Neste mês de homenagens às
mulheres, a engenheira eletricista e nuclear, Olga Simbalista, relembra a
importância de mulheres na energia nuclear, carinhosamente chamadas de
“mulheres atômicas”, que entraram para a História com realizações das mais
relevantes. Membro do Board of Directors of
the American Nuclerar Society, com mestrado em energia nuclear, Olga Simbalista conta um pouco a sua trajetória
e preconceitos que enfrentou ao tentar integrar a parte de universo tão
masculino. Aqui, traça um breve histórico das “mulheres atômicas”.
A engenheira
nuclear revisita casos marcantes como o da professora de Sócrates, considerada
“prostituta”, porque gostava de filosofar entre os homens; o "pouco caso" de
acadêmicos a mulheres que se destacavam; o apoio de umas às outras; a rede de
difamação e muito mais.
O alemão
Jonathan Tennenbaum, doutor em matemática pela Universidade da Califórnia e
atualmente trabalhando em Berlim, como consultor independente em ciência e
política internacional, e autor do livro “Energia Nuclear, Uma Tecnologia
Feminina”, onde busquei minha grande inspiração para este trabalho, escreveu na
introdução de seu Livro o seguinte texto: “Dentre as produções científicas e
tecnológicas mais significativas da história da humanidade, não há nenhuma em
que as mulheres tenham desempenhado um papel tão relevante e multifacetado,
como no desenvolvimento da energia nuclear. Devemos agradecer o nascimento da
energia nuclear a muitas corajosas mulheres atômicas que se decidiram por uma
vida de pesquisas, a despeito de todos os preconceitos e resistências, em
particular a três que foram responsáveis por descobertas que mudaram a face do
Planeta como Marie Curie, Lise Meitner e Ida Noddack”.
Mas o que tornou tão
relevante, também, o trabalho das mulheres, neste setor, foi a quantidade delas,
envolvidas, desde então, e até os dias de hoje, pois na história antiga tivemos
algumas com trabalhos científicos de elevadas relevâncias, mas pouco
difundidas, por serem, talvez, andorinhas únicas, não merecedoras de seus verões,
como, por exemplo:
Temistocléia, a mestra de Pitágoras, uma
matemática, que lhe ensinou geometria, aritmética e princípios de ética.
Sacerdotisa e filósofa, dedicou-se a sempre ensinar a quem quisesse aprender,
com pedagogia e didática extremamente eficientes, nos templos gregos, entre
sacerdotes e sacerdotisas, dedicados não apenas a cultos religiosos; o templo de
Delphi, o mais conhecido como o centro da Terra, servia também como universidade.
Pitágoras admirava muito o seu conhecimento e sabedoria, servindo tal como
motivo para, mais tarde, aceitar mulheres na sua escola; Temistocléia é também
mencionada por Aristoxeno e Diógenes Laestios.
Aspásia de Mileto, outra pouco conhecida
por aqueles que conhecem Sócrates, de quem foi professora... Chegou a admitir que
a chamassem de “prostituta”, apenas pelo prazer de filosofar entre os homens...
Platão a menciona como parte dos círculos intelectuais e políticos e
especialistas em retórica, talvez devido a sua origem jônica. Consta, ainda,
que teria contribuido para a redação da oração fúnebre de Péricles, em 430 AC. Tal
Oração da Igualdade, inspirada na democracia, ecoaria, mais tarde, no discurso
de Abraham Lincoln em Gettysburg, de John Kennedy em Berlim Ocidental e embasaria
o movimento de emancipação feminina.
Mas falemos das "mulheres atômicas". As descobertas das mulheres
nos campos das radiações e nuclear não teriam acontecido sem as pavimentações de
três gênios anteriores: Dimitri
Mendeleiev, Wilhelm Röntgen e Henri
Becquerel, fundamentais para as evoluções da Química e da Física. Seus
trabalhos não apenas revolucionaram a compreensão dos elementos químicos e da
radiação, mas também abriram portas para futuras gerações de cientistas,
incluindo essas mulheres que se tornaram figuras proeminentes nas ciências. A interconexão entre suas descobertas exemplifica como a ciência avança
através da colaboração e da construção sobre o conhecimento existente.
DMITRI
MENDELEIEV -
Nasceu na cidade de Tobolsk, na Sibéria, e só conseguiu
cursar o Instituto Pedagógico Central, formador de professores, em São
Petesburgo, pois tanto as escolas de engenharia de lá, como as de Moscou não admitiam
alunos de outras regiões do país. Em 1859, conseguiu uma verba do governo para
estudar no exterior por dois anos, indo para Paris e, no ano seguinte, para a
Alemanha, onde transformou um pequeno apartamento em laboratório improvisado. Trabalhando
sozinho, fez importantes descobertas sobre estruturas
atômicas, valência e
propriedades dos gases.
Em 1869, enquanto escrevia seu livro de química
inorgânica, Mendeleiev organizou os elementos na forma da tabela
periódica atual para cada um dos 63 elementos conhecidos na época. A carta
continha o símbolo
do elemento, a massa atômica e
as suas propriedades químicas e físicas. Colocando-a numa mesa, organizando-a
em ordem crescente de massas atômicas e agrupando em elementos de propriedades
semelhantes. Tinha então acabado de formar a tabela periódica. Esta tabela de
Mendeleiev tinha vantagens sobre outras antes apresentadas, pois deixando espaços vazios,
antevia a descoberta de três novos elementos, o que se confirmou, aumentando
sua reputação e tornando-se base da
atual tabela periódica, que além de catalogar 118 elementos conhecidos, fornece
inúmeras informações sobre o comportamento de cada um.
WILHELM ROETINGEN
-
Nascido em 1845, em Munique, foi físico e engenheiro mecânico. Em 9 e
novembro de 1895, produziu e detectou Radiação eletromagnética em ondas
correspondentes aos atualmente chamados raios-x. Por esta descoberta recebeu
seu primeiro Nobel de Física, em 1901. Em reconhecimento a seus feitos
científicos, a União Internacional de Química Pura e Aplicada nomeou o elemento
químico 111 de roentgênio.
Gostava de mecânica, criando intrincados mecanismos,
algo pelo qual manteve a prática na vida adulta. Em 1862, entrou na escola
técnica de Utrecht, de onde foi injustamente expulso por ter feito uma
caricatura de um de seus professores, o que na verdade fora obra de outro
colega...
Ingressou no Instituto Politécnico de Zurique e passou a
cursar engenharia mecânica, onde em 1869, obteve o título de PhD. Teve o
primeiro trabalho publicado um ano depois. E em 1900, aceitou a cadeira de
física na Universidade de Munique.
Em 1895, Wilhelm testava equipamentos
desenvolvidos por seus colegas e, em novembro, colocando uma fina camada de
alumínio para permitir que raios catódicos pudessem sair de um tubo e também
uma cobertura de papelão para proteger o alumínio de danos causados pelo campo
eletrostático. Ele sabia que a cobertura de papelão evitava que a luz
escapasse, mas observou que os raios invisíveis causavam um efeito fluorescente
em uma pequena tela de papelão pintada com platino cianeto de
bário, quando colocado próximo à janela alumínio, percebendo depois
que uma parede de vidro muito mais espessa do que a do tubo, também poderia
causar esse efeito fluorescente. Ele então descobriu que o brilho vinha da tela
de platino cianeto de bário que ele pretendia usar em seguida, sem saber que
tipo de raio estaria por trás do brilho.
No dia 8 de novembro, ele repetiu a
experiência e continuou a detectar os raios, que apelidou de
"raios-X" para o desconhecido. Em vários idiomas, os novos
raios levariam seu nome. Posteriormente, enquanto investigava a capacidade de
vários materiais de deter os raios, colocou um pequeno pedaço de chumbo e viu,
então, a primeira imagem radiográfica do seu próprio esqueleto cintilando na
tela de platino cianeto de bário.
Tal efeito era usado com frequência no
Laboratório dos Médicos do Livro de Thomas Mann, A Montanha Mágica e, na
ocasião, eu considerava um horror, já que meus conhecimentos sobre radiação
eram limitados.
O artigo original "Sobre uma nova espécie de
Raios" foi publicado 50 dias depois, em 28 de dezembro de 1895 e
Wilhelm recebeu o título de Doutor Honorário em Medicina, da Universidade
de Würzburgo sendo atualmente considerado o pai da Radiologia de Diagnóstico.
Devido à sua descoberta, Röntgen foi laureado com o primeiro Nobel de
Física, em 1901.
O prêmio foi concedido "em reconhecimento aos
extraordinários serviços que à descoberta dos notáveis raios que costumam levar
seu nome". Röntgen doou a recompensa monetária à sua
universidade, convicto de que a ciência deve estar ao serviço da humanidade e
não do lucro. À semelhança da escola científica alemã da época, e, da mesma
forma que Pierre Curie faria vários anos mais tarde, rejeitou
registrar qualquer patente relacionada à sua descoberta.
Henri
Becquerel -
Antoine-Henri
Becquerel nasceu em Paris em 1852 e foi o físico francês responsável
pelos estudos que levaram à descoberta do fenômeno da radioatividade.
Estudou
na Escola Politécnica e foi engenheiro de pontes e calçadas, tendo ensinado física nesta
mesma Escola e no Museu Nacional de História Natural.
Continuou os trabalhos dos seus pai e avô, descobrindo em 1896 a radioatividade dos
sais de urânio. espontaneamente,
sem a necessidade de uma fonte externa de energia, desafiando as noções
convencionais da física da época.
Esse fenômeno, que ele denominou de
"radioatividade", não só trouxe à luz novas características da
matéria, mas também deu origem a um campo de pesquisa inteiramente novo. A contribuição de Becquerel foi reconhecida
internacionalmente, e foi fundamental para futuros estudos sobre elementos
radioativos e suas interações. Essa nova área de pesquisa não apenas impactou a
física, mas também a medicina e a química, levando ao desenvolvimento de
tratamentos para câncer e a exploração de energia nuclear.
Vamos nos transportar, agora, ao objeto principal do nosso
texto, qual seja, as Mulheres Atômicas, começando com um breve resumo das três
principais delas:
Marie Curie, que foi a responsável pelo entendimento das
diversas formas de radiação e da descoberta dois elementos radioativos, rádio e
polônio, cujos espaços já existiam na tabela periódica dos elementos químicos
de Mendeleiev e diversas outras descobertas em seu acanhado laboratório,
resultando em dois Prêmios Nobel: de Física, juntamente com seu marido Pierre
Curie e Henri Becquerel; e o de Química, desta feita sozinha, o que não houvera
acontecido antes, muito menos por uma mulher;
Lise Meitner, conhecida nos
círculos dos iniciados como a Mãe da Bomba Atômica, por ser a grande descobridora da teoria da fissão nuclear, quando exilada da Alemanha Nazista, tendo
enviado suas conclusões para o seu companheiro de pesquisas, Otto Hahn, que
posteriormente recebeu o Prêmio Nobel por tal descoberta, já que Lise era
judia. Ida Noddak e seu marido, que descobriram o elemento que seria o futuro
Tecnício, criadora da “Função Universal da Matéria” e da hipótese de o núcleo
do urânio ser um emissor de radiação de enorme duração, ou quase infinita; e
Marie
Sklodowska-Curie, frequentemente conhecida apenas como Marie Curie, nasceu em 7
de novembro de 1867, em Varsóvia, na Polônia, então parte do Império Russo.
Filha de professores, Marie cresceu em um ambiente que valorizava a educação e
a curiosidade científica e desde cedo, demonstrou uma aptidão extraordinária
para os estudos, mas enfrentou enormes desafios por ser mulher em uma sociedade
profundamente patriarcal, uma vez que as universidades polonesas eram
inacessíveis a elas, o que a levou a se juntar a uma rede de ensino
clandestina, conhecida como “Universidade Flutuante”.
Em busca de um futuro melhor e de educação superior, Marie mudou-se para Paris
em 1891, ao se matricular na Universidade de Sorbonne e nos anos seguintes, se
destacou em física e matemática, formando-se com distinção. Foi lá que conheceu
Pierre Curie, seu futuro marido e colaborador. Adotando seu sobrenome, o casal
se uniu não apenas pelo amor, mas pela paixão pela ciência e, juntos,
realizaram pesquisas inovadoras no campo da radioatividade, termo cunhado por
Marie.
Marie Curie fez descobertas fundamentais que alteraram para sempre o
entendimento da física e da química. Em 1898, ela e Pierre descobriram dois
novos elementos químicos: polônio (nomeado em homenagem à Polônia) e rádio.
Esses elementos demonstraram propriedades radioativas excepcionais. Em 1903,
Marie e Pierre, juntamente com Henri Becquerel, foram agraciados com o Prêmio
Nobel de Física, reconhecimento que a impulsionou a se estabelecer como uma
cientista respeitada, embora ainda enfrentasse o preconceito de gênero.
Além de
suas realizações científicas, Marie Curie estabeleceu um legado duradouro em
termos de luta pela igualdade de gênero na ciência. Ela desafiou as normas da
época, tornando-se a primeira mulher a lecionar na Sorbonne e a primeira mulher
a ser aceita membro da Academia Francesa de Ciências. Seu trabalho não só abriu
portas para futuras gerações de mulheres no campo científico, mas também
desafiou estereótipos, mostrando que a determinação e a capacidade não têm
gênero... Não é demais lembrar que, em 1907, o “Rei” da Ciência Britânica, Sir
Willian Thompson, ou Lorde Kelvin, colocou em questão sua competência numa
carta de leitores de uma revista, sugerindo que a identificação do elemento
rádio era mais uma dedução que um trabalho científico.
A vida pessoal de Marie
Curie foi marcada por tragédias. Em 1906, Pierre morre em um acidente, e Marie
enfrenta a dor da perda do companheiro e, ao mesmo tempo, parceiro nas
pesquisas científicas. No esforço de manter seu legado, trabalha
incansavelmente e assume a cátedra de Pierre na Sorbonne, para educar suas duas
filhas, Irene e Eve, num exemplo de força e resiliência.
Não bastasse, na
ocasião, teve ainda que lutar contra uma campanha de difamação propagada pela sociedade
e a mídia francesa, em particular os de extrema direita, como o L’Action Française,
embalada pelo caso Dreyfuss e acusando-a de ser judia. A campanha citava um
suposto caso amoroso entre ela e um amigo do casal, o físico Paul Lavigne, casado
e pai de quatro filhos, e sugeria que seus trabalhos eram na verdade de seu
marido e não do casal. Marie recebeu grande apoio de amigos e renomados
cientistas do país e exterior, mas o caso foi esclarecido, por ocasião do
divórcio do casal Lavigne, quando ficou claro que a esposa desejava que o
marido abandonasse os trabalhos universitários e fosse trabalhar nas indústrias
do sogro, muito mais rentáveis.
Porém, pouco tempo depois deste incidente,
seria anunciado o segundo Prêmio Nobel para Marie Curie, desta vez em Química e
sozinha, fato inédito, principalmente para uma mulher. Marie adquirira um
carcinoma e estava com a saúde bastante abalada, mas decidiu ir a Suécia
receber o Prêmio, sendo muito homenageada e aplaudida. Ela continuou
trabalhando em vários locais, mas principalmente no seu Laboratório, onde teve
dezenas de alunas que se tornariam cientistas de destaque, em particular, sua
filha Irene, junto com seu marido.
Ela faleceu em 4 de julho de 1934, vítima de
Câncer por radiação, sem ver, pouco depois, sua filha e o marido receberem o
Prêmio Nobel, pela produção artificial de elementos radioativos.
Outro grande
trabalho de Marie antes de falecer foi durante a Primeira Guerra, em trabalhos
de radiografias entre feridos candidatos a cirurgias, pela primeira vez em uma
guerra! Ela faleceu em 4 de julho de 1934, em Passy, França, em decorrência de
anemia aplástica, uma doença associada à sua exposição prolongada à radiação.
Sua contribuição para a ciência e a humanidade é inegável; seus estudos não
apenas pavimentaram o caminho para a compreensão da radioatividade, mas também
abriram portas para pesquisas na área do tratamento do câncer.
O legado de
Marie Curie é testemunho de como a curiosidade, a paixão e o trabalho árduo
podem levar a descobertas que transformam o mundo. Hoje, ela é lembrada não
apenas como uma das cientistas mais influentes de todos os tempos, mas também
como uma pioneira que desafiou as normas sociais, deixando um impacto duradouro
em diversas áreas do conhecimento. Seu nome permaneceu eternamente associado
aos avanços na ciência e à luta pela igualdade, inspirando futuras gerações a
seguirem seus passos e a perseverar em suas buscas por conhecimento e verdade.
Marie
Curie, uma das maiores cientistas da História, senão a maior, teve influência
significativa sobre várias mulheres na ciência, especialmente no campo da
radioatividade e da física.
Lise Meitner -
Lise
Meitner, nascida em 7 de novembro de 1878, em Viena, Áustria, é outra figura
central na história da física nuclear e das poucas mulheres a se destacar em um
campo dominado por homens durante os séculos XIX e XX. Também membro de família
judia de classe média alta, queria estudar física, mas o pai só permitiu que
seguisse nesta direção, depois que se formasse professora, de modo a garantir
uma profissão que pudesse sustentá-la. Com uma formação acadêmica sólida e uma
carreira marcada por inovações, Meitner começou seus estudos em Física e
Matemática na Universidade de Viena, onde se tornou a segunda mulher a obter um
doutorado em Física na Áustria, em 1906.
Após concluir seus estudos, Meitner
trabalhou com renomados físicos, incluindo Wilhelm Röntgen e Max Planck, em um
tempo em que as oportunidades para mulheres na ciência eram extremamente
limitadas. Em 1907, ela se mudou para Berlim, onde se uniu ao grupo de pesquisa
de Otto Hahn, com quem formou uma colaboração que duraria por várias décadas.
Neste
período, quis frequentar um curso avançado em Berlim, mas o professor se negou
a autorizar a presença feminina no ambiente circunspecto e machista. Meitner
não se incomodou e assistiu todas as aulas escondida, no porão do laboratório,
no escuro.
Em suas memórias, escritas em 1961, ela se auto define assim:
“Penso
que todos os jovens imaginam suas vidas, de acordo com seus desejos; quando eu
mesma refletia sobre isto, sempre chegava à conclusão de que a vida não precisa
ser simples, desde que não fosse vazia. E esse desejo me foi concedido. As duas
guerras mundiais se encarregaram de que minha vida não fosse simples e sim
preenchida pelos envolvimentos maravilhosos que ocorreram na física e às
grandes e amadas pessoas que encontrei com meu trabalho na física.”
O trabalho
mais significativo de Meitner e Hahn girou em torno da radioatividade e, quase
que por acaso, da fissão nuclear. Em 1938, os dois cientistas realizaram
experimentos que levaram à descoberta da fissão do urânio, um processo em que
um núcleo atômico é dividido em núcleos menores, liberando uma grande
quantidade de energia.
A contribuição de Meitner foi crucial para a
interpretação dos resultados experimentais. Ela foi a primeira a apresentar a
explicação teórica desse fenômeno em uma carta em coautoria com o físico Otto
Frisch, seu sobrinho, ambos exilados na Suécia, em 1938, devido à perseguição
nazista a judeus. Na referida carta, ela fornece a Hahn toda a base teórica para
a compreensão do processo de fissão.
Na Suécia, continuou seus estudos e pesquisas, mas, durante este período, ela
se recusou a participar do desenvolvimento de armas nucleares, o que demonstra
seu compromisso ético com a ciência.
Após a Segunda Guerra Mundial, as
contribuições de Meitner começaram a ser reconhecidas oficialmente. Em 1949, o
elemento químico de número 109 foi nomeado "meitnério" em sua
homenagem, em reconhecimento à sua importante, pesquisa em física nuclear.
Mesmo
que não tenha recebido o Prêmio Nobel, dado a Otto Hahn, fato frequentemente
destacado em discussões sobre a injustiça de sua época, Lise Meitner deixou uma
marca indelével na ciência. Ela não apenas ajudou a desvendar os segredos da
fissão nuclear, mas também abriu caminho para futuras gerações de cientistas,
especialmente mulheres, provando que a determinação e o talento podem superar
barreiras sociais e históricas, sendo exemplo poderoso da interseção entre
ciência, ética e o papel das mulheres na pesquisa científica Com suas
contribuições, Meitner não apenas avançou o entendimento da física nuclear, mas
se tornou um símbolo de resistência e inovação em um mundo que frequentemente
subestimava as mulheres.
Ida Noddack -
Nascida em 1896, na
Alemanha foi renomada química e física alemã, conhecida por suas importantes
contribuições à química nuclear e à física. Nascida também numa época em que a
ciência era dominada por homens, Noddack quebrou barreiras e deixou legado significativo
por meio de suas pesquisas e descobertas. Ida Noddack nasceu em uma família de
agricultores e estudou na Universidade Técnica de Berlim, onde obteve doutorado
em 1921, tornando-se uma das primeiras mulheres a alcançar esse título na área
das ciências exatas. Durante seus anos de estudo, desenvolveu paixão pela
química, particularmente pela química dos elementos e suas estruturas. Após
completar seu doutorado, começou a trabalhar no campo da pesquisa, colaborando
com importantes cientistas da época.
Uma das principais contribuições de
Noddack para a ciência foi a descoberta do elemento químico rênio (Re) em 1925,
ao lado de seu marido, Walter Noddack, e de Otto Berg. O rênio é um metal de
transição raro, utilizado em várias aplicações tecnológicas, incluindo
catalisadores e ligas de tungstênio. Essa descoberta foi notável, pois o rênio
é um dos poucos elementos químicos descobertos no século XX.
Além de suas
pesquisas sobre o rênio, Ida Noddack foi pioneira em estudos sobre fissão
nuclear. Em 1934, ela publicou um artigo teórico que antecipava a possibilidade
da fissão do núcleo atômico, muito antes do experimento prático que levaria à
descoberta da fissão nuclear por Meitner em 1938. Noddack argumentou que a
fragmentação do núcleo de um átomo poderia ocorrer sob determinadas condições,
uma idéia que se tornaria fundamental para o desenvolvimento da energia
nuclear. No entanto, devido ao contexto sócio-político da época e ao seu
gênero, suas ideias não receberam reconhecimento adequado.
Apesar de seus
significativos avanços científicos, Ida Noddack enfrentou desafios como mulher
em uma sociedade predominantemente masculina. Ela foi muitas vezes subestimada
e não recebeu o reconhecimento que merecia durante sua vida. Em sua obra,
Noddack abordou não apenas questões químicas e físicas, mas também escreveu
sobre a importância de um maior envolvimento feminino nas ciências, defendendo
a igualdade de oportunidades para as mulheres na pesquisa.
Após sua morte, o
trabalho de Noddack começou a receber mais atenção, e suas contribuições à
química nuclear foram reavaliadas e reconhecidas. Em 2008, seu nome foi
incluído na Galeria de Mulheres na Ciência – uma celebração às mulheres que
fizeram contribuições significativas em diversas áreas científicas.
Irene Curie
-
Outra
cientista influenciada por Marie Curie foi Irene, sua filha mais velha com
Pierre, que continuou o legado dos pais sobre radioatividade. Ela e seu marido,
Frédéric Joliot, receberam o Prêmio Nobel de Química em 1935 por suas
descobertas sobre a produção de elementos radioativos sintéticos. O trabalho de
Irene não apenas ampliou os conhecimentos sobre as propriedades dos isótopos,
mas também consolidou o papel das mulheres na ciência, mostrando que o gênero
não deve ser barreira para a excelência nas ciências exatas. Entretanto, sua
mãe não estava mais viva para colher mais este fruto, talvez o maior de suas
plantações.
Chien-Shiung
WU.
Devemos mencionar ainda a contribuição da chinesa Chien-Shiung Wu,
física experimental que, embora não tivesse sido diretamente aluna de Curie,
foi inspirada pelo seu trabalho. Wu é conhecida por sua pesquisa sobre os
decaimentos beta e pela sua famosa experiência, que desafiou a simetria da
conservação da paridade em reações subatômicas, sendo fundamental para o
desenvolvimento da teoria da interação fraca e solidificou a presença das
mulheres em campos científicos altamente técnicos, iluminando o caminho que
pioneiras como Curie haviam aberto.
Marguerite Perey -
Outra figura importante, foi uma física francesa que se destacou
por suas contribuições à pesquisa sobre radioatividade e, em 1946, isolou o
elemento químico Frâncio, o último elemento da série dos elementos alcalinos.
Sua descoberta foi um marco importante na química nuclear, expandindo nosso
conhecimento sobre elementos radioativos. Perey também se destacou como uma
fiel amiga de Marie, oferecendo-lhe abrigo em sua residência durante a campanha
francesa de difamação. Foi uma das primeiras mulheres a se tornar membro da
Academia de Ciências da França, abrindo caminho para a inclusão feminina na
ciência.
Várias outras se destacaram e vamos citar algumas, a seguir, para não
nos alongarmos demais.
Harriet Brooks, física canadense, pioneira em estudos
sobre a radioatividade no início do século XX, com importantes contribuições
para a compreensão da natureza das partículas radioativas. Foi a primeira a
sugerir que os átomos podiam perder parte de sua massa durante o processo de
radioatividade.
Fany Gates também fez parte desse contexto, realizando
pesquisas fundamentais em radioatividade sobre espectroscopia e a natureza dos
raios alfa.
Ellen Gleditch, química e física britânica, contribuiu
especialmente para os estudos de radioatividade e suas aplicações.
Winifred
Molla Beilby, cientista notável, reconhecida por suas contribuições no campo da
química e bioquímica. Ela se destacou por suas pesquisas sobre a composição e a
funcionalidade de enzimas, o que levou a avanços significativos na compreensão
dos processos metabólicos. Além de suas publicações científicas, Beilby foi forte
defensora da inclusão das mulheres na ciência, contribuindo para a formação de
redes de apoio e para a promoção da educação científica entre jovens garotas.
May Sibil Leslie, por sua vez, fez importantes contribuições para a genética,
especialmente na área de genética de populações e evolução. Seu trabalho ajudou
a estabelecer fundamentos teóricos que permitiram uma melhor compreensão da
variabilidade genética nas populações, influenciando estudos em ecologia e
conservação.
Ruth Piret destacou-se em microbiologia; suas investigações sobre
microrganismos propiciaram avanços no desenvolvimento de técnicas de
bioprocessos, como a fermentação, com aplicações importantes na indústria
alimentícia e farmacêutica.
Maria Goeppert. Também conhecida como a mais bela
moça de Goetting e que teve contribuição importante no Projeto Manhatan. Como podemos concluir, a revolução do Átomo ocorre
ao mesmo tempo em que há maior avanço feminino nas ciências naturais. A
história dessas valorosas pioneiras é um drama cheio de ensões e surpresas e
tendo como pano de fundo duas guerras mundiais, que levaram ao desenvolvimento
de armas terríveis e que marcaram a humanidade para sempre.
OLGA SIMBALISTA - A
PARTICIPAÇÃO DAS MULHERES -
A participação de mulheres na energia nuclear teve,
repito, a influência maior de Marie Curie. Dezenas de pesquisadoras de todo o
mundo e, principalmente, da França, faziam filas para frequentar o seu acanhado laboratório.
Após o fim da segunda Guerra Mundial,
com a criação do Átomos para a Paz, diversos institutos de pesquisas no setor
nuclear abriram espaço para a participação de mulheres em todo o Ocidente, em
particular nos EUA e no Brasil, onde a participação das mulheres, atualmente, é
superior a 30%.
Em 1970, no auge do Milagre Econômico Brasileiro, conclui
minha graduação em engenharia elétrica Escola de Engenharia da Universidade
Federal de Minas Gerais e as principais empresas iam às universidades fazer
concursos para contratar os melhores formandos e qual não foi minha surpresa
diante dos seguintes fatos ocorridos então:
Uma grande multinacional da área de
informática, após realizar o concurso, com o comparecimento das três mulheres
formandas, o gerente de recursos humanos trouxe o resultado, frustrando a todas
nós com a informação de que a empresa tinha uma política de contratar apenas
uma mulher por ano. Como no ano anterior, os dois primeiros colocados eram do
sexo feminino, engoliram duas vagas, uma delas a do nosso ano; portanto, não
sobrara nenhuma; uma indústria de bebidas de grande porte alegou, singelamente,
não dispor de sanitário feminino para não contratar mulheres; e a grande
empresa de eletricidade local após o concurso, na fase de entrevistas dos
aprovados, entrevistando uma das três colegas do sexo feminino que havia sido
bem qualificada, perguntou:
Você sabe que esta vaga requer muitas viagens em
locais diversas? Sim, respondeu ela, mas para mim não há problema. Sabia que
tais viagens serão na maioria na companhia de um engenheiro homem? Pois para
mim também não representa nenhum problema. Mas sabe que este colega pode ser
casado e sua esposa não gostar?
Assim foram aqueles anos dourados! Mas foi então
que soube que um Instituto de Pesquisas federal iria realizar um concurso para o
mestrado em Ciências e Técnicas Nucleares, tema que eu desconhecia, mas exigindo
apenas conhecimentos de física, cálculo e língua estrangeira, sem entrevista.
Fiz,
passei e entrei para o Instituto de Pesquisas Radioativas – IPR, subordinado à
UFMG e à CNEN, defendi minha tese em tempo recorde, fui contratada e as portas
do mundo se abriram para mim. Entretanto, o então Diretor de Pesquisas e
Desenvolvimento, em uma de suas raras visitas ao nosso Instituto, pois preferia
se localizar perto do poder decisório, ao ser informado por meu orientador
sobre meu feito, sequer respondeu ao meu cumprimento e disse para o meu
orientador o seguinte:
“É! Mulheres são muito bonitinhas, mas veja se me
contrata uns barbados”, virou as costas e saiu.
O fato me deixou extremamente constrangida,
porém, o mais IMPORTANTE é que me tornei uma MULHER ATÔMICA, título que ele não
me tirou.
PERFIL -
Graduada em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal de
Minas Gerais, com mestrado em Engenharia Nuclear (UFMG/CNEN), tem
especialização em Termo hidráulica de Reatores na Gesellshaft für Kerntechnik
im Shifbaum und Shiffhart - GKSS, na Alemanha. Ocupou a chefia do Laboratório
de Termo Hidráulica do Instituto de Pesquisas Radioativas-IPR, além de
assessorias e coordenação em empresas do setor como Nuclebras, Eletronuclear e
Furnas.
Nas
áreas de ensino e pesquisa foi membro do Corpo Docente dos Cursos de Mestrado
em Ciências e Técnicas Nucleares (UFMG/CNEN), em Engenharia Térmica (EEUFMG) e
do MBA em Energia da Gama Filho, com
vários trabalhos publicados, no país e no exterior, tendo orientado oito teses.
Presidiu a Seção Latino Americana da
American Nuclear Society, e o Conselho de Energia da Associação e do Conselho
Empresarial de Meio Ambiente da Associação Comercial do Rio de Janeiro – ACRJ.
Atualmente é membro do Conselho Diretor da ACRJ, e do Conselho do Clube de
Engenharia. No contexto das Nações Unidas, foi representante da América Latina
no Consultancy Group for Nuclear Forecasts, da Agência Internacional de Energia
Atômica – AIEA, em Viena, de 2002 a 2011 e consultora da CEPAL, na área de
energia. Atuou nos Conselhos de Administração da CEAL – Companhia de
Eletricidade de Alagoas e do CEPEL – Centro de Estudos e Pesquisas da
Eletricidade, do Projeto de Reestruturação do Setor Elétrico Brasileiro -
RESEB/MME e no Conselho Diretor do Clube de Engenharia.
O curriculum de Olga
Simbalista é extenso e abrangente, raridade entre as mulheres brasileiras da
energia nuclear. Ela também atuou no processo de desenvolvimento social,
econômico e político da mulher teve início em 1993, no Conselho da Seção Rio de
Janeiro do Banco da Mulher, sendo, posteriormente, no âmbito da Rede Nacional
do Banco da Mulher, membro do Conselho Diretor, Diretora, Vice-Presidente e
Presidente. Recebeu doze prêmios com relação à promoção dos direitos da mulher
e, em 2014, foi eleita Personalidade do Ano 2014 pela WEB da ONU.
Foi da presidente da Associação Brasileira de Energia Nuclear (ABEN) no
período de 2016 a 2018. Nesta posição, recebeu, por dois anos consecutivos, o
Prêmio Full Energy de Personalidade do ano, em 2017, e, em 2018, como
representante de entidade.
(FOTOS – ACERVO PESSOAL SIMBALISTA – E ACERVOS REVISTA
GALILEU) –
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