sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Novo presidente da INB: fôlego para programa de enriquecimento de urânio

O capitão de mar e guerra da reserva, Carlos Freire Moreira, 62 anos, foi empossado nesta sexta-feira (01/02) na presidência da Indústrias Nucleares do Brasil (INB), substituindo Reinaldo Gonzaga, conforme o BLOG antecipou na semana passada. 

O programa de enriquecimento de urânio, realizado na INB, através de convênio com a Marinha, há cerca de 20 anos, poderá ganhar mais fôlego a partir de agora. 

O novo presidente conhece bem a empresa, onde exerceu o cargo de diretor técnico de Enriquecimento entre março de 2005 e maio de 2008. 

“Tive a honra e o privilégio de passar por aqui. Foi uma época muito profícua, em que conseguimos viabilizar a inauguração da primeira cascata (de enriquecimento) e lançar as bases para a continuidade do projeto. Fico feliz que já tenhamos atingido a sétima (cascata). E vamos em frente. Fico muito feliz de retornar à casa”, afirmou. 

Cearense, Carlos Freire Moreira é engenheiro naval, formado pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Possui graduação em Ciências Navais pela Escola Naval e mestrado em Arquitetura Naval pela École Nationale Supérieure de Techniques Avancées, em Paris, na França. 

Freire Moreira foi indicado para o cargo pelo Ministério de Minas e Energia. A indicação foi analisada pelo Comitê de Elegibilidade da INB, que avaliou se o nome preenchia os requisitos previstos na legislação.  


terça-feira, 29 de janeiro de 2019

CNEN divulga nota sobre trabalhos com radiação realizados em Brumadinho


A Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) divulgou nota, na tarde desta terça-feira (29/01), informando que acionou seu Sistema de Atendimento a Emergências Radiológicas e Nucleares por meio de sua unidade em Belo Horizonte, o Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear (SAER/CDTN), para “avaliar eventual presença de material radioativo” na área atingida pelo rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão em Brumadinho, Minas Gerais.  
“A ação visa esclarecer e colaborar com o Centro de Comando e Controle das operações na região afetada”. De acordo com a nota, equipe do SAER/CDTN esclareceu que “no passado foram realizadas atividades com fontes radioativas (medidores nucleares) na Mina Córrego do Feijão”.
Segundo a CNEN, esses medidores nucleares já haviam sido recolhidos em 2014 e 2015 por estarem fora de uso e atualmente encontram-se armazenados no Depósito de Rejeitos do CDTN. A equipe informou ainda que as análises das amostras de solo e de lama coletadas no local não apresentam risco radiológico. Os resultados das medidas realizadas em Brumadinho apresentaram valores iguais à radiação natural (background).
“A CNEN se solidariza com as vítimas e reitera que está a postos para auxiliar em quaisquer demandas no âmbito de sua competência”.

sábado, 26 de janeiro de 2019

INB: MUDANÇAS NO COMANDO


O engenheiro metalúrgico Reinaldo Gonzaga, 50 anos, foi desligado da presidência da Indústrias Nucleares do Brasil (INB), em reunião do Conselho de Administração da empresa, realizada no final da tarde de ontem (25/01). O presidente interino é o almirante Ricardo Soares Ferreira, que ocupa o cargo de diretor técnico de enriquecimento de urânio da INB, uma das áreas mais sensíveis do ciclo do combustível nuclear. A INB está subordinada ao Ministério de Minas e Energia, sob o comando do almirante Bento Albuquerque Junior.

À tarde, Reinaldo Gonzaga confirmou o seu desligamento do cargo de presidente, mas disse que continuará na empresa como funcionário. "Estou tranquilo. É uma prerrogativa do ministro", afirmou. Nos bastidores, circula a informação de que o capitão de mar e guerra da reserva da Marinha, engenheiro Carlos Freire Moreira, está cotado para ocupar a presidência da INB.

Funcionário de carreira da INB há duas décadas, Reinaldo Gonzaga estava no cargo desde outubro de 2017. Antes de assumir o cargo, gerenciou e coordenou processos químicos nas linhas de produção de pó e pastilhas de urânio e foi responsável pela superintendência de Engenharia de Combustível Nuclear.




sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Premiada, Olga Simbalista fala de machismo, preconceito e energia nuclear hoje no Brasil


Uma das poucas mulheres a ocupar cargos de chefia no setor nuclear brasileiro, ela já recebeu doze prêmios por sua atuação na promoção dos direitos da mulher e, em 2014, foi eleita Personalidade do Ano 2014 pela WEB da ONU. Engenheira elétrica com mestrado em engenharia nuclear, Olga Simbalista, festeja 40 anos de trabalho no setor. Nos últimos 20 anos, integra a Associação Brasileira de Energia Nuclear (ABEN), entidade que presidiu de 2016 a 2018. Atualmente, é membro da diretoria da Associação e nesta posição, recebeu também o Prêmio Full Energy de Personalidade do ano, em 2017, e, em 2018. Machismo? Ela acha que ficou no passado, quando foi preterida para um cargo no qual teria que viajar com colegas engenheiros. “As esposas não gostariam que seus maridos viajassem com uma jovem engenheira”, conta. Discriminação? “Explícita nunca senti, apenas uma sombra do teto de vidro, em alguns momentos de indicações para funções de direção”. Aqui, Olga manifesta a sua posição em relação aos principais avanços e retrocessos do setor brasileiro, além de apostar na atuação do novo Governo.

Blog: Conte um pouco sobre a sua atuação na direção da Associação Brasileira de Energia Nuclear (ABEN)?
Olga: Assumi a Presidência da ABEN em dezembro de 2016, mas faço parte desta associação há uns 20 anos. Há dois anos, a posse foi marcada por uma tarde de violência no centro do Rio de Janeiro, com explosão de bombas, queima de veículos, quebra de vitrines, culminando com o fechamento dos estabelecimentos desta região e sem a possibilidade de os convidados à solenidade se fazerem presentes.
Seria um mau presságio para a Associação, bem como para o setor nuclear brasileiro, que vivia momentos de enormes dificuldades com a paralisação da construção de Angra 3, sem perspectivas de retomada. A Eletronuclear iniciava a amortização dos financiamentos desta planta, muito antes de sua conclusão e sem receita para tanto, além da ameaça de não dispor de recursos para a compra do combustível nuclear, comprometendo a sobrevivência da Indústrias Nucleares do Brasil - INB. Eis aqui puma parte dos problemas.

Blog: E depois?
Olga: Decorridos dois anos, pudemos constatar anos maravilhosamente profícuos, marcados com a retomada das atividades do Comitê de Coordenação do Programa Nuclear Brasileiro, em junho de 2017, desde então sob a coordenação do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República e que, ao final de 2018, culminou seus trabalhos com a edição da Política Nuclear Brasileira.
Outros fatos da maior relevância também precisam ser citados como: a criação da Agência Naval de Segurança Nuclear e Qualidade, no âmbito da Marinha do Brasil; a comemoração dos 30 anos do Reator IPEN/MB-01 e a colocação de um novo núcleo de combustível tipo placa totalmente fabricado no País; a comemoração dos 30 anos da conquista, pela Marinha do Brasil, do processo de enriquecimento isotópico pela ultracentrifugação; o lançamento da Pedra Fundamental do RMB; e o início dos testes de integração dos turbogeradores ao reator do Labgene, que é o protótipo do reator para o submarino nuclear. Vale lembrar outras etapas importantes: a inauguração, em Resende, da Sétima Cascata de Enriquecimento da INB; Licenciamento ambiental da nova Mina de urânio em Caetité; o fornecimento de urânio enriquecido à Argentina;  a aprovação, pelo Conselho Nacional de Política Energética - CNPE da nova tarifa de Angra 3 e de demais providências para a sua retomada.

Blog: Enquanto isso, o que fazia a ABEN pela segurança dos trabalhadores?
Olga: A segurança dos trabalhadores do setor nuclear é uma função inerente das diversas organizações, no âmbito da “Cultura de Segurança” de cada uma destas organizações, bem como de diretrizes e supervisão da Comissão Nacional de Energia Nuclear – CNEN.
O papel da ABEN, nesse contexto, é o da promoção e difusão dos inúmeros benefícios e das várias aplicações da Energia Nuclear em todos os campos e, em particular, no que se refere à segurança das instalações, tanto no que se refere à segurança de seus trabalhadores, bem como das populações próximas a elas.
Ao longo dos 36 anos de sua existência, a ABEN se consolidou como uma porta voz respeitada de representação legítima da Comunidade Nuclear Brasileira, nos fóruns nacionais e internacionais.

Blog: Existem levantamentos?
Olga: As organizações mantêm todos os dados relativos à segurança do trabalho e quando se trata de acidentes envolvendo radiação, os mesmos são relatados à CNEN que mantém os registros. Entretanto, desde o início das atividades do setor, no século passado, o mais grave acidente ocorreu fora dessas instalações, no caso do acidente radiológico de Goiânia, com a ocorrência de mortos na comunidade.

Blog: Qual o balanço do setor nuclear brasileiro nos últimos 10 anos?
Olga: Ao longo dos últimos 10 anos, tivemos avanços, bem como retrocessos. Os principais avanços estiveram concentrados no programa da Marinha do Brasil, com a constituição do Prosub – o Programa de construção de submarinos convencionais e o nuclear, em 2008; a retomada da construção de Angra 3, em 2008; a criação da Amazul, em 2013, bem como a melhoria constante dos desempenhos de Angra 1 e Angra 2, que passaram a ser referências internacionais, sob o aspecto operacional, com destaque para a segurança dos trabalhadores.

Blog: Retrocessos?
Olga: Em termos de retrocessos, podemos citar a paralisação da construção de Angra 3, sem perspectivas de retomada, e com a Eletronuclear iniciando a amortização dos financiamentos desta planta, muito antes de sua conclusão e sem receita para tanto, ameaçando, inclusive, não dispor de recursos para a compra do combustível nuclear, comprometendo a sobrevivência da Indústrias Nucleares do Brasil – INB, como já mencionei. Adicionalmente, os recursos para o Programa da Marinha do Brasil passaram a ser contingenciados, o Reator Multipropósito Brasileiro – RMB não conseguia obter o impulso necessário a sua implantação e as áreas de pesquisas careciam de recursos humanos e orçamentários. O contexto político não sinalizava qualquer prioridade para as atividades nucleares, diante da grave crise institucional e econômica pela qual passava o País, até meados de 2018.

Blog: Qual a sua avaliação agora?
Olga: As realizações obtidas nos últimos dois anos, em momento bastante adverso, de grandes dificuldades, nos fazem antever um futuro extremamente promissor, com a indicação do Almirante Bento de Albuquerque ao posto de Ministro de Minas e Energia. Seu currículo de realizações nos dá a certeza de que, diferentemente de outros titulares dessa pasta com objeção ao uso da energia nuclear, ou mesmo com vergonha de defendê-la, ele saberá conduzir as atividades do setor com altivez, soberania e responsabilidade.

Blog: Como assim?
Olga: Um país do porte do Brasil não pode ficar refém de pressões externas, que, muitas vezes nos impedem de fazer uso soberano de nossas vastas e preciosas reservas minerais, de dominar tecnologias sensíveis, fazer uso da nuclear para a produção de energia, propulsão naval, usos na medicina e diversos outros. E fechando 2018, com chave de ouro, tivemos, no dia 14 de dezembro, o lançamento ao mar do Submarino Riachuelo, consagrando a primeira etapa do programa PROSUB da Marinha do Brasil e que culminará, em próximo, no lançamento ao mar do Submarino Nuclear Almirante Álvaro Alberto, colocando o País em um restrito grupo de nações dominando tal tecnologia.

Blog: O novo governo já manifestou posição favorável à retomada das obras de Angra 3. O que a senhora acha?
Olga: A posição pela retomada das obras de Angra 3, logo no início do novo Governo, é sem dúvida uma demonstração inequívoca da posição favorável do governo ao uso da energia nuclear em todos os seus segmentos.

Blog: A falta de recursos seria o principal entreve?
Olga: O anúncio da retomada de Angra 3 foi acompanhado de declaração do Presidente da Eletrobras da existência de recursos orçamentários relevantes e, também das prioridades a serem dadas por esta Holding a esta usina, bem como à Itaipu Binacional. Também, já está sinalizada a possibilidade de participação de empresa estrangeira na conclusão do empreendimento, com aporte de recursos tecnológicos e financeiros.

Blog: Em relação à Unidade de enriquecimento de urânio, em Resende, há dificuldades em relação à liberação de recursos?
Olga: A priorização do setor nuclear, no âmbito do novo Governo inclui, não só a autonomia do fornecimento do combustível, como, também, o aumento da prospecção de reservas de urânio.

Blog: O setor nuclear brasileiro, como este caso, teria que ter mais investimentos?
Olga: Há necessidade de se equacionar novas formas de aporte de recursos que se encontram no âmbito dos desafios hercúleos do novo Ministério da Economia.

Blog: A questão nuclear é pouco divulgada no Brasil?
Olga: O conhecimento da questão nuclear no Brasil encontra-se, praticamente restrito às pessoas com envolvimento profissional na mesma. As organizações, em geral, dispõem de atividades de divulgação individuais, de pequena abrangência e às vezes até conflitantes. Deve-se ressaltar, também, uma grande falta de interesse da grande mídia pelo tema, na maioria das vezes se dedicando a divulgar fatos negativos ao setor nuclear. Algo, talvez, dentro do conceito do politicamente incorreto, quando aquelas aceitas como corretas seriam apenas as novas fontes renováveis, quando, na verdade são fontes complementares. Durante a campanha pelo segundo turno das eleições presidenciais, a mídia, talvez simpatizante com o candidato derrotado, rotulou, de forma pejorativa, as prioridades energéticas do Programa de Governo Bolsonaro como sendo nuclear e hidroelétricas com grandes reservatórios. Já a do opositor, como sendo eólica, solar e biomassa.
No que se refere à pergunta propriamente dita, a questão nuclear é pouco divulgada, havendo necessidade da criação de um único e amplo programa, já iniciado sob a coordenação da CNEN e com a participação de grande parte das organizações setoriais.

Blog: Qual a sua opinião sobre a fabricação do primeiro submarino nuclear brasileiro?
Olga: O Brasil é um país de dimensões continentais, com uma costa de 8.000 Km de extensão, por onde passam 95% de nossas exportações e importações; onde estão localizados 92% de nossas reservas de petróleo e 73% do nosso gás. Portanto, é região estratégica, requerendo uma proteção eficaz, proporcionada por uma armada que inclua submarinos. Nesse contexto, o submarino nuclear produz uma defesa muito mais eficaz, devido a sua autonomia de submersão e à dificuldade de detecção por um eventual inimigo.
A Guerra das Malvinas, em 1982, evidenciou tal poderio dos submarinos nucleares britânicos, juntamente com o sistema de satélites norte-americano, que tornaram qualquer tentativa de defesa argentina completamente inócua. Tal desfecho culminou com o afundamento do General Belgrano com seus 1.093 tripulantes, por meio de ataque por submarinos nucleares.

Blog: O Brasil deve ter uma bomba atômica?
Olga: Não sou a favor que o Brasil deva ter uma bomba atômica. Ressalto como da maior importância o posicionamento do país, junto à ONU, apoiando o tratado de eliminação de todos os artefatos nucleares existentes no mundo, uma vez que o Tratado de Não Proliferação, criado em 1968, prevê que as nações nucleares, de boa fé e no curto prazo, eliminariam seus arsenais nucleares. Mas isso não aconteceu na prática. Ao contrário, hoje temos mais quatro países no Clube Atômico, além dos cinco fundadores.

Blog: A senhora sofreu preconceito?
Olga: Sou de família tradicional mineira de Belo Horizonte.  Achavam um absurdo uma jovem estudar engenharia, pois a faculdade estava localizada na zona do meretrício de Belo Horizonte. Mulheres da minha família diziam que, uma vez engenheira, eu não iria conseguir marido. Mas nunca levei a sério e sempre fui muito bem tratada pelos colegas de turma, sendo a única mulher entre eles. 

Blog: A senhora é uma das poucas mulheres com atuação de liderança no setor nuclear brasileiro. O setor é machista?
Olga: Ao contrário, o setor nuclear, no âmbito do setor energético, é o que tem a maior participação feminina em seus quadros funcionais. As mulheres estiveram presentes desde os primórdios da energia nuclear com grandes cientistas como Madame Curie na descoberta dos elementos radioativos, Lisie Meitner, na fissão nuclear, e várias outras.
No meu caso específico, deu-se o contrário. Há exatamente 48 anos, recém-formada em Engenharia Elétrica pela UFMG, inscrevi-me em um concurso promovido pela CNEN para o curso de mestrado em Ciências e Técnicas Nucleares, no Instituto de Pesquisas Radioativas – IPR, em Belo Horizonte.
A decisão de então nada teve a ver com uma atração pelo discreto charme dos átomos, mas sim devido a um pragmatismo, pois tratava-se de um concurso onde se exigia, para jovens recém-formados, tão somente conhecimentos de física, cálculo e língua estrangeira. Ou seja, não passaria por constrangimentos de ter meu pleito recusado por falta de instalações sanitárias para mulheres, ou porque, no ano anterior, uma grande multinacional havia, excepcionalmente, contratado duas mulheres. O fato é que após passar pelas provas de conhecimento técnico e exame psicotécnico de uma das maiores empresas de eletricidade do país, fui preterida na fase de entrevista, sob a alegação de que o cargo previa a necessidade de constantes viagens, o que não era um problema para mim, mas na visão do entrevistador, poderia causar problemas aos colegas engenheiros, por partes de suas esposas, que não gostariam que seus maridos viajassem com uma jovem engenheira.

Blog: Muita mudança?
Olga: Assim eram os tempos nos anos de 1970! Mas Deus escreve certo por linhas tortas e me trouxe a este fascinante mundo dos átomos e de seus núcleos. Mundo este que conseguiu reinventar a energia e a matéria, criando mais de 200 isótopos, por meio de reatores e aceleradores de partículas, e que estão em uso comercial na medicina hoje capaz de fornecer tratamentos mais efetivos no combate ao câncer e do uso dos raios X que hoje antecedem praticamente todas as principais intervenções médico-odontológicas, na preservação e na criação de mais 3.200 novas variedades de alimentos. Além da identificação da idade histórica de peças e monumentos, no combate à pobreza, na proteção ao ambiente e outros mais não menos importantes.

Blog: Então, nenhuma discriminação?
Olga:  Discriminação explícita nunca senti, apenas uma sombra do teto de vidro, em alguns momentos de indicações para funções de direção.
Blog: Porque poucas mulheres atuam na área nuclear?
Olga: A proporção de mulheres atuando no setor nuclear, comparativamente a outros setores científicos, é das maiores, principalmente nos institutos de pesquisas.  Já no setor nuclear da Marinha e nos setores industriais, realmente, a participação é muito pequena.

PERFIL
Graduada em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal de Minas Gerais, com mestrado em Engenharia Nuclear (UFMG/CNEN), tem especialização em Termo hidráulica de Reatores na Gesellshaft für Kerntechnik im Shifbaum und Shiffhart - GKSS, na Alemanha. Ocupou a chefia do Laboratório de Termo Hidráulica do Instituto de Pesquisas Radioativas-IPR, além de assessorias e coordenação em empresas do setor como Nuclebras, Eletronuclear e Furnas.  

Nas áreas de ensino e pesquisa foi membro do Corpo Docente dos Cursos de Mestrado em Ciências e Técnicas Nucleares (UFMG/CNEN), em Engenharia Térmica (EEUFMG) e do MBA em Energia da Gama Filho, com vários trabalhos publicados, no país e no exterior, tendo orientado oito teses.

Presidiu a Seção Latino Americana da American Nuclear Society, e o Conselho de Energia da Associação e do Conselho Empresarial de Meio Ambiente da Associação Comercial do Rio de Janeiro – ACRJ. Atualmente é membro do Conselho Diretor da ACRJ, do Conselho do Clube de Engenharia, do Conselho Técnico da Confederação Nacional do Comércio – CNC e do Conselho de Arbitragem da Fundação Getúlio Vargas.

No contexto das Nações Unidas, foi representante da América Latina no Consultancy Group for Nuclear Forecasts, da Agência Internacional de Energia Atômica – AIEA, em Viena, de 2002 a 2011 e consultora da CEPAL, na área de energia. Atuou nos Conselhos de Administração da CEAL – Companhia de Eletricidade de Alagoas e do CEPEL – Centro de Estudos e Pesquisas da Eletricidade, do Projeto de Reestruturação do Setor Elétrico Brasileiro - RESEB/MME e no Conselho Diretor do Clube de Engenharia. O curriculum de Olga Simbalista é extenso e abrangente, raridade entre as mulheres brasileiras da energia nuclear. Ela também atuou no processo de desenvolvimento social, econômico e político da mulher teve início em 1993, no Conselho da Seção Rio de Janeiro do Banco da Mulher, sendo, posteriormente, no âmbito da Rede Nacional do Banco da Mulher, membro do Conselho Diretor, Diretora, Vice-Presidente e Presidente. Recebeu doze prêmios com relação à promoção dos direitos da mulher e, em 2014, foi eleita Personalidade do Ano 2014 pela WEB da ONU.

Atualmente, é membro da Diretoria da Associação Brasileira de Energia Nuclear – ABEN, tendo sido sua Presidente no período de 2016 a 2018. Nesta posição, recebeu, por dois anos consecutivos, o Prêmio Full Energy de Personalidade do ano, em 2017, e, em 2018, como representante de entidade.

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Equipamentos de Angra 3 são mostrados pela Nuclep


Pela primeira vez, mostramos aqui, com exclusividade, alguns dos maiores equipamentos que serão utilizados pela usina nuclear Angra 3, que deverá ter as obras retomadas, a partir do governo do presidente eleito, Jair Bolsonaro. O próprio Bolsonaro já declarou que a usina atômica será prioridade em seu governo. Os equipamentos estão sendo construídos pela Nuclep, em Itaguaí (RJ), e quando o governo der o sinal verde, serão transportados para o complexo nuclear de Angra dos Reis.
Geólogo e engenheiro nuclear formado pela Universidade de São Paulo (USP) e pelo Massachussetts Institute of Technology – MIT, José Mauro Esteves dos Santos, diretor comercial da Nuclep, fala sobre as atividades da empresa focando, sobretudo, nos equipamentos para Angra 3. Ele, que acumula cargos relevantes no setor, foi presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), Secretário-Geral da Agência Brasileiro Argentina de Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares (Abacc) e presidente dos Conselhos de Administração da Nuclep e das Indústrias Nucleares do Brasil (INB). Eis a entrevista:

Blog: Há décadas, autoridades do setor avisavam que equipamentos de Angra 3 comprados da Alemanha poderiam ficar obsoletos, caso a usina não fosse construída. O problema existe?
Diretor da Nuclep: Não há equipamentos obsoletos. Tanto os equipamentos de Angra 3, comprados na Alemanha, quanto àqueles fabricados na Nuclep, estão em perfeitas condições de manutenção. Uma prova de que não há obsolescência é a performance da usina Angra 2, uma das melhores do mundo. Com se sabe, Angra 2, é exatamente igual à usina Angra 3, que está sendo construída,
No ano passado, entre as 450 usinas nucleares em operação no mundo, Angra 2 foi nona colocada em termos de geração. Essa usina produziu 11,5 milhões de megawatts-hora – a melhor marca de sua história.

Blog: Onde os equipamentos estão guardados?
Diretor: No próprio local onde está sendo construída a usina, em Angra dos Reis e em uma instalação adequada na área da Nuclep, em Itaguaí – RJ.

Blog: Podem ser usados em outras unidades?
Diretor:  Em tese um equipamento nuclear pode ser usado em qualquer usina do mesmo tipo. Porém, os equipamentos que estão armazenados na Nuclep foram fabricados e serão usados em Angra 3.

Blog: Quais os equipamentos que certamente serão utilizados?
Diretor: Todos os equipamentos fabricados na Nuclep ou na Alemanha serão utilizados em Angra 3. Na Nuclep, hoje há sete acumuladores e um condensador que estão sendo fabricados para essa usina.

Blog: Como serão levados para o Complexo Nuclear de Angra?
Diretor Nuclep: Há várias opções de transporte, dependendo do peso e tamanho dos equipamentos. A Nuclep é uma empresa que pode despachar os equipamentos produzidos por via rodoviária ou por via marítima por meio de seu Terminal de Uso Privado – TUP (terminal marítimo).

Blog: A logística é simples?
Diretor: A logística de entrega de seus equipamentos nucleares ou para outros mercados é bem conhecida da Nuclep.  Evidentemente é uma operação que exige cuidados e por esse motivo é monitorada por equipes especializadas constituídas para esse fim.

Blog: Há planos para isso? Como e quando?
Diretor: Sim, há planos para despacho dos equipamentos, assim que for necessário, de acordo com o cronograma de retomada das obras pela Eletronuclear.

Blog: Outros equipamentos terão que ser comprados ou produzidos pela NUCLEP?
Diretor: A Nuclep está produzindo sete acumuladores e um condensador para Angra 3. De acordo com a Eletronuclear 77% dos equipamentos já foram comprados. A Nuclep é uma empresa pronta para fornecer quaisquer outros componentes que forem ainda necessários para a usina.

Blog: Há tecnologia nacional para isso?
Diretor: A empresa é uma caldeiraria pesada, produtora de bens de capital sob encomenda, com mais de 30 anos de existência, que detém todas as certificações para a fabricação de componentes nucleares. A Nuclep tem tecnologia, maquinário e pessoal especializado para atender o mercado nuclear.
Blog: Quantos funcionários trabalham hoje no projeto?
Diretor: São cerca de 1000 funcionários alocados no atendimento de seus três mercados principais: o nuclear, o de defesa e o de petróleo de gás. A quantidade de funcionários alocados por projeto, depende do estágio de fabricação de cada componente que esteja em sua linha de produção.

Blog: Quantos serão contratados caso as obras sejam retomadas em 2019?
Diretor: Para terminar as obras de Angra 3, na Nuclep, não será necessária a contratação de mais funcionários.

Blog: Quanto o governo gasta com a manutenção dos equipamentos já existentes?
Diretor: Essa informação é da responsabilidade da Eletronuclear.
·         (Veja abaixo as informações da Eletronuclear)

Blog: Recentemente foi apresentado ao Conselho de Administração, o Plano de Negócios – 2019 da Nuclep. O que destaca nesse Plano?
Diretor:  O Plano de Negócios - 2019 é uma exigência da Lei 13.303/16, que determina sua elaboração juntamente com as estratégias da empresa para os próximos anos. No Plano de Negócios – 2019, apresentamos as principais obras a serem realizadas no próximo ano nos principais mercados de atuação da Nuclep: o de energia nuclear, o de defesa e o de petróleo e gás. No mercado de energia nuclear, eu destacaria a continuação da fabricação dos acumuladores e do condensador de Angra 3, ambos em estágio adiantado de industrialização. No mercado de defesa, destaco a importância das obras do Laboratório de Geração Nucleoelétrica (LABGENE) do Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo (CTMSP) e do Programa de Submarinos da Marinha (PROSUB).

Blog: Nesse mercado, o que está sendo construído pela Nuclep?
Diretor: Diversos equipamentos, entre os quais, o vaso de pressão do futuro submarino nuclear brasileiro e o casco resistente do submarino convencional Angostura. Esse é o quarto casco dessa classe de submarinos fabricado na empresa. Para o mercado de petróleo e gás, a Nuclep apresentou uma série de projetos que poderão, futuramente, gerar negócios importantes para a empresa. Há mercados emergentes como o de mineração e saneamento nos quais a companhia está também prospectando novas oportunidades.

ELETRONUCLEAR RESPONDE AO BLOG:

A empresa gasta cerca de R$ 30 milhões por ano, com a manutenção dos equipamentos já existentes para Angra 3, informou a assessoria de imprensa da empresa. Os equipamentos estão estocados em almoxarifados localizados em sua maior parte no canteiro de obras da usina, além de instalações em Mambucaba e na Nuclep. A empresa informa que “houve um cuidado específico quanto aos equipamentos e componentes sujeitos à obsolescência, sendo que estes fazem parte dos fornecimentos nacionais e importados contratados a partir da retomada do empreendimento em 2009, estando assim atualizados”.

E MAIS:
Angra 3 foi comprada no pacote do acordo Brasil Alemanha, assinado em 27 de junho de 1975, pelo general Ernesto Geisel. Suas obras se arrastam há décadas. A última parada ocorreu em 2015, por vários problemas, entre eles, denúncias da Lava-Jato. A usina tem 65% de suas obras civis concluídas e já consumiu cerca de R$ 7 bilhões. Ao BNDES, a Eletronuclear estava pagando 30 milhões por mês.

VEJA OS EQUIPAMENTOS EM CONSTRUÇÃO NA NUCLEP (Acumuladores e condensadores)





Testes de beneficiamento de urânio em Caetité começam nesta quarta-feira (12/12)


A Indústrias Nucleares do Brasil (INB) retoma nesta quarta-feira (12/12) os testes operacionais da planta química de beneficiamento nas rochas de urânio que estão no pátio da empresa, em Caetité (BA). Segundo o presidente da INB, Reinaldo Gonzaga, a retomada está sendo possível, a partir de autorização concedida pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN). A unidade abrange 1.800 hectares.
Foram investidos R$ 56 milhões nas obras realizadas visando à retomada da produção. Prevê-se até 2025, a ampliação da capacidade de produção para 800 toneladas anuais, com investimentos de R$ 571 milhões, valor este contemplado no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

“Não medimos esforços para chegar ao momento que estamos vivendo agora: voltar a produzir após mais de três anos parados”, lembrou. A paralisação da jazida no período de 2000 a 2015 gerou um prejuízo de RS 253.818.965,35, segundo o presidente da INB. 

A operação de uma mina demanda uma série de processos juntos aos órgãos ambientais, por exemplo. “Nesse período de 15 anos (2000 a 2015), através da exploração a céu aberto da Mina da Cachoeira, a INB produziu 3.761.154 Kg de U3O8, atendendo às necessidades de fornecimento de combustível para as Usinas Nucleares Angra 1 e 2. Com o término da exploração a céu aberto, economicamente viável, era necessário que se fizesse a exploração da lavra subterrânea da referida mina”, informou. Mas “dificuldades no licenciamento deste tipo exploração junto aos órgãos de licenciamento CNEN e IBAMA obrigaram a INB a iniciar um novo processo (de licenciamento) para uma exploração a céu aberto, na Mina do Engenho, cuja autorização foi obtida recentemente”, disse.

No caso de Caetité, a previsão de retomada dos trabalhos, a partir desta quarta-feira envolve uma série de etapas: inicialmente haverá o tratamento do minério resultante do decapeamento. A partir de meados de 2019, os trabalhados serão com o minério procedente da nova lavra propriamente. “A previsão para a entrada efetiva em operação da unidade Caetité é a partir do início do tratamento do minério proveniente da lavra, com a produção anual de 270 toneladas de U3O8”, estima Reinaldo Gonzaga.

O presidente da INB avisou que esta produção (de concentrado de urânio) ainda não atenderá totalmente as necessidades de Angra 1 e 2, mas permitirá uma economia com a importação, da ordem de R$ 50 milhões.

Sobre o que está sendo feito para prevenção de acidentes e segurança do trabalho, ele informou que durante o processo de licenciamento da unidade junto à CNEN e ao IBAMA são exigidos inúmeros planos de monitoração que garantam a total segurança do trabalhador, do público e do meio ambiente.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Angra 1 volta a operar


A Usina Nuclear Angra 1 foi religada às 23h50 desta quarta-feira (05/12), cinco dias após o previsto, por conta de “dificuldades na montagem do gerador elétrico principal”, informou a Eletronuclear. Segundo a empresa, “a montagem do equipamento é complexa e meticulosa, de forma a manter a estanqueidade de seu gás de resfriamento que fica confinado numa pressão elevada”.
 A usina foi desligada de forma programada do Sistema Interligado Nacional (SIN), no dia 27/10, para o reabastecimento de combustível. No momento, a unidade está em processo de elevação de potência e deve atingir 100% neste sábado (8/12).  
De acordo com a Eletronuclear, cerca de um terço do combustível nuclear (urânio enriquecido) da usina está sendo recarregado. Também estão sendo realizadas atividades de inspeção e manutenção periódicas, além de modificações de projeto, que precisam ser feitas com a unidade desligada.
São 3.755 tarefas programadas, sob a responsabilidade de firmas nacionais e internacionais, que disponibilizam 1.177 profissionais, sendo 85 deles estrangeiros, para atuar em conjunto com os técnicos da Eletronuclear.
Além do reabastecimento, destacam-se, dentre as tarefas previstas, a modernização do sistema de monitoração de vibração das bombas de refrigeração do reator; a substituição dos transmissores de nível dos acumuladores do sistema primário e de válvulas do sistema de água de serviço; e a troca do motor de uma das bombas de refrigeração do reator.  Também estão sendo realizadas inspeções com levantamento de dados visando à extensão da vida útil da unidade por mais 20 anos.


Em destaque

Bomba atômica! Pra quê? Brasil e Energia Nuclear - Editora Lacre

O livro “Bomba atômica! Pra quê? Brasil e Energia Nuclear”, da jornalista Tania Malheiros, em lançamento pela Editora Lacre, avança e apr...