidisciplinar do nosso instituto nos capacita para atuações diversas no quesito treinamento e formação de recursos humanos. 

BLOG: Em que momento a metrologia das radiações ionizantes, no Brasil, teve um grande impulso? 

MARIA ANGELICA: A partir da doação a este laboratório, pelo INCA, do primeiro irradiador de cobalto para a calibração de dosímetros clínicos, em 1969. Os pesquisadores Günter Drexler, do GSF/Alemanha, e Martin Oberhofer, do Joint Research Centre (JRC/Itália), foram seus principais colaboradores no início da criação do instituto. 

BLOG: Qual o balanço na trajetória do IRD? 

MARIA ANGÉLICA: A designação do Laboratório Nacional de Metrologia das Radiações Ionizantes, pelo Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (INMETRO), a participação de pesquisadores em comitês, me parecem alguns exemplos significativos de um balanço positivo. 

BLOG: desafios? 

MARIA ANGÉLICA: A área da metrologia das radiações ionizantes sofre uma pressão muito forte e permanente para manter instalações, equipamentos e materiais totalmente adequados para atendimento às exigências das normas do nosso sistema de qualidade e para atender aos nossos compromissos nacionais e internacionais. Também em relação às necessidades de mantermos nossos recursos humanos alinhados com o estado da arte. Não tem sido fácil, mas com a visão sistêmica da alta direção CNEN, incentivando o trabalho em rede, o diálogo entre os diferentes agentes, temos conseguido superar desafios e também aproveitar oportunidades. Com a dinâmica evolutiva da ciência e tecnologia, a modernização sempre urge, mas trabalhamos para otimizar nossos recursos e focar em soluções para demandas da sociedade. Em metrologia, por exemplo, estamos modificando nossos sistemas de analógicos para digitais. 

PERFIL: Maria Angélica Vergara Wasserman.

A Diretora do IRD possui graduação em Engenharia Agronômica pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (1982), mestrado em Geociências (Geoquímica) pela Universidade Federal Fluminense (1985) e doutorado em Geoquimica pela Universite de Bordeaux I (1991). Desde 1995 é pesquisadora da CNEN. Tem experiência na área de Química Ambiental, com ênfase em Análise de Traços e Química Ambiental, e na área de Radioecologia, atuando principalmente nos seguintes temas: radioecologia de ecossistemas tropicais, transferência solo-planta de radionuclídeos, mecanismos de sorção de poluentes radioativos e estáveis em solos e sedimentos, extração sequencial, proteção radiológica ambiental e avaliação de risco. 

BLOG: Em termos práticos, qual a sua maior experiência? 

MARIA ANGÉLICA: Em radioecologia tropical. Imagino que adquiri uma visão sistêmica pelo fato de realizar vários experimentos com radionuclídeos em sistemas aquáticos e terrestres, além de interpretar e conectar dados que integram relações complexas, do micro ao macro. 

BLOG: liderança? 

MARIA ANGÉLICA: Trabalho com um grupo de pesquisa na área de radioecologia que tem por objetivo gerar subsídios técnicos e científicos para a tomada de decisão, nas áreas contaminadas por atividades industriais ou em decorrência de acidentes nucleares ou radiológicos. Essa liderança foi construída com a evolução de algumas atividades, como a orientação de alunos de doutorado, mestrado e iniciação científica, coordenação de projetos de pesquisa com a IAEA, por mais de 10 anos. 

BLOG: Seu maior desafio? 

MARIA ANGÉLICA: Desenvolver e manter um perfil acadêmico em um universo de poucos recursos, limitações de natureza diversas e trabalhar com experimentos que podem levar anos para gerar informações consistentes, validadas e significativas é um grande desafio. Nem todas as áreas conseguem gerar dados e publicações, na métrica e timings exigidos para obter recursos por editais, por exemplo. Manter o perfil acadêmico tem sido desafiador. Trabalhar como diretora do IRD/CNEN tem sido também um desafio, algo único, e extremamente compensador. 

BLOG: Balanço da trajetória. 

MARIA ANGÉLICA:  Conhecer o IRD/CNEN foi um verdadeiro presente, pois ali consegui integrar toda minha formação e dar um significado maior para tudo. Nossa contribuição para a sociedade é tão visível e tão apaixonante que foi a minha virada de chave para optar pelo IRD e desistir da universidade. No mesmo dia do concurso para a CNEN, teve o concurso para professor na UFF. Eu tinha um domínio maior em geoquímica do que em radioproteção, mas já estava apaixonada pela área e pelo ambiente de trabalho, então aceitei o desafio. Aliás vivo saindo da minha zona de conforto. Os desafios sempre fizeram parte da minha vida. 

BLOG: Como analisa o mercado de trabalho na sua área? Mulheres têm oportunidades iguais?

MARIA ANGÉLÌCA: Acho fabuloso. Acredito que a demanda será crescente e cada vez mais oportunidades irão surgir para bons e qualificados profissionais. Minha experiência tem sido restrita ao IRD, CNEN, AIEA e nesses espaços não tenho identificado barreiras de gênero, ao contrário. A AIEA mantém oportunidades interessantes para mulheres, que as encoraja a se candidatarem. A história do IRD/CNEN sempre foi marcada pelo respeito ao protagonismo das mulheres. 

BLOG: Uma das únicas mulheres a ocupar cargo de chefia, como se define? Já sofreu preconceito? 

MARIA ANGÉLICA: Na verdade, no IRD/CNEN, dos 12 diretores que passaram pela casa, cinco são mulheres, minha substituta é mulher, dos seis chefes de divisão, três são mulheres, o que reflete equilíbrio nos valores. Desde o início temos uma história muito bonita, com muitas mulheres que se destacaram. Não tenho nenhum registro significativo de preconceito na vida profissional. 

BLOG: Como analisa o futuro da Radioproteção e Dosimetria no Brasil? 

MARIA ANGÉLICA: Precisamos fortalecer a radioproteção no país, popularizar o tema, carregar de significado a palavra, trazer a cultura de segurança cada vez mais para o nosso  cotidiano, pois as aplicações da radiação estão muito presentes, quando fazemos um exame médico utilizando radiação ou quando conseguimos obter produtos melhores por conta do uso da radiação em processos de controle de qualidade ou mesmo na produção. Alimentos e até bens de patrimônio histórico e cultural podem ser preservados graças à radiação. Tudo isso só é possível porque muita gente trabalha para promover segurança no uso da tecnologia das radiações. Além, é claro, da tecnologia nuclear que gera energia e envolve todo um sistema de radioproteção, profissionais, equipamentos, enfim, ambientes que integram as mais diversas áreas de conhecimento, fundamentais para que a sociedade usufrua, com segurança, de todos os benefícios da área nuclear. 

BLOG: O que representou a sua nomeação, a partir de processo de Comitê de Busca para seleção de diretores das seguintes unidades técnico-científicas da CNEN: IEN - CDTN - CRCN/NE - IRD, referente ao Edital nº 004? 

MARIA ANGELICA: Uma grande alegria. Colocar minha experiência, minha vontade, contribuir um pouco mais para uma área que aprendi a valorizar, respeitar, admirar. Trabalho com pessoas incríveis, competentes e dedicadas. Esse ambiente me motiva demais para buscar todas as condições necessárias, para materializar projetos de impacto e relevância para a sociedade brasileira e também garantir o desenvolvimento das nossas atividades no cotidiano. 

BLOG: Planos para o futuro? 

MARIA ANGELICA: Continuar servindo à sociedade da melhor maneira possível. 

BLOG:  Qual a sua mensagem às mulheres? 

MARIA ANGÉLICA: A mesma que ouvi da minha mãe: o conhecimento que adquirimos é nosso maior patrimônio, nossa maior arma e herança ... Em um mundo em que o direito à educação é negado em muitos países, aproveitem toda a oportunidade de aprendizagem, pois é o conhecimento que nos ajuda a modificar nosso futuro, superar desafios, ultrapassar barreiras e adquirir respeito, visibilidade e parcerias em tudo na vida. 

FOTOS: Crédito para Bianca Wendhausen/IRD. – 

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