quinta-feira, 3 de abril de 2025

Funcionários da Eletronuclear decidem entrar em greve na terça-feira (8/4) contra demissões

 


Em assembleia realizada no final da tarde desta quinta-feira (03/4) funcionários da Eletronuclear decidiram entrar em greve na próxima terça-feira (8/4) por tempo indeterminado. O protesto é contra as medidas de austeridade tomadas pela direção da companhia, que iniciou anteontem (1/4) a demissão de 90 funcionários. 

Em Angra dos Reis, a assembleia reuniu dezenas de trabalhadores sob a liderança de entidades sindicais que representam a categoria. Eles também reivindicam a assinatura do acordo coletivo, que está no Tribunal Regional do Trabalho (TRT). Angra 1 será desligada sábado (5/4) para a troca de combustível (urânio enriquecido) e centenas de outras atividades. 

Para isto, cerca de 1.373 profissionais, entre eles, 238 estrangeiros, contratados por empresas nacionais e internacionais atuarão em conjunto aos técnicos da Eletronuclear. Enquanto isso, a direção da companhia tem reafirmado demissões e outras medidas de austeridade. Desta vez, a usina ficará fora do Sistema Interligado Nacional (SIN), 85 dias, quando deixará de gerar 640 Megawatts, o equivalente a 10% da energia elétrica consumida na cidade do Rio de Janeiro. Isto, quando opera com 100% de sua potência, sem os desligamentos registrados com frequência. Angra 1 está sendo preparada para durar mais 20 anos. (

FOTO- BLOG) – 

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Angra 1 será desligada sábado; chega a 1.373 contratados no Brasil e exterior para ações na usina; companhia mantém demissões de funcionários

 


Rio de Janeiro, 03 de abril de 2025


Cerca de 1.373 profissionais, entre eles, 238 estrangeiros, contratados por empresas nacionais e internacionais atuarão em conjunto aos técnicos da Eletronuclear na troca de combustível (urânio enriquecido) de Angra 1, que está sendo preparada para ser desligada neste sábado (5/4). Enquanto isso, a direção da companhia tem anunciado a demissão de pelo menos 90 funcionários, entre outras medidas de austeridade. Sindicatos devem promover manifestações nos próximos dias. O clima é tenso na central nuclear.

Desta vez, a usina ficará fora do Sistema Interligado Nacional (SIN), 85 dias, quando deixará de gerar 640 Megawatts, o equivalente a 10% da energia elétrica consumida na cidade do Rio de Janeiro. Isto, quando opera com 100% de sua potência, sem os desligamentos registrados com frequência. Angra 1 está sendo preparada para durar mais 20 anos.  A Eletrobras divulgou que injetará cerca de R$ 2,4 bilhões na extensão de Angra 1. 

A usina foi comprada da norte-americana Westinghouse na década de 70, passou anos em obras, com diversos atrasos, sendo inaugurada em 1985. Problemas diversos, atrasaram mais um ano e Angra 1 entrou em operação em 1986. 


Desligamentos por problemas técnicos, ações judiciais, entre outros, obrigaram a paralisação da usina muitas vezes; dando o apelido de “vagalume” à central nuclear. No mês passado, cerca de 90 toneladas de equipamentos norte-americanos, chegaram de Miami num Boeing 747 ao aeroporto de Cabo Frio, rumo à Central de Angra dos Reis. Apenas o transporte teria custado R$ 8 milhões. 

PRÓXIMA PARADA - 

Nesta 29ª parada da central atômica para a troca de combustível (urânio enriquecido a cerca de 4%), serão realizadas 5.700 tarefas. Entre as ações estão: manutenção dos transformadores principais de energia elétrica; atualizações tecnológicas nos sistemas de instrumentação; inspeções e melhorias em soldas das tubulações do circuito primário e do reator; e testes e manutenções preventivas nos componentes dos circuitos primário e secundário. 

No Programa de Extensão de Vida de Angra 1, visando a modernização da infraestrutura da unidade, estão as ações manutenção dos transformadores principais de energia elétrica; atualizações tecnológicas nos sistemas de instrumentação; inspeções e melhorias em soldas das tubulações do circuito primário e do reator; e testes e manutenções preventivas nos componentes dos circuitos primário e secundário. 

O urânio usado (irradiado)  - que poderá ser utilizado no futuro como plutônio- retirado do reator, em outra operação complexa, seguirá para a Unidade de Armazenamento a Seco (UAS), também com tecnologia norte-americana, que terá capacidade para abrigar os combustíveis irradiados de Angra 1 e Angra 2 por mais 25 anos.  Vale lembrar que as piscinas das duas usinas que armazenam rejeitos radioativos estarão esgotadas em 2028, segundo levantamento do Tribunal de Contas da União (TCU). A Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) ainda não decidiu onde será construído o depósito definitivo para esses e outros rejeitos de média e baixa atividade. O projeto é o CENTENA, mote de várias reportagens do BLOG.       

URÂNIO: DA BAHIA, RÚSSIA, RESENDE E ANGRA - 

O combustível da usina é produzido pela Indústria Nucleares do Brasil (INB). O urânio é extraído da mina que faz parte da Unidade de Concentrado, em Caetité, na Bahia. Lá, na URA (Unidade de Concentrado de urânio), passa para a forma de yellowcake. Como o país depende do produto na conversão para gás e enriquecimento, ele é enviado para o exterior (desta vez para a Rússia), retornando à Resende (RJ) onde é transformado em pastilhas até estar em condições de ser inserido em varetas de zircaloy. 

Em seguida, em varetas, o combustível segue para a Central Nuclear em Angra dos Reis, onde será introduzido no reator. É uma operação complexa, que envolve diversas etapas e investimentos no mínimo milionários. Toda a parte de produção do combustível, incluindo a conversão em gás e o enriquecimento, tem sido feito na Rússia; cabe à Eletronuclear pagar à INB. No passado, o contrato era feito com a Urenco (consórcio de empresas na Inglaterra, Holanda e Alemanha). 

Leia no BLOG: 

28/2/2025 – Eletrobras vai injetar R$ 2,4 bilhões na extensão de vida útil de Angra 1; e nada mais em Angra 3, além dos R$ 6,1 bi comprometidos via BNDES e CEF; 27/02/2025 - Angra 1: refém dos EUA aos 40 anos, mais dívidas por equipamentos chegando de Miami a Cabo Frio; 8/1/2025 – Usina nuclear Angra 1 foi reconectada ao Sistema Interligado Nacional (SIN), às 05h54 desta quarta-feira (08), após o desarme ocorrido ; 19/01/2025 - Em menos de 20 dias, a usina nuclear Angra 1 foi novamente desconectada do Sistema Interligado Nacional neste sábado (18/1), às 19h35. O fato ocorreu em função de um problema no sistema de óleo de selagem do Gerador Elétrico Principal; 26/01/2025 - Desligada desde o dia 18/1, a usina nuclear Angra 1 foi reconectada ao Sistema Interligado Nacional (SIN), neste sábado (25/1), após reparos e testes no sistema de óleo de selagem do Gerador Elétrico principal;  28/2/2025 - A Eletrobras, como acionista da Eletronuclear, apoiará o projeto de extensão da vida útil da usina de Angra 1, por mais 20 anos. Para isso, a Eletronuclear emitirá R$ 2,4 bilhões em debêntures conversíveis, com prazo de 10 anos e custo equivalente à NTN-B, que serão adquiridas pela Eletrobras, de acordo com andamento do projeto. 

(FOTOS – ELETRONUCLEAR - ABDAN - CNEN) – 

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quarta-feira, 2 de abril de 2025

Unidade de urânio na Bahia continua com espaços degradados desde o vendaval do ano passado

 


A planta de produção da Unidade de Concentração de Urânio (URA), em Caetité, na Bahia, paralisada em janeiro do ano passado, por conta de forte vendaval, permanece ainda hoje com vários problemas, como nas áreas de manutenção, caldeiraria e pátio. Nas áreas que deveriam estar protegidas, estão guindastes, motores, cobertos com telhas do cancerígeno e amianto, que continuam quebradas. Contatada pelo Blog, a Indústrias Nucleares do Brasil (INB), responsável pelo empreendimento, não se manifestou. 

Na mina, que faz parte da URA, trabalhadores extraem e separam o urânio das rochas. Na URA, é feito o beneficiamento, quando o urânio é transformado em yellowcake (pasta amarela). Em seguida, o segundo passo do ciclo do combustível. 

O processo consiste na transformação do yellowcake em hexafluoreto de urânio (UF6), um composto que tem como propriedade passar para o estado gasoso em baixas temperaturas. Feito no exterior. 

Na forma de gás é realizada a etapa de enriquecimento, o que o Brasil também ainda não faz em escala industrial. 


Embora domine todo o ciclo do combustível, o País ainda tão possui condições para a realização de todo o processo, como a transformação do urânio em forma de gás e o mais complexo: o enriquecimento na quantidade e teor (cerca de 4%) necessários para alimentar os reatores de Angra 1 e Angra 2. 

URÂNIO, DO PORTO DE SALVADOR À RÚSSIA - 

Por manter as usinas, com a dependência externa, a INB firmou contrato com a Internexco GmbH, do grupo Rosatom, da Rússia, para a exportação temporária para processamento no exterior de até 275 mil kg de concentrado de urânio (U3O8) produzidos na URA. 

Pelo contrato, serão realizadas as duas etapas de beneficiamento: conversão e enriquecimento. Os valores nunca são revelados. 

“O produto final beneficiado será devolvido, até dezembro de 2027, na forma de UF6 enriquecido a 4,25% e será utilizado na fabricação do combustível nuclear, que abastece a central nuclear de Angra dos Reis”.



A empresa está planejando a logística para operações terrestres no Brasil, a contratação do transporte marítimo internacional do porto de Salvador até a Rússia, e o licenciamento da exportação. Desde o início das entradas em operação das usinas, o Brasil depende da importação das duas etapas do combustível para os reatores. Quando o contratante devolve o urânio enriquecido, a última etapa é realizada no Fábrica de Elementos Combustíveis (FEC), em Resende (RJ), da INB. 

Lá, o urânio é colocado em pastilhas, em varetas de zircaroy e segue para Angra dos Reis. Todo o processo envolve investimentos milionários, para a manutenção dos reatores nucleares das usinas. 

(FOTOS – BLOG - URA) – 

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segunda-feira, 31 de março de 2025

Ataque cibernético suspende produção de radioisótopos (medicamentos para diagnóstico e tratamento contra o câncer) no IPEN


Um ataque cibernético na última sexta-feira (28/3) suspendeu a produção de diversos radiofármacos (medicamentos para o diagnóstico e tratamento contra o câncer) no Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN), da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN).  Segundo a CNEN, “o incidente cibernético resultou em tentativas de ataques em série à rede do Instituto”. 

Em quanto equipes de TI tentam encontrar as causas para reestabelecimento das operações, estão paralisadas a produção e o fornecimento dos seguintes radiofarmacos previstos para esta semana tiveram que ser suspensos:  Iodo-131; Lutécio-177;  Tálio-201;  Guan-IPEN-131 (MIBG); Gerador de tecnécio-99m e Citrato de gálio-67. 

“A segurança física, a radiológica e a nuclear não foram afetadas”, informou a CNEN. A Comissão informou que a “em função da necessidade de preservar a integridade do ambiente de TI foi necessário desconectar a rede do Instituto do ambiente externo, incluindo os acessos via Internet, até que todas as ações preventivas necessários sejam implementadas”. 

O IPEN é um dos mais importantes institutos de pesquisa da América do Sul, prestes a completar 70 anos. No governo do ex-presidente Bolsonaro, esteve no “olho do furacão”, diante do lobby no Congresso tentando passar a produção de radiofarmacos para a iniciativa privada. Os radioisótopos possibilitam que os médicos vejam o funcionamento de órgãos e tecidos vivos por meio de imagens como as tomografias, radiografias e cintilografias. 

O IPEN produz uma parte dos radioisótopos, mas gastava cerca de R$ 60 milhões (de acordo com a alta do dólar) importando o produto da África do Sul, Rússia, Holanda e Argentina. O Brasil importava 4% da produção mundial do radioisótopo molibdênio-99. O decaimento radioativo do molibdênio-99 produz o radioisótopo tecnécio-99m utilizado nos radiofármacos mais empregado na medicina nuclear. Até 2021, o IPEN gastava US$ 15 milhões por ano com essa importação, que gerava um faturamento de R$ 120 milhões, ano, recursos que seguiram direto para o caixa do governo. O que dará soberania ao país na produção é a entrada em operação do Reator Multipropósito Brasileiro (RMB), idealizado em 2009, que somente agora está saindo do papel. 

O RMB vai abastecer o IPEN e poderá exportar a sua produção. Cerca de dois milhões de procedimentos médicos são realizados, por ano, utilizando radioisótopos, em 440 clinicas cadastradas para realizar o trabalho semanalmente. Cerca de 440 mil pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e o restante pela rede privada. 

PRIVATIZAÇÃO - 

Por não ter o RMB, o Brasil precisa importar os insumos fabricados no IPEN. Enquanto isso, no ano de 2021, crescia o lobby para a privatização da produção, que cairia nas mãos da iniciativa privada nacional e internacional, elevando os preços do tratamento. 

Em dezembro de 2021, avançou a discussão sobre a Proposta de Emenda Constitucional (PEC- 517), na Câmara dos Deputados, propondo a flexibilização do monopólio da União na fabricação de radiofármacos. A PEC do senador Álvaro Dias (Podemos-PR) deu muita dor de cabeça, foi adiante, mas parece que caiu no esquecimento. Segundo fontes do setor, o setor privado não conseguiu se preparar para acabar com a iniciativa pública. 

Em agosto de 2022, por falta de verbas para a importação dos radioisótopos, o tratamento de milhares de pacientes foi interrompido gerando uma crise sem precedentes. Com a liberação dos recursos, o abastecimento se normalizou. Mas veio à tona com força o lobby para a quebra do monopólio da produção dos medicamentos. Foram relevantes as críticas à privatização da produção dos radioisótopos.  Em artigo para o blog, publicado em 16/12/21, o deputado Alexandre Padilha (PT/SP), escreveu: “Além da área da saúde, a proposta dá uma facada no projeto do reator multipropósito, que garante soberania de produção do insumo para que o Brasil não precise mais importar”. 

FOTOS: IPEN/CNEN - 

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segunda-feira, 24 de março de 2025

Neste mês, em homenagem às "Mulheres atômicas", por Olga Simbalista

 


Neste mês de homenagens às mulheres, a engenheira eletricista e nuclear, Olga Simbalista, relembra a importância de mulheres na energia nuclear, carinhosamente chamadas de “mulheres atômicas”, que entraram para a História com realizações das mais relevantes. Membro do Board of Directors of the American Nuclerar Society, com mestrado em energia nuclear, Olga Simbalista conta um pouco a sua trajetória e preconceitos que enfrentou ao tentar integrar a parte de universo tão masculino. Aqui, traça um breve histórico das “mulheres atômicas”. 

A engenheira nuclear revisita casos marcantes como o da professora de Sócrates, considerada “prostituta”, porque gostava de filosofar entre os homens; o "pouco caso" de acadêmicos a mulheres que se destacavam; o apoio de umas às outras; a rede de difamação e muito mais.  

O alemão Jonathan Tennenbaum, doutor em matemática pela Universidade da Califórnia e atualmente trabalhando em Berlim, como consultor independente em ciência e política internacional, e autor do livro “Energia Nuclear, Uma Tecnologia Feminina”, onde busquei minha grande inspiração para este trabalho, escreveu na introdução de seu Livro o seguinte texto: “Dentre as produções científicas e tecnológicas mais significativas da história da humanidade, não há nenhuma em que as mulheres tenham desempenhado um papel tão relevante e multifacetado, como no desenvolvimento da energia nuclear. Devemos agradecer o nascimento da energia nuclear a muitas corajosas mulheres atômicas que se decidiram por uma vida de pesquisas, a despeito de todos os preconceitos e resistências, em particular a três que foram responsáveis por descobertas que mudaram a face do Planeta como Marie Curie, Lise Meitner e Ida Noddack”. 

Mas o que tornou tão relevante, também, o trabalho das mulheres, neste setor, foi a quantidade delas, envolvidas, desde então, e até os dias de hoje, pois na história antiga tivemos algumas com trabalhos científicos de elevadas relevâncias, mas pouco difundidas, por serem, talvez, andorinhas únicas, não merecedoras de seus verões, como, por exemplo: 

Temistocléia, a mestra de Pitágoras, uma matemática, que lhe ensinou geometria, aritmética e princípios de ética. Sacerdotisa e filósofa, dedicou-se a sempre ensinar a quem quisesse aprender, com pedagogia e didática extremamente eficientes, nos templos gregos, entre sacerdotes e sacerdotisas, dedicados não apenas a cultos religiosos; o templo de Delphi, o mais conhecido como o centro da Terra, servia também como universidade. Pitágoras admirava muito o seu conhecimento e sabedoria, servindo tal como motivo para, mais tarde, aceitar mulheres na sua escola; Temistocléia é também mencionada por Aristoxeno e Diógenes Laestios. 

Aspásia de Mileto, outra pouco conhecida por aqueles que conhecem Sócrates, de quem foi professora... Chegou a admitir que a chamassem de “prostituta”, apenas pelo prazer de filosofar entre os homens... Platão a menciona como parte dos círculos intelectuais e políticos e especialistas em retórica, talvez devido a sua origem jônica. Consta, ainda, que teria contribuido para a redação da oração fúnebre de Péricles, em 430 AC. Tal Oração da Igualdade, inspirada na democracia, ecoaria, mais tarde, no discurso de Abraham Lincoln em Gettysburg, de John Kennedy em Berlim Ocidental e embasaria o movimento de emancipação feminina.

Mas falemos das "mulheres atômicas". As descobertas das mulheres nos campos das radiações e nuclear não teriam acontecido sem as pavimentações de três gênios anteriores:  Dimitri Mendeleiev, Wilhelm Röntgen e Henri  Becquerel, fundamentais para as evoluções da Química e da Física. Seus trabalhos não apenas revolucionaram a compreensão dos elementos químicos e da radiação, mas também abriram portas para futuras gerações de cientistas, incluindo essas mulheres que se tornaram figuras proeminentes nas ciências.  A interconexão entre suas descobertas exemplifica como a ciência avança através da colaboração e da construção sobre o conhecimento existente. 

DMITRI MENDELEIEV - 

Nasceu na cidade de Tobolsk, na Sibéria, e só conseguiu cursar o Instituto Pedagógico Central, formador de professores, em São Petesburgo, pois tanto as escolas de engenharia de lá, como as de Moscou não admitiam alunos de outras regiões do país. Em 1859, conseguiu uma verba do governo para estudar no exterior por dois anos, indo para  Paris e, no ano seguinte, para a Alemanha, onde transformou um pequeno apartamento em laboratório improvisado. Trabalhando sozinho, fez importantes descobertas sobre estruturas atômicasvalência e propriedades dos gases

Em 1869, enquanto escrevia seu livro de química inorgânica, Mendeleiev organizou os elementos na forma da tabela periódica atual para cada um dos 63 elementos conhecidos na época. A carta continha o símbolo do elemento, a massa atômica e as suas propriedades químicas e físicas. Colocando-a numa mesa, organizando-a em ordem crescente de massas atômicas e agrupando em elementos de propriedades semelhantes. Tinha então acabado de formar a tabela periódica. Esta tabela de Mendeleiev tinha vantagens sobre outras antes apresentadas, pois deixando espaços vazios, antevia a descoberta de três novos elementos, o que se confirmou, aumentando sua reputação e tornando-se base  da atual tabela periódica, que além de catalogar 118 elementos conhecidos, fornece inúmeras informações sobre o comportamento de cada um. 

WILHELM ROETINGEN - 

Nascido em 1845, em Munique, foi físico e engenheiro mecânico. Em 9 e novembro de 1895, produziu e detectou Radiação eletromagnética em ondas correspondentes aos atualmente chamados raios-x. Por esta descoberta recebeu seu primeiro Nobel de Física, em 1901. Em reconhecimento a seus feitos científicos, a União Internacional de Química Pura e Aplicada nomeou o elemento químico 111 de roentgênio. 

Gostava de mecânica, criando intrincados mecanismos, algo pelo qual manteve a prática na vida adulta. Em 1862, entrou na escola técnica de Utrecht, de onde foi injustamente expulso por ter feito uma caricatura de um de seus professores, o que na verdade fora obra de outro colega...

Ingressou no Instituto Politécnico de Zurique e passou a cursar engenharia mecânica, onde em 1869, obteve o título de PhD. Teve o primeiro trabalho publicado um ano depois. E em 1900, aceitou a cadeira de física na Universidade de Munique.

Em 1895, Wilhelm testava equipamentos desenvolvidos por seus colegas e, em novembro, colocando uma fina camada de alumínio para permitir que raios catódicos pudessem sair de um tubo e também uma cobertura de papelão para proteger o alumínio de danos causados pelo campo eletrostático. Ele sabia que a cobertura de papelão evitava que a luz escapasse, mas observou que os raios invisíveis causavam um efeito fluorescente em uma pequena tela de papelão pintada com platino cianeto de bário, quando colocado próximo à janela alumínio, percebendo depois que uma parede de vidro muito mais espessa do que a do tubo, também poderia causar esse efeito fluorescente. Ele então descobriu que o brilho vinha da tela de platino cianeto de bário que ele pretendia usar em seguida, sem saber que tipo de raio estaria por trás do brilho. 

No dia 8 de novembro, ele repetiu a experiência e continuou a detectar os raios, que apelidou de "raios-X" para o desconhecido. Em vários idiomas, os novos raios levariam seu nome. Posteriormente, enquanto investigava a capacidade de vários materiais de deter os raios, colocou um pequeno pedaço de chumbo e viu, então, a primeira imagem radiográfica do seu próprio esqueleto cintilando na tela de platino cianeto de bário. 

Tal efeito era usado com frequência no Laboratório dos Médicos do Livro de Thomas Mann, A Montanha Mágica e, na ocasião, eu considerava um horror, já que meus conhecimentos sobre radiação eram limitados. 

O artigo original "Sobre uma nova espécie de Raios" foi publicado 50 dias depois, em 28 de dezembro de 1895 e Wilhelm recebeu o título de Doutor Honorário em Medicina, da Universidade de Würzburgo sendo atualmente considerado o pai da Radiologia de Diagnóstico. Devido à sua descoberta, Röntgen foi laureado com o primeiro Nobel de Física, em 1901. 

O prêmio foi concedido "em reconhecimento aos extraordinários serviços que à descoberta dos notáveis raios que costumam levar seu nome". Röntgen doou a recompensa monetária à sua universidade, convicto de que a ciência deve estar ao serviço da humanidade e não do lucro. À semelhança da escola científica alemã da época, e, da mesma forma que Pierre Curie faria vários anos mais tarde, rejeitou registrar qualquer patente relacionada à sua descoberta. 

Henri Becquerel - 

Antoine-Henri Becquerel nasceu em Paris em 1852 e foi o físico francês responsável pelos estudos que levaram à descoberta do fenômeno da radioatividade

Estudou na  Escola Politécnica e foi engenheiro de pontes e calçadas, tendo ensinado física nesta mesma Escola e no Museu Nacional de História Natural. Continuou os trabalhos dos seus pai e avô, descobrindo em 1896 a radioatividade dos sais de urânio. espontaneamente, sem a necessidade de uma fonte externa de energia, desafiando as noções convencionais da física da época. 

Esse fenômeno, que ele denominou de "radioatividade", não só trouxe à luz novas características da matéria, mas também deu origem a um campo de pesquisa inteiramente novo.  A contribuição de Becquerel foi reconhecida internacionalmente, e foi fundamental para futuros estudos sobre elementos radioativos e suas interações. Essa nova área de pesquisa não apenas impactou a física, mas também a medicina e a química, levando ao desenvolvimento de tratamentos para câncer e a exploração de energia nuclear. 

Vamos nos transportar, agora, ao objeto principal do nosso texto, qual seja, as Mulheres Atômicas, começando com um breve resumo das três principais delas: 


Marie Curie, que foi a responsável pelo entendimento das diversas formas de radiação e da descoberta dois elementos radioativos, rádio e polônio, cujos espaços já existiam na tabela periódica dos elementos químicos de Mendeleiev e diversas outras descobertas em seu acanhado laboratório, resultando em dois Prêmios Nobel: de Física, juntamente com seu marido Pierre Curie e Henri Becquerel; e o de Química, desta feita sozinha, o que não houvera acontecido antes, muito menos por uma mulher; 



Lise Meitner, conhecida nos círculos dos iniciados como a Mãe da Bomba Atômica, por ser a grande descobridora da teoria da fissão nuclear, quando exilada da Alemanha Nazista, tendo enviado suas conclusões para o seu companheiro de pesquisas, Otto Hahn, que posteriormente recebeu o Prêmio Nobel por tal descoberta, já que Lise era judia. 

Ida Noddak e seu marido, que descobriram o elemento que seria o futuro Tecnício, criadora da “Função Universal da Matéria” e da hipótese de o núcleo do urânio ser um emissor de radiação de enorme duração, ou quase infinita; e 

Marie Sklodowska-Curie, frequentemente conhecida apenas como Marie Curie, nasceu em 7 de novembro de 1867, em Varsóvia, na Polônia, então parte do Império Russo. Filha de professores, Marie cresceu em um ambiente que valorizava a educação e a curiosidade científica e desde cedo, demonstrou uma aptidão extraordinária para os estudos, mas enfrentou enormes desafios por ser mulher em uma sociedade profundamente patriarcal, uma vez que as universidades polonesas eram inacessíveis a elas, o que a levou a se juntar a uma rede de ensino clandestina, conhecida como “Universidade Flutuante”.

Em busca de um futuro melhor e de educação superior, Marie mudou-se para Paris em 1891, ao se matricular na Universidade de Sorbonne e nos anos seguintes, se destacou em física e matemática, formando-se com distinção. Foi lá que conheceu Pierre Curie, seu futuro marido e colaborador. Adotando seu sobrenome, o casal se uniu não apenas pelo amor, mas pela paixão pela ciência e, juntos, realizaram pesquisas inovadoras no campo da radioatividade, termo cunhado por Marie.

Marie Curie fez descobertas fundamentais que alteraram para sempre o entendimento da física e da química. Em 1898, ela e Pierre descobriram dois novos elementos químicos: polônio (nomeado em homenagem à Polônia) e rádio. Esses elementos demonstraram propriedades radioativas excepcionais. Em 1903, Marie e Pierre, juntamente com Henri Becquerel, foram agraciados com o Prêmio Nobel de Física, reconhecimento que a impulsionou a se estabelecer como uma cientista respeitada, embora ainda enfrentasse o preconceito de gênero. 

Além de suas realizações científicas, Marie Curie estabeleceu um legado duradouro em termos de luta pela igualdade de gênero na ciência. Ela desafiou as normas da época, tornando-se a primeira mulher a lecionar na Sorbonne e a primeira mulher a ser aceita membro da Academia Francesa de Ciências. Seu trabalho não só abriu portas para futuras gerações de mulheres no campo científico, mas também desafiou estereótipos, mostrando que a determinação e a capacidade não têm gênero... Não é demais lembrar que, em 1907, o “Rei” da Ciência Britânica, Sir Willian Thompson, ou Lorde Kelvin, colocou em questão sua competência numa carta de leitores de uma revista, sugerindo que a identificação do elemento rádio era mais uma dedução que um trabalho científico. 

A vida pessoal de Marie Curie foi marcada por tragédias. Em 1906, Pierre morre em um acidente, e Marie enfrenta a dor da perda do companheiro e, ao mesmo tempo, parceiro nas pesquisas científicas. No esforço de manter seu legado, trabalha incansavelmente e assume a cátedra de Pierre na Sorbonne, para educar suas duas filhas, Irene e Eve, num exemplo de força e resiliência. 

Não bastasse, na ocasião, teve ainda que lutar contra uma campanha de difamação propagada pela sociedade e a mídia francesa, em particular os de extrema direita, como o L’Action Française, embalada pelo caso Dreyfuss e acusando-a de ser judia. A campanha citava um suposto caso amoroso entre ela e um amigo do casal, o físico Paul Lavigne, casado e pai de quatro filhos, e sugeria que seus trabalhos eram na verdade de seu marido e não do casal. Marie recebeu grande apoio de amigos e renomados cientistas do país e exterior, mas o caso foi esclarecido, por ocasião do divórcio do casal Lavigne, quando ficou claro que a esposa desejava que o marido abandonasse os trabalhos universitários e fosse trabalhar nas indústrias do sogro, muito mais rentáveis. 

Porém, pouco tempo depois deste incidente, seria anunciado o segundo Prêmio Nobel para Marie Curie, desta vez em Química e sozinha, fato inédito, principalmente para uma mulher. Marie adquirira um carcinoma e estava com a saúde bastante abalada, mas decidiu ir a Suécia receber o Prêmio, sendo muito homenageada e aplaudida. Ela continuou trabalhando em vários locais, mas principalmente no seu Laboratório, onde teve dezenas de alunas que se tornariam cientistas de destaque, em particular, sua filha Irene, junto com seu marido. 

Ela faleceu em 4 de julho de 1934, vítima de Câncer por radiação, sem ver, pouco depois, sua filha e o marido receberem o Prêmio Nobel, pela produção artificial de elementos radioativos. 

Outro grande trabalho de Marie antes de falecer foi durante a Primeira Guerra, em trabalhos de radiografias entre feridos candidatos a cirurgias, pela primeira vez em uma guerra! Ela faleceu em 4 de julho de 1934, em Passy, França, em decorrência de anemia aplástica, uma doença associada à sua exposição prolongada à radiação. Sua contribuição para a ciência e a humanidade é inegável; seus estudos não apenas pavimentaram o caminho para a compreensão da radioatividade, mas também abriram portas para pesquisas na área do tratamento do câncer. 

O legado de Marie Curie é testemunho de como a curiosidade, a paixão e o trabalho árduo podem levar a descobertas que transformam o mundo. Hoje, ela é lembrada não apenas como uma das cientistas mais influentes de todos os tempos, mas também como uma pioneira que desafiou as normas sociais, deixando um impacto duradouro em diversas áreas do conhecimento. Seu nome permaneceu eternamente associado aos avanços na ciência e à luta pela igualdade, inspirando futuras gerações a seguirem seus passos e a perseverar em suas buscas por conhecimento e verdade.

 Marie Curie, uma das maiores cientistas da História, senão a maior, teve influência significativa sobre várias mulheres na ciência, especialmente no campo da radioatividade e da física. 

Lise Meitner - 

Lise Meitner, nascida em 7 de novembro de 1878, em Viena, Áustria, é outra figura central na história da física nuclear e das poucas mulheres a se destacar em um campo dominado por homens durante os séculos XIX e XX. Também membro de família judia de classe média alta, queria estudar física, mas o pai só permitiu que seguisse nesta direção, depois que se formasse professora, de modo a garantir uma profissão que pudesse sustentá-la. Com uma formação acadêmica sólida e uma carreira marcada por inovações, Meitner começou seus estudos em Física e Matemática na Universidade de Viena, onde se tornou a segunda mulher a obter um doutorado em Física na Áustria, em 1906. 

Após concluir seus estudos, Meitner trabalhou com renomados físicos, incluindo Wilhelm Röntgen e Max Planck, em um tempo em que as oportunidades para mulheres na ciência eram extremamente limitadas. Em 1907, ela se mudou para Berlim, onde se uniu ao grupo de pesquisa de Otto Hahn, com quem formou uma colaboração que duraria por várias décadas. 

Neste período, quis frequentar um curso avançado em Berlim, mas o professor se negou a autorizar a presença feminina no ambiente circunspecto e machista. Meitner não se incomodou e assistiu todas as aulas escondida, no porão do laboratório, no escuro. 

Em suas memórias, escritas em 1961, ela se auto define assim: 

“Penso que todos os jovens imaginam suas vidas, de acordo com seus desejos; quando eu mesma refletia sobre isto, sempre chegava à conclusão de que a vida não precisa ser simples, desde que não fosse vazia. E esse desejo me foi concedido. As duas guerras mundiais se encarregaram de que minha vida não fosse simples e sim preenchida pelos envolvimentos maravilhosos que ocorreram na física e às grandes e amadas pessoas que encontrei com meu trabalho na física.” 

O trabalho mais significativo de Meitner e Hahn girou em torno da radioatividade e, quase que por acaso, da fissão nuclear. Em 1938, os dois cientistas realizaram experimentos que levaram à descoberta da fissão do urânio, um processo em que um núcleo atômico é dividido em núcleos menores, liberando uma grande quantidade de energia. 

A contribuição de Meitner foi crucial para a interpretação dos resultados experimentais. Ela foi a primeira a apresentar a explicação teórica desse fenômeno em uma carta em coautoria com o físico Otto Frisch, seu sobrinho, ambos exilados na Suécia, em 1938, devido à perseguição nazista a judeus. Na referida carta, ela fornece a Hahn toda a base teórica para a compreensão do processo de fissão.

Na Suécia, continuou seus estudos e pesquisas, mas, durante este período, ela se recusou a participar do desenvolvimento de armas nucleares, o que demonstra seu compromisso ético com a ciência. 

Após a Segunda Guerra Mundial, as contribuições de Meitner começaram a ser reconhecidas oficialmente. Em 1949, o elemento químico de número 109 foi nomeado "meitnério" em sua homenagem, em reconhecimento à sua importante, pesquisa em física nuclear. 

Mesmo que não tenha recebido o Prêmio Nobel, dado a Otto Hahn, fato frequentemente destacado em discussões sobre a injustiça de sua época, Lise Meitner deixou uma marca indelével na ciência. Ela não apenas ajudou a desvendar os segredos da fissão nuclear, mas também abriu caminho para futuras gerações de cientistas, especialmente mulheres, provando que a determinação e o talento podem superar barreiras sociais e históricas, sendo exemplo poderoso da interseção entre ciência, ética e o papel das mulheres na pesquisa científica Com suas contribuições, Meitner não apenas avançou o entendimento da física nuclear, mas se tornou um símbolo de resistência e inovação em um mundo que frequentemente subestimava as mulheres. 

Ida Noddack - 


N
ascida em 1896, na Alemanha foi renomada química e física alemã, conhecida por suas importantes contribuições à química nuclear e à física. Nascida também numa época em que a ciência era dominada por homens, Noddack quebrou barreiras e deixou legado significativo por meio de suas pesquisas e descobertas. 

Ida Noddack nasceu em uma família de agricultores e estudou na Universidade Técnica de Berlim, onde obteve doutorado em 1921, tornando-se uma das primeiras mulheres a alcançar esse título na área das ciências exatas. Durante seus anos de estudo, desenvolveu paixão pela química, particularmente pela química dos elementos e suas estruturas. Após completar seu doutorado, começou a trabalhar no campo da pesquisa, colaborando com importantes cientistas da época. 

Uma das principais contribuições de Noddack para a ciência foi a descoberta do elemento químico rênio (Re) em 1925, ao lado de seu marido, Walter Noddack, e de Otto Berg. O rênio é um metal de transição raro, utilizado em várias aplicações tecnológicas, incluindo catalisadores e ligas de tungstênio. Essa descoberta foi notável, pois o rênio é um dos poucos elementos químicos descobertos no século XX. 

Além de suas pesquisas sobre o rênio, Ida Noddack foi pioneira em estudos sobre fissão nuclear. Em 1934, ela publicou um artigo teórico que antecipava a possibilidade da fissão do núcleo atômico, muito antes do experimento prático que levaria à descoberta da fissão nuclear por Meitner em 1938. Noddack argumentou que a fragmentação do núcleo de um átomo poderia ocorrer sob determinadas condições, uma idéia que se tornaria fundamental para o desenvolvimento da energia nuclear. No entanto, devido ao contexto sócio-político da época e ao seu gênero, suas ideias não receberam reconhecimento adequado. 

Apesar de seus significativos avanços científicos, Ida Noddack enfrentou desafios como mulher em uma sociedade predominantemente masculina. Ela foi muitas vezes subestimada e não recebeu o reconhecimento que merecia durante sua vida. Em sua obra, Noddack abordou não apenas questões químicas e físicas, mas também escreveu sobre a importância de um maior envolvimento feminino nas ciências, defendendo a igualdade de oportunidades para as mulheres na pesquisa. 

Após sua morte, o trabalho de Noddack começou a receber mais atenção, e suas contribuições à química nuclear foram reavaliadas e reconhecidas. Em 2008, seu nome foi incluído na Galeria de Mulheres na Ciência – uma celebração às mulheres que fizeram contribuições significativas em diversas áreas científicas. 

Irene Curie - 

Outra cientista influenciada por Marie Curie foi Irene, sua filha mais velha com Pierre, que continuou o legado dos pais sobre radioatividade. Ela e seu marido, Frédéric Joliot, receberam o Prêmio Nobel de Química em 1935 por suas descobertas sobre a produção de elementos radioativos sintéticos. O trabalho de Irene não apenas ampliou os conhecimentos sobre as propriedades dos isótopos, mas também consolidou o papel das mulheres na ciência, mostrando que o gênero não deve ser barreira para a excelência nas ciências exatas. Entretanto, sua mãe não estava mais viva para colher mais este fruto, talvez o maior de suas plantações. 

Chien-Shiung WU. 

Devemos mencionar ainda a contribuição da chinesa Chien-Shiung Wu, física experimental que, embora não tivesse sido diretamente aluna de Curie, foi inspirada pelo seu trabalho. Wu é conhecida por sua pesquisa sobre os decaimentos beta e pela sua famosa experiência, que desafiou a simetria da conservação da paridade em reações subatômicas, sendo fundamental para o desenvolvimento da teoria da interação fraca e solidificou a presença das mulheres em campos científicos altamente técnicos, iluminando o caminho que pioneiras como Curie haviam aberto. 

Marguerite Perey

Outra figura importante, foi uma física francesa que se destacou por suas contribuições à pesquisa sobre radioatividade e, em 1946, isolou o elemento químico Frâncio, o último elemento da série dos elementos alcalinos. Sua descoberta foi um marco importante na química nuclear, expandindo nosso conhecimento sobre elementos radioativos. Perey também se destacou como uma fiel amiga de Marie, oferecendo-lhe abrigo em sua residência durante a campanha francesa de difamação. Foi uma das primeiras mulheres a se tornar membro da Academia de Ciências da França, abrindo caminho para a inclusão feminina na ciência. 

Várias outras se destacaram e vamos citar algumas, a seguir, para não nos alongarmos demais. 

Harriet Brooks, física canadense, pioneira em estudos sobre a radioatividade no início do século XX, com importantes contribuições para a compreensão da natureza das partículas radioativas. Foi a primeira a sugerir que os átomos podiam perder parte de sua massa durante o processo de radioatividade. 

Fany Gates também fez parte desse contexto, realizando pesquisas fundamentais em radioatividade sobre espectroscopia e a natureza dos raios alfa. 

Ellen Gleditch, química e física britânica, contribuiu especialmente para os estudos de radioatividade e suas aplicações. 

Winifred Molla Beilby, cientista notável, reconhecida por suas contribuições no campo da química e bioquímica. Ela se destacou por suas pesquisas sobre a composição e a funcionalidade de enzimas, o que levou a avanços significativos na compreensão dos processos metabólicos. Além de suas publicações científicas, Beilby foi forte defensora da inclusão das mulheres na ciência, contribuindo para a formação de redes de apoio e para a promoção da educação científica entre jovens garotas.


May Sibil Leslie, por sua vez, fez importantes contribuições para a genética, especialmente na área de genética de populações e evolução. Seu trabalho ajudou a estabelecer fundamentos teóricos que permitiram uma melhor compreensão da variabilidade genética nas populações, influenciando estudos em ecologia e conservação. 

Ruth Piret destacou-se em microbiologia; suas investigações sobre microrganismos propiciaram avanços no desenvolvimento de técnicas de bioprocessos, como a fermentação, com aplicações importantes na indústria alimentícia e farmacêutica.

 Maria Goeppert. Também conhecida como a mais bela moça de Goetting e que teve contribuição importante no Projeto Manhatan. Como podemos concluir, a revolução do Átomo ocorre ao mesmo tempo em que há maior avanço feminino nas ciências naturais. A história dessas valorosas pioneiras é um drama cheio de ensões e surpresas e tendo como pano de fundo duas guerras mundiais, que levaram ao desenvolvimento de armas terríveis e que marcaram a humanidade para sempre. 

OLGA SIMBALISTA - A PARTICIPAÇÃO DAS MULHERES - 

A participação de mulheres na energia nuclear teve, repito, a influência maior de Marie Curie. Dezenas de pesquisadoras de todo o mundo e, principalmente, da França, faziam filas para frequentar o seu acanhado laboratório.

Após o fim da segunda Guerra Mundial, com a criação do Átomos para a Paz, diversos institutos de pesquisas no setor nuclear abriram espaço para a participação de mulheres em todo o Ocidente, em particular nos EUA e no Brasil, onde a participação das mulheres, atualmente, é superior a 30%. 

Em 1970, no auge do Milagre Econômico Brasileiro, conclui minha graduação em engenharia elétrica Escola de Engenharia da Universidade Federal de Minas Gerais e as principais empresas iam às universidades fazer concursos para contratar os melhores formandos e qual não foi minha surpresa diante dos seguintes fatos ocorridos então: 

Uma grande multinacional da área de informática, após realizar o concurso, com o comparecimento das três mulheres formandas, o gerente de recursos humanos trouxe o resultado, frustrando a todas nós com a informação de que a empresa tinha uma política de contratar apenas uma mulher por ano. Como no ano anterior, os dois primeiros colocados eram do sexo feminino, engoliram duas vagas, uma delas a do nosso ano; portanto, não sobrara nenhuma; uma indústria de bebidas de grande porte alegou, singelamente, não dispor de sanitário feminino para não contratar mulheres; e a grande empresa de eletricidade local após o concurso, na fase de entrevistas dos aprovados, entrevistando uma das três colegas do sexo feminino que havia sido bem qualificada, perguntou: 

Você sabe que esta vaga requer muitas viagens em locais diversas? Sim, respondeu ela, mas para mim não há problema. Sabia que tais viagens serão na maioria na companhia de um engenheiro homem? Pois para mim também não representa nenhum problema. Mas sabe que este colega pode ser casado e sua esposa não gostar? 

Assim foram aqueles anos dourados! Mas foi então que soube que um Instituto de Pesquisas federal iria realizar um concurso para o mestrado em Ciências e Técnicas Nucleares, tema que eu desconhecia, mas exigindo apenas conhecimentos de física, cálculo e língua estrangeira, sem entrevista. 

Fiz, passei e entrei para o Instituto de Pesquisas Radioativas – IPR, subordinado à UFMG e à CNEN, defendi minha tese em tempo recorde, fui contratada e as portas do mundo se abriram para mim. Entretanto, o então Diretor de Pesquisas e Desenvolvimento, em uma de suas raras visitas ao nosso Instituto, pois preferia se localizar perto do poder decisório, ao ser informado por meu orientador sobre meu feito, sequer respondeu ao meu cumprimento e disse para o meu orientador o seguinte: 

“É! Mulheres são muito bonitinhas, mas veja se me contrata uns barbados”, virou as costas e saiu. 

O fato me deixou extremamente constrangida, porém, o mais IMPORTANTE é que me tornei uma MULHER ATÔMICA, título que ele não me tirou. 

PERFIL - 

Graduada em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal de Minas Gerais, com mestrado em Engenharia Nuclear (UFMG/CNEN), tem especialização em Termo hidráulica de Reatores na Gesellshaft für Kerntechnik im Shifbaum und Shiffhart - GKSS, na Alemanha. Ocupou a chefia do Laboratório de Termo Hidráulica do Instituto de Pesquisas Radioativas-IPR, além de assessorias e coordenação em empresas do setor como Nuclebras, Eletronuclear e Furnas. 

Nas áreas de ensino e pesquisa foi membro do Corpo Docente dos Cursos de Mestrado em Ciências e Técnicas Nucleares (UFMG/CNEN), em Engenharia Térmica (EEUFMG) e do MBA em Energia da Gama Filho, com vários trabalhos publicados, no país e no exterior, tendo orientado oito teses. Presidiu a Seção Latino Americana da American Nuclear Society, e o Conselho de Energia da Associação e do Conselho Empresarial de Meio Ambiente da Associação Comercial do Rio de Janeiro – ACRJ. 

Atualmente é membro do Conselho Diretor da ACRJ, e do Conselho do Clube de Engenharia. No contexto das Nações Unidas, foi representante da América Latina no Consultancy Group for Nuclear Forecasts, da Agência Internacional de Energia Atômica – AIEA, em Viena, de 2002 a 2011 e consultora da CEPAL, na área de energia. Atuou nos Conselhos de Administração da CEAL – Companhia de Eletricidade de Alagoas e do CEPEL – Centro de Estudos e Pesquisas da Eletricidade, do Projeto de Reestruturação do Setor Elétrico Brasileiro - RESEB/MME e no Conselho Diretor do Clube de Engenharia. 

O curriculum de Olga Simbalista é extenso e abrangente, raridade entre as mulheres brasileiras da energia nuclear. Ela também atuou no processo de desenvolvimento social, econômico e político da mulher teve início em 1993, no Conselho da Seção Rio de Janeiro do Banco da Mulher, sendo, posteriormente, no âmbito da Rede Nacional do Banco da Mulher, membro do Conselho Diretor, Diretora, Vice-Presidente e Presidente. Recebeu doze prêmios com relação à promoção dos direitos da mulher e, em 2014, foi eleita Personalidade do Ano 2014 pela WEB da ONU. 

Foi da presidente da Associação Brasileira de Energia Nuclear (ABEN) no período de 2016 a 2018. Nesta posição, recebeu, por dois anos consecutivos, o Prêmio Full Energy de Personalidade do ano, em 2017, e, em 2018, como representante de entidade. 

(FOTOS – ACERVO PESSOAL SIMBALISTA – E ACERVOS REVISTA GALILEU) – 

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