Para quebrar resistências e abrir caminhos visando alavancar seus projetos de exploração de minerais críticos, como as preciosas terras raras, mineradoras australianas fincadas desde 2024 nos municípios mineiros de Caldas e Poços de Caldas não medem esforços para adoçar vários segmentos da sociedade: da promoção de editais culturais à reparação de estrada, por exemplo. Como “não existe almoço grátis”, conforme a frase popularizada pelo economista Milton Friedman, neste caso, nem todos os mineiros “botam fé” em tamanha bondade. É o que pensam as ativistas ambientais Nara Gomes, com mestrado em Ciência Política, e Helena Sasseron, formada em Agricultura Biodinâmica pela Biodynamic Association USA.
As guardiãs Nara e Helena, nas fotos, respectivamente, conversaram com o Blog sobre as “doações” das empresas Viridis e Meteoric, e foram taxativas ao combater as atividades que, para elas, vão gerar danos irreparáveis ao meio ambiente e a população.
A Meteoric Resources e o Governo de Minas Gerais anunciaram um acordo para viabilizar o investimento de R$ 60 milhões na pavimentação de 23 quilômetros da estrada que liga os municípios de Caldas e Andradas, no Sul de Minas Gerais. O projeto foi apresentado oficialmente na quarta-feira (26/8), durante a Exposibram, em Belo Horizonte. Entre as comunidades que devem ser beneficiadas estão Pocinhos do Rio Verde, Bom Retiro, Bocaina e Lagoa, anunciaram. Em Caldas, segundo a Meteoric, a estrada é utilizada para o transporte de uvas, gado de corte e eucalipto destinado à indústria, além do deslocamento de trabalhadores das Indústrias Nucleares do Brasil (INB), empresa responsável há décadas pelo armazenamento de toneladas de materiais radioativos. A Meteoric prevê iniciar a produção de terras raras em 2028.
“Estamos em um momento de maior conscientização nas nossas cidades sobre os impactos do projeto Colossus, da Viridis, e sobre a realidade da diferença entre o que as empresas vão ganhar e o que a população tem a perder. Consigo afirmar que a opinião pública em sua grande maioria é contra o projeto Colossus em Poços. Vemos isso nas visitas de porta em porta, nas reuniões que organizamos e nas redes sociais nas mais variadas páginas”, comentou Nara Gomes. E acrescentou: “No entanto, o município continua ignorando a população, fingindo que não pode fazer nada, uma vez que o processo de licenciamento é estadual, e ao mesmo tempo firmando parcerias com a empresa mineradora”.
OFENSIVA DE OCUPAÇÃO -
A mineradora, afirmou Nara, está nesta ofensiva de ocupação de todos os espaços sociais, patrocinando eventos de cultura, como este firmado em julho, no valor individual de apenas R$ 28 mil, atividades em escolas e projetos variados. “Estão querendo comprar a boa vontade da população. A intensificação dessa atuação aponta, de certa forma, para o avanço da opinião pública negativa”, comentou Nara, que também integra o Diretório Estadual da Unidade Popular pelo Socialismo e os coletivos Cacique Merong e Terra Viva Água Rara.
A luta na região começou no final de 2024, em Caldas, quando as ativistas identificaram o projeto previsto para Poços. A publicação do Relatório de Impacto Ambiental (EIA-RIMA) do Projeto Colossus (Viridis) catalisou uma movimentação de pessoas empenhadas em estudar e analisar o documento para entender os impactos previstos para a cidade e a região. “Assim surgiu o coletivo Terra Viva Água Rara, criado inicialmente com essa tarefa analítica, e uma vez que ficou clara a natureza destrutiva do projeto Colossus, o coletivo passou também a entender a necessidade de atuar para informar a população sobre o projeto e mobilizar as pessoas em sua oposição”, contou Nara.
“Desde cedo ficou claro que a grande maioria da população não estava sabendo do projeto e seus impactos. Em 2025 organizamos (tanto pelo Terra Viva quanto pela Unidade Popular) panfletagens informativas no centro da cidade e nos bairros da Zona Sul principalmente. Entre as panfletagens fizemos mobilizações para a participação da população nas audiências públicas. A audiência realizada pela câmara dos vereadores teve uma boa participação popular, mas o espaço é menor”, relatou Nara.
“FOI UMA FARSA”.
Segundo ela, na audiência oficial, parte das exigências do processo de licenciamento, “foi uma farsa”. Motivo, explicou: “Foi um evento totalmente dominado pela empresa e com baixa participação popular. Apesar das nossas mobilizações, uma parte muito pequena da população estava sequer sabendo do projeto de mineração”.
E não parou aí, disse ela. Pelo contrário: “Organizamos um abaixo assinado demandando do prefeito a revogação da certidão de uso e ocupação do solo, único documento em que o município incide diretamente no processo de licenciamento. O abaixo assinado pedia sua revogação tendo em vista a avaliação de prejuízos para a cidade que adviriam da mineração no projeto Colossus. A coleta de assinaturas foi uma tarefa coletiva, encabeçada pelo Terra Viva Água Rara e a Unidade Popular”, contou.
MORADORES PERCEBEM CONTRADIÇÕES -
Para dar continuidade ao movimento, ela disse que o coletivo criou outra frente, buscando trabalhar na mobilização local direta, organizando reuniões de bairro, iniciando a construção do grupo de moradores Rara é a Vida.
“Moradores da zona sul que tinham participado de uma atividade promovida pela empresa Viridis e perceberam as contradições no que a empresa apresentava, procuraram o coletivo para tirar dúvidas. A partir das informações que levamos, surgiu esse novo coletivo de moradores da zona sul, que tem atuado regularmente e continua crescendo, agora expandindo sua atuação para outras regiões da cidade. A tarefa de levar informações para a população continua sendo prioridade. Engajar a população na atuação contra o projeto é a outra tarefa essencial”, informou a ativista.
Com o objetivo de impedir ou dificultar as ações das empresas australianas, ela disse que este ano foi organizada uma marcha contra a mineração de terras raras na nossa região, no dia 8 de maio, logo antes de uma nova audiência pública convocada em Poços pela deputada Bella Gonçalves (PT-MG). A marcha, lembrou, fez o trajeto do bairro Parque das Nações, Conjunto Habitacional, que será “um dos mais impactados pelo projeto”, até o Instituto Federal, onde foi a audiência.
Nara reiterou que, como resultado da pressão popular e dessa audiência, conseguimos visita de uma comitiva interministerial, do qual participaram nove ministérios e outros órgãos do governo federal. Nos dias 24 e 25 de julho, a comitiva fez reunião de escuta com os movimentos sociais e grupos de moradores em Poços de Caldas, Caldas e Andradas. “Em Andradas, a mobilização contra a mineração tem um caráter mais econômico, uma vez que a mineração terá efeitos principalmente sobre os pequenos produtores daquela cidade (que são muitos)”, lembrou. O resultado das ações da comitiva ainda não foi divulgado.
DESASTRE EM DIVERSOS ASPECTOS -
A ativista ambiental Helena Sasseron, membro da CARACOL, Organização da Sociedade Civil em Andradas, município mineiro, relatou ao Blog no final de 2025, seu sentimento de tristeza quanto às decisões do Conselho Estadual de Política Ambiental (Copam) de Minas Gerais que aprovou ontem (19/12) as licenças prévias dos projetos de mineração de terras raras das duas empresas australianas (LEIA A ENTREVISTA).
Hoje, ela acrescentou que a sua principal preocupação com a exploração são os impactos - ou desastres - socioambientais: contaminação da água, do ar, destruição do ecossistema, das paisagens, de todos estes elementos de extrema importância para as principais atividades do município, que em sua maioria estão ligadas à agricultura familiar e ao turismo sustentável, e que dependem disso para que sigam existindo.
“Por isso digo impactos/desastres socioambientais, e não apenas ambientais: tudo o que impacta o nosso meio ambiente irá impactar direta ou indiretamente as principais atividades socioeconômicas do município. Junto com estes impactos virá também o apagamento da nossa memória, da nossa tradição. Será um desastre em diversos aspectos: ambientais, sociais e econômicos”.
RESISTÊNCIA -
Ela afirma que hoje Andradas tem uma grande resistência com relação à mineração: “temos um histórico e, junto com ele, uma fama de sermos contra as atividades mineradoras. Nosso maior foco neste momento é informar a população, pois a desinformação se torna uma grande oportunidade para que as empresas mineradoras criem as suas verdades e iludam a população”. Em termos institucionais, informou que a prefeitura do município de Andradas está trabalhando num estudo de zoneamento ambiental para entender quais áreas tem vocação para atividades de alto grau poluidor (como a mineração) e quais áreas precisam ser protegidas e, portanto, não têm vocação para atividades poluidoras(mananciais, nascentes, zonas de recarga hídrica, matas ou florestas, patrimônios culturais, comunidades tradicionais, áreas de cultivo, áreas turísticas, marcos do município, por exemplo.
TRISTEZA RELATADA EM DEZEMBRO -
“Definir o sentimento perante à forma como foram votados hoje (DEZEMBRO DE 2025) os pareceres únicos dos Projetos Colossus (Viridis) e Caldeira (Meteoric), aprovando a Licença Prévia dos empreendimentos na reunião do COPAM, é muito difícil. Ele habita entre a tristeza, a raiva, a revolta e a incompreensão do que aconteceu. Mesmo com todas as informações e questionamentos trazidos por pessoas com vasto conhecimento da área de mineração, as inseguranças e denúncias faladas por representantes da sociedade civil, os órgãos responsáveis por defender o meio ambiente e escutar a população, simplesmente ignoraram as nossas vozes, as vozes de vereadores e Câmaras Municipais, e o MPF, e disseram sim às empresas”, conforme o Blog divulgou na ocasião.
Os estudos hídricos ficaram para a fase seguinte, de licenciamento ambiental, mas mesmo assim as Licenças Prévias foram aprovadas - e se não tiver água suficiente para o volume absurdo que eles dizem precisar, eles voltarão atrás? Os órgãos responsáveis irão paralisar o projeto? Ou seguirão secando nascentes e o nosso ponto de recarga hídrica até que o projeto termine, e a gente fique sem água e com os rejeitos, como as mineradoras costumam fazer?
Existem lacunas nos EIA e nos pareceres dos projetos, e existe uma pressa que nunca foi explicada para que isso seja aprovado antes de que haja uma legislação específica para terras raras, hoje inexistente no nosso país. Além disso, todo o estudo dos impactos ambientais parece desconsiderar o fato de que habitamos um planeta vivo, em que a natureza e os ecossistemas estão vivos e em constante transformação e movimento. Parece ignorar que as águas se movem, encontram o seu caminho, não são inertes e não respeitam fronteiras e divisas inventadas pelo ser humano. Me questiono como viverão as próximas gerações... que água irão beber? em que solo irão cultivar? E os nossos agricultores, como seguirão com as suas culturas, de onde tiram o seu sustento e alimentam a população, como ficam? Como ficará o nosso ar? Nós também não somos inertes, e não é uma questão de ser contra ou a favor dos empreendimentos, é apenas uma questão de querer que todas as possibilidades sejam levantadas, investigadas, e devidamente respondidas antes que se aprove qualquer projeto. As empresas e os órgãos têm pressa, nós, sociedade civil, temos precaução.”
METEORIC NA ESTRADA -
A empresa australiana Meteoric participa de obras de infraestrutura em Minas Gerais, com investimentos de R$ 60 milhões para pavimentar trecho de 23 quilômetros entre Caldas e Andradas passando por Pocinhos do Rio Verde e “deverá beneficiar comunidades rurais, produtores e trabalhadores dos dois municípios”, anunciou mineradora, na Exposibram, em Belo Horizonte. A iniciativa reúne a empresa australiana, a Agência de Promoção de Investimento de Minas Gerais (Invest Minas), as Secretarias de Estado de Fazenda (SEF), de Infraestrutura, Mobilidade e Parcerias (Seinfra) e de Desenvolvimento Econômico (Sede-MG), o Departamento de Estradas de Rodagem de Minas Gerais (DER-MG) e a Prefeitura de Caldas.
O anúncio ocorreu no estande da Embaixada da Austrália na Exposibram, considerada o maior evento de mineração da América Latina, e contou com a participação de representantes das instituições envolvidas. A empresa afirmou que a pavimentação deverá contribuir para o desenvolvimento econômico dos municípios, com impactos nos setores de turismo, agronegócio e indústria mineral. “A melhoria da infraestrutura também deve facilitar o acesso das comunidades rurais a serviços públicos”.
Segundo a Meteoric, em Caldas, a estrada é utilizada para o transporte de uvas, gado de corte e eucalipto destinado à indústria, além do deslocamento de trabalhadores das Indústrias Nucleares do Brasil (INB). Entre as comunidades que devem ser beneficiadas estão Pocinhos do Rio Verde, Bom Retiro, Bocaina e Lagoa. Já em Andradas, a rota atende os bairros rurais Gonçalves, Capão do Mel, Tanques, Pitangueiras e Teixeiras, região que concentra produção de flores, tomate e uvas, além da criação de gado. A estrada também é utilizada pelos dois municípios para acesso ao aterro sanitário. Conforme divulgou a Meteoric, “a parceria integra o compromisso da empresa de deixar um legado positivo associado ao Projeto Caldeira, empreendimento voltado à produção de terras-raras na região”.
A secretária de Estado de Desenvolvimento Econômico, Mila Costa, agradeceu a confiança da Meteoric e da Embaixada da Austrália no potencial de Minas Gerais. Ela também destacou que os investimentos relacionados à implantação do empreendimento da mineradora na região estão estimados em mais de R$ 1 bilhão. O prefeito de Caldas, Airton Goulart, afirmou que a pavimentação deverá reduzir em cerca de 40 minutos o tempo de deslocamento até o Aeroporto Internacional de Viracopos, em Campinas (SP). “É uma estrada que vai trazer progresso para o nosso município”, declarou. A embaixadora da Austrália no Brasil, Sophie Davies, também destacou a iniciativa. “Esse projeto mostra o compromisso que as empresas australianas têm com a comunidade e o investimento social que é tão importante para nós e para mostrar os padrões de alto nível dessas empresas representadas hoje pela Meteoric”, afirmou.
O Projeto Caldeira prevê a exploração de terras-raras na região, e o estudo de viabilidade definitivo (DFS, na sigla em inglês) divulgado pela empresa neste mês estima investimento total de US$ 498,4 milhões. A mineradora australiana já obteve a licença prévia para o empreendimento e aguarda a licença de instalação (LI), que autoriza o início das obras, conforme informação oficial da empresa. A expectativa da empresa é que a licença de instalação seja concedida no último trimestre de 2026. Com isso, a previsão é que a produção do Projeto Caldeira tenha início no segundo semestre de 2028.
NOTA DO BLOG – Segundo a literatura disponível, a frase "não existe almoço grátis" foi popularizada pelo economista Milton Friedman, que inclusive usou o lema como título de um de seus livros em 1975. No entanto, a autoria original da expressão exata em inglês ("there ain't no such thing as a free lunch") é frequentemente atribuída ao escritor de ficção científica Robert Heinlein, que a incluiu em sua obra de 1966 The Moon Is a Harsh Mistress (Revolta na Lua).
NOTA DA VIRIDIS – Lançamento dos editais: “Desde o início do Projeto Colossus, a Viridis tem como premissa promover a qualidade de vida nos territórios onde atua, por meio de um programa de diálogo e investimento social privado. Entre essas iniciativas está o Edital Viridis + Comunidades, que vai investir cerca de R$ 340 mil em 12 projetos esportivos e culturais de instituições e empreendedores locais. Entre eles, está a instalação de uma academia ao ar livre em uma instituição com mais de 100 anos de atuação em Poços de Caldas”.
(FOTOS – NARA GOMES E HELENA SASSERON – ACERVO PESSOAL. ESTRADA – METEORIC) –
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