quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Relatórios apontam: enriquecimento de urânio sofreu impactos negativos. Covid-19 afetou produção em Resende (RJ)

 


A produção de urânio enriquecido sofreu impactos negativos devido a “problemas operacionais inopinados”, seguidos da suspensão temporária das atividades envolvendo material nuclear, “em função do afastamento dos supervisores de radioproteção de suas funções laborais decorrentes da covid-19”. Os problemas ocorreram na Unidade de Enriquecimento de Urânio da Indústria Nucleares do Brasil (INB), no município de Resende, considerado Lar do Parque Nacional do Itatiaia, no Sudoeste do Estado, com cerca de 133.244 habitantes. 

As informações estão registradas em relatórios da INB, de 2020, pesquisados pelo blog. Em 2019, a produção foi comprometida, principalmente pela “forte chuva, atípica para a região, que ocorreu em dezembro de 2018, danificando grande quantidade de UC (cascatas de ultracentrífugas, máquinas para enriquecer urânio). 

Em 2020, a Usina alcançou uma produção de 5.684 Kg de UF6 enriquecido a 4,25% de Urânio 235. Segundo o documento, “um esperado incremento de produção, proporcionalmente ao avanço da implantação da usina, não tem sido observado”. E mais: “A necessidade de ajustes nas cascatas (compostas por ultracentrífugas), problemas técnicos ou fatores extrínsecos têm impedido o referido incremento, conforme o cenário da produção dos últimos cinco anos”. 

A transformação do urânio enriquecido em elemento combustível para as usinas Angra 1 e Angra 2, em funcionamento, passa por outros processos na Fábrica de Combustível Nuclear (FCN), da INB, no mesmo local. Sua implantação foi planejada para alcançar, por etapas, a demanda nacional. Foi projetada por módulos, formando edificações com sistemas de infraestrutura industrial, com cascatas de ultracentrífugas (UC). A tecnologia do processo de enriquecimento por ultracentrifugação foi desenvolvida pelo Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo (CTMSP). 

FOTO: FCN - 

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quarta-feira, 6 de outubro de 2021

Cerca de 17 mil toneladas de material radioativo até hoje sem solução

 


Cerca 17. 190 toneladas de material radioativo da Indústrias Nucleares do Brasil (INB) terão que armazenados longe da população. Um total de 3.500 toneladas de Torta II (material radioativo, fruto do processamento químico de areias monazíticas) está hoje armazenado em sete silos numa área de 300 mil metros quadrados, no Sitio São Bento, na Unidade de Estocagem de Botuxim (UEB), município paulista de Itu. O material é proveniente da Usina de Santo Amaro (Usam) da Nuclemon, desativada em 1992, após denúncia de contaminação radioativa em trabalhadores feita pela imprensa.

O legado radioativo da Nuclemon, que deixou centenas de funcionários contaminados é a “herança maldita” que o governo, através da Indústrias Nucleares do Brasil (INB) vem prometendo resolver. 

A Associação Nacional dos Trabalhadores da Produção de Energia Nuclear (ANTPEN) luta desde 2006, data de sua fundação, para que esse contingente de contaminados seja indenizado. O máximo que conseguiu foi a liberação de um plano de saúde para o tratamento de câncer e outras doenças graves das vítimas. Muitos já morreram. 

A INB tem sido cobrada sobre a sua posição em relação ao destino da Torta II e de todo o lixo produzido durante esses anos em suas unidades. A estatal acenou com uma solução junto ao Ministério Público Federal, conforme o blog divulgou com exclusividade em 27 de agosto. 

A ideia da estatal era de que cerca de 1,3 mil tonelada de Torta II da Usina de Interlagos (USIN), que ocupa uma área de 60 mil metros quadrados, fosse transferida para a sua unidade em Caldas, Minas Gerais, já repleta de material radioativo; Buena, no município de São Francisco de Itabapoana (RJ); e por último, em Botuxim.  "Na Unidade em Descomissionamento de Caldas (UDC), em Minas Gerais, estão estocadas 12.500 toneladas do material. No depósito de Interlagos, na capital de São Paulo, estão cerca de 590 toneladas de Torta II. Na UDSP ainda se encontram, aproximadamente, mais 600 toneladas de outros materiais (classificados como objetos contaminados na superfície – OCS), que são resíduos do próprio descomissionamento”. São informações da INB, divulgadas nesta quarta-feira (06/10). A estatal garante que tenta resolver o problema. 

Leia no blog outras matérias sobre o assunto. FOTO: Unidade - Caldas - INB - 

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sexta-feira, 1 de outubro de 2021

Brasileiros com câncer continuam sem tratamento por falta de verbas para a Medicina Nuclear

 


É cada vez mais dramática a situação de brasileiros com câncer que precisam de medicamentos produzidos com insumos radioativos no Brasil. Até a manhã desta sexta-feira (01/10) o Congresso não havia liberado os R$ 34 milhões necessários à importação de radioisótopos para o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares da Comissão Nacional de Energia Nuclear (IPEN-CNEN), do Ministério da Ciência, Tecnologias e Inovações.

 Com os radioisótopos importados da África do Sul, Holanda e Rússia são produzidos os radiofármacos (medicamentos) utilizados no diagnóstico e tratamento de pacientes com câncer, em cerca de 440 clínicas particulares e do Sistema Único de Saúde (SUS). A crise começou no dia 21 de setembro, quando o IPEN-CNEN suspendeu a produção do produto. O orçamento insuficiente deste ano, de apenas R$ 63 milhões, provocou o problema.  

Segundo o presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Nuclear (SBMN), médico nuclear George Coura, mesmo que a liberação dos R$ 34 milhões ocorra hoje (1/10), terá que ser publicada no Diário Oficial da União (DOU), acarretando mais atraso na distribuição dos medicamentos. 

A situação mais dramática está sendo vivenciada por centenas de milhares de pacientes com câncer de tireoide, que dependem de iodo-131 (radiofármaco). Segundo o presidente da SBMN, não há perspectiva positiva para esse contingente de pacientes, que teve o tratamento interrompido há cerca de um mês. “Não haverá retomada antes do dia próximo dia 11, se a verba não for liberada nas próximas horas”, alertou George Coura.

FIM DE ANO/ANO NOVO - 

Para evitar caos maior o Congresso Nacional teria que aprovar urgente o Projeto de Lei (PL-16), que libera R$ 690 milhões para o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações. Desse total, R$ 34 milhões seriam destinados ao IPEN-CNEN para a importação dos radioisótopos. 

Os outros R$ 55 milhões para a aquisição dos radioisótopos, que garantiriam o tratamento até o final do ano, terão que ser liberados por Medida Provisória (MP), informou George Coura. “Em geral, todos os anos, as verbas para a importação dos radioisótopos têm sido insuficientes, mas nunca implicaram na suspensão do fornecimento, como agora”, comentou George Coura. 

Para que a crise não se repita em 2022, a Lei Orçamentaria Anual terá que destinar pelo menos R$ 182 milhões para a aquisição dos radioisótopos, na avaliação do presidente da SBMN. 

“Me restrinjo até a fazer qualquer análise para 2022, porque não temos ainda notícias sobre os R$ 55 milhões para o final de 2021. Não basta liberar o dinheiro. Tem que se posicionar perante os fornecedores internacionais. Cada semana de atraso sobre a aprovação da PL-16, mais uma semana de interrupção do tratamento”, comentou. Quem responde pela crise? “Prefiro supor que em algum momento do processo, a gravidade do problema não foi analisada como deveria”. 

FOTO: IPEN - 

Leia no BLOG matérias sobre o assunto e o projeto do Reator Multipropósito Brasileiro (RMB), que não saiu do papel. 

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quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Combustível usado (urânio) de Angra 2 é transferido para Unidade de Armazenamento a Seco (UAS)

 


O sétimo casco com combustíveis usados (urânio enriquecido) da usina nuclear Angra 2, em Angra dos Reis (RJ), acaba de ser transferido para a Unidade de Armazenamento a Seco (UAS). A transferência dos elementos combustíveis abre espaço na piscina de Angra 2, e também abrirá na usina Angra 1, para que outros elementos combustíveis usados possam ser armazenados nesses locais. As informações foram confirmadas pela Eletronuclear, gestora das usinas atômicas, que garante a segurança do empreendimento e das operações de transferência de combustíveis.  A construção da UAS envolve US$ 50 milhões. . 

Inicialmente, a UAS contará com 15 módulos. No total, 288 elementos combustíveis serão retirados de Angra 2 e 222, de Angra 1, abrindo espaço nas piscinas de armazenamento para mais cinco anos de operação de cada planta. O depósito comporta até 72 módulos, com capacidade para armazenar combustível usado até 2045. A tecnologia é da empresa norte-americana Holtec, que participa da operação com 50 profissionais; outros 20, são da Eletronuclear.

Chamados de Hi-Storms, os cascos são recipientes com duas paredes cilíndricas de aço preenchido com 70 centímetros de concreto de alta densidade, empregados para transportar os elementos combustíveis usados das piscinas das usinas à UAS. Segundo a Eletronuclear, os combustíveis usados são inseridos em cânisteres de aço inoxidável, totalmente selado, que, por sua vez, são inseridos nos Hi-Storms. E assim são transportados e armazenados sobre a laje da UAS. 

De acordo com a estatal, a transferência funciona da seguinte forma. Na piscina, os combustíveis usados são inseridos em um cânister, que, por sua vez, está acondicionado dentro de um recipiente chamado Hi-Trac. Cada cânister tem capacidade para conter 32 elementos combustíveis usados. Em seguida, o conjunto é retirado da piscina, o cânister é fechado e lacrado via solda, a água é removida de seu interior e gás hélio é inserido, para não haver corrosão no elemento combustível. 

“Esse container é transferido do Hi-Trac para o Hi-Storm, invólucro de concreto especial reforçado, que recebe uma tampa, parafusada no recipiente. Na sequência, o Hi-Storm é levado à UAS em um carro de transferência, é içado e posicionado numa laje, onde permanecerá, concluindo o processo. 

A construção da UAS foi anunciada pelo blog na edição de 4 de agosto de 2018. Desde então foram movidas ações na Justiça contestando a segurança do empreendimento e a transferência do combustível; enquanto ambientalistas alertavam contra os perigos de contaminação radioativa para a população. 

Leia no blog: Brasil constrói depósito para combustível nuclear de Angra 1 e Angra 2 (04/08/2018); Angra 1 recebe combustível nuclear – Usinas nucleares: construção do depósito de combustível usado vai começar (29/10/2019); Começa em outubro treinamento inédito de pessoal para transferir combustível  usado (urânio) de Angra 1 e Angra 2 para Unidade de Armazenamento a Seco (15/09/2020); Procurador da República quer informações sobre segurança do depósito para urânio irradiado de usinas nucleares Angra 1 e Angra 2 (16/09/2020); Procurador da República move ação visando parar obras de UAS para armazenar urânio usado de Angra 1 e Angra 2, por falta de licenças ambientais (13/10/2020). 

FOTO: Eletronuclear – Cascos UAS.

quarta-feira, 29 de setembro de 2021

Dois ministros, promessas antigas e um projeto de reator para salvar vidas parado

 


Poucos projetos nacionais são tão mencionados em discursos dentro e fora do Brasil, como o Reator Multipropósito Brasileiro (RMB), que tornaria o país autossuficiente na produção de radioisótopos utilizados na Medicina Nuclear para o diagnóstico e tratamento contra o câncer. Pode ter passado despercebido, mas na semana passada, na Conferência Geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), em Viena, na Áustria, o ministro das Minas e Energia, Bento Albuquerque, fez questão de mencionar o RMB como prioridade de sua gestão. 

Em audiência na Câmara dos Deputados, anteontem (27/9), para explicar sobre a falta recursos destinados à produção de radioisótopo no Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares da Comissão Nacional de Energia Nuclear (IPEN-CNEN), o ministro da Ciência Tecnologia e Inovações, Marcos Pontes, voltou a lembrar que o Brasil depende do RMB para alcançar a sua independência no produção dos radioisótopos. 

Quem está sentindo o problema na pele é a população doente que na semana passada esteve na iminência de parar o tratamento por falta de radiofármacos (medicamentos) produzidos a partir dos radioisótopos, lembrou um médico da área da medicina nuclear. Os radioisótopos possibilitam que os médicos vejam o funcionamento de órgãos e tecidos vivos por meio de imagens como as tomografias, radiografias e cintilografias. O problema da falta de verba foi resolvido momentaneamente com a liberação de R$ 19 milhões para o IPEN. 

Em 10 dias, se outros R$ 34 milhões não forem liberados, o risco do desabastecimento volta a ocorrer. Logo em seguida serão necessários R$ 55 milhões para atender à demanda dos pacientes até o final do ano, comentou Marcos Pontes.  O valor liberado pelo governo este ano foi de cerca de R$ 63 milhões, muito aquém do necessário. Na Câmara, os parlamentares criticaram Marcos Pontes, que não teria levado a gravidade do problema ao Congresso. 

IMPORTAÇÃO - 

O IPEN produz uma parte dos radioisótopos, mas gasta cerca de R$ 60 milhões (de acordo com a alta do dólar) importando o produto da África do Sul, Rússia, Holanda e Argentina. O Brasil importa 4% da produção mundial do radioisótopo molibdênio-99. O decaimento radioativo do molibdênio-99 produz o radioisótopo tecnécio-99m utilizado nos radiofármacos mais empregado na medicina nuclear. Até o ano passado o IPEN gastava US$ 15 milhões por ano com essa importação, que gerava um faturamento de R$ 120 milhões, ano, recursos que seguiram direto para o caixa do governo. 

Para se ter ideia da importância do RMB, basta verificar a demanda dos radioisotipos para a população. Cerca de dois milhões de procedimentos médicos são realizados, por ano, utilizando radioisótopos, em 440 clínicas cadastradas para realizar o trabalho semanalmente. Cerca de 440 mil pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e o restante pela rede privada. 

TIRADO DA CARTOLA - 

Por incrível que pareça, apesar de ser frequentemente lembrado e tirado da cartola quando interessa, o projeto do RMB, continua parado há anos. A construção do RMB foi orçada em US$ 500 milhões, quando idealizada em 2009. Até o ano passado, foram aplicados apenas R$ 230 milhões. Para a sua entrada em funcionamento teriam que ser aplicados, em média, cerca de US$ 100 milhões por cinco anos. 

Em cerimônia disputada em 2018 o projeto do RMB teve até lançamento de pedra fundamental, com a presença do presidente Michel Temer. Agora, enquanto o Brasil permanece na dependência de importação de radioisótopos, pacientes com câncer sofrem com a incerteza sobre a manutenção do tratamento. Mas o RMB permanece em alta nos discursos. O projeto (veja a maquete) está numa área de dois milhões de metros quadrados em Iperó, a 130 quilômetros de São Paulo. Parado. FOTO: Maquete - CNEN. 

terça-feira, 28 de setembro de 2021

Ministro alerta sobre urgência de liberação de recursos para produção de radioisótopos

 

   O Ministro da Ciência, Tecnologia e Inovações, Marcos Pontes, alertou ontem (27/9), na Comissão de Seguridade Social e Família da Câmara dos Deputados que, se o Congresso Nacional não aprovar a liberação de R$ 34 milhões nas próximas duas semanas, vai faltar novamente os radioisótopos utilizados na fabricação de radio fármacos para o diagnóstico e tratamento de pacientes com câncer. Os radioisótopos são produzidos pelo Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares da Comissão Nacional de Energia nuclear (IPEN-CNEN). 

Na semana passada, por falta de verbas, a produção foi interrompida. A liberação ocorreu após a transferência de R$ 19 milhões destinados a projetos da CNEN, para a produção dos radioisótopos pelo IPEN. O Ministro disse que desde o ano passado reiterou solicitações ao Ministério da Economia e ao Congresso visando a liberação de recursos para a compra dos insumos (radioisótopos) para a produção dos radio fármacos usados pelas clínicas e o Sistema Único de Saúde (SUS). Para que o problema seja resolvido este ano há a necessidade de aprovação de outros R$ 55 milhões em breve. A aprovação para a liberação dos R$ 34 milhões está prevista para ocorrer na próxima quinta-feira.

 Deputados questionaram o ministro sobre o problema. Quiseram saber por que Marcos Pontes deixou o caso chegar a este ponto. Disserem também que nunca ocorreu nada igual em relação à falta desses insumos no Brasil. Para mostrar a gravidade do problema ao ministro, disseram ainda que pacientes chegaram a tomar conhecimento da falta do medicamento quando entraram nas clínicas para fazer o tratamento.  O ministro afirmou que conhece de perto a importância do tratamento, pois tem um filho que já teve câncer. FOTO: IPEN-CNEN.

Acidente com césio-137 em Goiânia, 34 anos depois. Por Célio Bermann

 


No último dia 10 de setembro tive a oportunidade de ouvir o depoimento da pesquisadora Célia Helena Vasconcelos, que em 2019 defendeu a dissertação de mestrado em Letras e Linguística na Universidade Federal de Goiás, com o título “Césio 137 trinta anos depois: silenciamento discursivo de uma tragédia”. 

O depoimento de Célia se deu num debate organizado pela Pastoral da Comunicação da Diocese de Floresta (PE) para lembrar os 34 anos do acidente radiológico de Goiânia / Césio 137. Vale assinalar que a Diocese de Floresta, município localizado no agreste pernambucano, na região do médio Rio São Francisco, onde a Eletronuclear planeja a construção, na cidade de Itacuruba, de uma central nuclear com seis reatores nucleares, busca auxiliar na organização de um movimento local e regional de resistência a este projeto, trazendo para o debate temas nacionais relacionados à energia nuclear. 

Em outra oportunidade voltaremos à discussão sobre a insanidade política, econômica, social e ambiental desse projeto, para nos dedicarmos ao relato de Célia Helena sobre a tragédia em Goiânia, que se inicia no dia 13 de setembro de 1987 e se estende até os dias de hoje. 

Célia Helena tinha 19 anos, era mãe de uma menina de poucos meses, e estava grávida da segunda filha quando, no dia 29 de setembro, técnicos da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), devidamente paramentados com roupas para proteção radiológica, bateram à sua porta de casa para proceder a “averiguações”. Sem maiores explicações e trajando macacões brancos que os assemelhavam a “marcianos”, passaram a percorrer os aposentos da casa com cintilômetros, instrumento de precisão utilizado para reconhecer a quantidade e o tipo de radiação. 

A casa de Célia Helena ficava na Rua 26, a 150 metros do depósito de ferro-velho de Devanir, local onde, no dia 15 de setembro, ou seja, 15 dias antes, uma caixa contendo  uma cápsula de cloreto de césio - um sal obtido a partir do radioisótopo 137 do elemento químico césio. A caixa foi aberta a marretadas naquele dia de 15 de setembro, expondo as radiações ionizantes a todas as pessoas próximas, objetos, roupas, alimentos e plantas. 

A caixa havia sido levada por dois rapazes que procuravam sobreviver como catadores de lixo. Dois dias antes, no dia 13 de setembro, eles haviam encontrado um equipamento radiológico que estava desativado havia dois anos, e que fora simplesmente abandonado no prédio onde antes estava localizado o Instituto Goiano de Radioterapia (IGR), e que naquele momento estava sendo demolido. 

Conforme o relato de Célia Helena, os dois rapazes já haviam tentado abrir a caixa, no domicílio de um deles, na Rua 57. Entretanto, apenas conseguiram fazer furos, o suficiente para que as radiações ionizantes de raios-gama do césio 137 se propagassem no ambiente. Um dos rapazes, inclusive, já no primeiro dia, teve enjoos e mal estar, e procurou um posto de saúde. 

Pois bem, a existência de problemas relacionados com a irradiação já era conhecida pelos órgãos de saúde de Goiânia desde o dia 14 de setembro de 1987, problemas que se tornaram mais evidentes depois do dia 15 quando a cápsula contendo o césio 137 foi aberta. Poucas horas após a exposição ao material radioativo, as pessoas que estavam no depósito de ferro-velho começaram a desenvolver sintomas: náuseas, seguidas de tonturas, com vômitos e diarreias. Alarmados, os familiares dos contaminados foram inicialmente a drogarias procurar auxílio, alguns procuraram postos de saúde e foram encaminhados para hospitais. 

Diagnosticados inicialmente com intoxicação alimentar, apenas quando o físico Walter Mendes Ferreira, suspeitando de que se tratava de efeitos da exposição à radiação, recomendou o isolamento dos pacientes, é que a identificação da gravidade do quadro por parte dos órgãos de saúde foi finalmente possível. 

Entretanto, a imediata divulgação à população da cidade de Goiânia da situação de intoxicação radiológica existente foi impedida pela ação do governo de Goiás, que jamais admitiu isto. Naquela mesma época estava sendo realizado em Goiânia o 1º GP Internacional de Motovelocidade no Autódromo Ayrton Senna, e o governador Henrique Santillo não queria que a divulgação causasse pânico e afastasse os participantes estrangeiros. 

Como já foi informado, apenas no dia 29 de setembro, ou 15 dias depois do início da contaminação radiológica, houve a divulgação do problema iniciando assim o processo de monitoramento nas áreas próximas daquelas que estiveram sujeitas aos efeitos das radiações ionizantes. 

Nos dias que se seguiram, os indivíduos identificados com a contaminação radiológica foram encaminhados ao Estádio Olímpico e acomodados em barracas de isolamento. Muitos receberam alta após tomarem banho com água, vinagre e sabão de coco.  Os casos mais graves foram transferidos para hospitais. 

Enquanto que o pânico e o caos se propagavam na cidade de Goiânia e nas regiões próximas, sabe-se que cerca de 112 mil pessoas foram examinadas. Destas, verificou-se que 271 apresentaram níveis significativos de material radioativo. Até hoje não há consenso sobre o número de vítimas do césio 137 em Goiânia. Quatro pessoas morreram um mês após a exposição à radiação. O governo de Goiás registra 66 mortos. O depósito de ferro-velho e dezenas de casas foram demolidos. Centenas de objetos, de refrigeradores a sofás, o pavimento de ruas inteiras, veículos, e até mesmo árvores e animais foram destruídos e descartados como lixo nuclear. 

Cerca de seis mil toneladas de lixo radioativo foram recolhidas e enterradas no município de Abadia de Goiás, a cerca de 20 km de distância de Goiânia, em um local posteriormente transformado pela CNEN no Centro Regional de Ciências Nucleares do Centro-Oeste (CRCN-CO), como Unidade Técnico-Científica para abrigar como Depósito Final os rejeitos radioativos do Césio-137. 

Quais lições podemos tirar da tragédia nuclear com o césio-137 em Goiânia? 

A sucessão de irresponsabilidades, primeiramente do Instituto Goiano de Radioterapia que não tomou nenhuma providência para o descarte adequado do equipamento radiológico; posteriormente dos diversos órgãos de saúde cujo conhecimento do risco foi demorado e não resultou na imediata divulgação para a população; do governo estadual, que preferiu preservar o calendário de um evento esportivo ao invés de privilegiar a saúde e segurança da população que estava sendo exposta aos efeitos da radiação. Ainda, os técnicos da CNEN, pela demora em iniciar o monitoramento, e por não disponibilizar para os indivíduos mais expostos os mesmos equipamentos e indumentária que estavam utilizando. 

Cabe assinalar que outro aspecto a merecer destaque é a invisibilidade que o desastre radiológico acabou por ser tratado na cidade de Goiânia. Como destaca Célia Helena, nos terrenos que tinham sido contaminados com a radiação, cujas construções foram derrubadas e cobertas com concreto, não há nenhuma placa, nenhum aviso sobre o que ali havia ocorrido. 

Mesmo a construção de um Memorial na Rua 51, que havia sido uma promessa da administração municipal na época da tragédia, nunca foi concretizada. O desastre radiológico em Goiânia, considerado de nível 5 pela Escala Internacional de Eventos Nucleares da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), como ‘Acidentes com consequências de longo alcance’, segundo nomenclatura da agência, está sendo deliberadamente “esquecido”. Pelo bem da saúde e segurança da população brasileira, não podemos esquecer! 

Artigo de Célio Bermann - Doutor em Engenharia Mecânica na área de Planejamento de Sistemas Energéticos pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), mestre em Engenharia de Produção na área de Planejamento Urbano e Regional pela COPPE/UFRJ e professor associado do Instituto de Energia e Ambiente da USP.

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