Conhecido como “o pai da bomba atômica”, por sua trajetória e participação no programa nuclear paralelo (militar) brasileiro, o físico Rex Nazaré, que presidiu a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) durante 37 anos, morreu ontem (6/1), levando segredos e histórias dos governos militares. Discreto, respeitado por sua vida marcada pela ética, publicamente, Rex Nazaré se dizia contra as armas nucleares. “O Brasil já sabe fazer a bomba atômica há muito tempo, mas acho que não deve fazer. Soberania a gente não compra. A gente conquista”, disse em 2018.
Ele nasceu na Gamboa no dia 5 de julho de 1938. A cremação está marcada para sexta-feira, 9 de janeiro, a partir de 9 horas, no Crematório do Memorial do Carmo, no Rio de Janeiro.
Teve participação ativa nas pesquisas que levaram o Brasil a dominar o ciclo do enriquecimento de urânio, ente as décadas de 70 e 80. Foi um dos titulares da conta secreta Delta 3, com verbas destinadas às pesquisas nucleares. Entrevistado por mim em 1989, negou o fato, confirmado com documentos e extratos do Banco do Brasil. As apurações nada descobriram contra Rex enquanto homem forte do programa paralelo, mantenedor da Delta 3. Durante o acidente com uma cápsula de césio 137, em Goiânia, em 1987, Rex enfrentou duras críticas sobre as falhas na fiscalização que resultaram no maior acidente radiológico do mundo, com quatro mortes imediatas.
O então presidente da República Fernando Collor, empossado em 1990, que buscava os holofotes a todo o custo, desagradou militares e civis que atuavam no setor nuclear brasileiro, que passou a ser colocado como secundário “para suprir as deficiências energéticas do País”. Dois anos depois, Collor colocou uma pá de cal em um poço aberto na Serra do Cachimbo, no Pará – cuja existência foi revelada pela jornalista Elvira Lobato, para a Folha de S. Paulo - e demitiu Rex Nazaré da presidência da CNEN. Rex sempre negou que o poço em Cachimbo teria o objetivo a realização de testes nucleares.
TRAJETÓRIA -
Bacharel e licenciado em Física pela Universidade do Estado da Guanabara (UEG), atual Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), especialista em Engenharia Nuclear pelo Instituto Militar de Engenharia (IME), em 1963. Realizou estágio no Instituto Federal de Tecnologia de Zurique (ETH) e doutorado em Física pela Universidade de Paris (Sorbonne), em 1968. Na CNEN tornou-se pesquisador a partir de 1965, ano da entrada em operação do reator Argonauta. Foi chefe da Seção de Física de Fissão da CNEN após o retorno de seu doutorado.
Teve papel decisivo na criação do Instituto de Radioproteção e Dosimetria (IRD/ANSN), sendo seu primeiro diretor, entre 1972 e 1975, e consolidando a importância da radioproteção no país. Atuou diretamente na captação de recursos, na escolha do terreno e na viabilização da construção do instituto. “Às vésperas da inauguração do IRD, mesmo após danos estruturais causados por vendaval, participou de uma reconstrução que permitiu manter a data de inauguração, proferindo a célebre frase “o entusiasmo supera nossas deficiências”.
Tornou-se diretor da Finep, na diretoria de projetos estratégicos nacionais, diretor de Tecnologia da Faperj. Ocupou posições como Membro do Conselho de Administração da Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM), chefe do Departamento de Tecnologia da ABIN, assessor especial do Ministro de Estado Chefe do Gabinete de Segurança Institucional, colaborador da Presidência da Eletronuclear.” Rex recebeu muitas homenagens ao longo de sua trajetória. Foi professor em cursos de pós-graduação, palestrante muito requisitado e conferencista emérito da Escola Superior de Guerra (ESG). Em 2014 teve sua história transformada em livro, por Débora Motta, edição Faperj, na obra Uma vida dedicada à energia nuclear. As informações sobre a sua trajetória de Rex Nazaré foram divulgadas pela CNEN.
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